Lettres de Paris #9


‘Miraaaa mi amor la torre es tan chulaaaaa!!’

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Não há melhor maneira de ver Paris que de barco. Sempre que venho cá, ando de barco no Sena e de todas as vezes é mesmo, sem exagero, como se fosse a primeira. Sempre a mesma maravilha. Paris a partir da água fica ainda mais bonita. E hoje está um dia glorioso, um céu azul quase sem nuvens e um sol intenso que desenha sombras ao longo das paredes de todos os cais do Sena.
De maneira que desta vez, não sendo turista, fui ser turista e apanhei o BateauBus no Quai de Montebello. Allez hop. A bordo. Passei a tarde inteira no barco, saí aqui e ali, demorei-me mais (e arrependi-me) na Torre Eiffel, a que não subi desta vez. Estavam multidões à volta dela e sinceramente, preferi observá-la de baixo para cima, nos Champs de Mars e no Quai Branly, nos primeiros admirando também os patos, completamente indiferentes aos turistas. A caminho – cruzando todas as pontes sobre o Sena, tão bonitas, tão encadeadas umas nas outras – uma menina dizia para a sua avó, ‘mais la tour, elle est minuscule!!’. Vista dali era, de facto minúscula. Mas a criança, e todos no barco, à medida que nos aproximávamos da torre, foi ficando silenciosa, entre o maravilhado e o espantado. O rendilhado da enorme torre impõe a maravilha, o espanto e até muito respeito por quem foi capaz de idealizar e de construir uma torre ‘minuscule’ como esta.

A torre Eiffel é feita de renda de bilros. De ferro, 324 metros de altura, e de renda de bilros. É delicada como renda e é, não podemos dizer o contrário, belíssima e imponente e marca a cidade inteira e os passeios turísticos todos, como o símbolo mais importante. Paris tem muitos símbolos, é verdade. Mas nada substitui a torre Eiffel no nosso imaginário e na paisagem. Ando por ali a admirar o rendilhado da torre, a descobrir os elevadores – amarelo e laranja – no meio do complexo entrelaçado, a ver os japoneses tirarem milhares de fotografias (bem sei que não posso falar muito…) e depois volto ao cais e ao BateauBus. A fila é imensa e esperamos um bocado grande pelo próximo barco. Começo a enervar-me por que tenho fome e às seis horas quero ir ao Sunside-Sunset ver Mathilde, uma cantora de jazz francesa que, hoje e gratuitamente, dá um concerto recordando Edith Piaf. O barco aparece, vem cheio. Desisto da paisagem em nome do conforto de um banco qualquer, o primeiro que me aparece. Saio, longos minutos depois novamente no Quai Montebello e toca a andar. São seis menos um quarto e tenho de andar ainda um bocado.
Atravesso a Pont au Double, tão depressa quanto consigo, passo em frente à Notre Dame, sigo pelo Quai du Marché Neuf e viro à direita para o Boulevard du Palais. Passo o Palácio de Justiça, a Tour de l’Horlogue, atravesso a Pont au Change e aqui tenho de parar. Não por estar cansada, mas pelo modo como o céu de Paris (sous le ciel de Paris, la la la* haveria de cantar a Mathilde uns bons minutos mais tarde, acompanhada por um piano, um baixo e uma bateria, na voz mais suave do mundo) se apresenta à minha frente. Paro uns minutos, olho embasbacada para aquilo e continuo. Passo o cruzamento do Dernier Bar Avant la Fin du Monde – onde quero absolutamente ir, vejam só o nome que tem – e continuo. Atravesso a Place du Chatelêt, passo a Tour Saint-Jacques maravilhosa a iluminar-se e alcanço a Rue du Rivoli. Viro à direita na Rue Saint- Denis (bolas, que pensei que era mais perto), ando até ao fim e encontro (finalmente!) a Rue des Lombards. Já passa um bocadinho das seis, quando entro esbaforida no Sunside Sunset e vejo a Mathilde loirissima e redonda, à minha frente. Pergunto-lhe se não ia cantar. Diz que sim, daí a 20 minutos.
Sento-me na esplanada, peço um sumo de maracujá que vai demorar uma eternidade a chegar face à urgência da minha sede. E passada meia hora, a Mathilde entra e o concerto começa. Canta, como disse já, na sua voz suave, Edith Piaf, versão jazz. Não podia ser mais adequado, ouvir Paris, em Paris, depois de ter visto todo o Paris, ao longo do Sena, Statue de la Liberté (esta sim, ‘minuscule’, se a compararmos com a original em Nova Iorque) incluída. Quando o concerto acaba, saio e refaço o caminho. A noite já caiu completamente sobre a cidade e eu resolvo aproveitar o bilhete de barco até ao fim e volto, assim, ao Quai de Montebello. Paris à noite é uma história de amor. É provável que não haja cidade mais bonita que esta no mundo inteiro, quando a noite cai e se acendem as luzes. O barco faz o mesmo caminho da tarde. Guardo a pouca bateria da máquina fotográfica para a jóia de Paris. E ali está ela. De renda brilhante, lançando o seu feixe de luz de um azul intenso sobre os céus de Paris. No barco vão sobretudo espanhóis e eu vou escutando as conversas. Perto de mim um casal jovem conversa com outro mais velho, numa conversa que indica que se conheceram aqui. Quando chegamos mesmo perto da torre, a rapariga desata aos pulos no barco e abraça-se ao companheiro e grita: ‘mira, miraaaaa, mi amoooor, la torre es tan chulaaaa’. Eu rio-me. E admiro a torre ‘tan chula’ iluminadíssima e brilhante. Também me apetece pular no barco e gritar ‘que torre tan chulaaaaa!!!’. Não o faço, mesmo quando milhares de estrelas começam a piscar na torre, mas devia tê-lo feito. A torre é realmente a torre mais ‘chula’ que já vi na vida.
* Sous le Ciel de Paris, Mathilde (um excerto) aqui
O original aqui

Comments

  1. Paris vive bem sem a torre. Já sem a Notre Dame é outra coisa. Não acho nada que a torre Eiffel seja “a jóia” de Paris!

  2. suponho que sejam gostos! Mas se leu a ‘carta’, é de facto aquilo que as pessoas mais frequentemente identificam com Paris, o símbolo máximo da cidade. Agora, evidentemente, Paris tem muitas ‘jóias’ mas eventualmente – e em termos ‘de marca’ da cidade – a torre Eiffel será o símbolo maior (bom, pelo menos é o mais alto😀 )

    • É evidente que são gostos, mas para mim a imagem de marca de Paris será sempre o boulevard e a esplanada do café onde se possa ver um bom par de meias de seda enfiados num salto agulha.🙂

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