Lettres de Paris #12


Moi, j’aime bien la propreté*

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Hoje acordei com uns senhores a baterem-me à porta do estúdio, já não era muito cedo. Vinham medir a alcatifa, para meu espanto. Parece que a vão substituir. Disse-lhes que a alcatifa, embora não seja nova, não me chateava nada. O que me chateava era a falta de candeeiro perto da cama – como vou ler? – e a falta de aquecimento na casa de banho. Ainda lhe falei no exaustor, mas afinal parece que é mesmo assim, fraquinho, e não está estragado.
 
Seja como for, mediram a alcatifa. Quando cheguei a casa à noite também já me tinham substituído o candeeiro estragado. O aquecimento ‘dans la salle de bain’ é que nada. Estão neste momento 4º em Paris. E ainda estamos só no início de novembro. Espero bem que me arranjem o aquecimento ou arrisco-me a morrer congelada cada vez que precisar de ir à casa de banho. Já morro gelada cada vez que vou à janela fumar um cigarro. Como hoje de manhã, depois do episódio da medição da alcatifa. Assisti a uma belíssima discussão, digna dos bairros mais populares de Lisboa, na Rue Suger. Um homem veio trazer uma encomenda de várias caixas, muito pesadas, aparentemente. Estacionou o camião grande, que bloqueava a rua, porque é bastante estreita. Tirou as caixas e deixou-as no chão, no meio da estrada atrás do camião. Uma das senhoras da limpeza da Maison Suger (para onde as caixas vinham) foi lá fora e disse ao homem que ele tinha de carregar as caixas para dentro. Começou a confusão! Que não tinha nada, que ele era só o homem das ‘livraisons’ e que portanto ela ou alguém que metesse as pesadíssimas caixas para dentro.
 

A senhora, coitada, disse-lhe que nem pensar. Que vinha entregar, tinha de entregar dentro da casa, não podia deixar nada na rua. O homem do camião começou a ficar com a voz alterada e muito irritado. Ficou ainda mais irritado quando de dentro da Maison Suger saiu um senhor mais velho, que eu nunca tinha visto, e começou a dizer-lhe que ele tinha de entregar as caixas ‘dentro’ de casa e não na rua. O homem do camião ficou cada vez mais furioso e começou aos gritos com o homem mais velho: ‘a mim você não me diz o que eu tenho d efazer! Não fala assim comigo’, etc etc. Os ânimos exaltaram-se bastante e eu na janela sem saber bem o que dizer ou fazer. O homem do camião foi bastante agressivo, na verdade, mesmo que só tivesse de fazer a ‘livraison’ e não tivesse de carregar as encomendas para dentro da casa. Desisti de ver o resto da discussão porque estava a ficar, também eu, enervada com aquilo. Fui tomar banho e não congelei.
 
Quando desci no elevador, estava a mesma senhora da limpeza na receção. Tinha um ar calmissimo, apesar de ter estado aos gritos há pouco mais de meia hora. Falei-lhe dos problemas com o meu estúdio (dado que não estava a responsável). Anotou. A seguir entreguei-lhe as chaves do estúdio anterior. Quando as recebeu disse-me ‘vous avez laissé le studio trés trés propre’. Como? perguntei eu. Repetiu que eu tinha deixado tudo limpíssimo, impecável e para concluir juntou o dedo indicador ao polegar, formando um pequeno círculo e repetiu ‘trés propre’. Ah, disse eu, ‘moi, j’aime bien la propreté’. Sorriu e eu disse-lhe ‘aurevoir’. Devo dizer que não andei a limpar nada, a não ser a louça que fui usando (e também a lavei toda antes de a usar, tal como aqui, claro está!). De resto, as senhoras limpavam o chão e a casa de banho todos os dias, como aqui. Limitei-me a fazer o que faço em casa, basicamente, arrumar o que desarrumo, limpar o que sujo. ‘La propreté’ é uma coisa que muito prezo. Tenho até a mania da ‘propreté’.
 
Quando saí da Maison Suger não vi rasto das encomendas pesadíssimas, nem do camião, nem do homem das ‘livraisons’. A rua estava desimpedida e eu fui pela direita em vez de ir, como habitualmente, pela esquerda. Segui pela Rue de l’Éperon até ao cruzamento da Rue Danton com o Boulevard Saint-Germain ou Place Henri Mondor. Bebi um café, comprei uma garrafa de água e depois resolvi ir por um caminho diferente do habitual até ao Ladyss. Fui pelo Carrefour de l’Odéon, depois pela Rue de Condé. Depois subi a Rue Crébillon até à Place de l’Odéon, tão bonita, com o teatro e onde nunca tinha estado. Comecei a achar que tinha subido demais, e que teria de andar para trás. Quando desci a Rue de Vaugirard percebi exatamente que estava bastante mais à frente do que era suposto. O Boulevard Saint-Michel ali estava e a Place de la Sorbonne também, um bocadinho mais adiante. Aproveitei e cumprimentei Monsieur Comte, afinal o pai do ofício a que me dedico. Atravessei a praça, bonita com as suas cores de outono e os seus repuxos borbulhantes. Subi a Rue Victor Cousin até à Rue Soufflot e lá estava de novo na Place du Panthéon, onde a cruz em cima da cúpula parecia furar as nuvens muito brancas que se formaram entretanto no céu de Paris.
 
Contornei o Panthéon, num ziguezague final, vi a igreja de Saint-Étienne du Mont e virei na Rue Valette, que desci até ao cruzamento com a Rue de Lanneau. Quando entrei no Ladyss o cheiro a queijo era intenso. Vinha de um gabinete ao lado da sala onde trabalho. Meti o nariz dentro da sala e estavam a Marie e a Charlotte. A Marie tirava queijos redondos de um saco térmico. Disse-lhe que cheirava bem e perguntei para que eram os queijos. Encomendas. Diz ela. Tinha vindo da visita ‘à terra’, nas montanhas da Savoie e trazia os queijos para os colegas que os encomendaram. Fiquei a pensar que é o mesmo em toda a parte. A terra onde se vai, aquilo que de lá se traz. Mesmo eu não tendo terra como estas terras, que produzem coisas da terra, tenho ali um frasco de doce de tomate quase a acabar da última vez que fui à minha terra ou ao colo da minha mãe, é a mesma coisa. Disse à Marie que da próxima vez lhe encomendaria um queijo, eu também, para ver como era o ‘chèvre’ da Savoie. Disse-me que me o traria com gosto.
 
Passado um bocado, quase à hora de sair, a Marie entra na minha sala e diz que afinal trouxe mais queijo que as encomendas. Fico com um, obviamente. Digo que adoro queijo e ela pergunta-me se em Portugal também comemos muito queijo. Que sim, e temos também bons queijos, talvez não numa variedade tão grande. De maneira que, quando saí do Ladyss, trazia um queijo de cabra no saco, de pasta mole e com um cheiro delicioso. Parei numa boulangerie do Boulevard Saint-Germain. Bebi um café e comprei uma demi-baguette ‘tradition, que meti no saco a acompanhar o queijo. As baguettes e o queijo são a minha desgraça por aqui. Valha-me que ao menos ando bastante. Antes do jantar, agarrei na demi-baguette, abri o queijo e soube-me pela vida. Amanhã digo à Marie que o queijo da terra dela é delicioso.
 
*é como quem diz: eu gosto muito de limpeza.

Comments

  1. Nascimento says:

    Ai que inveja😋!Place Sorbonne no Outono e ainda por cima Queijo com baguette tradition…e vin? Bom apetite😁.E boa partilha.

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