Lettres de Paris #22


Une journée presque perdue

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Um dia quase perdido, pois. Primeiro levantei-me tarde. A pouca luz que entrava pela janela, mesmo com os ‘blackouts’ quase fechados, anunciava chuva e um dia muito cinzento e eu deixei-me ficar na cama. Doiam-me as pernas e os pés da caminhada de ontem. Mais uma razão para me deixar ficar. Quando finalmente me levantei era quase meio-dia. Confirmei a chuva, confirmei o dia cinzento e continuei a preguiçar enquanto fazia café e preparava o pequeno almoço. Quando saí de casa passava já das 2 da tarde. Escurece, aqui, como creio ter já referido, antes das 5 e meia. De modo que restavam-me 3 horas e pouco de dia. Isto aborrece-me, confesso, escurecer tão cedo. Sim, é a hora de inverno e é Paris.
 
Tinha ontem vagamente decidido, antes de adormecer, que iria hoje à Torre Montparnasse. Queria igualmente passear-me pelas ruas do bairro e, quem sabe, visitar o cemitério. Há mais de 20 anos visitei o cemitério de Montparnasse e lembro-me (tal como no Pére Lachaise) de ser um espaço bem bonito, cheio de árvores, caminhos bem arranjados. Bem sei que dizer de um cemitério que é bonito é um bocado estranho, mas a verdade é que me lembro deste ser bastante agradável. Resta dizer que, há mais de 20 anos, procurava especificamente a campa de Jean Paul Sartre e de Simone de Beauvoir, apesar de estarem sepultados, em Montparnasse, muitos escritores e personalidades relevantes, como por exemplo Beckett, Cortázar, Duras, Baudelaire e até Durkheim. Não sou exatamente a pessoa que mais gosta de frequentar cemitérios e ver campas, mas naquela época tinha um fraquinho pelo Sartre e pela Beauvoir (ainda tenho, embora já tenha lido tudo o que há para ler deles) e tinha, porque tinha, imperiosamente de ver a campa oonde estão sepultados juntos. Li outro dia, já não sei onde, que alteraram a lápide. Se chegar a ir ao cemitério de Montparnasse desta vez, vos direi se a alteraram ou não. Isto significa que, evidentemente, com cerca de 3 horas de luz, não visitei o Sartre e a Beauvoir na sua última morada, nem me passeei pelo bairro.
 

Bebi um café no sítio do costume, onde a Julie, mal me viu me atirou ‘Bonjour Elisabete’. Respondi-lhe ‘Bonjour Julie’ e bebi o meu café, enquanto fumava um cigarro e admirava uma modelo e o seu fotógrafo na praça. Estariam uns 7º e a rapariga estava de mini-saia e manga curta. A pobre. Apanhei, logo ali em frente, o metro, a linha 4. A ideia era ir diretamente, já que a linha 4 passa na torre de Montparnasse, mas acontece que quando o metro chega a Odéon nos informam que, dali para a frente, a linha 4 não avança mais. Hoje e amanhã. Lembro-me que já tinha lido sobre isso. Infelizmente não me lembrei antes e eis-me de volta no, mesmo metro, para trás. Sem saber bem o que fazer, visto que me doiam as pernas e os pés e nem pensar em andar meia-hora até à torre. De maneira que, sem muito refletir (mas também sem muita alternativa) fui até Chatêlet e de lá até à Place de la Concorde, na linha 1, onde apanhei a linha 12 que, finalmente me levou à torre. Perdi menos tempo do que aquele que levaria a pé, apesar de tudo. O metro de Paris funciona razoavelmente bem e é rápido e frequente. As estações é que são desagradáveis. Não as plataformas ou cais propriamente ditos, que em geral são bonitos (até ver o meu preferido é o do Louvre-Palais), mas os longos corredores cheios de correntes de ar e de escadas para descer e depois subir e a seguir descer novamente. Anda-se imenso no metro de Paris, acreditem em mim. E é pouco amigável para as pessoas com problemas motores. Acreditem outra vez em mim.
 
Saí em Montparnasse-Bienvenüe em direção à Rue du Départ. Mal saí da estação vi, claro, a torre. É bastante alta. Tem 59 andares, embora o elevador só vá até ao 56º. Passo as Galerias Lafayette e vejo sinais a indicar a entrada da torre e da ‘vista panorâmica’ na Rue de l’Arrivée. Gosto disto, Rue do Départ e Rue de l’Arrivée. É preciso que se diga que ambas desembocam (ou saem, depende, como sempre, da perspetiva) da Gare Montparnasse, a estação de caminho de ferro. Por isso, a Rua da Partida e a Rua da Chegada, aqui, não podiam fazer mais sentido. Para a torre entra-se, então pela Rue de L’Arrivée. Não estava quase ninguém na fila para os bilhetes, e compreende-se, visto que o dia estava cinzento e a vista deveria estar bastante enevoada. Subimos no elevador até ao 56º andar. Lá em cima é tudo semelhante ao ‘top of the rock’ em Nova Iorque, com a diferença que a vista é totalmente outra e que o Tour Montparnasse é bastante mais baixa. Mas o resto, quero dizer, o interior é mesmo muito parecido.
 
Tal como suspeitava a vista está completamente enevoada. Apesar de já a ter há uns meses, não sei mexer bem na máquina, porque não estudei o manual (embora devesse) e portanto palpita-me que as fotografias não vão sair grande coisa. Acontece-me sobretudo à noite. Mas com o dia desta cor, absolutamente cinzenta, o resultado, penso, não vai ser muito melhor. Não me enganei, como podem constatar, mas não me importei muito. A vista – com ou sem fotografias bonitas – é de tirar o folêgo. Vê-se todo o Paris, apesar do nevoeiro. La Défense, o Sacré-Coeur, por exemplo, parecem sombras. Mas fica bastante bonita, a paisagem, assim. Logo ali abaixo (quero dizer, 56 andares abaixo) fica o cemitério. É enorme. Penso que lá irei outro dia. E penso que num dia de sol tenho que subir outra vez a esta torre. Ando ali a tirar fotografias que não hão-de ficar nada de especial. Subo os três andares a pé até ao 59º. Chove copiosamente e não é agradável estar no terraço de observação descoberto, convenhamos. Além da chuva, o vento, claro, a esta altitude. Sim, terei de voltar cá num dia de sol. É sabido como gosto de torres, porque estou convencida que delas se vê o mundo inteiro. Há um postal de há uns anos, da Roménia, de Sighisoara creio, em que falo disto.
 
Já eram quase 5 da tarde e eu decidi esperar que anoitecesse e ver a cidade lentamente a iluminar-se dali de cima. Bebi um café ‘allongé’ no café do 56º andar e esperei pela luz. Pouco a pouco, pontinhos brilhantes começaram a ver-se. E é um espetáculo fabuloso, acreditem. Há dois anos, no dia do meu aniversário, também esperei do alto da Torre Eiffel que a cidade se acendesse à minha frente. Com a escuridão da noite e as luzes da cidade viam-se melhor alguns edifícios. Olha ali o Arco do Triunfo e acolá o Panteão. Olha os Invalides e a roda gigante da Place de la Concorde. De repente a Torre Eiffel ilumina-se também e começa a propagar o seu feixe de luz azul, que se vê de toda a cidade, mesmo aqui, na estreita Rue Suger. Assisto a isto tudo, mesmo sabendo que as fotografias não vão ficar bem, ainda por cima através de um vidro, mas importando-me mais com a vista do que com as recordações futuras. Saio da torre por volta das sete e meia. Apanho a linha 12, desta vez para Sévres-Babylone (o que eu gosto dos nomes das estações, até há uma chamada Ella Fitzgerald, sabiam?) e daí a linha 10 para Odéon. Saio para o lado de Saint-Michel e vou ao Monoprix. Não tenho fruta.
 
Carrego as compras para casa, onde entro já passa das 8. Arrumo-as e sento-me na cadeira de baloiço, a pensar que tenho de passar a ferro. A tarefa mais imbecil de todas e que eu detesto acima de todas. Balanço-me mais um bocado e vou lá abaixo buscar o ferro e a tábua de engomar. O ferro ainda por cima não é muito potente. Ligo a televisão e deixo nos Simpsons. Só há canais em francês, já tinha dito antes, e os franceses dobram, lamentavelmente, tudo. Pelo menos na televisão, no cinema já verifiquei que não é bem assim, embora em muitos sítios se anuncie V.O. (versão original) como a avisar os mais incautos, embora seja legendada, claro. Levo um bocado a passar a roupa. Era um monte bem jeitoso. Quando acabo doem-me, que surpresa, as pernas e os pés. Devolvo o ferro e a tábua de engomar ao seu lugar e vejo que tenho fome. Como uma salada, fatias de baguette estaladiça, uvas e morangos (morangos, imagine-se!) e bebo um café. Não foi um dia assim extraordinário, hoje. No final, achei que tinha sido um dia quase perdido. Bom… passei o monte da roupa e vi tout Paris da Tour de Montparnasse, mesmo se tout Paris estava cinzento e envolto em névoa.
 
Bonne nuit.

Comments

  1. Nicola says:

    Bonne nuit.
    Venham mais dias e correspondências.

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