Lettres de Paris #32


Les Français sauveront le monde…

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… estava escrito num panfleto metido no para-brisas de um carro estacionado em frente ao Collége de France, quando lá passei a caminho do Ladyss, ontem de manhã. Não ia a reparar em grande coisa, ou melhor, ia a reparar nas coisas do costume quando faço este caminho. Talvez haja já pouco de novo neste caminho em que eu possa reparar ou talvez eu fosse, ontem, pouco disponível para atentar nas coisas. Nas que já vi muitas vezes e nas que via pela primeira vez. Ainda assim, reparei no papel metido entre o para-brisas de um carro que dizia que os franceses salvarão o mundo. Parei e li a curta mensagem e – juro-vos que não é do meu francês – não compreendi muito bem a que se destinava. Hoje, há um bocadinho, já depois de ter ido novamente para o Ladyss e depois de ter jantado e depois de já estar em casa, pesquisei o ‘slogan’ e o autor. As pesquisas rápidas encaminharam-me para um blog, com 3 ou 4 posts apenas, todos no mesmo tom profético. Pesquisei o nome do autor. Parece que é alguém que já é conhecido no Quartier Latin por espalhar panfletos desta natureza. Não se compreende bem o que pretendem, provavelmente nada.

Mas fiquei com a frase na cabeça. Estive 4 dias inteiros fora, mais meio. Não chegaram para matar saudades de nada, nem para ter saudades de nada, também. Na verdade, depois de 35 dias fora de casa, tinha saudades dela, da casa. Estava tão fria como esteve hoje e ontem aqui, em Paris, na rua. Tive muito frio em Portugal, em Aveiro e em Lisboa. Mais frio do que tenho aqui. Creio que trouxe uma constipação comigo e tudo. Não sei se o frio é diferente, este aqui mais seco. Ou se é a falta de aquecimento em toda a parte (acabei por ligar o aquecimento em minha casa, não podia suportar o frio que estava), por contraste com o que acontece aqui… mas tive frio em Portugal. Mais do que tenho aqui. Fui com a Ryanair a pior companhia aérea do mundo, para mim, já o sabemos. Fui pelo pior aeroporto do mundo que conheço (o de Paris Beauvais, a quilómetros de distância e onde nos tratam como animais literalmente). A viagem propriamente dita ocorreu sem sobressaltos, por isso talvez eu esteja errada e a Ryanair não seja, afinal, a pior companhia aérea do mundo. Além disso a viagem de ida e volta custou-me cerca de 30 euros, mais barato do que uma viagem de ida e volta entre Aveiro e Lisboa, portanto. O tempo não chegou para matar saudades de nada, já o disse, nem para ter saudades de nada, já o disse também. Trabalhei dois dos 4 dias, pelo menos. Nos outros nada fiz que seja digno de registo. Vi os meus pais, o André, a minha afilhada, os meus primos e soube-me bem, evidentemente. Retornei com a Aigle Azur, uma companhia bastante mais profissional e que não nos trata como animais. Cheguei pelo aeroporto de Orly, bastante mais humano e arrumado e com muito melhores transportes. Pus-me na Rue Suger num instante, depois de apanhar a navette para Antony e daí o Rer B para Saint-Michel. Não vinha carregada também. Aproveitei para trazer calças mais quentes, umas camisolas mais quentes também e, finalmente, para trocar 3 dos 4 casacos que tinha aqui e que já não podia ver à frente. Daqui a um mês mais ou menos vou sentir a mesma aversão a estes. Por enquanto é como se tivesse roupa nova para vestir.
De maneira que retomo as minhas cartas hoje, não sei se as escreverei todos os dias. Às vezes, apesar de ser Paris, não se passa nada de especial. Nada de muito diferente do que se passaria num dia qualquer em Aveiro. De maneira que ontem vi este papel no para-brisas de um carro estacionado em frente ao Collége de France a dizer que os franceses salvarão o mundo. Duvido que isso aconteça. Mais a mais porque a maior parte das pessoas que não são francesas, não compreende o francês. Salvar o mundo exige entendimento, suponho. Depois porque olhando à minha volta não me parece que os franceses estejam genuinamente interessados em salvar o mundo ou sequer a França. Ontem vi na televisão que o Fillon é a nova esperança para derrotar a Marine Le Pen e salvar o país das garras da Frente Nacional. Ouvindo discursar François Fillon temos medo, muito medo. Se calhar menos – é verdade – que ouvindo Marine Le Pen, mas assim mesmo medo daquilo que este homem quer ‘salvar’ e ‘recuperar’.
Esta conversa lembra-me uma apresentação que tenho de preparar sobre ‘regeneração’. Detesto esta palavra. Como detesto as burocracias que este convite – que inicialmente me pareceu magnífico – me fez já ter de tratar. E detesto as sugestões dadas por email sobre a minha apresentação, ou melhor – já que ela ainda não existe – sobre o que eu deverei falar. Onde já se viu, convidarem uma pessoa para falar sobre um assunto e a seguir dizerem-lhe o que ela tem de dizer? Não vos digo que linda instituição me convidou, daqui a uns dias perceberão. Isto se eu não me aborrecer com tanta burocracia e ‘sugestão’ e ‘indicação’ e não os mandar dar uma volta. Entretanto, já decidi que falarei do que me apetecer sobre o tema geral. Os franceses não poderão salvar-me. Os senhores desta pesada instituição também não. Mas eu posso salvar-me sempre a mim própria, creio, ou pelo menos posso não renunciar àquilo que sou e àquilo em que acredito e àquilo que estudo. Se calhar já estive mais longe de colocar manifestos em para-brisas de carros estacionados em frente ao Collége de France. Mas vou esperar que o tempo aqueça um bocadinho. Estão -2º na rua a esta hora.

Comments

  1. ZE LOPES says:

    Sauveront, sauveront, avec Fillon! Ne votez pas au Front! Il ne vaut pas la Pen…

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