Poemas com História: Ode a Jean de La Fontaine, podendo também passar por uma autocrítica

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A história deste poema (que nunca foi publicado) é curta. Foi escrito durante o PREC (acho que se nota) e era cantado pelo meu amigo Aristides. Nele me penitenciava por, muitas vezes e particularmente nesse período atribulado, utilizar nomes de animais no sentido pejorativo. O meu amigo, Professor Germano Sacarrão, grande zoólogo e ecologista, bem me dizia que os animais não são bons nem maus, limitando-se a lutar pela sobrevivência. Mas quem, naqueles dias de brasa, resistia à tentação de chamar «chacal», «tubarão», «abutre» aos que exploravam (e exploram) quem trabalha? O Aristides, também conhecido por «Passarinho», nas cooperativas, fábricas, escolas, onde cantava punha a assistência a gritar repetidamente os últimos versos – era um sucesso. Dizia assim:

Os abutres, as hienas,
os tubarões, os chacais
são apenas animais
que lutam para viver.
Chamar abutre ou hiena,
tubarão, lobo ou chacal
a um grande industrial
ou importante banqueiro,
é abuso de linguagem
e ainda para mais
é o erro cometer
de insultar animais
cujo crime é a coragem
de querer sobreviver.

Mister multinacional
não é abutre, nem hiena,
nem tubarão, nem chacal –
não há nada que não venda,
que não importe ou exporte,
come com os dentes da fome
que devora milhões de homens,
vive com as garras da morte
que ceifa vidas à toa.

Mister multinacional
não é abutre, nem hiena,
nem tubarão, nem chacal.
A quem come carne humana
e converte a morte em ouro,
a vida em mercadoria
de reduzido valor,
é errar a pontaria
chamar abutre ou chacal:
– capitalista é canibal!
– capitalista é canibal!

ESCLARECIMENTO

ESCLARECIMENTO

 

Há dias fiz um comentário à Daniela Major sobre pontuação e vírgulas. Não é que eu tivesse dado conta de qualquer erro cometido pela Daniela, e se tal acontecesse eu não cometeria a deselegância de o dizer, nem a ela nem a ninguém. Respondi apenas ao que ela dissera na sua apresentação, ou seja, que não prometia colocar bem as vírgulas porque não era capaz ou não sabia.

 

Fiquei no entanto chateado pois o meu comentário podia parecer presunçoso e dar a ideia de armanço, coisa que não me assenta. Todos nós andamos aqui a aprender, e venha o primeiro a dizer que sabe tudo, que eu não acredito nele. Sei o valor da humildade e já o fiz ver à Daniela.

 

Todavia, já o disse, creio que o instrumento de quem escreve reside nas palavras e na construção que com elas se faz, tal qual como o piano é o instrumento do pianista, dele saindo a música que toca. Se o pianista toca mal…as pessoas não gostarão de o ouvir.

 

O Aventar é um local de comunicação escrita, e o Aventar com certeza que imagina a credibilidade acrescida que assegura se escrever bem, e o descrédito e encolher de ombros que produz se escrever mal. Não podemos ter a mais pequena dúvida de que é assim. Se há pessoas menos exigentes que lêem o aventar, também há, com certeza, pessoas muito exigentes. Novamente como no caso do pianista.

 

Isto para dizer, na minha opinião, que um erro ortográfico ou erro de construção (não uma gralha, evidentemente) pode ser, já não digo a morte do artista, mas um ponto na penalização a caminho do descrédito e da desclassificação. Ninguém anda aqui para ser artista, mas se nos propomos tocar o nosso piano, não podemos trocar as notas.

 

Quem se propõe escrever para outros lerem, tem de o fazer tão bem como o alfaiate faz um fato a quem lho encomenda. E seria giro o Aventar ser um exemplo, não só de democracia, que o é, mas também de respeito pela boa interpretação e execução da música que toca.

 

Por mim, com toda a sinceridade, fico imensamente grato a quem me apontar as minhas falhas. De certeza que não voltarei a repeti-las.

Clube dos Poetas Imortais: Maria Rosa Colaço (1935-2004)


Esta canção, «A Outra Margem», interpretada pelo Luís Represas e pelos Trovante, tem letra de Maria Rosa Colaço. A Maria Rosa foi-me apresentada pelo escritor Romeu Correia, seu vizinho em Almada. Foi uma amizade instantânea que começou, ainda nos anos 50, numa tarde de Inverno, no primeiro andar do café Avis nos Restauradores. Era uma rapariga bonita, inteligente, bondosa, calma, com a sabedoria alentejana do seu Torrão natal a cintilar-lhe nos olhos. Sobre a nossa amizade, ela descreve, mencionando-a, o cenário em que decorreu em «O Amor Tem Tantos Nomes» (1998), lembrando aqueles anos cinzentos que a nossa juventude, irreverente e lutadora, conseguia colorir. Alta madrugada, cantávamos debaixo das janelas do Aljube, «Estupidamente, claro, porque os tiranos não se removem com canções nem falsos heroísmos, mas isso eu não, sabia porque aos dezoito anos só sabemos coisas importantes e únicas…», diz Maria Rosa.
Pediu-me que fizesse a apresentação deste livro, o que fiz com prazer em Oeiras, na livraria e galeria municipal Verney. Foi a penúltima vez que estivemos juntos. Falávamos muito pelo telefone. No ano seguinte sofri um acidente de automóvel que me deixou sequelas que se foram arrastando por quatro operações cirúrgicas, um ano quase fora do mundo e os seguintes de lenta recuperação. Pelo telefone, fui relatando a minha situação e segui a doença do marido, a excelente pessoa que o Malaquias de Lemos era, e depois a sua, dizendo que estava maluca quando me afirmava que morreria em breve. Ríamo-nos até às lágrimas quando dávamos conta de que estávamos só a falar de doenças.

Contei-lhe a história do António José Saraiva, quando ao falar com velhos retirava a prótese auditiva e não ouvindo o que o interlocutor dizia, comentava a espaços «Isso é chato…é muito chato». Acertava sempre, dizia ele, pois estavam a falar das maleitas. Ainda ouço as gargalhadas da Maria Rosa. Depois, já eu andava por aí com canadianas, almoçámos uma vez num restaurante italiano junto ao meu escritório, para lhe apresentar o meu editor e avaliar das possibilidades de ele lhe publicar a obra completa. Poucos tempo antes de morrer telefonou-me a despedir-se, como quem parte de viagem. Voltei a chamar-lhe louca, que era coisa que ela não era. Era sim, uma excelente escritora e uma das melhores amigas que jamais tive.

Maria Rosa Colaço, nasceu no Torrão, Alcácer do Sal, em 1935 e faleceu em Lisboa, no Hospital de Santa Maria, em Outubro de 2004. Completou primeiro um curso de enfermagem e depois o de professora do Ensino Primário. Foi do seu contacto com as crianças que nasceu o livro que a tornou muito conhecida – «A Criança e a Vida» (1984), com mais de 40 edições e traduzido em diversos idiomas. Publicou numerosos livros, dos quais refiro apenas «O Espanta Pardais» (1960), a peça de teatro «A Outra Margem», Prémio Revelação de Teatro em 1958. Foi assessora da RTP durante 12 anos e colaboradora regular do diário «A Capital». O presidente da República, Jorge Sampaio, agraciou-a com a Ordem da Liberdade. Colaborou na antologia «Hiroxima» (1967) com o poema

Serenos e pulverizados continuamos

Aqui tens os teus mitos tu
um dia também terás notícias nossas
os nossos olhos não desistem de furar o asfalto
e crescer como flores proibidas

rastejando entre espingardas e vidros
furamos as paredes e o nevoeiro
rastejamos como vermes
mas nunca à maneira dos desesperados

um dia terás notícias nossas

podes pulverizar-nos
é quase certo que nos pulverizes
podes odiar-nos
é quase certo que nos odeias
podes destruir-nos
é indiscutível que seremos destruídos

mas um dia terás notícias nossas

porque através das paredes e do mar
e do vidro e da dinamite e do ódio
nós continuamos
serenos e pulverizados continuamos.

Antologia de pequenos contos insólitos: Giovanni Papini

Nesta antologia do insólito e do fantástico, apresentamos um conto de Giovanni Papini, «HISTÓRIA COMPLETAMENTE ABSURDA».
Escritor italiano nascido em Florença em 1881, cidade onde faleceu em 1956. Foi um dos escritores mais importantes da sua época. As suas principais obras são «Um homem Lapidado»,1912, e «O Diabo», 1953. Este conto pertence à colectânea «Riviere Ligure». «Storia completamente assurda», inspirou o vídeo do brasileiro que incluímos por curiosidade, embora nos pareça ténue a relação entre filme e conto.

Há quatro dias, estando a escrever com uma ligeira irritação, algumas das páginas mais falsas das minhas memórias, ouvi bater levemente à porta, mas não me levantei nem respondi. As pancadas eram demasiado fracas e não gosto de lidar com tímidos.
No dia seguinte, à mesma hora, ouvi novamente bater; desta vez, as pancadas eram mais fortes e decididas. Mas também não quis abrir, pois não aprecio absolutamente nada os que se corrigem com demasiada pressa.
No terceiro dia, sempre à mesma hora, as pancadas foram repetidas de forma violenta e antes que pudesse levantar-me vi a porta abrir-se e entrar a medíocre figura de um homem bastante jovem, com o rosto um tanto afogueado e a cabeça coberta por cabelos ruivos e crespos, inclinando-se canhestramente, sem nada dizer. Mal viu uma cadeira, atirou-se-lhe para cima e como eu continuasse de pé indicou-me o cadeirão para que me sentasse. Tendo-lhe obedecido, julguei-me no direito de lhe perguntar quem era, pedindo-lhe num tom nada delicado, que me dissesse o nome e o motivo que o tinha levado a invadir o meu quarto. Mas o homem não se alterou e fez-me imediatamente compreender que, para já, desejava continuar a ser o que até então fora para mim:. um desconhecido.
– O motivo que me trouxe até ao senhor – continuou, sorrindo – está dentro da minha mala e dar-lho-ei a conhecer imediatamente.
Com efeito, apercebi-me de que trazia na mão uma pequena mala de couro amarelo-sujo, com guarnições de latão desgastado pelo uso, a qual abriu dela tirando um livro.
– Este livro – disse pondo-me diante dos olhos um grosso volume forrado a tela com grandes flores de um vermelho ferruginoso – contém uma história imaginária que criei, inventei, redigi e copiei. Em toda a minha vida, apenas escrevi isto e atrevo-me a supor que não lhe desagradará. Até agora apenas o conhecia de nome e só há uns dias uma mulher que o ama me disse que o senhor é um dos poucos homens que não tem medo de si mesmo e o único que teve a coragem de aconselhar a morte a muitos dos seus semelhantes. Por isso, pensei ler-lhe a minha história, que narra a vida de um homem fantástico ao qual acontecem as mais singulares e insólitas aventuras. Depois de a ter ouvido, dir-me-á o que devo fazer. Se a minha história lhe agradar, prometer-me-á tornar-me célebre no prazo de um ano; se não gostar, matar-me-ei dentro de vinte e quatro horas. Diga-me se aceita estas condições e eu começarei.
Compreendi que nada podia fazer senão manter a atitude passiva que tinha assumido até então e indiquei-lhe, com um gesto que não conseguiu ser amável, que o escutaria e faria tudo o que desejava.
“- Quem poderá ser – pensava para comigo – a mulher que me ama e que falou de mim a este homem? Nunca tivera conhecimento de que uma mulher me amasse e se assim fosse não o teria tolerado, pois não há situação mais incómoda e ridícula que a dos ídolos de um qualquer animal.” O desconhecido arrancou-me a estes pensamentos com um bater de pés, pouco eloquente, mas claro. O livro estava aberto e a minha atenção era considerada necessária.
O homem começou a leitura. As primeira palavras escaparam-se-me; dei mais atenção às seguintes. Depressa apurei o ouvido e senti um leve calafrio nas costas. Dez ou vinte segundos depois o meu rosto ficou vermelho; as pernas moveram-se-me nervosamente; decorridos mais dez segundos, levantei-me. O desconhecido suspendeu a leitura e fitou-me, interrogando-me humildemente dom os olhos. Olhei-o do mesmo modo e inclusivamente com ar de súplica, mas estava demasiado aturdido para o ,mandar embora. Disse-lhe simplesmente, como qualquer idiota sociável:
– Faça o favor de continuar.
A extraordinária leitura prosseguiu. Não conseguia estar quieto no cadeirão e os calafrios percorriam-me não só as costas, mas também a cabeça e o corpo inteiro. Se tivesse podido ver o meu rosto no espelho talvez me tivesse rido e tudo tivesse passado, pois provavelmente reflectia um espanto abjecto e um indeciso furor. Tentei, por um momento, não continuar a escutar as palavras do calmo leitor, mas só consegui ficar mais confuso; escutei integralmente, palavra por palavra, pausa após pausa, a história que o homem lia com a sua cabeça ruiva inclinada sobre o bem encadernado volume. O que podia ou devia eu fazer numa circunstância tão especial? Agarra o maldito leitor, morder-lhe e atirá-lo para fora do quarto como um inoportuno fantasma?
Porém, por que motivo iria fazer tal coisa? No entanto, aquela leitura produzia-me um inexprimível aborrecimento, uma penosíssima impressão de sonho absurdo e desagradável, sem esperança de poder acordar. Julguei por momentos ir cair num furor convulsivo e vislumbrei na minha imaginação um enfermeiro de uniforme branco que me punha um colete de forças, com infinitas e excessivas precauções.
Contudo, finalmente acabou a leitura. Não me lembro de quantas horas durou, mas, ainda mergulhado na minha confusão, reparei que o leitor tinha a voz rouca e a testa húmida de suor. Depois de ter fechado o livro e de o ter guardado na sua mala, o desconhecido fitou-me com ansiedade, embora o seu olhar não tivesse já a ansiedade do princípio. O meu cansaço era tão grande que ele próprio o adivinhou e o seu pasmo aumentou vendo que esfregava um olho e não sabia o que lhe responder. Parecia-me naquela altura que nunca mais poderia voltar a falar e até mesmo as coisas mais simples que me rodeavam se apresentavam aos meus olhos tão estranhas e hostis que quase experimentei uma sensação de repugnância. Tudo isto parece demasiado vil e vergonhoso; penso o mesmo e não tenho qualquer espécie de indulgência para a minha perturbação. Porém, o motivo do meu desequilíbrio era de muito peso: a história que aquele homem tinha lido era a narração pormenorizada e completa de toda a minha vida íntima, interior e exterior. Durante aquele tempo, escutara a minuciosa narrativa, fiel, inexorável de tudo o que sentira, sonhara e fizera desde que vim ao mundo. Se um ser divino, leitor de corações e testemunha invisível, tivesse estado a meu lado desde o meu nascimento e tivesse escrito o que observou dos meus pensamentos e acções, teria redigido uma história perfeitamente igual à que o leitor desconhecido declarava ser imaginária e por ele inventada. As coisas mais pequenas e secretas eram recordadas e nem sequer um sonho ou um amor ou uma vileza oculta, um calculismo ignóbil, escaparam ao escritor. O terrível livro continha até factos e pensamentos que esquecera e que apenas recordara ao escutá-lo.
A minha confusão e receio provinham desta impecável exactidão e deste inquietante escrúpulo. Nunca vira aquele homem; aquele homem afirmava nunca me ter visto. Eu vivia muito solitário a uma cidade a que ninguém vem se a isso não for forçado pelo destino ou pela necessidade. A nenhum amigo, se é que ainda algum me restava, confiara as minhas aventuras de caçador furtivo, as minhas viagens de salteador de almas, as minhas ambições de pesquisador do inverosímil. Nunca escrev
er
a, nem para mim nem para os outros, uma relação completa e sincera da minha vida e precisamente por aqueles dias estava fabricando fingidas memórias para me ocultar dos homens, inclusivamente após a morte.
Quem, pois, podia ter dito a este visitante tudo o que narrara sem pudor e sem piedade no seu odioso livro forrado de papel antigo de cor ferruginosa? E afirmava ter inventado aquela história e apresentava-me, a mim, a minha vida inteira como se fosse uma história imaginária!
Encontrava-me terrivelmente perturbado e emocionado, mas de uma coisa estava certo: este livro não podia ser divulgado entre os homens. Mesmo que para tal aquele infeliz autor e leitor tivesse que morrer, não podia permitir que a minha vida fosse divulgada e conhecida no mundo, entre todos os meus impessoais inimigos. Esta decisão, que senti firme e sólida, no meu foro íntimo, começou a reanimar-me levemente. O homem continuava a fitar-me com um ar consternado, quase suplicante. Tinham decorrido apenas dois minutos desde que terminara a sua leitura e não parecia compreender o motivo da minha perturbação. Finalmente, consegui falar:
– Desculpe, senhor – perguntei – Assegura que esta história foi verdadeiramente inventada por si?
– Precisamente – respondeu o enigmático leitor, com ar mais tranquilo – pensei-a e imaginei-a durante muitos anos e fui fazendo retoques e alterações na vida do meu herói. No entanto, tudo é fruto da minha imaginação.
As suas palavras incomodavam-me cada vez mais, mas consegui ainda fazer outra pergunta:
– Diga-me, por favor, tem a certeza absoluta de não me ter encontrado antes de hoje? De nunca ter ouvido contar a minha vida a alguém que me conheça?
O desconhecido não pôde conter um sorriso de espanto ao ouvir as minhas palavras.
– Já lhe disse – respondeu – que até há pouco tempo apenas o conhecia de nome e que apenas há uns dias soube que costumava aconselhar a morte, mas nada mais sei sobre o senhor.
A sua condenação estava decidida, sendo necessário que não demorasse a ser executada.
– Continua disposto – perguntei-lhe com solenidade – a manter as condições por si mesmo estabelecidas antes de começar a leitura?
– Sem dúvida – respondeu com um leve tremor na voz -, não tenho outras portas a que bater e esta obra é a minha vida. Sinto que não poderia proceder de outro modo.
– Devo então dizer-lhe – acrescentei com a mesma solenidade, embora temperada por alguma melancolia – que a sua história é estúpida, aborrecida, incoerente e abominável. O seu herói, como lhe chama, não passa de um enfadonho malandrim que entediará qualquer leitor mais requintado. Não quero ser demasiado cruel acrescentando ainda mais pormenores.
Comprovei que o homem não esperava estas palavras e apercebi-me de que as suas pálpebras se fecharam instantaneamente. Porém, ao mesmo tempo reconheci que o seu poder sobre mim era equivalente à sua honestidade. Quase imediatamente reabriu os olhos, fitando-me sem medo e sem ódio.
– Quer acompanhar-me até lá fora? – perguntou-me com uma voz demasiado doce para ser natural.
– Com certeza – respondi, e depois de pôr o chapéu saíamos de casa sem falar.
O desconhecido continuava a levar na mão a sua mala de couro amarelo e segui-o, entorpecido, até à margem do rio que corria caudaloso e ruidosamente entre as negras muralhas de pedra, Olhando em redor e certificando-se de que não via ninguém com aspecto de salvador, voltou-se para mim dizendo:
-Desculpe-me se a minha leitura o aborreceu. Julgo que nunca mais incomodarei um ser vivo. Esqueça-se de mim tão depressa quanto possível.
E estas foram as suas últimas palavras, porque saltando agilmente o parapeito, com um rápido impulso, atirou-se ao rio com a sua mala. Debrucei-me para o ver mais uma vez, mas a água já o tinha recebido e coberto. Uma menina tímida e loura apercebera-se do rápido suicídio, mas não pareceu muito espantada e prosseguiu o seu caminho comendo avelãs. Regressei a casa depois de ter feio algumas tentativas inúteis. Mal entrei no meu quarto, estendi-me sobre a cama e adormeci sem muito esforço, abatido e alquebrado pelo inexplicável acontecimento.
Esta manhã acordei muito tarde e com uma estranha sensação. Parecia-me estar já morto e esperar apenas que me viessem sepultar. Tomei imediatamente providências para o meu funeral, fui pessoalmente à agência funerária para que nenhum pormenor seja esquecido. Espero que a todo o momento me tragam o caixão. Sinto pertencer já a outro mundo e todas as coisas que me rodeiam têm o indizível ar de coisas passadas, acabadas, sem qualquer interesse para mim.
Um amigo trouxe-me flores e disse-lhe que podia esperar para as colocar sobre a minha campa. Pareceu-me que sorria, mas os homens sorriem sempre daquilo que não compreendem.

Tradução de Carlos Loures de «Storia completamente assurda», de Giovanni Papini, in «Riviere Ligure», 1906).

O PARTO

O PARTO

(Mais um conto, interessante e verdadeiro, da Guiné).

 

Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupações que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes. Para além de ser uma tarefa aliciante, era a melhor forma de me libertar do medo da guerra e da perspectiva pouco animadora de um regresso encaixotado.

Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos diferentes, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques, por imposição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil, e a desvirtuação constituía um perigo possível. Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava. Com o tempo as janelas foram-se abrindo, e hoje revejo com alguma saudade o imenso painel de mil cores, esse mar de sensações e vivências que nenhuma memória pode esquecer.

As mulheres de Bigene e não só de Bigene pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato. Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam um cheiro nauseabundo. Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido eram graves e frequentes, soube eu mais tarde.

Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi actuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante. Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas, dentro da mesma escala de cultura. Estou disposto a comprová-lo através de exemplos sérios nascidos da minha experiência.

Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca, acerca de higiene e infecções, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que modesta e minúscula.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar, nesta altura, a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto. Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha, electricista de profissão, brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de fio a pavio a minha sebenta de obstetrícia, e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho, que apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim. Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, único possível, indispensável aos primeiros tempos de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de maneira tão eutrófica e perfeita.

Uma semana após o nascimento, vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente: “doutor, vou dar-lhe uma linda notícia, que a mim, pessoalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio…aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se? A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de “Adão Doutor”.

 

                TENHO INFORMAÇÕES DE QUE É VIVO

TENHO INFORMAÇÕES DE QUE É VIVO

A máquina do tempo: ler o Porto (e ler Óscar Lopes)

O.Lopes

Há um alfarrabista no Porto, a «Modo de Ler», na Praça Guilherme Gomes Fernandes, do qual sou cliente há anos. Mandam-me os catálogos, eu escolho, telefono a fazer a encomenda, enviam-ma registada e, na volta do correio, mando-lhes o cheque. Tudo na base da confiança. Funciona impecavelmente. Há dias, ofereceram-me um livro, de conteúdo valioso e graficamente muito bonito, editado pela Cooperativa Árvore e patrocinado pelo Jornal de Notícias. É uma edição de homenagem a esse grande vulto das nossas letras que é o Professor Óscar Lopes e tem o título «Modo de Ler o Porto». Este post é uma forma de agradecer a oferta, de manifestar a minha admiração por Óscar Lopes, o qual no decurso da minha carreira tive o grato prazer de encontrar por diversas vezes, de lhe dar os meus parabéns pelo seu 92º aniversário e de lhe agradecer tudo o que tem dado à cultura portuguesa.

Em 1969, a Editorial Inova publicou um volume de «crítica e interpretação literária» escrito por Óscar Lopes, com o título «Modo de Ler». E daqui houve nome a livraria, que agora colabora numa homenagem ao Professor, oferecendo este livro a alguns dos seus clientes.

Com um excelente prefácio do Professor Luís Adriano Carlos, onde começa por dizer que «É um sopro da cidade granítica animada pelo espírito criador que Óscar Lopes regista nesta breve colecção de textos. Um modo de ler o Porto que é também um modo de reescrever o seu imaginário vivo e latejante», dizendo depois que ler estes textos «é conhecer e compreender os aspectos mais diminutos, complexos e gerais de todo esse processo histórico, coerente e contraditório, tal como a cidade e a vida.»

Já tinha lido quase todos os textos, mas foi com gosto que os voltei a ler. Direi apenas que o primeiro é uma história literária do Porto, publicada em 1969 em «Modo de Ler», seguindo-se uma análise das repercussões do movimento simbolista (ou decadentista) na cidade e que foi uma conferência realizada no Ateneu Comercial do Porto em Outubro de 1989. Segue-se um estudo do percurso literário entre «O Arco de Sant’Ana», de Almeida Garrett até «Uma Família Inglesa», de Júlio Dinis, texto que fazia parte do volume «Álbum de Família», editado em 1984 pela Caminho, e que nos fala dos diversos «modos de ler» a história das gentes do Porto, de Garrett a Júlio Dinis, passando por Arnaldo Gama e por Camilo. Acaba com – «Daqui Houve Nome Portugal», um pequeno texto crítico sobre a antologia organizada por Eugénio de Andrade em 1968.

Uma iniciativa interessantíssima, um livrinho de grande interesse cultural e que, pelo cuidado gráfico que foi posto na sua execução, os bibliófilos adorarão guardar. Obrigado «Modo de Ler». Obrigado e parabéns Professor Óscar Lopes.

Mafalda faz 45 anos. Temos saudades dela

Mafalda, a personagem de banda desenhada que o argentino Quino começou por desenhar para um anúncio a electrodomésticos, transformou-se numa das mais divertidas comentadoras políticas da actualidade mundial nos anos 1960 e 70. Hoje, celebra 45 anos.

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Desde 1973 que Quino não desenha, nem dá vida a Mafalda. É extraordinário que ainda hoje continue a acumular admiradores de várias gerações e que, em grande parte, continue a ter uma profunda actualidade.

Concebida com traços simples, cabelo negro farto e muito opinativa, além de não gostar de sopa, Mafalda surgiu pela primeira vez a 29 de Setembro de 1964 nas páginas do semanário argentino Primera Plana. Quino, então com 32 anos, nem imaginava o sucesso daquelas tiras humorísticas, que se prolongaram por nove anos em tiras originais. E por muitos mais em jornais e livros.

O que teria Mafalda para dizer nos dias de hoje…

Poemas com história: Ar condicionado


António de Oliveira Salazar! Estávamos obcecados pelo ódio a um ditador que, ainda por cima, medíocre e tacanho, não parecia ser digno dessa obsessão. Nuns versos que a polícia apreendeu em minha casa, designava-o o por o cão. Ao contrário do que eu pensava o «poema», salvo erro um soneto, não me custou espancamentos nem acréscimo de tortura. Apenas um inspector, um torcionário famoso pela sua ferocidade, andou à minha volta a declamar os versos com ar grandiloquente e comentando para o estagiário que me guardava: – «Qual Camões, qual carapuça – isto é que é poesia!». Embora olhando para a janela e simulando não estar a ouvir, fui sempre esperando que ele chamasse o piquete que estava no corredor e me desabasse uma tormenta de cassetetes em cima. Mas não, leu, declamou e depois rasgou o papel. Sinal de que não queria utilizar aquilo como prova. O estagiário, um ex-seminarista, quando o inspector saiu só me disse: «o senhor inspector estava muito irritado, que eu bem o conheço – e acrescentou, abanando a cabeça reprovadoramente «- Também o senhor, chamar cão ao senhor Professor. Déspota, ainda vá, mas cão?» Mal saí do presídio, repus o stock e escrevi estes versos menos directos, um pouco mais subtis. Não voltei a ser preso e em 1970, quando publiquei A Poesia deve ser Feita Por Todos, já Salazar tinha sido substituído por Caetano, incluí este poema. O livro foi apreendido, mas não terá sido só por causa do Ar condicionado que aqui vos deixo:

Ódio, mesquinhez, mediocridade,
num rosto de branca estearina,
em mãos de apodrecida crueldade,
o futuro imediato se destina
moldado em velhos fósseis do passado.
Alquimia do medo, chantagem do terror,
ácido queimando as raízes do amor,
eis o segredo
em redomas de silêncio conservado.

O gesto humano se consome e se corrói
no cadinho da fome e da ignorância.
Suprema elegância entretanto faz
do teatro lusitano a triste fama
cantada na soberba do cartaz
– nos seus desertos corredores circula
A última palavra em ar condicionado.

POEMAS DO SER E NÃO SER

O jardim que eu fiz para ti
tinha água sonhos e sol.
O jardim que eu fiz para ti
tinha noites de lua cheia
não tinha palavras carnívoras
nem ratos comedores da razão.

Os dedos tocavam as flores…
sem perigo.

O dia nascia de ti
e da noite vinha uma promessa de eterno deleite.
A lua deitava-se suavemente no teu regaço
como desejo contido
que sempre haveria de florir
no jardim que um dia fiz para ti.

Os dedos tocavam as flores
que se abriam de prazer.

                          (adão cruz)

(adão cruz)

A máquina do tempo: brandos costumes (os interrogatórios na PIDE)

Saiu há quase dois anos um livro de Irene Flunser Pimentel – «A História da PIDE». Sem dúvida que é o trabalho mais exaustivo que se escreveu sobre a sinistra organização e aquele que em termos históricos mais elementos nos proporciona sobre o que realmente aconteceu, para lá dos mitos e das lendas criadas em torno dela. E quando digo «sinistra organização» já estou a fugir à objectividade com que a autora aborda o tema, fugindo dos adjectivos que, como todos sabemos, são inimigos da ciência, porque se perguntarem a um zoólogo se uma zebra-.de- montanha é «grande» ou «pequena» ele responderá que, em média, o conjunto da cabeça e do tronco mede 220 cm. Face aos números encontrados, ficamos com a ideia de que a PIDE (com a sua antecessora PVDE e com a sucessora DGS) não foi tão criminosa como o foram a Gestapo e a sua congénere italiana a OVRA, por exemplo. O que, a quem por lá passou, não serve de grande consolação.

Em todo o caso, só no campo de concentração do Tarrafal morreram, até 1945, 31 presos confirmados, embora muitos outros cujos nomes não ficaram para a posteridade tenham morrido ou adoecido durante o cativeiro. Alguns eram libertados nas vésperas de morrerem e, portanto, morriam «em liberdade» em suas casas ou nos hospitais, não contando em termos estatísticos para o rol dos assassinados – digamos, para sintetizar, que as polícias políticas do Estado Novo mataram uns milhares de concidadãos nossos, cujo único crime, na maioria dos casos, era o de não estarem de acordo com a política do regime. Se são do conhecimento geral nomes como o de Humberto Delgado, Dias Coelho, Militão Ribeiro, é preciso não esquecer que houve muitos outros, como o caso do médico António Ferreira Soares, morto a tiro em 4 de Julho de 1942 em frente de uma irmã e de uma criada, do José Moreira que, em 1950, «caiu» do terceiro andar da sede da PIDE, do Raul Alves que em 1957 também «caiu», dos dois presos mortos na delegação do Porto em 1957 – Joaquim Lemos Oliveira e Manuel da Silva Júnior… centenas de nomes.

Oficialmente, as mortes deviam-se sempre a suicídios ou a quedas acidentais, a doenças cardíacas, etc. Em todo o caso, a historiadora não nos fornece um número total de vítimas. Não é possível encontrar esse número. Suponhamos que à lista dos assassinados em Portugal, queremos adicionar os que foram mortos nas ex-colónias – portugueses e, sobretudo, africanos? – Tudo se complica.

Os livros como este são muito necessários, pois constituem instrumentos realizados com todo o rigor possível. Buscar a verdade com este rigor é a função da ciência histórica. No entanto, aconselhando a leitura deste livro a quantos queiram saber o que se passou, dada a objectividade com que o tema é abordado ele não nos transmitirá a sensação de horror, de impotência, que se sentia quando se era apanhado nas malhas daquela polícia. Talvez porque tentar transmitir essa sensação, é função da literatura e não da ciência histórica. No entanto, sendo a autora uma historiadora da escola de Fernando Rosas, penso que o escrúpulo com que o trabalho foi elaborado não deve ser posto em causa. É uma obra de consulta onde só figura a verdade apurada.

*

Relativamente a um poema feito há mais de 40 anos sobre o meu encarceramento num «curro» do Aljube – na cela 10 – houve companheiros do Aventar que tiveram a amabilidade de me agradecer. Disse na altura em comentário de resposta, que não tinha sido um herói, nem (infelizmente) um caso raro ou dos mais graves. Na minha primeira prisão, em 1965, fui submetido no interrogatório a 13 dias de «tortura do sono», com alguns espancamentos pelo meio. Depois de sete dias, comecei a desmaiar com frequência, e o médico que me ia ver mais do que uma vez por dia, na noite em que completei sete dias aconselhou o inspector , do meu caso (José Américo da Silva Carvalho) a deixar-me dormir. O que ele fez. Puseram-me uma cama desmontável no «gabinete de investigação» – assim eram chamadas as salas de tortura – e dormi ininterruptamente dez ou onze horas até que me acordaram e a tortura prosseguiu por mais seis dias. Penso que a polícia julgava ter apanhado um quadro importante e daí o tratamento violento que outros, com maiores responsabilidades, não sofreram.

Ora bem, isto parecendo muito duro a quem nunca se viu nestas andanças, não foi nada de especial. Muitos milhares de outros antifascistas tiveram um tratamento muitíssimo pior do que o meu. Muitos chegaram a perder a vida e daí o cuidado que a polícia passou a ter, com médicos a vigiar, dia a dia, os efeitos da tortura. As mortes não eram convenientes, davam mau aspecto e, se possível, pioravam a reputação da polícia. Embora nunca se dissesse que as pessoas morriam devido ao que lhes faziam – como já vimos, eram geralmente «suicídios», «acidentes» e «doenças súbitas». Quando os familiares tinham acesso aos corpos, não podiam vê-los. Porque seria?

Antes da «tortura do sono», que, como o nome indica, consistia em deixar o paciente sem dormir até «confessar», houve a «estátua» que, à insónia forçada, juntava a imobilidade também forçada. Os «cientistas» policiais parecem ter descoberto que a imobilidade produzia um desgaste físico acelerado e que na nova modalidade, podendo mover-se, os presos aguentavam mais enquanto, privado do sono durante mais tempo, o cérebro se cansava e a capacidade mental de resistir também. Afinal tratava-se do velho «tormentum insoniae», o suplício da insónia, tão usado pela Inquisição. Por falar de vítimas maiores desta tortura, lembro um estudante de Agronomia que esteve 21 dias sem dormir e que sendo deficiente motor (poliomielite) foi obrigado pelos agentes a dançar a Kalinka… Mesmo assim, não terá sido um recorde.

Além das mortes, das famílias destruídas pelas prisões prolongadas, com diversos anos de pena a que se acrescentavam as tais medidas de excepção que as podiam prolongar indefinidamente, era vulgar os presos verem-se despedidos dos empregos. Quando saíam da prisão – fossem operários, professores, médicos ou escriturários, não podiam trabalhar. Nem emigrar, pois não tinham direito a passaporte. Aqui devo prestar homenagem à Fundação Gulbenkian e à memória de Branquinho da Fonseca, meu director – após as duas prisões, o meu lugar esperava-me. E não deixaram de me pagar o vencimento durante os meses de prisão. E o que devem ter sido pressionados para me pôr na rua! Branquinho da Fonseca explicou-me que resistiu a essas pressões, vindas também do interior da instituição, com um argumento muito simples: «- Ele foi condenado? Não foi. E se está inocente? Se for condenado, falamos então nessa hipótese do despedimento…»

De facto, nunca conseguiram matéria incriminatória para me enviar a tribunal. Da primeira vez presumiam (erradamente) que eu era um quadro importante. Da segunda, com muitas suposições à mistura, de concreto e ao fim de uma semana de «sono», tinham um livro com vinte e tal poemas, alguns pouco ou nada poéticos, muito panfletários. Seria, no mínimo, um julgamento incómodo. Saíram notícias em jornais franceses (algum emigrante que me conhecia). Era mais útil para o regime pôr-me na rua. Depois de uma semana de «sono», deram-me uma dose cavalar (seis meses) de isolamento contínuo e vim à minha vida. O que eu queria explicar é que isto nada tem de heróico. Se pudesse, não teria sofrido nada daquilo. Nasci no tempo e no país errado. Muitos milhares de antifascistas passaram pelo mesmo e por muito pior. Não tínhamos saída: ou aceitávamos os pressupostos da situação e não levantávamos ondas ou não os aceitávamos e aconteciam essas coisas – era-se preso, torturado, vexado, morto, perdia-se o emprego, ficava-se preso durante anos.

A propósito de vexame, as mulheres eram mais vulneráveis – embora vigiadas, torturadas e espancadas por
ag
entes femininos, houve casos de abusos sexuais praticados por inspectores, chefes de brigada ou agentes masculinos. Uma tortura adicional era, se a «estátua» ou a «tortura do sono» coincidiam com o período menstrual, não as deixavam pôr ou mudar pensos, tomar medidas higiénicas, criando uma humilhação extra com os comentários sarcásticos que os agentes, homem ou mulher, faziam sempre que entravam no «gabinete». Fala-se de uma presa, uma estudante, que, já nos anos 60, enlouqueceu. Não pude confirmar.

Nestas crónicas já falei demasiado das minhas duas prisões. Perdoar-me-ão, mas foram experiências traumáticas e que me tornaram numa pessoa diferente. A minha visão (e a de outros) e a de Irene Flunser Pimentel sobre a PIDE são diferentes – por isso mesmo, aconselho vivamente a leitura do livro dela, porque não é com testemunhos vividos que se conseguirá compreender com objectividade o que foi aquele sinistro covil. Procurarei não insistir. E se o tenho feito é porque talvez assim os mais jovens, os que já não viveram aqueles tempos, compreendam, por exemplo, a razão por que o poeta Pedro Oom, no dia 25 de Abril de 1974, quando ao lado do António José Forte no Largo de Camões, viu os agentes da secreta a fugirem saltando de telhado em telhado, como ratazanas acossadas, se sentiu mal e teve de ser transportado, creio que ao Hospital de São José, acabando por morrer de paragem cardíaca. Morreu de emoção e de alegria.

E compreenderão também a grandeza de alguns que tendo o poder nas mãos e tendo sofrido, no mínimo, o mesmo que eu, tiveram a generosidade de não proceder à execução sumária daquela escumalha. Cito o exemplo, um entre muitos, do Professor Luís de Albuquerque que, a seguir à Revolução, sendo Governador Civil de Coimbra e vice-reitor da Universidade, defendeu situacionistas perseguidos, saneados – alguns dos quais tinham contribuído para lhe tornar a vida negra durante a ditadura. E não foi por caridade cristã, pois ele era ateu e marxista. É nestas atitudes que os homens se diferenciam dos ratos.

A vingança seria condenável, mas a História acabaria por absolvê-los de uma tão compreensível desforra. Como afinal perdoou aos torcionários. Alguns já morreram. Outros andam por aí com as suas pensões da Função Pública e até recebem condecorações das mãos do presidente da República. Tudo isto, numa altura em que a casa em que Salgueiro Maia nasceu corre o risco de ser vendida e demolida.

Brandos Costumes?

POEMAS ESTORICÔNTICOS (com a particularidade de ser verdadeiro)

A Maria

A Maria nunca mais apareceu.
Os olhos
vindos do outro lado do mundo
fundos de ausência
casavam o branco e o negro
para dizerem o que a boca não conseguia.
O nariz
afilava de um só traço o rosto magro
e os cabelos errantes fugiam da testa
cada pedaço para seu lado.
A pele
transluzia uma imagem
por detrás dos vidros
imagem baça do avesso da vida.
uma dor subtil
desenhava os lábios maduros
finamente trémulos
como se estivessem prestes a chorar.
Nunca alguma lágrima por eles correu
ou voou algum beijo.
Apenas o cigarro acendia e consumia
a sua virgindade.
A Maria olhava-me sempre fixamente
olhos cravados nos meus
como que a dizer:
– tu entendes-me
tu és capaz de me compreender.
Ela percebia o sim do meu silêncio
por baixo dos olhos vencidos.
Conheci duas mulheres iguais à Maria
fotocópias da Maria
ambas se chamavam Maria
uma brasileira e outra francesa
uma pisava o teatro
outra o anfiteatro.
Inquilina de soleiras e vãos
a Maria pisava a grande cidade da noite.
As mulheres da fama e da ciência
derivavam a vida
por entre a lanugem dos cardos
e a tangência do sentimento.
A mulher da vida era vertical e secante
como folha de piteira.
A Maria mijona não tinha idade nem tempo
nem antes nem depois
era apenas instante.
Nunca se sentara na mesa do canto
fugindo de si mesma.
Escolhia sempre a mesa central
desafiando os olhares
vidrando o espaço em seu redor.
Comia a sopa
o prato de sempre
como quem tocava violino.
Apesar da mão trémula
nem um pingo deixava cair
no desbotado regaço
sumido de cores pelo uso e abuso.
Se moedas cresciam da sopa
não dispensava o brande
sua única bebida.
Por detrás do corpo sujo de Maria
mordiscava uma beleza intrigante.
Tivesse ela banheira
e emergiria da espuma
como sereia das águas.
Penso que nunca vi a Maria
fora deste retrato
para cá da sombra.
Por outro lado
tenho a certeza de que já dormi com ela…
ou terá sido um sonho?
A Maria nunca mais apareceu.
A última vez que a vi
não tinha olhos nem boca nem cigarro.
Não tinha sopa nem brande
apenas falta de ar.
Engolira o violino
e a música era uma dispneia sibilante
cântico fúnebre gemido pelas entranhas.
Toquei-lhe no ombro
e ela percebeu que eu queria levá-la.
Levantou a ponta de um sorriso
e esboçou um gesto negativo com a mão.
Afastei-me
com a sensação
de que tinha profanado um sacrário.
A Maria nunca mais apareceu.

                        (adão cruz)

(adão cruz)

A máquina do tempo: se o Papa me excomungar, eu excomungo o Papa!

Vamos até 1965, ano em que tive uma acesa polémica com Mário Cesariny de Vasconcelos que me valeu a excomunhão do movimento surrealista. Cerca de dois anos antes, enviara ao Jornal de Letras e Artes, de Azevedo Martins, uma série de artigos sob o título «Demónios do Absurdo». Neles, numa prosa surrealizante, exaltava figuras como as de Alfred Jarry, Jean-Arthur Rimbaud e Isidore Ducasse, comte de Lautrèamont, todos eles precursores do movimento lançado em 1924 pelo manifesto redigido por André Breton. O jornal não publicou nem (contra o que era habitual) me devolveu os textos. Protestei, não me responderam e eu esqueci o assunto. Até porque me envolvi numa alhada política que, em Janeiro de 1965, me levou à prisão. A polícia supunha-me um passarão importante, abusou dos esquemas habituais de «persuasão» e, depois, desiludida, vendo que não tinha «matéria» para me levar a tribunal, ao fim de três meses pôs-me na rua. Na realidade, eu era um elemento sem qualquer importância – distribuíra uns panfletos com a prosa do «Chico» Martins Rodrigues, recolhera uns fundos e pouco mais.

Vinha de muito mau humor e, colaborando no suplemento literário do Jornal de Notícias (na altura dirigido por Nuno Teixeira Neves) com uma crónica semanal sobre poesia, canalizei para essa croniqueta semanal todo o meu ódio ao estúpido sistema e a quantos, nomeadamente escritores supostamente de esquerda, pactuavam com o statu quo. – mais ou menos o que agora faço aqui, mas com a fúria dos vinte e poucos anos. A censura cortava muito, mas o que passava era mesmo assim excessivo – marxismo-leninismo, em estado puro e primário, sob a forma de crítica poética. Foi então, quando se comentava no pequeno planeta português das letras a minha fúria antifascista, concordando uns e discordando a maioria, que o Jornal de Letras e Artes resolveu pegar nos textos (quatro ou cinco) que lhes enviara e os publicou com todo o destaque na primeira página e com títulos (tirados do texto, mas escolhidos a dedo). O meu lirismo marxista-leninista sofreu um rude golpe. Os meus «apoiantes», a malta do «escacha-pessegueiro», ficaram desiludidos – «Mais um a baldar-se!», pensaram.
Fiz então uma carta para o Jornal de Letras e Artes a pôr os pontos nos is – deixara de ser surrealista, o jornal manipulara as coisas, etc. O Mário Cesariny de Vasconcelos, o papa do surrealismo português, não me perdoou e numa carta, que o jornal publicou verberava a minha abjuração, acusando-me de me ter aburguesado. Vi-me obrigado a responder. Com o mau humor decorrente da porrada que levara e das longas noites de insónia forçada, não estava com paciência para aturar reprimendas de quem, merecendo-me o respeito devido a um grande poeta, passava os dias no café ou nos transportes públicos a tentar engatar marinheiros (Cesariny tinha um grande fascínio pelas fardas). E, isto é que conta, no intervalo destas coisas, escrevia a sua maravilhosa poesia.
Enfim, foi um corte completo. O meu nome que até então, figurava nas publicações surrealistas, foi limpo numa manobra que faz lembrar as técnicas da Checa, limpando Trotski e outros elementos inconvenientes das fotografias históricas. Coisa que nada me preocupou. De facto, Cesariny tinha toda a razão. Nada tenho a ver com o surrealismo, embora tenha promovido e editado uma das poucas revistas que o movimento produziu. Explico como aconteceu essa revista, a Pirâmide», num depoimento prestado ao Daniel Pires. Note-se que o Benjamim Marques, um talentoso artista plástico, cujo rasto perdi (sei que foi para França ainda nos anos 60), no único registo gráfico que existe do grupo do Gelo, um desenho em que retratou as pessoas que o compunham, não me incluiu, embora não se tenha esquecido de uma rapariga, a Tininha (que por gralha passou à posteridade como «Fininha», uma jovem da mais antiga corporação profissional do mundo, que trabalhava no Ritz Club, e às vezes passava ali pelo café, mas que , de modo algum, era um elemento do grupo). Por outro lado, designa o João Fernandes, um membro tão respeitável como os outros, por «João Zanaga» uma alcunha que aludia a um estrabismo que, ouvi dizer, corrigiu depois com uma cirurgia. O pormenor curioso é que eu, que fui excluído, e o João Fernandes que foi alcunhado, éramos, em todo o grupo, as pessoas que o Benjamim Marques melhor conhecia. Priváramos durante muitos anos, entre a infância e a adolescência no Ateneu, onde estudámos juntos. Falta também no retrato o João Vieira que era já um pintor com algum nome. Uma forma de acertar contas com inimigos de infância e concorrentes? Talvez, pois, apesar de tudo, não acredito que o Cesariny lhe tivesse guiado a mão e na altura em que o desenho foi feito eu não caíra ainda em desgraça.
*
Abro aqui um parêntesis, porque já que estou a falar de uma excomunhão, lembro-me da ameaça de uma outra. O Raul Leal (1886-1964) o mais velho elemento do grupo, era uma figura muito curiosa. Colaborador do «Orpheu», amigo de Fernando Pessoa, escandalizara a Lisboa do primeiro quarto do século XX ao assumir a sua homossexualidade no panfleto Sodoma Divinizada (1923). Hoje seria uma coisa vulgar, mas naquela altura era quase inconcebível (não a homossexualidade, mas a sua assunção). Foi atacado por todos os sectores de opinião, valendo-lhe a defesa que dele fez Pessoa. Vinha de uma família rica, era formado em Direito e ocupava as funções de Governador do Banco de Portugal. O escândalo foi enorme, proporcional à sua notoriedade social. Constou mesmo que iria ser excomungado. Considerando-se o profeta de uma nova religião, proferiu uma frase que ficou famosa: «Se o Papa me excomungar, eu excomungo o Papa!».
*
Apesar desta escaramuça, seria ingratidão não reconhecer que foi com os mestres do surrealismo que, mal ou bem, aprendi a escrever, embora os meus temas sejam realistas. Há mesmo quem me considere um neo-realista e, dando força a essa classificação, ainda este ano animei uma sessão no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira. Porém, a minha prosa tenta fugir à crueza estilística que tipifica esse movimento, embora a maioria dos neo-realistas tenha feito o mesmo (mas muito melhor do que eu) – Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca e até um dos patriarcas, Soeiro Pereira Gomes, por exemplo, escreveram furtando-se a essa aridez formal que apenas Alves Redol nos seus primeiros livros e alguns epígonos seguiram. No entanto, apesar deste corte de relações que durou para sempre, pois Cesariny tinha mau feitio e o meu também não é dos melhores – o papa excomungou-me e eu excomunguei o papa – nunca me esqueci, nem esquecerei de que Mário Cesariny de Vasconcelos foi um grande poeta, um dos maiores do seu tempo.

Dificuldade de Governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira

São coisas que custam a aprender?

Bertolt Brecht
Tradução de Arnaldo Saraiva

POEMAS DO SER E NÃO SER

 

As palavras estão gastas

estão gastas as palavras.

Mesmo gastas

as palavras são olhos de distância e água

as palavras são sopros de horizonte

as palavras são bonitas

são bonitas as palavras ditas e não ditas.

São boas as palavras por dentro e por fora

mesmo as palavras más.

São precisas as palavras

para falar com a paisagem

se não somos capazes da poesia de Grieg

numa Canção de Solveig

ou da melodia de Smetana

nas ondulações do Moldava.

Mesmo gastas

as palavras gastas ainda têm dedos

olhos e lábios.

Eu ainda acredito nas palavras gastas

puídas

sem cor.

São elas que dão a tangência da música

e acendem as noites com olhos de fora.

Não matem as palavras gastas e velhas

assim sem mais nem menos

não deitem fora as palavras velhas e gastas

até que me ofereçam

no dia em que ficar mudo

uma caixa de palavras novas.

 

                       adão cruz)

adão cruz)

 

A máquina do tempo: a minha rua

douradores

A Rua dos Douradores é, sem dúvida, uma das mais feias da quadrícula pombalina da Baixa, mas tem para mim o encanto de os meus avós paternos, terem ido para ali viver em 1913, ali nasceu o meu pai, nasci eu e um dos meus filhos. Por isso a nossa máquina do tempo vai percorrê-la e tentar fazer um levantamento dos motivos que a tornam numa das ruas de Lisboa mais ligadas à história da literatura. Na verdade, para além das circunstâncias familiares que me ligam à rua, há ali muita história acumulada, sobretudo no século XIX e no início do século XX. Antes do terramoto também, pois segundo o olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira, num capítulo sobre os «pátios das comédias» existentes em Lisboa antes do sismo, publicado na «História da Literatura Portuguesa» Ilustrada (dirigida por Albino Forjaz de Sampaio), situa no local onde seria implantado o prédio em que nasci, entre as ruas dos Douradores, da Assunção e da Prata, um desses pátios onde se representava Gil Vicente, Camões, António Ferreira, Lope de Vega…

Como se sabe, douradores eram os artífices que douravam, ou seja, que revestiam a folhas de ouro, livros quadros e outros objectos, embelezando-os ou restaurando-os. Era um trabalho delicado que exigia uma longa aprendizagem, uma função que, pela sua minúcia e nível de especialização, ficava a meio caminho entre o ofício e a arte. Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no seu «sumário» sobre «Lisboa em 1551» regista 39 destes profissionais, enquanto João Brandão em «Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552» nos dá conta de «15 tendas de douradores». Calculando de dois a três «criados» em cada uma delas, estima num máximo de 45 os «douradores» a trabalhar na cidade por aqueles anos, pelo que o número de Oliveira, cabendo no intervalo da estimativa de Brandão, me parece mais rigoroso. A maioria destas tendas situavam-se na Rua Nova dos Douradores, na freguesia de São Nicolau. Como se sabe, o grande terramoto de 1755 destruiu toda esta zona da cidade e na toponímia da cidade que Eugénio dos Santos concebeu, renasceram alguns dos velhos topónimos, ainda que as novas vias não coincidissem espacialmente com as suas homónimas anteriores à catástrofe. Mas não podiam ficar muito longe. Contudo, seria a literatura e não a arte de douração ou restauro a dar notoriedade à rua.
Em tempos mais recentes, menciono apenas alguns nomes da longa lista dos moradores ou frequentadores ilustres e das personagens de ficção que por ali circularam: João de Deus (julgo que em 1868) viveu ali num pequeno quarto alugado, cuja localização não consegui encontrar. Antero de Quental que, no ano de 1872, ali residiu no nº.135, 4º andar, Aquilino Ribeiro, e Fernando Pessoa, que trabalhou por ali perto (no 1º andar do nº 44 da Rua dos Fanqueiros) e frequentava vários estabelecimentos da rua, nomeadamente o restaurante «Antiga Casa Pessoa» (que nada tem, além do nome, a ver com o poeta). Em 1913 almoçava nesse restaurante com grande frequência. Num largo constituído pelo cruzamento da Rua dos Fanqueiros com a de São Nicolau, a poucos metros da esquina com a Rua dos Douradores, ficava o posto do Vale do Rio, do Abel Pereira da Fonseca, onde o fotografaram em «flagrante delitro». Ali situou o seu Livro do Desassossego, uma das mais belas obras da literatura portuguesa do século XX: «Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores».

flagrante delitro

Para não falar de Alfredo Costa, um dos regicidas, que morou no nº. 20, 4º, e aí teve o seu negócio de representações comerciais. Falando do Regicídio e da Carbonária, num escritório comercial da Rua dos Douradores, junto à esquina com a Rua de Santa Justa, António Maria da Silva, que viria a chefiar o Governo em diversos executivos da I República, na qualidade de elemento da Alta Venda, órgão máximo da Carbonária Portuguesa, ia sendo surpreendido pela polícia quando presidia à cerimónia de catorze iniciações. Não esqueçamos também que, nesta rua, situou Eça de Queirós a novela Alves & Cª. Gervásio Lobato, no seu romance burlesco «Lisboa em Camisa» põe as suas personagens por ali perto, moram na Rua dos Fanqueiros, mas o baptizado em torno do qual gira a intriga, realiza-se na Igreja de São Nicolau que, embora com o escadório e a fachada na Rua da Vitória, tem um dos alçados na Rua dos Douradores. O meu pai frequentou a escola da Igreja, escola cuja entrada se fazia precisamente por uma das portas desse alçado. Muito recentemente, outro autor escolheu a Rua como cenário de um romance. Refiro-me a «Boa Noite, Senhor Soares» (2008), de Mário Cláudio, uma ficção em torno de Bernardo Soares e do seu «Livro do Desassossego».

Os galegos que, fugindo à terrível crise que a Galiza atravessou na segunda metade do século XIX, emigraram em massa para Portugal (e não só), fixaram-se em grande parte em Lisboa. As ruas menos «chiques» da Baixa eram o seu território preferido – moços de fretes e aguadeiros, os menos afortunados, comerciantes ou empregados nos comércios de patrícios, outros. Conforme diz Aquilino Ribeiro em «Lápides Partidas», um aguadeiro de Porriño dizia numa carta para a mulher e referindo-se a Lisboa e aos lisboetas «A terra é boa, a xente é tola; a auga é deles e nós vendemoslla». Contudo, o negócio preferido dos galegos eram os restaurantes e as casas de pasto – O João do Grão, na Rua dos Correeiros, o Bessa e o Pessoa na Rua dos Douradores são apenas alguns desses negócios que ainda hoje estão nas mãos de galegos ou de portugueses deles descendentes. Na minha escola primária, a nº. 44 da Rua da Madalena, tive alguns colegas de ascendência galega.
Num agradável serão, numa consoada, de há mais de quarenta anos, na acolhedora casa de Luís Roseira em Covas do Douro, Manuel Mendes, um grande escritor, injustamente esquecido, e um inesquecível conversador, quase me garantiu que Camilo Castelo Branco residira episodicamente no prédio onde nasci. Não pude confirmar esta convicção do autor de Pedro. Relacionando Camilo com a Rua dos Douradores, apenas sei que ali, no nº 29, morreu, em 1835, seu pai Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco. Mas a minha lista de personalidades e eventos de algum modo ligados «à minha rua» é mais extensa. Ficará talvez para outra ocasião e para outro local desfiá-la por completo.

o senhor que queria pertencer à confraria dos escritores

stack_bookspois então cá vai. eu até nem queria falar mais nisto mas já agora, se faz favor, vamos adiante. já nem sei quando isto começou. talvez com o sucesso da margarida rebelo pinto? até pode ser que não. não interessa quando começou. eis que, certo dia, em portugal, os jornalistas começaram a escrever livros. uns escreveram romances cor-de-rosa. outros optaram pelas biografias desportivas. uns terceiros optaram pela literatura dita séria, sim, séria, ficcional ou documental pouco importa. qualquer posto servia: pivot de telejornal, jornalista de fundo ou comentador. já cá temos um dan brown português que invadiu o mercado norte-americano e se não vendeu está ou esteve para vender os direitos da sua obra para o cinema. já cá temos um outro que escreveu romances policiais (?) ditos seríssimos e argumentos para o belo mundo do cinema português. já cá temos biógrafos de mourinhos, de camachos e o canastro, bem entendido. já cá temos literatura documental para dar e vender e para juiz de instrução, ou não, ler. temos livros seríssimos sobre a casa pia, os partidos, a maddie e sabe-se lá mais o quê. pois, portanto, vamos lá a ver. és jornalista e queres abrir horizontes. eh, pá, escreve um livro. tudo podes. tu consegues. já escreves todos os dias, não é ? então, será canja. mais a mais existem peças jornalísticas que são verdadeira sobras literárias, não é ? então por que esperas ? e então impulsionado pelo céu ou pela terra, o jornalista começa a escrever romances. novelas. biografias. só não escreve dicionários porque ainda não se lembrou. no molho tipográfico deste mundo o jornalista vende. e vende porque o povo compra. porque o povo, e aqui não há volta a dar-lhe, conhece o jornalista e acha que quem escreve, escreve. pois, bem entendido. a bem dizer, compra ainda mais porque conhece a efígie do jornalista. entra-lhe todos os dias pela casa adentro. e depois é ver finalmente o povo a ler o jornalista no metro, sim, finalmente no metro, como em paris, londres, ou nova iorque. e aqui, neste preciso momento, a modernidade avança. então quando vier o tvg é que se vai ler ! talvez o povo pense que o jornalista não deveria escrever um calhamaço pois é muito incómodo ler um calhamaço no metro em hora de ponta. ou talvez o povo pense que quantas mais páginas e folhas tiver o dito cujo, mais importante, sério, inteligente e adjectivante é o jornalista. e , por extensão, o leitor. o jornalista, em última instância, instruído pelo sucesso da sua obra prima vê-se a si próprio como um escritor. sim, um escritor ! e logo quer entrar nos clubes, nas confrarias, nos círculos dos outros escritores que só são escritores e nunca foram jornalistas. e pensa: vendo, logo imito ! mas não é que depois a figura do crítico lhe urina para cima, a bem dizer, porque os dados históricos que utilizou estão errados e ou o ignora ou diz mal dele num pasquim ou suplemento de pasquim com crítica literária especializada ou dita especializa ? como pode ser? quem são esses malandros? vendo, imito e dizem mal de mim. se não vendesse e não imitasse talvez o caso mudasse de figura. mas não. ai não, não! ser um kafka, um bulgakov, um jorge de sena, um desses desgraçados que nunca teve um banho de multidão na vida ? ai, isso não ! escrevo, logo ganho! esse é que é o lema. qual imitar qual quê ! já sabem de quem é que eu estou a falar, já dizia o outro. tudo isto a propósito de mais uma reportagem que assina e assinala a desgraça e o génio incompreendido do senhor miguel sousa tavares e da sua caminhada pelas hordes literárias portuguesas adversas. haja pudor, meu caro miguel ! haja pudor ! um pintor pinta toda uma vida para ser pintor. um escritor escreve toda a vida para ser escritor. um escultor esculpe toda a vida para ser escultor. mas isso não é nada. o senhor miguel acha que o leitor é que manda, as vendas é que o provam e a partir daí é entrarno túnel da luz (perceberam?) e ser aplaudido em surdina como génio literário. o crítico e o literato que se danem. pois. se um dia um pintor de paredes começar a  fazer debuxos antes das demãos e um estucador se lembrar de começar a utilizar mármores temos produção artística para dar e vender. qual miguel ângelo qual quê ! o meu filho desenha e pinta melhor que o miró, pá!

ass: anarquista duval

post scriptum: o referido autor deste texto acrítico até gosta que o miguel sousa tavares e os outros que tais vendam muito. pois deste modo as editoras podem perder dinheiro com os escritores menores que editam a fundo perdido, só para compôr os catálogos das ditas cujas com nomes que vendem muito pouco e que já estão todos mortos ! … e não estámos a falar do sarabago ou do entunes que ainda estão vivos, bem entendido !

POEMAS DO SER E NÃO SER

Delicadamente

ela abriu a blusa e levantou os olhos decidida.

Era uma mulher de guerra combatida

daquelas cuja face conta a história.

Mansamente

baixou a medo as alças do soutien

inclinou a cabeça

e fechou os olhos à espera da minha mão.

Depois comemos pão de centeio molhado num gole de azeite

bebemos um capitoso vinho

e fomos à procura de uma paisagem com cegonhas.

 

                         (adão cruz)

(adão cruz)

Antologia de pequenos contos insólitos: Mário Henrique-Leiria

Hoje apresentamos Mário-Henrique Leiria e alguns contos de três dos seus livros «Contos do Gin-Tonic» (1973),a sua obra mais conhecida, «Novos Contos do Gin»(1974) e «Casos de Direito Galático» (1975). Mário-Henrique Leiria nasceu em Lisboa em 1923 e morreu em Cascais em 1980. Ligado ao movimento surrealista, chegou ao grande público através da frequente declamação que, na televisão, o actor Mário Viegas fazia dos seus textos. Começamos com um conto do seu último livro, «Casos de Direito Galático».
mário
Ilustração de Cruzeiro Seixas para a capa do livro «Casos de Direito Galático».
CASO 37 007 339 – 3º VIII
Sector de Rigel
(Crostol contra Pul-Tra)
Pul-Tra, rastejador polipoide de Algol-7, caixeiro viajante de máquinas de solidão, ao desembarcar no porto estelar de Troikalan em actividade profissional, foi abordado no bar do dito astroporto por Crostol, indivíduo insecto-voador, indígena do planeta, que delicadamente o convidou a tomar um recipiente de «Grum-Kvas VOP» como símbolo de boas vindas.
Pul-Tra, com dois tentáculos e extremo cuidado, pegou no insecto indígena e, em gesto ritual, arrancou-lhe cerimoniosamente os órgãos visuais.
Dado este acontecimento, foi detido para averiguações por um membro do Departamento Gravito-Sentencioso que gravitava de serviço no astroporto.
A queixa foi imediatamente apresentada por Brastol, membro do grupo reprodutivo de Crostol (5º sexo), baseada na alegação de destruição desnecessária praticada na pessoa de um indivíduo do citado grupo.
Processando-se em seguida a análise de Conjuntos, Circunstâncias e Condições, alegou a defesa que Pul-Tra, como todos os naturais de Algol-7, era de condição pacífica, sempre pronto a retribuir qualquer delicadeza recebida.
Dado que, por contingência psico-somática, todos os naturais dessa região prezam e consideram como o maior bem a solidão e a contemplação interna (zan-zan-dag), Pul-Tra, ele mesmo vendedor das mais requintadas máquinas de solidão produzidas pela sua raça, devolvera no melhor estilo a amabilidade de Crostol, libertando-o dos órgãos visuais e, assim, da presença de imagens externas inoportunas.
A acusação (Ministério Público – Comarca de Troikalan) no entanto, não aceitou esta argumentação, considerando que, como é sabido, os órgãos visuais dos indígenas de Troikalan são o elemento sustentador do equilíbrio sexual (5º sexo) dos grupos reprodutivos e a destruição desnecessária dos mesmos pode pôr em grave risco a imprescindível polinização das fecundações de grupo. A ignorância deste facto, disse, não pode de forma alguma servir como argumento para a absolvição do rastejador polipoide Pul-Tra, de Algol-7. Como fez notar, há outras maneiras de ser agradecido além de «andar por aí a vazar olhos» (sic).
A sentença (Sector de Rigel – Comarca de Troikalan) foi benigna, considerando como circunstância atenuante a boa-fé com que o acto fora praticado, embora a acusação tivesse protestado energicamente.
Pul-Tra foi sentenciado a suportar luz nos olhos directa e ininterruptamente durante 37 rotações algolianas (factor + 7), com pena suspensa por 3 ciclos de Rigel. Ao grupo reprodutivo de Crostol foram concedidos dois binóculos reprodutores extra e, como indemnização simbólica, a posse temporária, durante a pena suspensa, do apêndice caudo-solitário de Pul-Tra.
Pergunta-se aos estudantes atentos: foi a sentença coerente com os trâmites planetários em vigor (Sector de Rigel) ou houve abuso de poder?
(Casos de Direito Galático)
Torah
Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima acenou a Moisés.
Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente. Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro. No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.
Olhou em volta, viu o seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:
– Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já.
Alguns foram.
Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.
Depois disso, é o que se vê.
(Contos do Gin-Tonic)
Bus stop
Deu uma corrida rápida e saltou para o autocarro no momento exacto em que a porta começava a fechar-se.
Sentiu a pancada atrás de si e ouviu a campainha.
O autocarro arrancou, talvez com violência excessiva. Agarrou-se ao varão metálico e respirou fundo, para aliviar o cansaço vindo da corrida inesperada.
Procurou as moedas necessárias no bolso das calças e entregou-as ao cobrador, ao passar o torniquete. Deu uns passos pelo corredor central, deteve-se, deitou a mão à argola que lhe pendia por cima da cabeça para garantir o equilíbrio e olhou em volta. Nenhum lugar sentado.
Baixou os olhos. No chão parecia que alguém havia pisado flores e deixado uma pasta esmagada, viscosa, com vestígios de vermelho e amarelo. Escorregava, quando lhe passou com o pé por cima. Afastou-se um poco e mudou a mão para a argola da frente.
Os passageiros liam ou olhavam pela janela. Num silêncio pouco vulgar. Lá, no lado de fora do banco do fundo e com uma perna meio estendida para o corredor, um velho de longa barba ainda quase ruiva e um boné gasto de pala amachucada olhava para ele fixamente, impassível. Desviou os olhos com uma sensação de súbito desconforto que não conseguiu compreender.
Pela janela reparou que estava na Avenida da Liberdade. Do lado de lá dos vidros as pessoas moviam-se pelos passeios e os carros deslizavam num ruído que lhe chegava abafado. As casas, as árvores e o tempo iam ficando para trás.
Começou a admirar-se. Não havia paragens. Ninguém saía nem entrava. No entanto, como o autocarro ia realmente cheio, talvez fosse assim mesmo. Andam sempre a mudar os regulamentos, não há nada a fazer.
O autocarro dobrou a esquina e entrou por uma rua estreita, empedrada, escura. Que era aquilo? De um lado e doutro pequenos prédios de tijolo avermelhado, sujo, perfilavam-se, monótonos. As pessoas na rua eram poucas e pareciam caminhar com extrema cautela. Nenhum carro. Apenas o som insistente do motor do autocarro.
Sentiu-se inquieto. Desviou os olhos da rua. Um ressalto dos pneus fê-lo procurar o equilíbrio apoiando-se levemente com a mão esquerda, no ombro da menina que, no banco ao lado, lia uma revista muito colorida. A menina ergueu os olhos. Tristes. Uns cabelos exactamente negros e longos ladeavam-lhe o pequeno sorriso só esboçado. Baixou a cabeça e retomou a leitura da revista colorida.
Retirou a mão numa desculpa silenciosa e ficou ainda a olhar os cabelos negros que desciam sobre os ombros e tornavam a esconder o rosto da menina.
Depois, de novo inquieto, voltou a observar a rua.
Teve uma sensação repousante de alívio. O autocarro acabava de entrar na Avenida da República. Mas que volta aquela!
Olhou o relógio. Tinha 17 minutos para apanhar o comboio. Era pouco. Com aquele caminho disparatado ia com certeza perdê-lo. E ter que esperar meia hora pelo outro. Que chatice, o trânsito.
O autocarro travou chiando, para deixar passar um grupo que, com uniforme leopardo e olhando correctamente em frente, atravessava a praça.
Aproveitou para admirar mais uma vez o Monumento. Realmente era bonito. Sempre apreciara a escultura. Devia ter dado um trabalhão dos diabos, o Monumento.
Num solavanco sem aviso o autocarro seguiu.
O ruído da Avenida deixou de se ouvir e apenas restou o silêncio interior, com o ciciar discreto de alguém que virava a página.
Lá fora, passad
a
a praça, o campo estendia-se, o sol poente a desenhá-lo com nitidez e alguma melancolia.
Começou a fixar a janela quase obsessivamente. Viu as vacas que pastavam, as casas pequenas e distantes e até lhe pareceu ouvir um sino a badalar.
Não se conteve. Assim ia perder todos os comboios.
Largou a argola em que se pendurava e, com passos de marinheiro em autocarro, chegou junto do condutor.
– Mudaram o percurso? – interrogou quase agressivo.
O condutor não virou a cabeça. Continuou a olhar em frente, para a estrada que surgia, recta. Disse só:
– Não.
O autocarro acelerou um pouco.
Voltou para a sua argola e pendurou-se de novo.
No banco da frente, uma criança, ao colo da mulher forte de cabeça inclinada, virou-se para ele e ergueu um braço pequenino, num gesto mais pequeno ainda. E inútil.
Sempre preocupado com o comboio, ficou a olhar e a tentar compreender o que acontecia lá fora.
Passado o último renque de árvores, o autocarro entrou de novo na Avenida.
Respirou fundo. Talvez ainda chegasse a tempo.
Mas não conseguia saber onde se encontrava. Uma Avenida muito longa e larga sem nome conhecido, com prédios excessivamente altos de um lado e de outro. Rigorosamente iguais até ao fim.
Uma avenida. Vazia. Sem carros. Sem gente. Sem árvores.
Desistiu.
Passou algum tempo, no silêncio que o envolvia, sempre pendurado na argola e olhando inutilmente a mancha das flores esmagadas que marcava o chão.
O autocarro estacou de repente.
Balançou, desequilibrado, mas logo recuperou o equilíbrio e avançou para a porta que se abria, automática,
Foi o primeiro a saltar. Olhou em volta.
Uma estrada asfaltada prolongava-se até à entrada distante do que lhe pareceu, dali, ser uma quinta com um portão largo.
De cada lado surgiram-lhe dois homens altos e calados, uniformes negros e pequena metralhadora em bandoleira.
Seguraram-no. Um pelo cotovelo esquerdo, o outro pelo cotovelo direito. Começaram a andar. Os três. Em silêncio.
Sentiu passos atrás de si. Muitos.
Ao aproximar-se, o portão tornou-se-lhe mais nítido. Era bastante largo r gradeado.
Então, quando a distância lho permitiu, leu em letras metálicas numa faixa ondulante por cima da entrada
ARBEIT MACHT FREI
Realmente não se preocupou muito. Nem sequer sabia alemão.
(Novos Contos do Gin)

Vejam e ouçam agora Rifão quotidiano, outro dos «Novos Contos do Gin», dito pelo inesquecível Mário Viegas.

AO POEMA ECOLOGISTA AVENTADO POR CARLOS LOURES

Em momento de revolta escrevi o que se segue. Não leves a sério, Carlos Loures.

O POETA É UMA MERDA

Magnífica surpresa nesta saga de poetas
para as cinzas nocturnas!
Serena ode à quietude universal!
Ali na esquina com fumo branco
habemus paxem.
Na deserta anatomia do silêncio
onde outrora a poesia já morou
grita a verdade bem alto.
Pedaço de vida fumegante
e a grossa lista das páginas em silêncio.
Talvez o nosso nome esteja lá
para embrulhar a consciência adormecida
em dez minutos de paz e de vida.
Lida a vida a vida inteira
este atalho de fim de mundo nada encurta e tudo alonga.
Verdadeiro a correr e a cantar
esgueirando pela rua a frágil seara do corpo
só o paraplégico
fazendo cavalo na cadeira de rodas.
Verdadeiro apenas aquele gajo sujo
colado á soleira numa caixa de cartão
mostrando os dentes que não tem
em arremedo de sorriso que não se abre.

Por isso o poeta é um falso
nem sequer é um fingidor.
O poeta é uma merda.
Cada vez mais me enojam os poetas
na sua ambiguidade de tempo e espaço
no vazio da sua mentirosa e teatral ausência.
Abrandado o tempo na escassez da vida
nem da vida o poeta se dá conta.
O poeta é um cego com ares de quem tudo vê.
O poeta é ridículo.
Inventa céus que não existem
engolindo patéticos peregrinos nos buracos negros das palavras.
Diz aquilo que ninguém entende para mostrar o que não sabe.
Fecha os versos no escuro como se branca fosse a noite inteira.
O poeta finge
O poeta mente
O poeta não vê
que á volta do fumo se juntam quatro caminhos
ainda que nenhum deles tenha princípio ou fim.
E um atalho de fé sem madrugada
sobre as areias movediças da maldição
onde se afogam a mente e a razão.
O poeta não passa de um dilema
perdido entre o silêncio e a palavra.
Por mais agudo que seja o grito da verdade
Não há verdade na essência do poema.

Adão Cruz

Poemas com história: Poema ecologista

Era com um longo Poema ecologista (podendo também servir de prefácio) que abria uma colectânea de poemas que publiquei em 1990 – O Cárcere e o Prado Luminoso. Na altura estava envolvido num projecto cuja direcção científica era conduzida pelo Professor Luís de Albuquerque, professor catedrático da Universidade de Coimbra, doutor honoris causa pela de Lisboa, figura cimeira na investigação histórica do período dos Descobrimentos, enfim, um grande intelectual, um cidadão exemplar e um homem bom. Foram alguns anos de convívio intenso, travámos uma grande amizade e, naturalmente, quando publiquei o livrinho, ofereci-lhe um exemplar. Pois Luís de Albuquerque escreveu uma réplica a este poema que hoje vos apresento. Guardo ciosamente o original escrito pelo punho do Professor e hoje compartilho convosco a leitura desse texto. Luís de Albuquerque, em plena actividade, presidindo à Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos, foi ceifado por um acidente cardiovascular e faleceu em Janeiro de 1992. Aqui vos deixo a parte inicial do meu poema e, em baixo, o valioso «contraditório» de Luís de Albuquerque.

Poema ecologista

Vítima de uma certa e cruel
forma de poluição,
de um desgaste acelerado
dos meios naturais,
tal como o bisonte, o castor,
o lince, a cabra selvagem,
o poeta é hoje
um bicho ameaçado de extinção.
A destruição indiscriminada
de elementos essenciais
ao equilíbrio da vida,
a água contaminada, a voragem
que destrói a floresta,
a natureza consumida,
põem em perigo
a existência de muitos animais.
O poeta não se extingue porém
com a dramática violência
da baleia: a fúria utilitária
que se apossou das sociedades,
a súbita transformação
dos cafés em bancos comerciais,
roubaram-lhe o habitat
e ameaçam-lhe a sobrevivência.
Não flutua morto como o peixe
na albufeira da barragem,
entre o pneu velho, o preservativo,
a embalagem perdida,
as garrafas de plástico,
os detritos industriais:
não obedecendo já ao mote,
busca o spot, a «mensagem»
que ajude o pesticida
a matar o peixe e a vender mais
a margarina,
a «promover» o cancerígeno sumo:
aparece uma manhã a boiar
na secretária da agência,
morto heroicamente
ao serviço do consumo.

Não meu Amigo

O poeta não está em vias de extinção.
O lince, o castor, a foca, o homem
não vão resistir
ao fumo fétido das celuloses
suecas,
aos rios contaminados dos detritos das celuloses
suecas,
aos verdes plásticos
que alastram por prados artificiais,
ao crude.
que faz todo o mar negro, negro.
Mas salvam-se as cabras de Cabo Verde
que se riem dos plásticos
e comem-nos.
E com elas salvam-se os poetas
que sabem viver a angústia
de não haver mais amigos nos cafés, nos jardins, na noite,
e são capazes de fazer poemas de tudo,
mesmo dos plásticos.
E a poesia, meu amigo,
não é nada um péssimo produto;
é o único produto
que anda por aí
e não se adultera.
Para a poesia não é necessária a inspecção,
nem a defesa do consumidor.
Cada um consome a poesia que quer
e se ninguém a quer
a poesia morre e não deixa despojos deletérios.
Por isso,
Os poetas não são bichos em extinção
enquanto a poesia circular,
mesmo que seja em meios pútridos,
enquanto houver alguém que a sorva
como sorve o ar ignorado
de cada manhã irrepetível.

Luís de Albuquerque
1990.04.05

albuquerque

O mistério básico do capitalismo

Van-Eyck-Arnolfini

O mistério básico
do capitalismo: como uma coroa, permanecendo imóvel

durante um certo período de tempo, faz nascer dez cêntimos
ao seu lado – por exemplo: Tu pões

como diz o anúncio
20.000 coroas numa conta de alta rentabilidade

num dos nossos grandes bancos. Passados seis anos
podes ir a esse banco e receber

35.532 coroas. Agora a questão é: A quem
tiraram as 15.532 coroas?

Jan Erik Vold

(versão de LP, a partir da tradução para castelhano de Francisco J. Uriz reproduzida em El poema nos recuerda el mundo, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2000, p. 104).

Além do poema em si, serve a sua publicação no Aventar para uma notificação a quem gosta de poesia: fica condenado a visitar regularmente Do Trapézio Sem Rede – poesia passada para português, sob pena de ser declarado mentiroso.

Os que não gostam de poesia devem fazer o mesmo com fundadas esperanças numa melhoria do seu estado de saúde.

POEMAS ESTORICÔNTICOS

O Paquete

O Paquete entrou ontem
no serviço de urgência
inchado como um tonel
tenso como um balão
a que só falta o alfinete para estoirar.
Fígado
pulmões
ventre de pandeiro
tudo está encharcado como uma esponja
por um coração entupido.
Sem ar
como se morresse afogado
ou dentro da linguagem médica
como peixe fora d’água.
Insuficiência cardíaca grave
Insuficiência cardíaca descompensada
anasarca…
os vários termos
para rotular o sofrimento atroz
de um jovem sem culpa
igual a tantos outros que jogam ténis.
Socorrido na primeira fase de compensação
e um tanto aliviado
é internado para estudo.
Hoje de manhã
veio fazer um ecocardiograma.
O Paquete tem vinte e seis anos
e uma cara aciganada
morena de si e roxa da cianose.
Começou a trabalhar como moço de trolha
aos treze anos
vergado ao peso da tábua e do balde.
À força de cachaços
lá se erguia
quando aninhava com o abafa.
Nunca alguém o levara ao médico.
Não tive coragem de colher a sua história
antes desta idade
a história da sua infância.
A meio do exame diz-me o Paquete
a medo e quase em segredo
Sr. Doutor
estou à rasca para mijar
deixe-me ir mijar
pelas almas.
No meio de tais máquinas
perante aquela gente de bata branca
que ele nunca vira mais gorda
o sofrimento da sua vida levava-o a pensar
que pedir para mijar era quase um crime.
O Paquete tem uma gravíssima estenose mitral
com severa insuficiência mitral e tricúspide
e um coração do tamanho de uma melancia.
Está numa fase inoperável
a rebentar pelas costuras.
Se operado fosse
tudo não passaria de remendo
em calças a desfazer-se.
Sem a mínima ideia do que se passa
ele submete-se
humilde
desconfiado
medroso
como sempre aconteceu em toda a sua vida.
Tem medo que lhe ponham a tábua à cabeça
ou o balde na mão.
E com aquela falta de ar!
Ele que sempre pediu
para o deixarem respirar um pouco
antes do peso de outra tábua e de outro balde.
O Paquete nunca fora ao médico
e nunca ninguém lhe dera a mão para se erguer.
Todos lhe esfacelaram o coração e a vida
até rebentar!
Pobre Paquete!
Pobre barco tão frágil!
Com as lágrimas nos olhos
saí do hospital.
e escrevi esta história de hoje
de há séculos.
Escrevo-a em especial para os meninos e jovens
que brincam
que jogam
que sonham
e que vão ao médico.

                        (adão cruz)

(adão cruz)

A máquina do tempo: apresentação

«A máquina do tempo» porquê? Porque entrando nela, posso ir até ao passado, regressar ao futuro, revisitar o presente. Porém, antes de mais, é de toda a justiça e gratidão começar por falar no dono do título (surripiado como vai sendo meu hábito). Herbert George Wells, nasceu em 1866 em Bromley, Inglaterra, e morreu em 1946, em Londres. «The Time Machine», publicado em 1895, foi um dos seus primeiros romances e um dos seus maiores êxitos. Mas teve outros, como por exemplo «The Invisible Man» (1897). De 1898 é «The War of the Worlds», a famosa «Guerra dos Mundos» que, pela mão de Orson Welles, que a transformou em peça radiofónica, pôs em 1938, a América em pânico, pensando que os marcianos estavam a invadir a Terra (hei-de contar esta história). Ideia que o Mário-Henrique Leiria, o António José Forte e outros manos do Gelo aproveitaram para a sua «Operação Papagaio». Como muitos sabem, a história original conta como «o viajante no tempo» (the Time Traveller) inventa uma máquina capaz de se mover também na quarta dimensão. E lá vai ele parar, nem mais nem menos, do que ao ano 802 701 a um mundo estranho, uma espécie de Eden, mas com um inconveniente – os Elois, uma raça de gente boa e vegetariana, serve de alimento aos malvados Morlocks, carnívoros o mais possível (que se escondem em subterrâneos). Ora bem. H.G. Wells, se bem que jovem escritor estreante, era tudo menos inocente – a época vitoriana em que o livro é escrito era fértil em «elois», que trabalhavam literalmente como escravos a partir dos cinco anos de idade, para alimentar os «morlocks» que se pavoneavam por Londres e não só, porque a desenfreada exploração a que a Revolução Industrial deu lugar, foi o «caldo de civilização» em que Karl Marx, de colaboração com Engels, escreveu em 1848 o seu «Manifesto Comunista», tal era a densidade da injustiça social vivida na Europa. Mas Wells escusava de ter ido tão longe no tempo – andando pouco mais de um século para a frente, encontraria, sem se mover no espaço, morlocks e elois, ali mesmo em Londres. Se quisesse deslocar-se um pouco para Sul, sobretudo se viesse durante a primeira década do século XXI, encontraria por aqui exemplares bastante interessantes dessas duas espécies de humanóides.
*
A minha máquina funciona a baterias alimentadas pela memória e pela imaginação. Memória de livros lidos, de filmes vistos, de factos vividos; imaginação de conjecturas feita. Muitas vezes, misturando umas coisas com as outras e unindo-as com a argamassa de alguma fantasia. Passado, futuro, presente, tudo misturado. Um exemplo – num dos primeiros posts falarei da evolução da língua galega e da recente criação da Academia Galega da Língua Portuguesa, ou seja de uma projecção do passado no presente. Também especularei sobre o que vai ser da televisão no futuro próximo – como já devem ter reparado, a televisão é uma espécie de obsessão que me ficou desde, quando, há muito tempo, trabalhei na RTP. Falarei também sobre o marketing do livro (outra obsessão), mas desta vez na Roma do século I da nossa era. Dedicarei uma crónica à história da minha rua (mas, desta vez, sem roubar o título ao Mário Zambujal). Viajaremos até ao dia de Outubro de 1936 em que Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, proferiu a sua lição magistral e visitaremos Antonio Machado, o autor do verso «o caminho faz-se caminhando». Regressaremos ao drama do Chile, em Setembro de 1973. Daremos os parabéns a Óscar Lopes, um homem do futuro que, felizmente, vive entre nós. Veremos como eram brandos os costumes na PIDE e lembraremos, noutro post, alguns marcos da luta armada, civil e militar, contra o regime salazarista. Enfim, prometo-vos algumas dezenas de viagens. Prometimento que espero poder cumprir (e talvez cumpra mesmo, pois não sou político).
Para finalizar por hoje, ouçam esta descrição de uma ida ao futuro feita por quem a fez: «O Futuro é tão antigo como o Passado. E ao caminharmos para o Futuro é o Passado que conquistamos», disse António Maria Lisboa (1928-1953), o grande poeta surrealista que morreu com 25 anos, louco e tuberculoso. Porém, digo eu, sabendo como gostaria que fosse o Futuro, ignoro totalmente como irá ser. O Presente, salvo excepções raríssimas, é mesquinho. Não me apetece muito falar destas coisas, da gente da política. Serão talvez pessoas, mas não são personalidades e, muito menos, personagens. Falar deles é dar-lhes uma espessura que não têm nem merecem ter. Não sei o que dizer mais sobre isto que estamos a viver. No Passado, que envolve algumas décadas vividas por mim, procurando bem, como quem anda no sótão das arrumações, lá vou encontrando factos, personalidades e personagens, ou seja, gente de que merece a pena falar (coisas que não deitei fora, está a ver Carla?). Por isso talvez viaje mais até ao passado, não por ser passadista, mas pela razão aventada pelo António Maria Lisboa. Pondo-a do avesso, fica assim: – «o Passado é tão novo como o Futuro. E ao caminharmos para o Passado é o Futuro que conquistamos» – ou que, neste caso, compreendemos. De acordo? Não? Não faz mal – porque o mesmo poeta também dizia «que tudo é e não é alternadamente». O que, a ser verdade – e é – pode ser utilizado como saída de emergência para qualquer situação – TUDO É E NÃO É ALTERNADAMENTE! – já viram?. Numa máquina do tempo, esta frase dá muito jeito, pois funciona como uma espécie de assento ejectável.

POEMAS DO SER E NÃO SER

Senta-te e lê com calma.
Enquanto lês
deixa pousar nos lábios
o tal beijo pequenino.
A partir de hoje
somos donos de um segredo bonito.
Se algum dia
a chama-menina crescer
ao sopro de um vento suave
diz-me
que eu saberei dar-lhe o tamanho
da chama que acendi.
Tu não és vulgar.
Na tua cabeça e no teu peito bonito
há imensas flores brancas
adormecidas
tu não és de letras nem de artes
és de asas que anseiam por abrir-se
não de asas que rastejam por aí
tu és simples
feita de natureza e ternura
leve como a brisa da manhã
és uma flor que nasceu ao calhas
no meio da erva seca
e precisa de ser regada
com água pura e cristalina.
Só eu sei tratar de flores assim
por isso me deixei envolver
no teu perfume de terra molhada.
Contigo sonhei
Tudo te ensinei
levei-te a Roma a comprar lindos vestidos
fizemos amor
numa noite prenhe de luar.

                            (adão cruz)

(adão cruz)

COMO SE FORA UM CONTO – A Madrinha Noémia e o Padrinho Careca

A MADRINHA NOÉMIA E O PADRINHO CARECA

É domingo, princípio da tarde. Está calor. A rua está quase vazia. Alguns metros à minha frente, um casal passeia vagarosamente. No outro passeio, duas mulheres conversam calmamente. Dois carros passam por mim, lentamente. Ao domingo ninguém tem pressa. Excepto eu que vou com um andar ligeiro. Melhor, vou apressado. O passo estugado, marcial. Tenho de ir visitar uma pessoa que se encontra adoentada, o que faço quinzenalmente. Prometi-lhe que chegaria por volta das três, e já só faltam cinco minutos. Quase lá, abrando o andamento. Faço-o sempre. Aquela janela fascina-me. Ainda  mais desde que li a crónica “A Dona Olga e eu” de Lobo Antunes, que, confesso, me inspirou.

Aquela casa faz-me reviver o passado. As lembranças de hoje levam-me para mais de trinta anos de distância.

Passo à porta daquela casa, de quinze em quinze dias. Sempre ao domingo, sempre à tarde. A porta sempre fechada, a janela sempre entreaberta. Às vezes abrando o passo e quase paro. Num dia entrevi a cama, noutro a cadeira ao lado da cómoda, noutro o guarda vestidos. A cama sempre impecavelmente feita, a cadeira sempre na mesma posição, de esguelha, e a cómoda com inúmeras fotografias emolduradas das quais se destaca, pelo tamanho, a de um homem com óculos de aros redondos, ainda jovem e careca, de fato escuro.

O quarto, sempre o vi vazio. Sem saber porquê, sempre senti que só poderia ser habitado por uma senhora. Tinha mão de mulher por ali. Até que um dia e depois outro e outro, a vi a sair de casa, mesmo à minha frente.

Hoje a janela estava mais uma vez aberta, mas mais aberta que de costume. Pude ver o crussifixo na parede por cima da cama, uma fotografia do mesmo homem em pose diferente na mesinha de cabeceira juntamente com outra em que ele e uma senhora, muito mais novos, seguravam um bébé no colo dela, um genuflexório num canto escondido por baixo de uma Nossa Senhora, e uma porta.

De todas as vezes que por lá passo, naquele rés-do-chão debruçado sobre o passeio, ponho-me a imaginar o que teria sido a vida da dona da casa.

A minha imaginação corre, livre.

Vou chamar-lhe D. Branca.

Só a vi três ou quatro vezes. Muito bem arranjada, lábios pintados de carmim, sapatos com salto pequeno e grosso, saia-casaco escuro, chapéu preto, e um olhar triste.

D. Branca, é pequenina, muito magra e de uma idade já bem avançada. Há muito terá já ultrapassado os oitenta, se calhar até mesmo os noventa. Vive sozinha. O gato que cheguei a ver por lá, uma vez ou outra, já há muito deixei de ver.

Na minha imaginação, por vezes fértil, vejo a senhora, feliz, até à altura em que o marido, funcionário fiscal, morreu, cedo de mais, de uma doença prolongada, e a filha, ainda muito jovem, partiu para terras distantes, para ganhar a vida.

Depois, uma vida recheada de recordações, e de dificuldades que nunca deu a conhecer. Uma vida sozinha e um olhar que a pouco e pouco foi esmorecendo.

O quarto é alugado e tem pela porta que desta vez vi, uma casa de banho e uma cozinha, minúsculas.

Os vizinhos conhecem-na por D. Branquinha. Todos gostam dela e não deve nada na mercearia, no talho ou na farmácia. Só sabem que é viúva de há muitos anos, que é muito calada e discreta, amiga de ajudar toda a gente, e que ninguém a visita.

A par da minha fantasia quinzenal sobre a sua vida passada, D. Branca e a sua casa pequenina, fazem-me lembrar alguma coisa ou alguém, sempre que por lá passo.

Hoje, vá-se lá saber porquê, fizeram-me lembrar a madrinha Noémia e o padrinho careca. Não eram meus padrinhos, mas todos os tratavam assim. Eram tios e padrinhos de muitos familiares e amigos.

Se fossem vivos, ela teria mais de 106 anos e ele seria um pedaço mais velho.

Eram uma presença assídua em casa de meus pais.

A madrinha Noémia, era uma mulher muito bonita, pequenina, de pele muito branca e a tender para o gordochinho.

O padrinho careca, era alto, muito magro, usava óculos de tartaruga redondos, tinha um nariz aquilino, trazia sempre um colete por baixo do casaco, camisa imaculadamente branca, gravata escura e fina e chapéu. Sempre me fez lembrar a figura de Fernando Pessoa. Também gaguejava um pouco.

Ele, que em tempos tinha trabalhado como vendedor de produtos de ourivesaria, tinha feito amizade com o meu avô que na altura trabalhava como ourives. Lá pelos anos vinte do século passado. Uma amizade que perdurou até o último deles morrer. O primeiro foi o padrinho careca, muito perto de mil novecentos e sessenta.

Ela, era vizinha de meu avô. Por lá terá conhecido o que depois foi o seu marido. Casou cedo, não teria mais de dezassete ou dezoito anos. Tiveram um amor lindo, uma vida feliz, de entrega total um ao outro.

Viviam num quarto, o único que lhes conheci, numa rua de um vale lindo. Só mais tarde vim a saber que afinal o andar era todo deles, um rés-do-chão, e que as dificuldades económicas tinham feito com que abdicassem da quase totalidade da casa, para a poderem alugar. No quarto em que viviam, sem janela, havia uma cama, duas mesinhas de cabeceira, uma cadeira e um pequeno psiché. Dois pequenos candeeiros, um de cada lado da cama, e várias fotografias em cima do pequeno toucador. Tinha uma porta para a rua e outra para o resto da casa, onde cozinhavam e usavam o quarto de banho.

Com estas lembranças todas, veio-me à cabeça um remédio, milagroso, que a madrinha Noémia usava para tratar a tosse. Como tínhamos um quintal, ela ia apanhar caracóis, grandes, misturava-os com açucar mascavado, e o sumo que ia escorrendo era filtrado num coador de pano. Depois, fazia-nos beber aquela mixórdia. Era repulsivo, mas eficaz. A tosse passava como que por encanto.

A relação dela com o padrinho careca, era calma, partilhada, feita de cedências totais de parte a parte, e de uma intimidade carinhosa. Era uma amor bonito de se ver e que fazia a inveja (no bom sentido) de muitos. Não tiveram filhos. Tiveram-se um ao outro. Os filhos, eram os sobrinhos, os afilhados e os filhos dos amigos. Pareciam dois passarinhos, aos beijinhos e aos carinhos, com olhares meigos e palavras certas.

Esta relação era transmitida a todos os outros com quem conviviam e por quem tinham uma grande amizade. Estavam sempre disponíveis para ajudar, sempre prontos a colaborar e a serem prestáveis.

Para todos ela era uma segunda mãe. Para todos ela se disponibilizava sempre.

Deles só se pode dizer que eram realmente muito boas pessoas, e um exemplo para qualquer um de nós.

Depois da morte dele, a madrinha sofreu muito a sua ausência, mas foi-a sublimando, cuidando dos amigos e da família.

Quando por fim adoeceu, e depois morreu, já lá vão mais de trinta anos, deixou uma saudade imensa que ainda hoje perdura.

JM

(In O Primeiro de Janeiro, 15-09-2009)


POEMAS ESTORICÔNTICOS

Essa manhã

Mal a luz do dia beliscou a frincha da janela
ele acordou.
Acordou
como sempre
com pedaços do passado agarrados ao pijama
às mãos e aos cabelos
sentou-se na beira da cama
e um sonolento Oh! que merda!
soltou-se da garganta
ainda seca do bagaço da véspera
quando os pés palparam a falta dos chinelos.
Moldou os passos ao chão
de modo a evitar a madeira fria do soalho.
Sobre a cómoda continuava a tristeza
à mistura com águas de colónia de vários tipos.
Abriu um sorriso quando viu no tapete
o artigo que acabara de escrever na véspera
e que o sono fizera escorregar-lhe das mãos.
Dera-lhe o título Orgasmo
inspirado numa dessas tardes
em que o fim do domingo
abre as portas à demência.
A caminho do quarto de banho
ia pensando nas palavras que nada dizem
e na flatulência da comunicação
que o fizera deitar-se tão tarde
e acordar
assim
com a gema de fora.
Sempre nele permanecera uma grande dúvida
quanto à eficácia de debates como o da véspera.
Será que têm algum valor
como profilácticos da deterioração mental
que a idade e os tempos acarretam
ou são
eles próprios
catalisadores dessa mesma deterioração?
Sobretudo se tais debates não passam de confusões
sinfonias de mediocridade e estupidez
discutindo pessoas reles
factos ridículos
ideias banais
estafadas e apodrecidas.
Sobretudo se tais debates
se processam entre corruptos
golpistas e terroristas
que invadem as casas
maquilhados de gente de bem
e cobardemente espantalhados
de homens dignos.
Sempre pensara
que não deve transformar-se em espectáculo
o perigo da lavagem dos rostos
com o sabão da ingenuidade.
A verdade é só uma
e ele não aderia
de ânimo leve
à tese de que cada um teria a sua verdade.
A verdade existe
está lá
está sempre lá
dentro das coordenadas humanas.
Há quem dela se aproxime e quem dela se afaste
mas o único caminho da verdade
é o caminho do entendimento
e não há lucidez que não assente na razão.
Sem deixar de considerar
que a irracionalidade
é o caminho das trevas
cada um tem o direito
de escolher o seu caminho da verdade.
Mas aí tem-se o direito de o julgar pela escolha
se se conhece a formação ou a deformação
a inteligência ou a indigência
a humildade ou a petulância
o rigor ou a confusão
a seriedade ou a manigância.
Grande respeitador do relativo
e da cultura da diferença
considerava-se adversário do consenso
do consenso acima de tudo
que destrói e anula o indivíduo
e da tolerância
tolerância como virtude
que implica sempre
alguém que tolera
e alguém que é tolerado.
Acordou mal disposto
porque não acreditava
na existência de debates fluidos
corajosos e pedagógicos
e
mesmo assim
cedera-lhes parte do seu tempo de sono.
Convidar tanta gente de caras
e tantas caras de gente
fazer cócegas em temas profundos
inacessíveis a mentecaptos
meter num mesmo saco
capazes e incapazes
lúcidos e ineptos
fazer de assuntos sérios estéreis discussões
criar espectáculos de feira
sem receio de sujar a consciência
e ofender a verdade
era mais do que razão
para o incómodo acordar dessa manhã.
Já no café da esquina
deu de caras
com a mulher de longos cabelos negros
rosto comprido
e olhos paradoxalmente achinesados
a quem pedira há cinco anos atrás
para posar para si.
Esguia
quase linear
de uma beleza que parecia desenhada
a sua figura prendia os olhos que nela tocavam.
Sempre que a via
recordava-lhe alguém
e bulia com qualquer coisa dentro dele.
Na mesa do lado
via-se que um outro homem
seguramente um habitante dessas ilhas
que se escondem no ventre da cidade
tentara encontrar uma camisita de riscas verdes
a condizer com o verde das calças.
Se bem que mais escuro
aceitava-se
não era muito boa a combinação
mas percebia-se a ideia.
Já não era de aceitar tão facilmente
aquela senhora vista de trás
relativamente escorreita
blusa da moda e saia quase mini
moldando formas enganadoramente jovens
que o virar da cara logo atraiçoava
ao denunciar as engelhas dos setenta.
Ninguém tem nada com isso
e
se mentalmente o comentava
é porque considerava o sentido do ridículo
irmão gémeo da inteligência.
Uma outra senhora tentava limpar
com um guardanapo de papel
os pingos de baba
que o marido
por força de tentar sorrir
deixava escorrer dos lábios inertes
sobre a gravata cinzenta.
Deve ter sido acometido
de acidente vascular cerebral.
Mesmo hemiplégico
nem por isso deixou de sugerir
com a mão válida
que a mulher esfregasse suavemente
o guardanapo
um pouco abaixo da fivela do cinto
ao que ela acedeu
de maneira afável e sorridente.
Em paga
ele abriu o livro de cheques
e mostrou o que havia por lá.
Ela arregalou os olhos
e inspeccionou-lhe
com falsa displicência
o pavilhão auricular
tentando arrancar-lhe docemente
uns pêlos esbranquiçados e eremitas
que teimaram isolar-se do mundo cabeludo.
Ciente de que a poderosa dinâmica da vida
quer se queira quer não
reside no sexo
não tinha dúvidas em aceitar
que o homem do livro de cheques optaria
– se fosse possível dar-lhe a escolher-
por poder levantar o pénis
em vez da mão paralítica.
Do outro lado
uma mulher cheirava a perfume que tolhia.
Bafejou os óculos
limpou-os a um pequeno lenço
e pô-los em contraluz para ver o resultado
mas os seus olhos
em vez de fitarem o vidro
fizeram esguelha para o companheiro
que tinha na frente o generoso cruzar de pernas
de uma dessas liberais
criadoras de pulsões.
Na televisão
as eméticas telenovelas
e todos os Bancos
caridosamente solidários
a abrirem uma conta
para as vítimas dos incêndios!

                        (adão cruz)

(adão cruz)

O regresso de Jorge de Sena

jorgedesena01m

Não, não, não subscrevo, não assino

que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas – armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos queiram secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del’ falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e á inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do pais no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois quedo lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Africas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocratado oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio o navegante intrépido).
Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa – defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte.
Não é tempo para tratar de poéticas agora.

Jorge de Sena, Fevereiro 1976.

Poemas com história: Canto da cela 10

Em Janeiro de 1965, envolvido na grande vaga de prisões que afectou estudantes e intelectuais das duas organizações clandestinas existentes – o Partido Comunista e a Frente de Acção Popular – fui preso e, antes de ir para a sede da polícia política onde, durante muitos dias, fui interrogado da forma que se sabe ou imagina, estive uns dias encarcerado na cela nº 10 do Aljube, num daqueles desumanos cárceres a que se chamava os «curros», celas estreitas e insalubres onde a luz filtrada através das grades e atravessando o corredor, era a única coisa agradável que acontecia. Quando, três meses depois, fui libertado, a recordação daqueles dias num «curro» do Aljube (que nem foram os piores…), ditou-me este texto que depois publiquei em A Voz e o Sangue. De notar, e não me canso de insistir neste tópico, que a Liberdade que invoco não é esta que vivemos – muito feita de «liberdades» – mas sim aquela que, há mais de 40 anos, eu e muitos sonhávamos alcançar.
Canto da cela 10

Sem título

Este esquife de pedra e de aço em que viajo,
onde navego as horas e as constelações do ódio,
é uma cela imóvel plantada no coração do medo.
Um manto de argamassa e ferro cobre a minha voz.
Não mais a mordaça invisível da falsa liberdade
que ante o Sol floresce impudicamente: agora
a voz abafada por sucessivas grades e paredes,
submersa sob este céu de estuque, sem estrelas;
agora, esta feia gaiola pintada de desespero,
em cujo dorso vai cravada a aranha possessiva
da lâmpada gradeada sempre acesa sobre a porta,
feroz sentinela da noite eterna. E, todavia,
para lá das grades, do corredor, do carcereiro,
a minha face adivinha o hálito fresco da madrugada
e eu navego a madrugada sobre o meu bailique,
sobre este corcel rescendente a suor e a sangue.
Durante as refeições abrem a porta e eu vejo
uma estreita fatia da janela do corredor:
são cinco grades de sé e três de céu
e estes são os melhores momentos do dia.
De pé, como a sopa do estado e olho a catedral –
– tive sorte – fiquei em frente a uma bela rosácea
(o quotidiano de um preso constrói-se
de factos humildes e pequenos).
Na parede cinzenta tatuaram um camelo sem pernas,
Um perfil de mulher com longos cabelos,
Uma estrela, nomes e riscos, muitos riscos,
sulcos no tempo, dias rasgados a golpes de solidão
pelos muitos camaradas que já aqui estiveram
e deixaram a sua passagem impressa nas paredes,
no chão, nas mantas e no ar, neste odor,
escandindo angústia e dolorosa expectativa.

Já não olho a parede – conheço-a de cor –
gasto as horas passeando nestas estreitas tábuas,
quatro metros para lá, quatro metros para cá.
Lá fora
passam eléctricos e os pombos rufam as asas.
………………………………………………………
À noite a prisão é um corpo pétreo, mas que pulsa,
As suas velhas empenas vibram sob os nossos dedos,
levam e trazem palavras fraternas.
Com o amor com que Ísis juntou o corpo de Osíris
disperso ao vento, junto letra a letra
uma mensagem que palpita aos meus ouvidos
– coragem companheiro – coragem companheiro.

Ah Companheiros,
nem a pedra e o aço conseguem esmagar as nossas vozes,
elas virão um dia como um rio impetuoso e forte
rasgar a noite em que as querem aprisionar,
destruir as grades da tirania, a opressão
e a crueldade – tudo isto derrubarão
na corrida para o seu oceano – a Liberdade.

Apontamentos & desapontamentos: A defesa da palavra

Porque escrevemos? Porque usamos a palavra como utensílio de eleição? Eduardo Galeano responde: – «Escrevemos a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar o que dói e partilhar o que dá alegria. Escrevemos contra a própria solidão e contra a solidão dos outros. Supõe-se que a literatura transmite conhecimento e actua sobre a linguagem e o comportamento de quem a recebe; que nos ajuda a conhecermo-nos melhor para nos salvarmos juntos. Mas «os outros» é um termo demasiado vago; e em tempos de crise, tempos de definição, a ambiguidade pode assemelhar-se demasiado com a mentira. Na realidade, escrevemos para pessoas com cuja sorte, ou má sorte, nos sentimos identificados, os mal alimentados, os sem abrigo, os rebeldes e os humilhados desta terra, e a maioria deles não sabe ler. Entre a minoria que sabe, quantos dispõem de dinheiro para comprar livros? Galeano responde: – Resolve-se esta contradição proclamando que escrevemos para essa cómoda abstracção chamada “massas”?»
Eduardo Galeano (Montevideu, 1940), é um escritor e jornalista uruguaio. Autor de mais de 40 obras traduzidas em diversos idiomas, a mais conhecida das quais é «Las venas abiertas de América Latina», 1971 («As Veias abertas da América Latina»,com prefácio de Isabel Allende, edição de Paz e Terra, São Paulo, 2007).Preso em 1973, quando do golpe militar, exilou-se depois na Argentina, de onde, em 1976, com a criminosa ditadura de Videla, teve também de fugir, pois estava nas listas dos esquadrões da morte. Refugiou-se em Espanha, regressando ao Uruguai quando, em 1985, a democracia voltou. No seu livro «Crónicas 1963-1988», publicou o texto «Defensa de la palabra», no qual inspiro a presente crónica – aconselhando vivamente a leitura das obras deste lúcido escritor latino-americano). Este texto mereceria uma análise mais aprofundada, porque referindo-se à América Latina, tem um alcance universal, abordando problemas que afectam e afligem todos os que usam a palavra como arma e como ferramenta de trabalho.
Lançado o tema eterno do abismo que se abre entre o escritor e os destinatários da sua escrita, Galeano aborda a questão da miséria na América Latina, seu tema de eleição, concluindo que os países pobres pagam para que seis por cento da população mundial possa impunemente consumir metade da riqueza que o mundo inteiro gera. Assinala o desenvolvimento de uma indústria restritiva e dependente, assente sobre velhas estruturas agrárias, agudizando as contradições sociais em vez de as atenuar. Referindo-se sempre á sua América Latina (embora, com já disse, os pressupostos que apresenta assumam uma validade universal), pergunta: «por que não reconhecer um certo mérito de sinceridade nas ditaduras que oprimem, hoje em dia, a maioria dos nossos países? A liberdade das empresas implica, em tempo de crise, a prisão das pessoas.» Refere também a desertificação que a miséria provoca no tecido cultural dos países latino-americanos, com a fuga dos cientistas em particular e dos intelectuais em geral, abandonando laboratórios e universidades sem recursos.
Eduardo Galeano passa em revista toda a contradição que resulta do contraste entre a liberdade de expressão dos escritores, que podem dizer o que queiram, e o cárcere de limitações das necessidades mais básicas em que vivem aqueles a quem as suas palavras se destinam. Defende algo que os defensores da pureza da arte, sempre condenaram – a escrita como instrumento. Para esses, o objecto da arte é a própria arte. Mas Galeano termina o seu extenso discurso em defesa da palavra, afirmando que «Lentamente vai ganhando força e forma, na América Latina, uma literatura que não ajuda os outros a dormir e que, pelo contrário, lhes rouba o sono; que não se propõe enterrar os nossos mortos, mas perpetuá-los; que se nega a varrer as cinzas e procura, em contrapartida, acender o fogo. Essa literatura continua e enriquece uma formidável tradição de palavras lutadoras.» Curiosamente, este discurso em louvor da palavra, vem reacender uma controvérsia que, sobretudo nos anos sessenta, fez correr muita tinta – a dicotomia entre a forma e o conteúdo.
Um texto lúcido e escrito numa linguagem límpida e que merece ser lido e estudado com atenção, demonstrando que a palavra não pode estar dissociada da vida. Talvez volte a este tema e a esta preocupação que, afinal, está na base de um poema, com mais de trinta anos, que há semanas atrás aqui publiquei – «Natureza morta» – há discussões que são eternas. Esta é uma delas.

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os últimos anos


Em 1981 volta a ser internado no Curry Cabral e depois no Sanatório do Barro, em Torres Vedras. Requer a pensão de reforma – afinal, apesar do caso da gravata escocesa, do sobretudo involuntariamente emprestado pelo senhor director e da quadrilha dos selos, foi funcionário público. Escreve para o Diário de Lisboa e para o Diário Popular. Os amigos dão apoio económico. Mas o tempo de extrema penúria vai passar. Em 1982 começa a receber a pensão de reforma. Depois é uma bolsa do Ministério da Cultura que lhe é atribuída por mérito cultural. Pacheco conta: «O Alçada Baptista»(…) «encontrou-me um dia na Av. Da República e perguntou-me: “não lhe dava jeito uns sete ou oito contos por mês?”. “Ó doutor, não me diga isso, se fosse um conto ainda acreditava…” Depois vi o decreto e concorri. Tive logo um subsídio de dez contos. Depois, a Maria João Rolo Duarte, a mãe deste Pedro, é que conseguiu que o Santana Lopes, quando era Secretário de Estado da Cultura, me aumentasse o subsídio, que na altura ia nos 60 contos… a Maria João Rolo Duarte sabia que o Cesariny recebia mais do que eu e, numa festa em que encontrou o Santana Lopes, fê-lo prometer que me aumentava o subsídio. Como ela escrevia na Capital, publicou um texto que comprometeu o Santana. Recebi mais 30 contos por mês, passou para 90 contos.» (…)«Gosto do Santana por causa disso. E também porque é um playboy, um gajo dos copos, das discotecas e das putas».
É novamente internado no Sanatório do Barro. Em 1983 é reinternado pela quarta vez no Sanatório do Barro. Em 1984 é internado na Clínica de Pneumologia de Celas com broncopatia obstrutiva e infecção respiratória. É internado no Hospital Psiquiátrico de Júlio de Matos. Em 1985 e 1986 continua a publicar, inéditos e reedições. Em 1988, o Teatro da Cornucópia adapta e leva à cena a Comunidade. Muda-se para Setúbal. Cecília Neto realiza um filme sobre Luiz Pacheco para a RTP-2, adere ao Partido Comunista Português. A este respeito, João Paulo Cotrim, quando o entrevista, pergunta-lhe como é que ele, tendo mantido sempre uma postura anarquista, acaba por se inscrever no PCP, Pacheco responde: «Pois é, mas eu também só entrei para o partido quando me apareceu uma hérnia. Nessa altura, mandei um recado ao José Casanova: “Psst! Quero entrar para o partido como extrema-unção”. Isto não obriga a nada, nem aqui há uma esperança revolucionária. É porque é giro, um gajo morre e vai lá com a bandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a Morais Soares, com eles aos gritos Ary amigo, o Partido está contigo! – e pensei: “Isto é que me convém, porra! Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me deixa aconchegado. Sabe, é que eu sou um gajo muito friorento…».

Conclusão

Muito provavelmente, ele rir-se-ia da afirmação que vou fazer e quase consigo ouvir as suas casquinadas asmáticas acolhendo esta afirmação; em todo o caso, faço-a – ter conhecido e privado com Luiz Pacheco foi um privilégio.
Naquela tarde do princípio de Janeiro de 2008, não devia ter ido, mas fui à Basílica da Estrela, vê-lo pela última vez. Não devia ter ido porque, tal como a maioria das pessoas não gosta de ser apanhada «descomposta», ao Pacheco não agradaria que os amigos o surpreendessem tão composto em «câmara ardente» na Basílica da Estrela, à espera da missa, rezada por iniciativa de uma das filhas, que antecedeu a cremação no cemitério do Alto de São João. Lá estava ele, comprido, bem vestido, penteadinho, hierático. Silencioso como só os mortos sabem ser e estar. Pela primeira vez, o achei sem ideias. Para rematar esta crónica, à falta de melhor, lembro-me da sua resposta quando, numa das entrevistas da fase jubilatória da sua vida, lhe pediram uma mensagem para as novas gerações: «- Puta que os pariu!».