POEMAS ESTORICÔNTICOS

O Paquete

O Paquete entrou ontem
no serviço de urgência
inchado como um tonel
tenso como um balão
a que só falta o alfinete para estoirar.
Fígado
pulmões
ventre de pandeiro
tudo está encharcado como uma esponja
por um coração entupido.
Sem ar
como se morresse afogado
ou dentro da linguagem médica
como peixe fora d’água.
Insuficiência cardíaca grave
Insuficiência cardíaca descompensada
anasarca…
os vários termos
para rotular o sofrimento atroz
de um jovem sem culpa
igual a tantos outros que jogam ténis.
Socorrido na primeira fase de compensação
e um tanto aliviado
é internado para estudo.
Hoje de manhã
veio fazer um ecocardiograma.
O Paquete tem vinte e seis anos
e uma cara aciganada
morena de si e roxa da cianose.
Começou a trabalhar como moço de trolha
aos treze anos
vergado ao peso da tábua e do balde.
À força de cachaços
lá se erguia
quando aninhava com o abafa.
Nunca alguém o levara ao médico.
Não tive coragem de colher a sua história
antes desta idade
a história da sua infância.
A meio do exame diz-me o Paquete
a medo e quase em segredo
Sr. Doutor
estou à rasca para mijar
deixe-me ir mijar
pelas almas.
No meio de tais máquinas
perante aquela gente de bata branca
que ele nunca vira mais gorda
o sofrimento da sua vida levava-o a pensar
que pedir para mijar era quase um crime.
O Paquete tem uma gravíssima estenose mitral
com severa insuficiência mitral e tricúspide
e um coração do tamanho de uma melancia.
Está numa fase inoperável
a rebentar pelas costuras.
Se operado fosse
tudo não passaria de remendo
em calças a desfazer-se.
Sem a mínima ideia do que se passa
ele submete-se
humilde
desconfiado
medroso
como sempre aconteceu em toda a sua vida.
Tem medo que lhe ponham a tábua à cabeça
ou o balde na mão.
E com aquela falta de ar!
Ele que sempre pediu
para o deixarem respirar um pouco
antes do peso de outra tábua e de outro balde.
O Paquete nunca fora ao médico
e nunca ninguém lhe dera a mão para se erguer.
Todos lhe esfacelaram o coração e a vida
até rebentar!
Pobre Paquete!
Pobre barco tão frágil!
Com as lágrimas nos olhos
saí do hospital.
e escrevi esta história de hoje
de há séculos.
Escrevo-a em especial para os meninos e jovens
que brincam
que jogam
que sonham
e que vão ao médico.

                        (adão cruz)

(adão cruz)

Comments

  1. Belina Moura says:

    Tenho estado hoje a ler os teus poemas, nunca me tinha dado para tal. Aliás nem sabia que escrevias poemas, poucas vezes venho ao blogue e ultimamente ainda menos. E se me chamáste á atenção foi por te teres defendido tão acerrimamente quando te chamei prepotente. Gosto quando me dão a resposta devida, faz-me sentir que não sou indiferente à turba.E tenho de te dar os parabéns, gosto imenso das tua veia poética, e não mando recados por ninguém, digo-to a ti e agora.Os teus quadros são também divinais, por favor convida-me quando for a tua próxima exposição, gostaria de os ver numa galeria. Sou sempre a favor do tête-à-tête.


  2. Comovente, de tão pungentemente verdadeiro, o poema sobre o Paquete. As pessoas como o Paquete (e tantas são elas!) são libelos acusatórioscontra todo um sistema. Há pessoas, relativamente às quais tudo falha – da família à estrutura social – delas se diz que «não têm sorte», como se a vida dos seres humanos pudesse estar sujeita a uma lotaria. Ter sensibilidade é uma maldição que nos persegue. Um grande abraço.

  3. Adão Cruz says:

    Cara BelinaMuito grato pelas tuas palavras. Quanto à esposição não sei quando será, dado que a última que fiz foi em Maio passado. Podes, no entanto espreitar em http://adaocruz.artelista.com Om abraço do amigo Adão

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