Poemas com História: Ode a Jean de La Fontaine, podendo também passar por uma autocrítica

a
A história deste poema (que nunca foi publicado) é curta. Foi escrito durante o PREC (acho que se nota) e era cantado pelo meu amigo Aristides. Nele me penitenciava por, muitas vezes e particularmente nesse período atribulado, utilizar nomes de animais no sentido pejorativo. O meu amigo, Professor Germano Sacarrão, grande zoólogo e ecologista, bem me dizia que os animais não são bons nem maus, limitando-se a lutar pela sobrevivência. Mas quem, naqueles dias de brasa, resistia à tentação de chamar «chacal», «tubarão», «abutre» aos que exploravam (e exploram) quem trabalha? O Aristides, também conhecido por «Passarinho», nas cooperativas, fábricas, escolas, onde cantava punha a assistência a gritar repetidamente os últimos versos – era um sucesso. Dizia assim:

Os abutres, as hienas,
os tubarões, os chacais
são apenas animais
que lutam para viver.
Chamar abutre ou hiena,
tubarão, lobo ou chacal
a um grande industrial
ou importante banqueiro,
é abuso de linguagem
e ainda para mais
é o erro cometer
de insultar animais
cujo crime é a coragem
de querer sobreviver.

Mister multinacional
não é abutre, nem hiena,
nem tubarão, nem chacal –
não há nada que não venda,
que não importe ou exporte,
come com os dentes da fome
que devora milhões de homens,
vive com as garras da morte
que ceifa vidas à toa.

Mister multinacional
não é abutre, nem hiena,
nem tubarão, nem chacal.
A quem come carne humana
e converte a morte em ouro,
a vida em mercadoria
de reduzido valor,
é errar a pontaria
chamar abutre ou chacal:
– capitalista é canibal!
– capitalista é canibal!

Comments


  1. Excelente. Não tens uma gravação?


  2. Tive gravações, mas perdi-as. E do meu amigo «Passarinho» nunca masi ouvi falar.

  3. maria monteiro says:

    mas não se perdeu o poema e… pode ser que um outro «Passarinho» o descubra para cantar


  4. Maria Monteiro, minha amiga, os tempos não estão para atacar os canibais. Aqui há dias referi-me ao Belmiro a propósito da exploração, e vieram logo defendê-lo – que cria emprego, disse o defensor. Não é politicamente correcto atacar certas pessoas. Os passarinhos perderam o habitat. Nem a Quercus lhes vale!

  5. maria monteiro says:

    Porque não acaba a primavera continuo à espera do “tsunami” para engolir os canibais….

  6. manuela says:

    Pois muito me irrita casacos de peles, touradas, circos, jaulas, cortar caudas e colocar talas nas orelhas dos canídeos, caçadas reais ou não.
    E muitas vezes com consentimento do cidadão mais comum e que até leva os filhos a ver os animais nas jaulas onde não percebem a tristeza dos seus olhos. Poderiam conhecer esses animais através de excelentes documentários que passam na RTP2 e Nathional Geografic. Mas somos uma sociedade que aplaude os que mais têm dinheiro, e não carácter,mas sempre me perguntei e se pudesse perguntava a essa figurinha srª das peles, se anda sempre a ostentar a sua, porque teima em vender a dos outros?

  7. Maria do Mar says:

    ngnfcf es

Deixar uma resposta