Caim e Abel antes de Saramago: Felipe Mercato

Felipe Mercato, Caim e Abel

Felipe Mercato, Caim e Abel

Caim e Abel antes de Saramago: Nazif Topçuoğlu

Nazif Topçuoğlu, Caim e Abel, 2003

Nazif Topçuoğlu, Caim e Abel, 2003

Se o Saramago é português, o Mário David quer ser espanhol

Mario David, Aznar

"José Saramago, há uns anos, fez a ameaça de renunciar à cidadania portuguesa. Na altura, pensei quão ignóbil era esta atitude. Hoje, peço-lhe que a concretize… E depressa! Tenho vergonha de o ter como compatriota!"

Mário David, ao fundo à esquerda, eurodeputado

Frase do Facebook, imagem da sua página do Flickr.

O que está a dar é a literatura

mesmo a juvenil. O Ionline confirma Isabel Alçada como nova Ministra da Educação, baseando-se nas movimentações em curso para a substituir como directora do Plano Nacional de Leitura, o que faz sentido.

Tendo a vantagem de ter sido professora, e de não o omitir da sua biografia como o fez Maria de Lurdes Rodrigues, o que sempre lhe dá algum conhecimento da realidade, não deixa de trazer a marca sagrada do eduquês em Portugal: o mestradozinho em Boston.

É certo que alguns superaram a formatação, mas são excepções, e duvido que Isabel Alçada fuja da regra.

 

Caim e Abel antes de Saramago: Jan van Eyck

Jan van Eyckr, Caim e Abel, Retábulo de Gand

Jan van Eyck, Caim e Abel, Retábulo de Gand

A intolerância

Index Librorum Prohibitorum

"As Horas de Maria" deve ter sido o pior filme que vi na minha vida. Não saí da sala, esgotada, porque a malta se foi entretendo a mandar umas bocas, e concurso de bocas em sala de cinema sempre espairece.  Mas porque me meti eu e mais umas mil pessoas ali dentro, sabendo de antemão que a relação do "realizador" António de Macedo com o cinema era a de um homicida com a sua vítima?

Por causa da propaganda de uma Igreja, neste caso a Apostólica Católica Romana, vulgo ICAR.

Encarniçaram-se de tal forma contra a película apenas porque supostamente tocava um tema religioso quando na realidade apenas apalpava o tédio na sua forma mais pastosa, que aquilo foi sucesso de bilheteira garantido.

É um episódio  tantas vezes repetido que já chateia.

Fizeram o mesmo com o Je vous salue, Marie, os Versículos Satânicos ou o Evangelho segundo Jesus Cristo, obras estas de autores com obra, e que dispensavam a sanha propagandística das religiões.

Existe a presunção entre os fanáticos religiosos de a sua crença ser mais do que simplesmente a sua crença, e glosar os seus dogmas uma blasfémia.

Arrancar os cabelos porque lhes tocaram no tal de sagrado, que não passa de uma convicção pessoal a que ninguém mais está obrigado, saudosos do Index Librorium Prohibithorium só abolido em em 1966, resulta sempre em publicidade gratuita.

E isso Saramago bem o sabe.

 

A Bíblia segundo Saramago

Por estes dias apareceu notícia de um inquérito encomendado pela Sociedade Bíblica Portuguesa segundo o qual:

Em breve deve aparecer outro garantindo que a maior parte dos portistas só lêem o Record quando se querem rir, pensei. Para que raio se faz um estudo destes? Para conhecer o mercado? Vai aparecer uma campanha dirigida ao nicho dos ateus tentando vender Bíblias?

 

Como tudo se explica, descubro agora que Saramago está a lançar um novo livro, na modalidade de lançamento de peso às igrejas.

 

"A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana" – afirma.  É verdade, embora crueldade, natureza humana e sobretudo bons costumes sejam conceitos a enquadrar na História, e ao tempo em que foi escrito o Antigo Testamento esses maus costumes eram apenas os do costume.

 

Devo confessar que como romance histórico até gosto da Bíblia embora não recomende a sua leitura de enfiada. Prestações suaves, até porque a edição original está perdida e a ordem das parcelas ficou um pouco arbitrária.

 

Já o Caim de Saramago até pode ser que o leia mas só depois de conseguir passar das primeiras páginas de uma ou duas obras anteriores que repousam na prateleira chamada Um dia destes ainda vos leio mas duvide que seja hoje, prateleira que depende um bocado da minha longevidade, donde como bom ateu sempre afirmo que Deus queira que os leia, e a medicina ajude, é claro.

 

 

 

Poemas com história: Em louvor dos equilibristas

 

Quase um lugar-comum, nem é uma metáfora muito engenhosa, esta dos equilibristas para designar aqueles que durante a ditadura, vestiam a pele de oposicionistas ou de situacionistas, conforme mais conveniente lhes fosse, oscilando entre a direita e a esquerda e conseguindo, nesse equilíbrio difícil, ser considerados democratas pelos antifascistas e «respeitadores da ordem» pelos salazaristas. Hoje, na democracia que temos continua a haver «equilibristas», gente que é de esquerda quando quer parecer «bem-pensante», mas suficientemente conservadora para ser aceite por quem governa e para ocupar cargos e receber sinecuras. Pensando nessas pessoas que continuam a equilibrar-se entre o «democraticamente correcto» e o «conveniente para a conta bancária», escrevi este texto que publiquei em «O Cárcere e  o Prado Luminoso» (1990):


 

Em louvor dos equilibristas

Falta ainda uma condecoração,

ordem ou comenda que consagre

o esforço do equilibrista

em prol da civilização.

Formidável ciclista,

verdadeiro paganini da circulação

em cima do arame,

o ciclista percorre,

sem qualquer hesitação,

o ténue espaço que separa

a esquerda direita.

É um simples traço,

quase uma abstracção,

um risco passado

por onde não há espaço.

Ágil, aproveita

o espaço inexistente

deslocando o corpo obliquamente:

metade sobre o risco da direita

e a outra debruçada

sobre os riscos da vertente

que à esquerda, sobre o abismo,

espreita.

Mas ouçamos a receita do artista

(que ninguém está livre

de a ter de usar:

quando menos se espera e pensa,

a corda tensa, a pista, a vertigem,

lá estão à espera

dos que não aprenderam a voar).

Diz, com modéstia,

o frágil saltimbanco:

– Afinal nem é assim tão complicado.

Sigo pela direita

quando

ando;

avanço pela esquerda

quando estou

parado.

 

Limão e malagueta

A malagueta nasce verde
verde como o limão
olham-se verde no verde
ela cora
e ele não.
Um empalidece
outra faz-se rubor
há qualquer coisa de astuto
qualquer coisa de comum
entre os dois e o amor.
A malagueta abre-se à cor
em carne viva
ardendo da penetração quente do sol
da carícia de febre
luz vibrada e tacto de seda.
Não fenece
enquanto à sua volta
tudo morre e envelhece.
O limão
nem mole nem duro
sumo de virilidade
sumo de alegria
denso de seiva
sabor amargo ou doce
ao sabor dos descuidos
da verdade e da melancolia.
A malagueta não é séria nem puta
é luta de vida numa vida de luta
madura de ilusões
lábios maduros
palpando as vozes e as palavras
na ponta da língua.
O limão não sofre de amores
nem de esplendores
nem de ignorância presunçosa
jogo de toda a vida imbecil.
Se o encontro se dá
solta-se o sangue em torno dos ideais
nos rútilos prados da malagueta amada
malagueta mulher
orvalhada
pequenina e nua
capricho de um ventre fecundo
na cintilação da madrugada
como se a vida fosse
um desejo de amarga doçura
decúbito de sílabas erguidas
ao som da música
entre espaços de côncavo silêncio
cristal e solidão.
Dilatada angústia
pernoitada
na eterna penetração de fulgor
da malagueta desabrochada
ao paladar
da última gota do livre limão.

"Aos vindouros, se os houver"

Vós, que trabalhais só duas horas

a ver trabalhar a cibernética,

que não deixais o átomo a desoras

na gandaia, pois tendes uma ética;

 

que do amor sabeis o ponto e a vírgula

e vos engalfinhais livres de medo,

sem preçários, calendários, Pílula,

jaculatórias fora, tarde ou cedo;

 

computai, computai a nossa falha

sem perfurar demais vossa memória,

que nós fomos pràqui uma gentalha

a fazer passamanes com a história;

 

que nós fomos (fatal necessidade!)

quadrúmanos da vossa humanidade.

 

Alexandre O’Neill, Poemas com Endereço

Calinadas e calinadinhas de hoje

” A fim de obter” e não “Afim de obter” (Brrrrrr).

“Entretenimento” e não “Entretimento” (Brrr).

“Mesmo que ele pagasse” e não “Mesmo que ele paga-se” (Brrrrrr).

“Precariedade” e não “Precaridade” (Brr)

.

Poemas do ser e do não ser

Voam em bando mil sonhos
e ao longe morre o cantar
por cima das areias verdes
farei meus versos despertar.

Não beijei o céu nem o mar…

Ao longe morre o cristal
do amor estilhaçado
perdida a boca ferida
por um beijo que não foi dado.
Sílabas claras e sonoras
hão-de ter os versos que eu disser
firmes de pedra
não os leve o vento
que o vento é uma mulher.

Não Há Justiça Sem Anões:

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Hoje fui à FNAC do Norte Shopping assistir ao lançamento do livro “Não Há Justiça sem Anões” de J. Mário Teixeira, um velho amigo da Areosa.

O Zé Mário é um dos tipos mais brilhantes da minha geração. É senhor de uma cultura geral vastíssima e de um humor apurado. Recordo com alguma saudável saudade as longas noites na “parreirinha”, em pleno centro da Areosa quando, noite fora, discutíamos política, o estado do sítio, os protagonistas do dito e da dita. Eu mais à direita, ele mais à esquerda, horas e horas a fio, por vezes até ao raiar do sol, para desespero do desgraçado que vivia por cima e quando já todos os restantes amigos tinham desistido e rumado a casa. Todos? Todos não, por vezes, o Quim aguentava estoicamente – e, de hora a hora, como que regressado das trevas, lançava uma sentença profundamente filosófica contra os mouros, os lampiões e toda essa “tropa de Lisboa que eu só quero ver a arder” e nós, incrédulos, riamos a bom rir. Sim, depois de longas discussões sobre socialismo, social-democracia, liberalismo, comunismo ou religião, as sentenças do Quim eram um tónico para um regresso à realidade. A vida dá muitas voltas. Quem nos ouvisse diria que o Zé poderia vir a ser jornalista e eu advogado. Foi precisamente ao contrário. Hoje eu estou um pouco menos à direita e, penso, o Zé um pouco menos à esquerda. Foi com ele que aprendi algo que considero importante: por muito diferentes que possam ser, ideologicamente, dois indivíduos, existem sempre pontos em comum e pontes a unirem.

Foi engraçado voltar a encontrar amigos e ver que estamos um pouco mais velhos, com menos cabelo, mais barriga e algumas brancas a surgir, timidamente. A apresentar a obra esteve o Bastonário Marinho Pinto, outro homem de grande frontalidade como o Zé Mário. Não fiquei até ao fim. Hoje não era dia para pegar no Zé e, pé ante pé, rumar à “parreirinha” para uma longa noite de conversa. Para matar saudades. Fica para a próxima.

Obrigado Zé Mário.

A máquina do tempo: «Salgalhadas na Lusolândia» ou como nada há de mais sério do que o humor

Hoje, a nossa máquina viaja até ao território da ficção. «Salgalhadas na Lusolândia»? Mais um título roubado? Não, desta vez, a minha cleptomania que tem vindo a agravar-se nos últimos tempos, não me atacou. Desta vez, não se trata de um furto, mas sim de uma citação, da transcrição pura e simples do título de uma novela do amigo José Luís Félix, um romancista outsider. Edita as suas obras em pequenas tiragens, funcionando à margem do mercado convencional. Isto porque as editoras (por razões compreensíveis) apenas publicam livros de autores muito conhecidos e comerciais – o que gera um círculo vicioso de dinâmica fácil de entender: não se é publicado porque não se é conhecido e não se é conhecido…

Há uns meses, José Luís Félix, lançou uma novela – «Salgalhadas na Lusolândia». Por «salgalhada» entenda-se confusão, mistura de coisas, mixórdia, trapalhada… Tudo coisas impossíveis de acontecer em Portugal, mas que na Lusolândia, um país imaginário (mas fácil de imaginar), se desenrolam a alta velocidade. Vou só dar algumas pistas.

Carlos Manuel, um alto funcionário da polícia secreta, uma espécie de Pepe Carvalho, vê-se envolvido numa trama de espionagem internacional. As personagens vão surgindo em catadupa – o primeiro-ministro Aristóteles, o político que implementou o Acelerex e o Melhorex, a veterana socialite Titi Canecas, o jovem Cristino Reinado, um ídolo do futebol e muitas outras. Carlos Manuel anda enquerençado até mais não poder pela Professora Maria Adelaide Rodrigues, uma assessora de informática da polícia. Uma assessora boazona, entenda-se. E essa fixação não vai facilitar nada um límpido discernimento por parte do alto funcionário, porque a Maria Adelaide (Milai para os amigos) faz mais parte do problema do que da solução.

Tudo começa quando a polícia secreta seguia um vendedor de tapetes, com turbante e tudo, e com uma grande pinta de terrorista. Será que o homem apenas vende tapetes, como afirma, ou anda a engendrar alguma tramóia contra a civilização ocidental? As coisas complicam-se com o envolvimento da CIATICA nas investigações, dado que se descobriu que os fundamentalistas da Alta Queda também estão envolvidos.

Através da CNN, o presidente da grande super-potência, o Cheap Valium faz uma comunicação ao mundo, sentado solenemente na Sala Esdrúxula, em plena Casa Preta. Na Lusolândia, o Berloque Sinistro entra também na dança denunciando estranhas cumplicidades… Há muita acção, perseguições vertiginosas através do Eixo Sudoeste – Far West, escutas comprometedoras e gravações das câmaras de videovigilância… Enfim, tudo coisas que só podem ocorrer em países imaginários como a Lusolândia.

José Luís Félix cria um retábulo delirante que merece a pena ser lido. Por isso, não revelo o enredo da história, limito-me a referir alguns aspectos da narrativa, sem vos dar pistas quanto ao seu percurso e desfecho. Se conseguirem encontrar o livro, não hesitem, comprem-no. E quando acabarem de o ler, depois de se terem rido, dirão. «O que vale é que isto é tudo fantasia». Ou não será?

COMENTÁRIO AO COMENTÁRIO DO AMIGO CARLOS RUÃO

Amigo Carlos Ruão

Um abraço e o meu obrigado por teres respondido ao meu humilde comentário.

Gosto muito de poesia, gosto de tentar fazer poesia, mas não sou um letrado em poesia. Aquilo que digo é fruto do que sinto e não propriamente do que sei, que é muito pouco.

 Na realidade, o que eu sinto é que é muito difícil alguém saber o que é a poesia. Desde a antiguidade aos tempos de hoje, embora toda a gente tenha o direito de emitir a sua opinião. Até hoje, nenhuma explicação, das que tenho lido, me deixou satisfeito. E já agora, gostaria de dizer que sendo eu materialista, em todo o sentido filosófico-científico, não admitindo qualquer dualidade corpo-espírito, penso que a única explicação do que é a poesia poderá vir a ser dada pela neurofisiologia, quando a neurobiologia do espírito for elevada a ciência incontestável, como espero. A partir do substracto fisiológico e neuronal, poderá perceber-se, creio, o seu valor e significado estético e sentimental.

 Quanto à identidade gemelar entre beleza e poesia, creio, amigo Carlos Ruão, que é uma realidade, ainda que o belo se esconda por detrás de textos sublimes ou terríficos, como acontece no Paraíso Perdido. Um objecto artístico não faz parte da realidade concreta do dia a dia. Se estamos frente a uma obra demasiado realista, ou nos identificamos com ela como objecto da realidade quotidiana, “convivemos”, dentro dos horizontes sempre limitados de uma realidade sem preocupações de dimensão universal. Nestas circunstâncias, muito facilmente se passa ao lado da beleza, ainda que ela lá esteja.

 Se a obra que temos na frente, ainda que representativa de uma natureza real, passa além da realidade concreta, ultrapassa a fronteira para além da qual o homem se atreve a pôr o pé na sua dimensão universal, então não convivemos com ela, mas “contemplámo-la” como arte, e, logicamente, como manifestação de beleza. Porque a beleza, quer queiramos quer não, reside na capacidade do homem de se projectar para fora dos horizontes da sua natural tendência antropocêntrica.

MAIS UMA ACHEGA, AMIGO CARLOS LOURES

Eu não sei o que é a poesia, penso que ninguém sabe verdadeiramente o que é a poesia, e duvido muito de quem diz que sabe. Desde a depuração absoluta da palavra à Respiração de Deus, já ouvi todas as definições. No entanto, penso que a poesia é um sentimento como outro qualquer. Por isso, em vez de poesia, prefiro chamar-lhe sentimento poético, como em vez de arte, prefiro dizer sentimento artístico. O sentimento poético é um sentimento como o sentimento do amor, como o sentimento da alegria, como o sentimento da tristeza. Parece-me, contudo, ser um sentimento muito subtil, quase mágico, provavelmente de uma neuronalidade muito delicada, uma espécie de musicalidade, uma essencialidade rítmica e harmoniosa que existe dentro de nós e nos permite, quando permite, a mais nobre e sublime expressão da realidade das coisas e da vida.

 Penso, ainda, e parece haver estudos psicológicos, sociológicos e neurobiológicos que o comprovam, que o sentimento poético e o sentimento artístico enriquecem e enobrecem todos os nossos processos de humanização, criam grandes afinidades com a consciência, aproximam-nos de todos os mecanismos de identificação com a verdade, afinam todas as outras emoções e sentimentos, ajudam-nos no caminho do equilíbrio e da harmonia, e até da justiça, ou não devesse ser a justiça a convergência ao mais elevado nível, do equilíbrio e da harmonia.

 E mais penso que, muitas vezes, o que andamos para aqui a fazer não tem nada a ver com poesia. Fazer poesia, ou melhor, pesquisar a poesia como eu gosto mais de dizer, é sentirmo-nos como uma espécie de garimpeiros da poesia. Todos sabemos que os garimpeiros são aqueles homens que, nas margens dos rios das regiões auríferas, passam dias, semanas, meses e anos, a lavar pedras e cascalho, a ver se encontram umas pepitas de ouro. Nós, os que nos consideramos pesquisadores de poesia, passamos os dias a lavar o cascalho das palavras a ver se encontramos algumas pepitas de poesia, o que nem sempre acontece. Com a agravante de que há ouro verdadeiro e ouro falso, nem sempre fáceis de distinguir.

 E penso, ainda, que a poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, seja o poema, sua matriz natural, seja a pintura, seja a música. E qualquer forma de expressão artística só é arte, se contiver dentro de si a essência poética. Arte e poesia são irmãs gémeas, não podendo viver uma sem a outra.

 Penso ainda que a poesia, pela sua natureza intimista, é para ser lida a sós, no mais recatado silêncio. Eu não sou grande adepto da poesia lida, dita ou declamada. Reconheço, talvez, algum carácter de excepção no que respeita à poesia chamada de intervenção. De resto, penso que é um tanto caricato andar a ler poesia à mesa dos cafés, poesia no eléctrico ou poesia nas feiras, como é moda ultimamente. Peço desculpa a quem tem uma opinião diferente da minha, mas o mal não está em ter opiniões, mas em não as ter. Eu passo a explicar porque assim penso.

 Quando um autor faz um poema, cria-o com toda a sua vida, através de toda a sua estrutura vivencial, com todas as suas emoções e sentimentos, as suas paixões e frustrações, as suas memorizações, a sua cultura, a sua visão do mundo e das coisas. Quem vai ler esse poema não vai ler o poema do autor, mas o seu próprio poema, dado que vai lê-lo com a sua vida, com a sua estrutura anímica e vivencial, através das suas emoções e sentimentos, através das suas paixões e frustrações, deitando mão da sua cultura própria e da sua visão do mundo e das coisas, que podem nada ter a ver com a vida do autor. O poema do autor constitui apenas o estímulo, mais profundo ou menos profundo, mais poderoso ou menos poderoso, que consegue arrancar um novo poema do íntimo de quem lê. Ninguém vê com os nossos olhos, ninguém sente com o nosso íntimo e ninguém pensa com o nosso pensamento.

Antologia de pequenos contos insólitos: Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges, o grande escritor argentino, nascido no ano de 1899 em Buenos Aires e falecido em Genebra em 1986, sempre se preocupou mais com o lado oculto da realidade do que com a sua face mais visível. Familiarizou-se com a cabala, estudou as mitologias anglo-saxónicas, germânica, escandinava, bem como as respectivas literaturas. Para ele, o tempo podia ser vencido pela escrita. Produziu obras com «El Aleph» (1949) e «El oro de los tigres», 1972. Do seu livro «Ficciones», 1944, extraímos a narrativa

AS RUÍNAS CIRCULARES

Apresentando antes um pequeno vídeo com um excerto de uma das últimas entrevistas de Borges.

And if left off dreaming about you…

Ninguém o viu desembarcar na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumir-se na lama sagrada, mas daí a poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que a sua pátria era uma dessas infinitas aldeias que ficam rio acima, no flanco violento da montanha, onde a língua zenda não está contaminada do grego e onde é rara a lepra. O que é certo e seguro é que o homem pardo beijou a lama, subiu a margem sem afastar (provavelmente sem sentir) as sanguessugas que lhe dilaceravam as carnes e arrastou-se enjoado e sangrando, até ao recinto circular dominado por um tigre ou um cavalo de pedra, que teve outrora a cor do fogo e agora a da cinza. Essa arena é um templo que os antigos incêndios devoraram, que a floresta pantanosa profanou e cujo deus não recebe as honras dos homens. O forasteiro deitou-se sob o pedestal. Só o despertou o sol alto. Verificou sem assombro que as feridas haviam cicatrizado; fechou os olhos pálidos e adormeceu, não por fraqueza da carne mas por decisão da vontade. Sabia que esse templo era o lugar referido para o seu invencível desígnio; sabia que as árvores incessantes não tinham conseguido estrangular, a jusante, as ruínas de outro templo propício, também de deuses incendiados e mortos; sabia que a sua obrigação imediata era o sono. Por volta da meia-noite acordou-o o grito inconsolável de um pássaro. Marcas de pés descalços, uns figos e um cântaro avisaram-no de que os homens da região lhe tinham espiado com respeito o sono e solicitavam o seu amparo ou temiam a sua magia. Sentiu o frio do medo e procurou na muralha delapidada um nicho sepulcral e tapou-se com folhas desconhecidas.
O desígnio que o guiava não era impossível, se bem que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com uma integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Este projecto mágico esgotara o espaço inteiro da sua alma; se alguém lhe perguntasse o seu próprio nome ou qualquer pormenor da vida anterior, não seria capaz de responder. Convinha-lhe o templo desabitado e desmantelado, porque era um mínimo do mundo visível; a vizinhança dos lenhadores também, dado que estes de encarregavam de prover às suas necessidades frugais. O arroz e os frutos do seu tributo eram pasto suficiente para o seu corpo, consagrado à única tarefa de dormir e sonhar.
Ao princípio, os sonhos eram caóticos; pouco depois, foram de natureza dialéctica. O forasteiro sonhava-se no meio de um anfiteatro circular, que era de certo modo o templo incendiado: magotes de alunos taciturnos fatigavam os degraus; as caras das últimas filas pendiam a muitos séculos de distância e a uma altura estelar; mas viam-se com uma precisão absoluta. O homem dava-lhes lições de anatomia, de cosmografia, de magia: os rostos escutavam com ansiedade e tentavam responder com entendimento, como se adivinhassem a importância daquele exame, que deveria redimir um deles da sua condição de vã aparência e o interpolaria no mundo real. O homem, no sonho e acordado, considerava as respostas dos seus fantasmas, não se deixava enganar pelos impostores, adivinhava em certas perplexidades uma inteligência crescente. Procurava uma alma que merecesse participar no universo.
Ao cabo de nove ou dez noites compreendeu com certa amargura que nada podia esperar dos alunos que aceitavam passivamente a sua doutrina, mas sim dos que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e de afeição, não podiam elevar-se a indivíduos; os últimos preexistiam um pouco mais. Uma tarde (agora também as tardes eram tributárias do sonho, agora só estava acordado umas horinhas ao amanhecer) despediu para sempre o vasto colégio ilusório e ficou apenas com um único aluno. Era um rapaz taciturno, azedo, desordeiro às vezes, de feições afiladas que repetiam as do seu sonhador. A brusca eliminação dos seus condiscípulos não o desconcertou por muito tempo; os seus progressos, ao fim de poucas lições particulares, conseguiram maravilhar o mestre. No entanto, aconteceu a catástrofe. Um dia o homem emergiu do dono como de um deserto viscoso, fitou a vã luz da tarde que começou por confundir com a da aurora, e compreendeu que não tinha sonhado. Durante essa noite toda e todo o dia, abateu-se sobre ele a intolerável lucidez da insónia. Quis explorar a floresta, extenuar-se; só a custo conseguiu pela cicuta uns quantos lampejos de sono fraco, riscados fugazmente por visões de tipo rudimentar: inaproveitáveis. Quis voltar a reunir o colégio e mal articulou umas breves palavras de exortação, logo este se deformou e se desfez. Na sua quase perpétua vigília, lágrimas de cólera queimavam-lhe os velhíssimos olhos.
Compreendeu que a tarefa de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que se compõem os sonhos é a mais árdua a que se pode entregar um homem, embora penetre todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais árdua que tecer uma corda de areia ou que cunhar o vento sem cara. Compreendeu que era inevitável um fracasso inicial. Jurou esquecer a enorme alucinação que o desencaminhara ao princípio e procurou outro método de trabalho. Antes de experimentá-lo, consagrou um mês a recuperar as forças que lhe gastara o delírio. Abandonou toda a premeditação de sonhar, e quase a seguir foi capaz de dormir um razoável bocado do dia. As raras vezes que sonhou durante esse período, não ligou aos sonhos. Para retomar a tarefa, esperou que o disco da Lua ficasse perfeito. Depois, à tarde purificou-se nas águas do rio, adorou os deuses planetários, pronunciou as sílabas lícitas de um nome poderoso e adormeceu. Quase imediatamente, sonhou com um coração a bater.
Sonhou-o activo, quente, secreto, do tamanho de um punho, de cor escarlate na penumbra de um corpo humano ainda sem cara nem sexo, com minucioso amor sonhou-o durante catorze lúcidas noites. Noite a noite, percebia-o com uma evidência cada vez maior. Não o tocava: limitava-se a testemunhá-lo, a observá-lo, talvez, e corrigi-lo com o olhar. Percebia-o, vivia-o, de muitas distâncias e de muitos ângulos. Na décima quarta noite roçou a artéria pulmonar com o dedo indicador e a seguir o coração todo, por fora e por dentro. O exame deixou-o satisfeito. Deliberadamente não sonhou durante uma noite; depois, tornou a pegar no coração, invocou o nome de um planeta e empreendeu a visão de outro dos órgãos principais. Em menos de um ano chegou ao esqueleto, às pálpebras. O inumerável cabelo foi talvez a tarefa mais difícil. Sonhou um homem inteiro, um mancebo, mas este não se levantava nem falava nem podia abrir os olhos. Noite após noite o homem sonhava-o adormecido.
Nas cosmogonias gnósticas, os demiurgos amassam um encarnado Adão que não consegue pôr-se de pé; tão inábil, tosco e elementar como esse Adão de pó era o Adão de sonho que as noites do mago tinham fabricad
o.
Uma tarde, o homem destruiu quase toda a sua obra, mas arrependeu-se, (Mais lhe valeria que a tivesse destruído.) Depois de ter esgotado os votos aos nomes da terra e do rio, caiu de joelhos aos pés da imagem que talvez fosse um tigre e talvez um potro, e implorou o seu desconhecido socorro. Nesse crepúsculo, sonhou com a estátua. Sonhou-a viva, trémula: não era um atroz bastardo de tigre e potro, mas ao mesmo tempo essas duas criaturas veementes e também um touro, uma rosa, uma tempestade. Este múltiplo deus revelou-lhe que o seu nome terrestre era Fogo, que nesse templo circular (e noutros iguais) lhe tinham prestado sacrifícios e culto e que ele magicamente animaria o fantasma sonhado, de modo que todas as criaturas, salvo o próprio Fogo e o sonhador, o pensaram um homem de carne e osso. Ordenou-lhe que, depois de instruído nos ritos, o enviasse para outro templo desmantelado cujas pirâmides persistem a jusante do rio, para que alguma voz o glorificasse naquele edifício deserto. No sonho do homem que sonhava, o sonhado acordou.
O mago executou as ordens. Consagrou um prazo (que no fim durou dois anos) para lhe descobrir os arcanos do universo e do culto do fogo. Intimamente, custava-lhe separa-se dele. A pretexto da necessidade pedagógica, dilatava dia após dia as horas dedicadas ao sonho. Também refez o ombro direito, porventura deficiente. Às vezes inquietava-o uma impressão de que tudo aquilo já tinha acontecido… Em geral, os seus dias eram felizes; ao fechar os olhos pensava: Agora vou estar com o meu filho. Ou então, mais raramente: O filho que gerei espera por mim e não existirá se eu não for ter com ele.
Gradualmente, lá o foi habituando à realidade. Uma vez mandou-o colocar uma bandeira num píncaro distante. No outro dia, flutuava a bandeira no cume. Tentou outras experiências análogas, cada vez mais audaciosas. Compreendeu com um certa amargura que o seu filho estava pronto para nascer – e talvez até impaciente. Nessa noite beijou-o pela primeira vez e enviou-o para o outro templo cujos despojos branqueavam rio abaixo, a muitas léguas da inextricável floresta e de pântanos. Mas antes (para que ele nunca soubesse que era um fantasma, para que se julgasse um homem como os outros) infundiu-lhe o esquecimento total dos seus anos de aprendizagem.
A sua vitória e a sua paz ficaram turvados pelo desgosto. Nos crepúsculos da noite e da madrugada, prostrava-se diante da figura de pedra, talvez imaginando que o seu filho irreal executava rito idênticos, noutras ruínas circulares, rio abaixo; de noite não sonhava, ou sonhava como o fazem todos os homens. Apercebia-se com certa palidez dos sons e formas do universo: o filho ausente alimentava-se dessas diminuições da sua alma. O desígnio da sua vida fora preenchido; o homem persistiu numa espécie de êxtase. Ao fim de um tempo que certos narradores da sua história preferem calcular em anos e outros em lustros, à meia-noite acordaram-no dois remadores: não conseguiu ver as caras deles, mas falaram-lhe de um homem mágico num templo do Norte, capaz de andar sobre o fogo sem se queimar. O mago lembrou-se de repente das palavras do deus. Lembrou-se de que, de todas as criaturas que compõem o globo, o fogo era a única que sabia que o seu filho era um fantasma. Esta recordação, que o descansou ao princípio, acabou por atormentá-lo. Receou que o seu filho meditasse nesse privilégio anormal e descobrisse de qualquer modo a sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, ser a projecção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem! Qualquer pai se interessa pelos filhos que procriou (que permitiu) numa simples confusão ou na felicidade; é natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensando entranha a entranha e feição a feição, em mil e uma noites secretas.
O fim das suas reflexões foi brusco, mas anunciaram-no alguns sinais. Primeiro (ao cabo de uma longa seca) uma remota nuvem numa colina, leve como um pássaro; a seguir, para os lados do Sul, o céu com a cor rosada das gengivas dos leopardos; depois as fumaradas que enferrujaram o metal das noites; depois a fuga pânica dos bichos. Porque se repetiu o que acontecera há muitos séculos. As ruínas do santuário do deus do fogo foram destruídas pelo fogo. Numa madrugada sem pássaros, o mago viu abater-se sobre as paredes o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas logo compreendeu que a morte vinha coroar a sua velhice e absolvê-lo dos seus trabalhos. Caminhou ao encontro dos círculos de fogo. Estes não morderam a sua carne, acariciaram-no e inundaram-no sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, e compreendeu que ele próprio também era uma aparência, que outro estava sonhá-lo.
(Extraído do livro «Ficções», de Jorge Luis Borges, traduzido por José Colaço Barreiros,
© Editorial Teorema, Lda., Lisboa, 2000).

Poemas com História: Luto em Outubro

Este poema foi escrito em 11 de Outubro de 1967, quando se confirmou a morte do Comandante, pois passáramos os dois último dias na dúvida se o que constava sobre a sua execução era verdade ou manobra de intoxicação. No dia11 os jornais traziam a fotografia de Guevara morto, estendido sobre uma padiola em Valle Grande, de olhos abertos. Num grupo de amigos, reunidos em torno das notícias, havia quem duvidasse, mesmo assim, que fosse verdade. Foi um dia negro. Guevara que saíra de Cuba, todos o sabíamos, por não suportar ver a Revolução submeter-se a um imperialismo para fugir a outro, constituía para os que amavam a liberdade a esperança numa «terra sem amos». A nossa tristeza era indizível. Vim para casa e escrevi este texto que, mais tarde, publiquei em «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos».

Luto em Outubro

Onze de Outubro – há um rosto
que ensanguenta o jornal
e anoitece o dia –
Guevara caiu sob o céu da Bolívia,
morto na sua guerra pela paz.
Flor que nasce negra na tarde
triste e fria,
a sua fotografia é um cartaz
desfraldado ao vento da história.
É um rosto
que ensanguenta a página
e anoitece o dia.
Uma lâmpada apagou-se na treva
debruçada sobre a terra americana
– silêncio no teu fuzil de esperança,
Comandante,
tombado no teu posto de combate.

As palavras nos teus lábios
não eram só palavras,
mas acção.
Espingardas e punhais
dentro da tua voz havia.
Hoje há um rosto, sim um rosto,
que ensanguenta o jornal
e anoitece o dia.

Guevara caiu no seu posto,
cremado o seu corpo, as cinzas
sobem no ar da América,
saúdam as estrelas,
beijam os pássaros,
caem
como chuva justiceira,
pranto dos humildes
de todo um continente
que de escuridão se cobre.
Milhares de mãos se estendem
para empunhar as tuas armas órfãs.
Sim, há um rosto em Outubro
que ensanguenta o jornal.
Há um rosto vitorioso
que anoitece o dia.

Clube dos Poetas Imortais: Rosalía de Castro (1837-1885)


Depois desta bela canção de Amancio Prada, musicando um poema de Rosalía de Castro, mais fácil se tornará entender duas coisas: a intensidade emocional da poesia de Rosalía e o amor dos Galegos pela sua pátria. É difícil encontrar um autor que simbolize toda uma língua e toda uma literatura. Do castelhano se diz ser «a língua de Cervantes», nós usamos com frequência a expressão «língua de Camões» para designar o português. A língua galega encontra em Rosalía a sua mais emblemática expressão, embora o país seja rico em escritores e em grandes intelectuais – referimos apenas alguns: Manuel Murguia, o marido de Rosalía (1833-1923), Manuel Curros Enríquez (1851-1908), Alfonso Castelao (1886-1950), Carvalho Calero (1910-1990), Ernesto Guerra da Cal (1911-1994), Celso Emilio Ferreiro (1912-1979), Manuel Maria (1929-2004)… De todos eles irei falando. Por hoje, peço a vossa atenção para Rosalía de Castro.

Rosalía de Castro, nasceu em 1837, nos arrabaldes de Santiago de Compostela e morreu em 1885, com 45 anos, no lugar de Padrón. As suas obras principais são «Cantares Gallegos» (1863) e «Follas Novas» (1880). É considerada a fundadora da moderna literatura galega, pois com Manuel Curros Enríquez (1881-1917), Eduardo Pondal (1835-1917) e Manuel Murguia (1833-1923), seu marido, fundou o movimento nacionalista do «Rexurdimento galego».
A emigração, durante as grandes crises sociais que afectaram o país na segunda metade do século XIX, foi a solução para os galegos fugirem da fome e da miséria. Muitos vieram para Portugal. Outros emigraram para outras regiões da Península ou para as Américas. Em «Follas Novas» Rosalía dá corpo poético a um lamento que percorria todas as terras galegas nesses anos negros:
Este vaise i aquel vaise,
i todos, todos se van;
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tês, en cambio, orfos i orfas
i campos de soledad;
e nais que non teñem fillos
e fillos que non tén pais.
E tês corazós que sufren
Longas ausências mortás.
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.
A tradução não seria necessária, mas, apesar de tudo, o José Niza fê-la e compôs a bela e impressiva música que o Adriano Correia de Oliveira cantava de forma superior. Isto, numa altura em que Portugal via também os seus homens partir, para a Guerra colonial ou, fugindo à guerra e à miséria, emigrava para países estrangeiros, a canção assumia um significado especial e muito claro. Ora escutem:

POEMAS ESTORICÔNTICOS

O HOMEM SEM NOME

 

Quando nasceu

trazia entranhados em si dois grandes pecados

o pecado original

e o pecado de ter sido gerado em mãe solteira.

Para além disso

fora parido quase moribundo.

Imagine-se o terror de sua mãe

que já o via a arder no fogo do inferno.

O pai

mais racional

não tinha assim tão maus pressentimentos.

Para ele

Deus não seria capaz de condenar

– e logo com penas eternas –

um ser indefeso

pelo facto de a pia baptismal

distar três quilómetros

do local de nascimento.

Pegaram na mulher mais à mão

e no homem mais ao pé

embrulharam num cueiro

aquele escarro de gente

e correram a sete fôlegos em direcção à igreja.

Ambos conheciam a gravidade do pecado original.

As almas dos que morrem em pecado mortal

ou apenas de pecado original

descem ao inferno

anunciava o Concílio de Florença em 1439.

Todos sabiam

que o baptismo era a única terapêutica

que salvava e apagava o pecado original.

Se chegasse à pia com vida

não seria este pecado

marca da infâmia dos seus longínquos antepassados

que o levaria à condenação eterna.

Quanto ao outro

o pecado de amor

o pecado de sua mãe

nada constava na tradição

que o considerasse

passaporte directo para as profundas

embora fosse exactamente igual ao primeiro

mas muito mais recente.

No mínimo

em cima do outro

agravaria

certamente

a sentença divina.

Portanto

as perspectivas não eram animadoras

nesta correria para a salvação.

Nada mais dominava o pensamento

dos hipotéticos padrinhos

– assim o permitisse serem-no

efectivamente

a graça divina –

senão o terror.

Já com alguma idade

esse esperançoso par lembrava-se de ter ouvido

da boca de um padre velhinho

de quem se dizia ser pai de onze filhos

que um papa chamado Bento XIV

e outros seus sucedâneos

aprovaram o baptismo de fetos e abortos

bem como dos fetos de mulheres grávidas mortas

aos quais faziam chegar a água benta

através de um sifão especial

ou de uma cesariana.

O medo era tão grande

que chegaram a arranjar fórmulas especiais

para baptizar abortos ainda sem forma humana

ou mesmo aberrações

e monstruosidades

resultantes de distracções

ou falhas nos cálculos divinos.

Já a meio do caminho da igreja

os corações dos dois estafetas salvadores

quase pararam

ao sentirem que nada pulsava

naquele montinho de carne.

Apertaram-no contra o peito

e deram-lhe algumas palmadinhas suaves

não fossem acabar com o sopro de vida

em que ainda acreditavam.

Aquele minúsculo projecto

à falta de melhor resposta

reagiu com o intestinal ruído

que precede ou acompanha

uma pequena dejecção de ferrado

o que aliviou um tanto os padrinhos

embora soubessem

que esse facto não constituía

propriamente

uma manifestação de vida.

No último minuto

provavelmente já na fronteira do entroncamento

onde divergem os caminhos do céu e do inferno

o nascituro usou

pela primeira vez

as cordas vocais

soltando um pequeno gemido

que logo se fez choro convulso

ao sentir a água benta e fria na cabeça.

Crê-se

hoje

que não fora a água fria

mas o nome que pretenderam dar-lhe

a razão do seu choro

era como que voltar à estaca zero

uma espécie de “restitutio ad integrum”

do pecado original

tornando inútil toda aquela corrida

para a pia da salvação.

Os seus gritos devem ter ecoado

como ribombante trovão

para lá dos séculos

no ex-paraíso

– hoje deserto –

no lugar onde os pais da Humanidade condenada

não sabendo para o que servia

aquilo que tinham entre as pernas

pagaram com a perda da felicidade eterna

o terem-no descoberto.

Para que ele parasse de chorar

não tiveram outro remédio

senão esquecer o nome.

A força do sacramento venceu

o diabo recuou

enfiou o rabo entre as pernas

e assim ficou sem nome

o homem que não tem nome.

 

                        (adão cruz)

(adão cruz)

CALINADAS

CALINADAS do dia

 Angela Merkel já “CONGRATULOU” Obama, em vez de “SE CONGRATULOU” por Obama…

(Não é que esteja mal, mas soava melhor “felicitou” ou “deu os parabéns”.

 “FOI UM DOS QUE FEZ PARTE” em vez de “FOI UM DOS QUE FIZERAM PARTE”.

(Não é incorrecto, segundo alguns, mas soa mal.

 UM VESTIDO “FRUTA-CORES” em vez de “FURTA-CORES”.

 “LÂMPADA FOSFORECENTE” em vez de “LÂMPADA FLUORESCENTE”

(Duas coisas distintas).

 “DUZENTAS GRAMAS” em vez de “DUZENTOS GRAMAS” (Horrível).

(um grama, masculino).

Veio das jotas!

Hoje estive numa reunião de trabalho que, bem à maneira portuguesa, demorou imenso tempo.

Falou-se de tudo, da política, das empresas, do Sporting, e de vez em quando voltavamos ao assunto. O problema é que logo que alguem conta uma história, fora da agenda, todos se vêm na obrigação de contar a sua e aquilo torna-se numa roda de vaidades.

Eu fiz, eu sou, eu vou, e é um fartote de egos à sobremesa, sobrepondo-se com a pressa de dizer primeiro, ou antecipar-se a uma história que todos conhecem e, quando alguem tem o bom senso de voltar ao assunto que ali nos trouxe, temos que começar tudo do principio.

Depois há sempre uns gajos muito cheios de trabalho que aparecem duas horas depois do combinado que em vez de irem para casa, ou irem beber um café à pastelaria da esquina e ficarem por lá, não, acham que são imprescendíveis e vá de arranjar cadeira com o ar mais sério deste mundo, enquanto os cumpridores, que estão lá a tempo e , que fazer um resumo, e tudo volta ao principio.

Ao fim de três horas, já ninguem ouve ninguem sendo preciso que alguem com alguma autoridade, faça um ponto de ordem à mesa e rabisque algo parecido com umas conclusões que depois se hão-de ver daqui a uma semana em próxima reunião.

Mas hoje estava-me reservada uma para o final da reunião que me envergonhou. Um dos presentes é um homem que é empresário em Angola e no Maputo, e para dar uma ideia do nível de pessoas que nos representam a nível de governo, contou-nos que um secretário de estado foi a Maputo entregar um prémio literário a Mia Couto e só descobriu que o escritor era um homem quando se confrontou com ele fisicamente.

Isto é verdade ou foi para me (nos ) achincalhar?

A máquina do tempo: uma deusa em Alfama

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Diz Mário Cesariny de Vasconcelos, entrevistado por Carlos Câmara Leme para o jornal Público, em 16 de Março de 2003: «A primeira vez que vi a Natália Correia foi no São Carlos. Eu estava na galeria ela no segundo balcão. Quando? Ui! Aí pelos anos 1950. Apesar de já não ter muito afecto a senhoras, ia caindo para o lado do espectáculo de beleza que ela apresentava. Era quase extra-humana, era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo. Era uma coisa impressionante. Mas era também uma mulher de um desdém muito grande. Cheguei a julgá-la assexuada ou frígida mas parece que não era bem isso…». Isto, atenção, foi o Cesariny quem disse ( e quando Cesariny diz «parece que não era bem isso», está a referir-se a uma característica da Natália que o Luiz Pacheco contou á saciedade – segundo ele, a Natália, ao contrário do Mário, tinha bastante afecto a senhoras).

Agora a minha história.

Andava eu por Alfama numa véspera de Santo António. Foi, salvo erro em 1958. Estava acompanhado por gente que depois se tornou conhecida, mas dizer os nomes desses amigos famosos nada adiantaria à história. Subitamente, num daqueles pequenos largos onde afluem estreitas ruas medievais, surgiu uma deusa. Como costuma acontecer quando contactamos divindades, fiquei siderado ou como disse o Cesariny, ia caindo para o lado. Havia um coreto com músicos, um céu de bandeirinhas e flores de papel colorido, fumo de sardinhas assadas… – o Santo António , mas tudo isso se esfumou e ali estava eu feito estátua olhando a deusa que se aproximava. E vinha na minha direcção. Vi depois que não vinha sozinha, um homem trigueiro, de bigodes escuros, vestido muito formalmente, acompanhava-a. Nem o vi. Deixem-me descrevê-la: não era muito alta, de formas generosas, sem sombra de obesidade, um rosto oval onde luziam dois olhos escuros, de um brilho ironicamente inteligente. Sumptuosamente linda, se é que me entendem.

Como continuava, com o seu acompanhante a vir na direcção do nosso grupo, o meu embevecimento crescia na medida em que a distância diiminuia. Até que chegaram junto de nós. Beijou as faces dos meus três amigos e esperou que eles me apresentassem. O que fizeram enquanto eu continuava em estado cataléptico. Um deles, deu-me uma cotovelada e lá me aproximei. Estendeu-me a mão. Mirava-me com o olhar divertido de quem sabia o que me ia na mente. E depois apresentou-nos o seu acompanhante. Era o senhor embaixador da República Árabe Unida, uma federação de estados de existência efémera, constituído pelo Egipto, pela Síria e pelo Iémen. Trocámos frases de circunstância em francês, que era o inglês de há cinquenta anos. E a deusa foi-se embora levando o embaixador, dando-me à despedida um beijo na face, olhando-me sempre com o ar trocista de quem me lia os pensamentos. Foi-se, perdeu-se no meio daquela multidão de pobres mortais. Um dos amigos, grande poeta, deu-me um encontrão e disse-me a frase sacramental:
– Acorda rapaz! Olha que ela podia ser tua mãe!
Talvez pudesse, com alguma boa vontade, pois tinha mais 14 anos e uns meses do que eu. Mas não era. Tinha um nome:
Natália. Natália Correia.

Foi um rude golpe quando a vi aderir ao PPD, partido de que foi deputada. Mas nunca me desiludiu como escritora, como intelectual. À sua beleza exterior, correspondia uma grande beleza interior. Não tinha papas na língua, embora deputada de um partido conservador. Quando em 1982, na Assembleia da República, o deputado Jorge Morgado lembrou que a Igreja Católica proíbe o aborto por entender que o acto sexual tem como objectivo único a procriação, Natália, respondeu:

Já que o coito diz Morgado
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menino ou menina
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca,
sendo só pai de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou parca ração! uma vez.
E se a função faz o órgão diz o ditado
consumado essa excepção,
ficou capado o Morgado.

Nunca fui frequentador do seu «Botequim». Quis sempre preservar a imagem daquela visão que me surgiu em pleno Santo António no embandeirado largo em Alfama Como uma deusa. Embora, com a tal boa vontade, pudesse ser minha mãe. (Já repararam que esta questão não tem sentido, pois todas as mulheres podiam ser sempre nossas mães, tias, irmãs, filhas, primas… É a síndrome do incesto a atacar).
Como o texto já vai demasiado longo, deixo-vos com a voz de Natália Correia lendo o seu poema «Defesa do Poeta», num serão gravado (em 1971?) em casa de Amália Rodrigues, com a presença desta, de Vinicius de Moraes, de David Mourão-Ferreira, de José Carlos Ary dos Santos. A Defesa do Poeta:

… finalmente, um nobel para a literatura !

… permitam-me um momento de felicidade (essa coisa que não sei muito bem o que é mas que também pouco me interessa) e um momento de radicalismo intelectual (essa coisa que faz asco a muita gente) : de longe a longe, de muito muito longe, o Nobel da Literatura é atribuído a um(a) escritor(a), o que é muito muito estranho. Herta Muller é um portento da literatura novecentista. a literatura não é uma questão de «gosto». ponto final. por vezes a academia sueca engana-se. ainda bem.

o homem Herta Muller, O Homem é um grande faisão sobre a terra, trad. Maria Mendonça, Cotovia, 1993. (edição de 1500 exemplares; ainda se encontra à venda, fora de catálogo, nos célebres mercados do livro, vejam lá  !)

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Herta Muller, A Terra das Ameixas Verdes, trad. de Maria Lopes, Difel, 1999.

um excerto:

a dália branca
«Nos dias escaldantes de Agosto, a mãe do carpinteiro tinha metido, com um balde, uma grande melancia dentro do poço, A água fez ondas à volta do balde. A água borbulhou em volta da casca verde. A água refrescou a melancia.
A mãe do carpinteiro foi com uma grande faca para a horta. O carreiro era um rego. A alface tinha espigado. As folhas estavam coladas com o leite branco que lhes corre nos pés. A mãe do carpinteiro levava a faca ao longo do rego. Onde a sebe começa e a horta acaba, florescia uma dália branca. A dália chegava-lhe ao ombro. A mãe do carpinteiro cheirou a dália. Cheirou prolongadamente as pétalas brancas. Aspirou a dália. Esfregou a testa e olhou para o pátio.
A mãe do carpinteiro tinha cortado a dália branca com a faca grande.
‘A melancia foi uma desculpa’, disse o carpinteiro depois do funeral. ‘A dália é que foi a perdição dela.’ E a vizinha do carpinteiro disse: ‘A dália era um rosto.’
‘Por este verão ter sido tão seco’, dizia a mulher do carpinteiro, ‘é que a dália estava cheia de pétalas brancas enroladas. Fez-se tão grande como nenhuma dália alguma vez podia ser. E como houve vento neste Verão, não se desfez’. Embora já não tivesse vida, não conseguiu murchar.’
‘Isto não se aguenta’ disse o carpinteiro, ‘ninguém consegue aguentar isto.’
Ninguém sabe o que a mãe do carpinteiro fez com a dália branca. Não levou a dália para casa. Não a pôs no quarto. A dália também não ficou caída na horta.
‘Ela veio da horta. Trazia a faca grande na mão’, disse o carpinteiro. ‘Nos olhos dela havia qualquer coisa da dália. A córnea estava seca.’
‘Pode ser que tenha esperado pela melancia’, disse o carpinteiro, ‘e entretanto tenha desfolhado a dália. Desfolhou-a com a mão. Não havia pétalas espalhadas pelo chão. Como se a horta fosse uma sala.’
‘Acho que’, disse o carpinteiro, ‘ela abriu um buraco na terra com a faca grande. Enterrou a dália.’
A mãe do carpinteiro tirou o balde do poço ao fim da tarde. Levou a melancia para a mesa da cozinha. Espetou a faca na casca verde. Com a faca na mão fez um círculo com o braço e cortou a melancia ao meio. A melancia rachou. Foi um estertor de agonia. No poço, sobre a mesa da cozinha e até cair aberta em duas metades, a melancia ainda estava viva.
A mãe do carpinteiro esbugalhou os olhos. Como tinha os olhos tão secos como a dália, não se abriram muito. O sumo escorria pela lâmina da faca. Os seus olhos pequenos olhavam com hostilidade a polpa vermelha. As pevides pretas pareciam os dentes dum pente encavalitados uns sobre os outros.
A mãe do capinteiro não cortou a melancia em talhadas. Pôs as duas metades da melancia à sua frente. Com a ponta da faca escavou a polpa vermelha. ‘Tinha os olhos mais gulosos que já se viram’, disse o carpinteiro.
O líquido vermelho escorrera pelo tampo da mesa da cozinha. Escorria-lhe dos cantos da boca. Pingava-lhe dos cotovelos. O sumo vermelho da melancia ficou colado ao chão.
‘Os dentes da minha mãe nunca foram tão brancos nem tão frios’, disse o carpinteiro. ‘Enquanto comia dizia: não olhes dessa maneira. não me olhes para a boca.’ E cospia as pevides pretas para a mesa.
‘Eu virei os olhos. Não saí da cozinha. Tive medo da melancia’, disse o carpinteiro. ‘Olhei para a rua pela janela. Vi passar um homem desconhecido. Ia apressado e falava sozinho. Ouvia pelas costas como a minha mãe escavava com a faca. Como mastigava. E como engolia. Mãe, disse eu sem a olhar, pára de comer.’
A mãe do carpinteiro levantara a mãe. «Gritou e eu olhei para ela por ter gritado tão alto’ disse o carpinteiro. ‘Ela ameaçou-me com a faca. Isto não é um verão e tu não és gente, gritou ela. Sinto uma pressão na testa. Tenho as tripas a arder. Isto é um verão que lança as chamas do fogo de muitos anos passados. Só a melancia é que me refresca.»
herta muller «o homem é um grande faisão sobre a terra»

A máquina do tempo: ir «pró maneta»

Hoje vamos fazer uma rápida viagem de dois séculos para trás. Estamos em Lisboa no ano de 1808.
Há uma expressão que, nascida em Lisboa, encontro espalhada por todo o País –« ir para o maneta» ou, como as pessoas dizem: «ir pró maneta». Penso que a maioria dos amigos conhece a história desta expressão, pois já muitos a explicaram. Contudo, como ligo sempre muita importância às minorias, vou contá-la rapidamente. Quando da primeira Invasão francesa, entre Agosto e Setembro de 1808, houve portugueses que julgando as tropas napoleónicas portadoras dos valores da Revolução Francesa, as viam, não como invasoras, mas como libertadoras do estado de atraso em que Portugal se encontrava. Depressa se desiludiram, pois os franceses deixaram por onde iam passando um rasto de destruição, incêndios, violações, assassínio indiscriminado de civis, pilhagens…

Louis Henri Loison, general de Junot, e, mais tarde, de Soult, distinguiu-se pela ferocidade com que ordenava prisões, fuzilamentos e atrocidades. Anos antes, na campanha da Suíça perdera um braço. Montando Junot o seu estado-maior em Lisboa, onde as tropas francesas estavam confinadas após as pesadas derrotas ante as forças anglo-lusas, nomeadamente a do Vimeiro, perto de Torres Vedras, Loison, enraivecido porque as coisas estavam a correr mal, perseguia, prendia, torturava e fuzilava todos os que eram suspeitos de conspirar contra a presença francesa.

Os lisboetas, que depressa o temeram e odiaram chamavam-lhe, com ironia maldosa, o «maneta». Quando Loison prendia e executava alguém, dizia-se, «olha fulano foi pró maneta». E tornou-se frequente o aviso – «Tem cautela, se não vais pró maneta!». «ir para o maneta», perdurou após os franceses retirarem de Lisboa, em 15 de Setembro, retirada negociada em Sintra. Perdurou como sinónimo chocarreiro de morte ou de fatalidade iminente. Ir pró maneta, é coisa da qual ninguém tem pressa.

Eis alguns poemas de poetas populares e anónimos que circulavam de mão em mão sobre o general Loison e sobre o seu comandante, Junot (Jinot, como se dizia):

Entre os títeres generais
entrou um génio altivo
que ou era o Diabo vivo
ou tinha os mesmos sinais…

Aos alheios cabedais
lançava-se como seta,
namorava branca ou preta,
toda a idade lhe convinha.
Consigo três Emes tinha:
Manhoso, Mau e Maneta.

Que generais é que devem
morrer ao som da trombeta?
Os três meninos da ordem:
Jinot, Laborde e Maneta.

O Jinot mai-lo Maneta
julgam Portugal já seu:
É do demo que os carregue
e também a quem lho deu.

A máquina do tempo: coisas elementares, gente simples – elementos transcendentes na poesia de Neruda

Dou a palavra a Isabel Allende: «A 23 de Setembro de 1973, doze días após o Golpe Militar, morreu Pablo Neruda. Estava doente e os tristes acontecimentos desses dias acabaram com a sua vontade de viver.»(…)«que está a acontecer? Ficaram todos loucos? murmurava o poeta com a vista extraviada.»(…)«Enterraram-no no dia seguinte, numa cova emprestada, num funeral eriçado de metralhadoras ladeando as ruas por onde passou o negro cortejo. Poucos puderam ir com ele no seu último percurso, os seus amigos estavam presos ou escondidos e outros temiam as represálias.» («Paula»,tradução de José Carlos Gonzalez).

Pode, pois, dizer-se que Neruda morreu de tristeza. Uma tristeza profunda por tudo o que estava a acontecer no seu Chile. Estava doente, com um cancro na próstata; a emoção e a tristeza foram demasiadas. O coração do poeta não aguentou.

Li tudo o que pude ler de Pablo Neruda. Sempre em castelhano – naqueles anos 50, os livros dele, não só não estavam traduzidos, não se vendiam livremente, alguns livreiros tinham-nos «debaixo do balcão», como se dizia na altura. Lembro-me da emoção com que, na adolescência, pegava nos livrinhos de capa cinzenta da Editorial Losada, de Buenos Aires e devorava as suas páginas.

Lia Neruda, com a sensação transgressora de quem abre uma porta proibida, ainda com a ajuda de um velho dicionário de David Ortega Cavero. Sabia de cor muitos dos «Veinte poemas de amor y una canción desesperada» e, depois, deslumbrei-me com os ainda mais clandestinos dois volumes do épico «Canto general».

Anos depois, saboreei os quatro volumes de «Odas elementales». Encantou-me a ideia de se dedicarem palavras tão belas a coisas tão simples e comuns, tão ligadas à face mais humilde do quotidiano, como uma cebola, o pão, uma colher, uma laranja, um cão, uma maçã… Uma coisa tão simples como transformar chumbo em ouro. Alquimia que só está ao alcance de um grande poeta como Pablo Neruda.

Em «Confieso que he vivido», confia-nos que nas «Odas» quis descrever coisas já cantadas, ditas e reditas. Como se fosse uma criança que começa, mordendo o lápis, uma redacção sobre o sol, sobre a ardósia escolar, o relógio ou sobre a família humana. Nenhum tema podia ficar de fora da sua órbita, tinha de tocar em tudo, andando ou voando, submetendo a sua expressão à máxima transparência e virgindade.

Ouçamos Pablo Neruda na voz do cantor andaluz Joaquín Sabina:

Isabel Allende conta como no funeral «diante dos olhares raivosos dos soldados, todos iguais, com os rostos pintados para não serem reconhecidos e com as armas a tremer-lhes nas mãos», os amigos desfilavam lentamente, com cravos vermelhos nas mãos, gritando: «Pablo Neruda! Presente, agora e sempre!»

Agora e sempre, Pablo, as tuas palavras ecoam nos corações amantes da liberdade.

A máquina do tempo: a força positiva do futebol – Eusébio

Já aqui confessei o meu gosto pelo futebol e também a minha indisponibilidade para falar do tema sem ser em termos muito gerais – já pude verificar como, rapidamente, pessoas de grande saber e inteligência parecem perder esses atributos mal pegam no assunto. Quem já não é muito prendado, quando discute futebol ainda o fica menos.

O facciosismo, a clubite aguda, são inimigos da clarividência e pasma-me a convicção com que, por exemplo, se afirma que num determinado lance houve ou não houve grande penalidade, quando, por vezes, árbitros e comentadores isentos (se é que os há), têm dificuldade em discernir mesmo depois de verem e reverem o lance de vários ângulos.

Em família, embora sejamos todos adeptos do mesmo clube, lá vou discutindo e dando vazão aos meus sentimentos futebolísticos, se tal coisa se pode chamar às pulsões malignas que o futebol provoca (sobretudo quando o nosso clube não ganha). Em crónicas anteriores, lamentei o meu desapontamento quer face ao mau futebol praticado pela generalidade das equipas portuguesas, quer perante a corrupção associada a este desporto. Verberei as miseráveis claques, gente asquerosa, pelo menos quando em manada. Hoje queria falar de uma força positiva que o futebol também tem. A de ser fonte de inspiração para escritores e não só.

Há muitos anos, traduzi um livro de Ernesto Sábato, o grande escritor argentino, um dos indigitados este ano para o Prémio Nobel da Literatura. Foi o romance «Sobre héroes y tumbas» que na edição portuguesa, e com o acordo do autor, ficou «Heróis e Túmulos». Não foi um trabalho fácil, porque tendo eu estudado o castelhano europeu, deparou-se-me um texto cheio de argot porteño que só consegui decifrar com a amável ajuda de Sábato com quem fui trocando correspondência e que, compreendendo a minha justificada atrapalhação, me mandou um glossário enorme com termos que nenhum dos dicionários de que dispunha registava.

Contudo, o que me surpreendeu num intelectual de tamanha dimensão foi o rigor com que as suas personagens discorriam sobre futebol. Vim depois a saber que Sábato, hoje quase centenário, pois nasceu em Junho de 1911, é um fervoroso adepto do Boca Juniors, o clube do mítico Diego Maradona. Hei-de voltar a falar aqui de Ernesto Sábato e oxalá que seja muito em breve e a propósito da atribuição do Nobel – poucos escritores houve e há que tanto justifiquem esse galardão. Esta a força positiva do futebol – artistas como Maradona, Eusébio ou Pelé, inspiram grandes escritores, artistas plásticos, músicos…

Não é pecado (e se fosse tanto melhor) – sou adepto e sócio do Benfica. Sendo agoráfobo – ou tendo a mania que o sou, o que vem a dar no mesmo – raramente vou ver os jogos ao estádio (mas tenho as quotas em dia). Porém, apesar do meu convicto benfiquismo, alguns dos meus melhores amigos são adeptos de clubes rivais. Para mim, o futebol é um jogo e há coisas infinitamente mais importantes. Mas, quando bem jogado, é um jogo bonito.

Hoje, como o vídeo indicou, queria referir uma figura que transcende as fronteiras do universo vermelho – Eusébio. E, mais adiante, explicarei porque é que não digo «encarnado».
Num almoço que, há muitos anos, por motivos profissionais, tive com o grande musicólogo João de Freitas Branco e com o maestro Ivo Cruz no restaurante Belcanto, no Largo de São Carlos, Freitas Branco contou-me um episódio muito curioso ocorrido durante a vinda a Lisboa do grande violinista ucraniano David Oistrakh, que na altura era considerado o maior executante do mundo, sobretudo de compositores do repertório russo contemporâneo.

Logo após a chegada, a recepção, os cumprimentos, este, chamando Freitas Branco de parte, lhe pediu para lhe arranjar maneira de ir ver o Eusébio jogar. Embora muito surpreendido pelo inusitado pedido, João de Freitas Branco, entrou em contacto com o presidente do Benfica e logo foi disponibilizado um camarote para Oistrakh e Freitas Branco assistirem ao jogo. Diz-se que, no final do concerto, o grande violinista nem sequer veio agradecer pela segunda vez os aplausos do público do São Carlos, para poder chegar rapidamente ao estádio. No final do jogo, em que Eusébio marcou um dos seus magníficos golos, David Oistrakh foi ao balneário cumprimentar o jogador. Sobre este concerto em Lisboa, o grande escritor José Gomes Ferreira escreveu um interessante poema, que vem publicado no 2º volume do seu livro Poeta Militante:

Não, não deixes secar
este fio de água de violino
que nas manhãs de ouro
completa as nossas sombras com flores –
enquanto os pássaros de sementes nos olhos
procuram na espiral dos voos
outro cárcere de recomeço.

A leitura deste belo poema de Gomes Ferreira, leva-nos até a Fernando Namora e a Manuel Alegre. O primeiro, no seu poema «Marketing», alude aos 5-3 do Eusébio à Coreia. Manuel Alegre, sobre o «Pantera Negra» diz:

Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.

Houve e há outros grandes jogadores, nomes míticos como Pinga, Peyroteo, Luís Figo . Mas Eusébio foi, numa época em que o nosso futebol era pouco conhecido além-fronteiras um caso aparte. Ele faz parte da face positiva e inspiradora do futebol.

Falemos agora do vermelho e do maldito encarnado. Nas primeiras décadas da sua existência sempre se chamou aos jogadores do Benfica, os «vermelhos». Em 1936, o fascismo internacional desencadeou a Guerra Civil de Espanha. O governo de Salazar, sem ser de forma oficial, apoiou desde a invasão o exército rebelde nacionalista. E forneceu o apoio logístico que podia – por exemplo as antenas do Rádio Clube Português foram postas ao serviço dos insurrectos emitindo da Parede para toda a Península.

O embaixador do Governo espanhol, Claudio Sánchez Albornoz, apresentou protestos formais, mas indignados. Salazar fez orelhas moucas. Em 20 de Janeiro de 1937, o RCP foi alvo de um atentado com uma bomba-relógio, mas o major Jorge Botelho Moniz, responsável pela emissora, com o apoio do ditador, lá prosseguiu a sua campanha contra os «Vermelhos».

«Vermelhos» foi a designação pejorativa que os fascistas deram às forças leais à República. Os benfiquistas foram proibidos de usar essa expressão que sempre tinham usado para se auto designar e os jornalistas idem. Por isso, não alinho na mariquice do «encarnado» (que até a Benfica TV usa). É VERMELHO, raios os parta!

Viram? Isto estava tudo a correr bem, até podia ter sido acompanhado por um dos diversos concertos para violino do Chopin (os tais que o Santana Lopes descobriu enquanto secretário de Estado da Cultura), mas já está a azedar. O futebol, mesmo sendo uma fonte de inspiração, tem este efeito absolutamente contrário ao do Prozac.

A máquina do tempo: o caminho faz-se caminhando

Muita gente que cita este verso «O caminho faz-se caminhando», ou na sua versão original «se hace camino al andar», não sabe que o seu autor foi um grande poeta castelhano – Antonio Machado. Trata-se de uma estrofe, a XXIX de «Proverbios y cantares» do seu livro «Campos de Castilla» cuja primeira edição data de 1910. Apesar de termos escutado estes versos integrados num trabalho do cantor e poeta catalão Joan Manuel Serrat, vejamos agora o poema sem adornos:

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

De notar, além da beleza do poema, o emprego do substantivo «mar» no feminino, sabendo-se que embora tendo os dois géneros em castelhano, é mais usual o emprego do masculino, «el mar». «La mar», feminino, é coisa de poetas, marinheiros e pescadores, de homens que amam o mar como se ama uma mulher. Há um poema de Federico García Lorca, muito famoso, o «Romance sonámbulo» (do «Romancero gitano») no qual «mar» passa também ao feminino.:

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Etc.

Quem tenha lido algumas das minhas crónicas anteriores, poderá pensar que sofro de uma doença julgada extinta, o «ódio ao castelhano» (odio al castellano), enfermidade também conhecida como «a síndrome de Aljubarrota» . Nada disso. Adoro a Castela, sempre disse que os castelhanos são das pessoas mais simpáticas e afáveis da Península, sem o calculismo mercantil que inquina as mentalidades catalãs, o revestimento bisonho e fatalista das atitudes portuguesas, ou a prudência que faz que se encontramos um galego numa escada não consigamos saber se vem a descer ou se vai a subir. Aos bascos não consigo atribuir qualquer dos apêndices idiossincráticos, meros chavões, chistes sem qualquer valor antropológico (e, diga-se a verdade, todos eles criados pelos simpáticos castelhanos, que chamam a uma fanfarronada «una portuguesada» – pagando-lhes nós com a «espanholada» com o mesmo significado de bravata). Gosto muito deles, mas não quereria tê-los como opressores ou invasores. Como irmãos e amigos, «tudo bem» no brasileiro dizer. Como donos, nem pensar.

Uma das coisas de que gosto em Castela é do seu idioma, da sua cultura, da sua literatura, sobretudo da sua poesia. E a de Antonio Machado é uma das âncoras que me prende ao castelhano e ao prazer de o escutar. Trabalhando mais de 20 anos numa empresa que, não sendo castelhana, usava o castelhano como língua de trabalho, fui forçado a aperfeiçoar os estudos escolares que já tinha feito do idioma e, sobretudo se me ativer ao léxico profissional, falo-o com desembaraço, principalmente se estiver a tratar de assuntos da minha área. Mas evito falá-lo porque sei bem o espectáculo que grande maioria dos meus compatriotas dá a seguir a ter afirmado que «habla español» – ridículas línguas de trapos, competindo com os palhaços, cuja trapalhice é profissional e fingida. Para falar castelhano, sobretudo para nós que temos uma língua muito semelhante, é preciso estudá-lo a fundo, porque aquilo que em linguística se chama «os falsos amigos», palavras iguais com significados diferentes, são mais do que muitos entre o português e o castelhano.

Um dia destes hei-de ganhar coragem para falar de outro grande poeta, um dos maiores, o andaluz Federico García Lorca. Nesta máquina iremos, em 12 de Outubro, visitar o austero don Miguel de Unamuno, um basco de cultura castelhana, e estou, como podem ver, a tentar aterrar junto de Machado, outro andaluz. Mas o universo da literatura castelhana é inesgotável, porque se conseguíssemos referir todos os grandes escritores peninsulares que usam o idioma (e seria tarefa enciclopédica), teríamos depois de olhar a Ocidente, respirar fundo o ar do Atlântico, e recomeçar desde Juana Inés de la Cruz ( a que aconselhava: «não vos queixeis, homens tolos…») até Carlos Fuentes, García Márquez, Vargas Llosa, Isabel Allende… O universo do português é também rico, é um caudal que não nos envergonha face ao dos nossos vizinhos. Vamos lá fazer-nos à pista.

Antonio Machado nasceu em Sevilha em 1875. Foi uma das grandes figuras da chamada «Geração de 98», referindo-se este número á data de 1898, quando a Espanha foi derrotada na guerra que manteve com os Estados Unidos pela posse de Porto Rico, Cuba e Filipinas. A derrota significou uma tomada de consciência de jovens intelectuais da decadência do país e foi como que um ponto de viragem, caracterizando-se a escrita desses jovens pelo seu carácter revolucionário, em termos literários e em termos políticos. Foi rodeada de polémica, pois havia intelectuais, como Pío Baroja, que negavam lógica à designação. Esta classificação geracional refere-se a escritores que nasceram entre 1864 e 1875 – Miguel de Unamuno, Valle-Inclán, Blasco-Ibañez, Jacinto Benavente e Antonio Machado, são das principais figuras ligadas a esta geração.

Morreu em 1939, refugiado num quarto de hotel, fugindo dos assassinos da polícia política franquista, ele que era tudo menos um político. Sabendo que a morte se aproximava, escreveu num papel as suas últimas palavras – «Estos días azules y este sol de infancia», sinal de que antes morrer viajou até ao passado. Um grande poeta – se hace camino al andar – que grande verdade contem este verso que quase se transformou em lugar-comum.

Place your bets

Entramos na emocionante recta final e Oz está na dianteira, com as apostas a 4/1. Na sua peugada está a argelina Assia Djebar, logo seguida da americana Joyce Carol Oates. Mas os fãs do velho Philip ainda não perderam a esperança de no dia 8 poderem dizer:  “Vá lá, desta vez os suecos esqueceram-se do politicamente correcto e escolheram um judeu americano e misógino, que sabe escrever”. As apostas estão a 7/1 mas acreditamos que o velho Philip ainda aguenta o estirão final. Mr. Roth

POEMAS DO SER E NÃO SER

O silêncio não é silêncio

apenas uma espécie de pausa

na vivência dos poemas azuis

que digo e redigo em silêncio

dentro de mim

todos os minutos do meu dia.

Poemas azuis

que em silêncio declamo ao vento

na esperança de que um dia os ouças

em silêncio

com os ouvidos que eles merecem.

Poemas azuis

que brotam em silêncio

da tua imagem sempre presente na estante

onde diariamente

recai o silêncio dos meus olhos.

 

                      (adão cruz)

(adão cruz)