Clube dos Poetas Imortais: Maria Rosa Colaço (1935-2004)


Esta canção, «A Outra Margem», interpretada pelo Luís Represas e pelos Trovante, tem letra de Maria Rosa Colaço. A Maria Rosa foi-me apresentada pelo escritor Romeu Correia, seu vizinho em Almada. Foi uma amizade instantânea que começou, ainda nos anos 50, numa tarde de Inverno, no primeiro andar do café Avis nos Restauradores. Era uma rapariga bonita, inteligente, bondosa, calma, com a sabedoria alentejana do seu Torrão natal a cintilar-lhe nos olhos. Sobre a nossa amizade, ela descreve, mencionando-a, o cenário em que decorreu em «O Amor Tem Tantos Nomes» (1998), lembrando aqueles anos cinzentos que a nossa juventude, irreverente e lutadora, conseguia colorir. Alta madrugada, cantávamos debaixo das janelas do Aljube, «Estupidamente, claro, porque os tiranos não se removem com canções nem falsos heroísmos, mas isso eu não, sabia porque aos dezoito anos só sabemos coisas importantes e únicas…», diz Maria Rosa.
Pediu-me que fizesse a apresentação deste livro, o que fiz com prazer em Oeiras, na livraria e galeria municipal Verney. Foi a penúltima vez que estivemos juntos. Falávamos muito pelo telefone. No ano seguinte sofri um acidente de automóvel que me deixou sequelas que se foram arrastando por quatro operações cirúrgicas, um ano quase fora do mundo e os seguintes de lenta recuperação. Pelo telefone, fui relatando a minha situação e segui a doença do marido, a excelente pessoa que o Malaquias de Lemos era, e depois a sua, dizendo que estava maluca quando me afirmava que morreria em breve. Ríamo-nos até às lágrimas quando dávamos conta de que estávamos só a falar de doenças.

Contei-lhe a história do António José Saraiva, quando ao falar com velhos retirava a prótese auditiva e não ouvindo o que o interlocutor dizia, comentava a espaços «Isso é chato…é muito chato». Acertava sempre, dizia ele, pois estavam a falar das maleitas. Ainda ouço as gargalhadas da Maria Rosa. Depois, já eu andava por aí com canadianas, almoçámos uma vez num restaurante italiano junto ao meu escritório, para lhe apresentar o meu editor e avaliar das possibilidades de ele lhe publicar a obra completa. Poucos tempo antes de morrer telefonou-me a despedir-se, como quem parte de viagem. Voltei a chamar-lhe louca, que era coisa que ela não era. Era sim, uma excelente escritora e uma das melhores amigas que jamais tive.

Maria Rosa Colaço, nasceu no Torrão, Alcácer do Sal, em 1935 e faleceu em Lisboa, no Hospital de Santa Maria, em Outubro de 2004. Completou primeiro um curso de enfermagem e depois o de professora do Ensino Primário. Foi do seu contacto com as crianças que nasceu o livro que a tornou muito conhecida – «A Criança e a Vida» (1984), com mais de 40 edições e traduzido em diversos idiomas. Publicou numerosos livros, dos quais refiro apenas «O Espanta Pardais» (1960), a peça de teatro «A Outra Margem», Prémio Revelação de Teatro em 1958. Foi assessora da RTP durante 12 anos e colaboradora regular do diário «A Capital». O presidente da República, Jorge Sampaio, agraciou-a com a Ordem da Liberdade. Colaborou na antologia «Hiroxima» (1967) com o poema

Serenos e pulverizados continuamos

Aqui tens os teus mitos tu
um dia também terás notícias nossas
os nossos olhos não desistem de furar o asfalto
e crescer como flores proibidas

rastejando entre espingardas e vidros
furamos as paredes e o nevoeiro
rastejamos como vermes
mas nunca à maneira dos desesperados

um dia terás notícias nossas

podes pulverizar-nos
é quase certo que nos pulverizes
podes odiar-nos
é quase certo que nos odeias
podes destruir-nos
é indiscutível que seremos destruídos

mas um dia terás notícias nossas

porque através das paredes e do mar
e do vidro e da dinamite e do ódio
nós continuamos
serenos e pulverizados continuamos.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Muito interessante,Carlos. O Malaquias foi meu vice no Minitério da Saúde, durante 3/4 anos, era boa pessoa mas arranjava problemas por ser vaidoso.Tambem já faleceu.


  2. Estaremos a falar da mesma pessoa? O marido da Maria Rosa era advogado e estiveram muito tempo em Moçambique. Sim, ele faleceu antes dela. Nunca dei por que fosse vaidoso. Era um profundo conhecedor de teatro (enquanto estudante, criou o grupo de teatro da Faculdade de Direito de Lisboa). Dou todos estes elementos porque se trata de uma família numerosa e podes ter conhecido um primo, por exemplo.

  3. Luis Moreira says:

    Não, era o marido dela. Ele era advogado mas arranjava problemas com os governantes por não se calar quando era necessário.Talvez isso, em vez de vaidoso. Conheci-o muito bem, tive que travar algumas batalhas para o segurar junto do Secretário de Estado. Ajudou-me muito quando fui para o lugar, porque ele dominava bem a burocracia do ministério. Era um tipo muito alto e tinha grande “vaidade” na mulher.


  4. Estamos a falar da mesma pessoa, afinal. Em Moçambique (embora fosse um homem de esquerda e afecto ao partido Frelimo) arranjou problemas com as cúpulas e esteve preso uns meses na Machava. Um dia o Samora apareceu lá a ver os presos, deu com ele, ficou banzado, pois não sabia de nada e libertou-o de imediato. Falava demais, mas vaidoso não era. A não ser com a Maria Rosa. Aí tinha razão na vaidade, porque ela era uma fora de série.

  5. Luis Moreira says:

    É isso, Carlos, falava demais. Mas bom tipo e generoso. Bem me lembro como ele andava radiante com o nascimento do primeiro neto.


  6. Lá conseguimos chegar a uma conclusão. E este «falar demais» usei-o sem ser pejorativamente. Quis dizer que não era um tipo calculista e às vezes dizia o que lhe ia no coração sem atentar na conveniência ou não do que dizia. Tanta vez na minha vida que tenho falado demais e a destempo… E, claro, lixo-me.

  7. Luis Moreira says:

    Sim, ele falava despropositadamente, às vezes…

  8. Vasco Malaquias de Lemos says:

    Boa noite, Dignissímos Luís Moreira e Carlos Loures:Três pequenas notas:1)A Maria Rosa Colaço e o Malaquias de Lemos foram dois eternos namorados e o que deles dizem é verdade.2) Os dois foram gente vertical, recta, transparente, nunca se colocaram a jeito nem ao jeitinho português. Defenderam todas as causas e AMIGOS em quem acreditavam. Cresceram em AMIGOS ao longo dos anos. E em respeito e consideração. Pouca gente foi capaz de estar em tantas frentes e em tantas solidariedades.3) Foi assim que cresci, acompanhei, usufrui e me orgulho de ser o filho deles. Ambos passaram aos netos os mesmos valores.Bem hajam,Vasco Malaquias de Lemos


  9. Creio que o Vasco é o filho da Maria Rosa e do malaquias de Lemos. Sua mãe, que me tratava por «irmão», falava-me muito de si (tem uma irmã, não tem). Conhecia-a desde o fim dos anos 50. Ao seu pai só o conheci pessoalmente quando voltaram de Moçambique. Ficámos também amigos. Eram duas pessoas admiráveis e deve ter muito orgulho neles. Receba um grande abraço.


  10. Olá Vasco. Fiz uma grande equipa com o seu pai, que era um homem muito generoso e que tinha um enorme gosto em escrever. Alguns dos seus despachos eram pura literatura. Doido pelo neto, afadigava-se em saber o que era uma maquina de filmar (tinham aparecido naquela altura) para filmar os primeiros passos do neto .Um abraço


  11. Caros Senhores,
    Estava a fazer uma pesquisa por “Malaquias de Lemos” que foi professor na cidade da Beira, Moçambique, nos anos 60/70, e que, entre muitas outras coisas, lançou 2 discos chamados “Jograis de Lisboa” (salvo erro), em que o humor poético era de uma subtileza brilhante. Estão a falar da mesma pessoa? Se estiverem, contactem comigo em chipangara@gmail.com pois gostava de tentar recuperar esses dois discos. Muito agradecido. Jorge coimbra (93 357 4413) Lisboa.


  12. O Dr. Malaquias de Lemos era um homem excepcional, tal como a sua esposa. Foi encenador do grupo cénico da Incrível Almadense de 1997 até à data do seu falecimento. E se o teatro amador da Incrível ainda hoje existe, deve-se ao Malaquias de Lemos, a quem o grupo prometeu não deixar morrer o teatro na Incrível. Cada trabalho nosso é, também, uma homenagem ao homem de grande dimensão que foi.

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