AO POEMA ECOLOGISTA AVENTADO POR CARLOS LOURES

Em momento de revolta escrevi o que se segue. Não leves a sério, Carlos Loures.

O POETA É UMA MERDA

Magnífica surpresa nesta saga de poetas
para as cinzas nocturnas!
Serena ode à quietude universal!
Ali na esquina com fumo branco
habemus paxem.
Na deserta anatomia do silêncio
onde outrora a poesia já morou
grita a verdade bem alto.
Pedaço de vida fumegante
e a grossa lista das páginas em silêncio.
Talvez o nosso nome esteja lá
para embrulhar a consciência adormecida
em dez minutos de paz e de vida.
Lida a vida a vida inteira
este atalho de fim de mundo nada encurta e tudo alonga.
Verdadeiro a correr e a cantar
esgueirando pela rua a frágil seara do corpo
só o paraplégico
fazendo cavalo na cadeira de rodas.
Verdadeiro apenas aquele gajo sujo
colado á soleira numa caixa de cartão
mostrando os dentes que não tem
em arremedo de sorriso que não se abre.

Por isso o poeta é um falso
nem sequer é um fingidor.
O poeta é uma merda.
Cada vez mais me enojam os poetas
na sua ambiguidade de tempo e espaço
no vazio da sua mentirosa e teatral ausência.
Abrandado o tempo na escassez da vida
nem da vida o poeta se dá conta.
O poeta é um cego com ares de quem tudo vê.
O poeta é ridículo.
Inventa céus que não existem
engolindo patéticos peregrinos nos buracos negros das palavras.
Diz aquilo que ninguém entende para mostrar o que não sabe.
Fecha os versos no escuro como se branca fosse a noite inteira.
O poeta finge
O poeta mente
O poeta não vê
que á volta do fumo se juntam quatro caminhos
ainda que nenhum deles tenha princípio ou fim.
E um atalho de fé sem madrugada
sobre as areias movediças da maldição
onde se afogam a mente e a razão.
O poeta não passa de um dilema
perdido entre o silêncio e a palavra.
Por mais agudo que seja o grito da verdade
Não há verdade na essência do poema.

Adão Cruz

Comments


  1. É mais uma perspectiva e está muito bem visto. Um grande abraço e obrigado pelos teus poemas, pela tua pintura e pelos teus textos. Um grande abraço.

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