A máquina do tempo: brandos costumes (os interrogatórios na PIDE)

Saiu há quase dois anos um livro de Irene Flunser Pimentel – «A História da PIDE». Sem dúvida que é o trabalho mais exaustivo que se escreveu sobre a sinistra organização e aquele que em termos históricos mais elementos nos proporciona sobre o que realmente aconteceu, para lá dos mitos e das lendas criadas em torno dela. E quando digo «sinistra organização» já estou a fugir à objectividade com que a autora aborda o tema, fugindo dos adjectivos que, como todos sabemos, são inimigos da ciência, porque se perguntarem a um zoólogo se uma zebra-.de- montanha é «grande» ou «pequena» ele responderá que, em média, o conjunto da cabeça e do tronco mede 220 cm. Face aos números encontrados, ficamos com a ideia de que a PIDE (com a sua antecessora PVDE e com a sucessora DGS) não foi tão criminosa como o foram a Gestapo e a sua congénere italiana a OVRA, por exemplo. O que, a quem por lá passou, não serve de grande consolação.

Em todo o caso, só no campo de concentração do Tarrafal morreram, até 1945, 31 presos confirmados, embora muitos outros cujos nomes não ficaram para a posteridade tenham morrido ou adoecido durante o cativeiro. Alguns eram libertados nas vésperas de morrerem e, portanto, morriam «em liberdade» em suas casas ou nos hospitais, não contando em termos estatísticos para o rol dos assassinados – digamos, para sintetizar, que as polícias políticas do Estado Novo mataram uns milhares de concidadãos nossos, cujo único crime, na maioria dos casos, era o de não estarem de acordo com a política do regime. Se são do conhecimento geral nomes como o de Humberto Delgado, Dias Coelho, Militão Ribeiro, é preciso não esquecer que houve muitos outros, como o caso do médico António Ferreira Soares, morto a tiro em 4 de Julho de 1942 em frente de uma irmã e de uma criada, do José Moreira que, em 1950, «caiu» do terceiro andar da sede da PIDE, do Raul Alves que em 1957 também «caiu», dos dois presos mortos na delegação do Porto em 1957 – Joaquim Lemos Oliveira e Manuel da Silva Júnior… centenas de nomes.

Oficialmente, as mortes deviam-se sempre a suicídios ou a quedas acidentais, a doenças cardíacas, etc. Em todo o caso, a historiadora não nos fornece um número total de vítimas. Não é possível encontrar esse número. Suponhamos que à lista dos assassinados em Portugal, queremos adicionar os que foram mortos nas ex-colónias – portugueses e, sobretudo, africanos? – Tudo se complica.

Os livros como este são muito necessários, pois constituem instrumentos realizados com todo o rigor possível. Buscar a verdade com este rigor é a função da ciência histórica. No entanto, aconselhando a leitura deste livro a quantos queiram saber o que se passou, dada a objectividade com que o tema é abordado ele não nos transmitirá a sensação de horror, de impotência, que se sentia quando se era apanhado nas malhas daquela polícia. Talvez porque tentar transmitir essa sensação, é função da literatura e não da ciência histórica. No entanto, sendo a autora uma historiadora da escola de Fernando Rosas, penso que o escrúpulo com que o trabalho foi elaborado não deve ser posto em causa. É uma obra de consulta onde só figura a verdade apurada.

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Relativamente a um poema feito há mais de 40 anos sobre o meu encarceramento num «curro» do Aljube – na cela 10 – houve companheiros do Aventar que tiveram a amabilidade de me agradecer. Disse na altura em comentário de resposta, que não tinha sido um herói, nem (infelizmente) um caso raro ou dos mais graves. Na minha primeira prisão, em 1965, fui submetido no interrogatório a 13 dias de «tortura do sono», com alguns espancamentos pelo meio. Depois de sete dias, comecei a desmaiar com frequência, e o médico que me ia ver mais do que uma vez por dia, na noite em que completei sete dias aconselhou o inspector , do meu caso (José Américo da Silva Carvalho) a deixar-me dormir. O que ele fez. Puseram-me uma cama desmontável no «gabinete de investigação» – assim eram chamadas as salas de tortura – e dormi ininterruptamente dez ou onze horas até que me acordaram e a tortura prosseguiu por mais seis dias. Penso que a polícia julgava ter apanhado um quadro importante e daí o tratamento violento que outros, com maiores responsabilidades, não sofreram.

Ora bem, isto parecendo muito duro a quem nunca se viu nestas andanças, não foi nada de especial. Muitos milhares de outros antifascistas tiveram um tratamento muitíssimo pior do que o meu. Muitos chegaram a perder a vida e daí o cuidado que a polícia passou a ter, com médicos a vigiar, dia a dia, os efeitos da tortura. As mortes não eram convenientes, davam mau aspecto e, se possível, pioravam a reputação da polícia. Embora nunca se dissesse que as pessoas morriam devido ao que lhes faziam – como já vimos, eram geralmente «suicídios», «acidentes» e «doenças súbitas». Quando os familiares tinham acesso aos corpos, não podiam vê-los. Porque seria?

Antes da «tortura do sono», que, como o nome indica, consistia em deixar o paciente sem dormir até «confessar», houve a «estátua» que, à insónia forçada, juntava a imobilidade também forçada. Os «cientistas» policiais parecem ter descoberto que a imobilidade produzia um desgaste físico acelerado e que na nova modalidade, podendo mover-se, os presos aguentavam mais enquanto, privado do sono durante mais tempo, o cérebro se cansava e a capacidade mental de resistir também. Afinal tratava-se do velho «tormentum insoniae», o suplício da insónia, tão usado pela Inquisição. Por falar de vítimas maiores desta tortura, lembro um estudante de Agronomia que esteve 21 dias sem dormir e que sendo deficiente motor (poliomielite) foi obrigado pelos agentes a dançar a Kalinka… Mesmo assim, não terá sido um recorde.

Além das mortes, das famílias destruídas pelas prisões prolongadas, com diversos anos de pena a que se acrescentavam as tais medidas de excepção que as podiam prolongar indefinidamente, era vulgar os presos verem-se despedidos dos empregos. Quando saíam da prisão – fossem operários, professores, médicos ou escriturários, não podiam trabalhar. Nem emigrar, pois não tinham direito a passaporte. Aqui devo prestar homenagem à Fundação Gulbenkian e à memória de Branquinho da Fonseca, meu director – após as duas prisões, o meu lugar esperava-me. E não deixaram de me pagar o vencimento durante os meses de prisão. E o que devem ter sido pressionados para me pôr na rua! Branquinho da Fonseca explicou-me que resistiu a essas pressões, vindas também do interior da instituição, com um argumento muito simples: «- Ele foi condenado? Não foi. E se está inocente? Se for condenado, falamos então nessa hipótese do despedimento…»

De facto, nunca conseguiram matéria incriminatória para me enviar a tribunal. Da primeira vez presumiam (erradamente) que eu era um quadro importante. Da segunda, com muitas suposições à mistura, de concreto e ao fim de uma semana de «sono», tinham um livro com vinte e tal poemas, alguns pouco ou nada poéticos, muito panfletários. Seria, no mínimo, um julgamento incómodo. Saíram notícias em jornais franceses (algum emigrante que me conhecia). Era mais útil para o regime pôr-me na rua. Depois de uma semana de «sono», deram-me uma dose cavalar (seis meses) de isolamento contínuo e vim à minha vida. O que eu queria explicar é que isto nada tem de heróico. Se pudesse, não teria sofrido nada daquilo. Nasci no tempo e no país errado. Muitos milhares de antifascistas passaram pelo mesmo e por muito pior. Não tínhamos saída: ou aceitávamos os pressupostos da situação e não levantávamos ondas ou não os aceitávamos e aconteciam essas coisas – era-se preso, torturado, vexado, morto, perdia-se o emprego, ficava-se preso durante anos.

A propósito de vexame, as mulheres eram mais vulneráveis – embora vigiadas, torturadas e espancadas por
ag
entes femininos, houve casos de abusos sexuais praticados por inspectores, chefes de brigada ou agentes masculinos. Uma tortura adicional era, se a «estátua» ou a «tortura do sono» coincidiam com o período menstrual, não as deixavam pôr ou mudar pensos, tomar medidas higiénicas, criando uma humilhação extra com os comentários sarcásticos que os agentes, homem ou mulher, faziam sempre que entravam no «gabinete». Fala-se de uma presa, uma estudante, que, já nos anos 60, enlouqueceu. Não pude confirmar.

Nestas crónicas já falei demasiado das minhas duas prisões. Perdoar-me-ão, mas foram experiências traumáticas e que me tornaram numa pessoa diferente. A minha visão (e a de outros) e a de Irene Flunser Pimentel sobre a PIDE são diferentes – por isso mesmo, aconselho vivamente a leitura do livro dela, porque não é com testemunhos vividos que se conseguirá compreender com objectividade o que foi aquele sinistro covil. Procurarei não insistir. E se o tenho feito é porque talvez assim os mais jovens, os que já não viveram aqueles tempos, compreendam, por exemplo, a razão por que o poeta Pedro Oom, no dia 25 de Abril de 1974, quando ao lado do António José Forte no Largo de Camões, viu os agentes da secreta a fugirem saltando de telhado em telhado, como ratazanas acossadas, se sentiu mal e teve de ser transportado, creio que ao Hospital de São José, acabando por morrer de paragem cardíaca. Morreu de emoção e de alegria.

E compreenderão também a grandeza de alguns que tendo o poder nas mãos e tendo sofrido, no mínimo, o mesmo que eu, tiveram a generosidade de não proceder à execução sumária daquela escumalha. Cito o exemplo, um entre muitos, do Professor Luís de Albuquerque que, a seguir à Revolução, sendo Governador Civil de Coimbra e vice-reitor da Universidade, defendeu situacionistas perseguidos, saneados – alguns dos quais tinham contribuído para lhe tornar a vida negra durante a ditadura. E não foi por caridade cristã, pois ele era ateu e marxista. É nestas atitudes que os homens se diferenciam dos ratos.

A vingança seria condenável, mas a História acabaria por absolvê-los de uma tão compreensível desforra. Como afinal perdoou aos torcionários. Alguns já morreram. Outros andam por aí com as suas pensões da Função Pública e até recebem condecorações das mãos do presidente da República. Tudo isto, numa altura em que a casa em que Salgueiro Maia nasceu corre o risco de ser vendida e demolida.

Brandos Costumes?

Comments

  1. Adão Cruz says:

    O ÚLTIMO PARÁGRAFO REVOLTA SOBREMANEIRA. Por isso eu tenho vómitos sempre que alguém, de um modo ou de outro, ligado ao fascismo aparece na televisão como se de gente se tratasse. E vomito as entranhas quando essa gente aparece condecorada, como exemplo. E sinto uma vontade louca de transformar em merda a medalha que recebem. E de olhar como um cagalhão quem lha confere.


  2. Tens razão, mas é assim que funciona esta democracia. Um abraço, meu amigo.

  3. isac says:

    obrigado carlos por partilhar. de facto, acho mesmo muito importante que este tipo de situações seja recordada e transmitida. Como deve compreender, eu e muitos outros que vieram a seguir ao 25 de Abril não temos sequer percepção do que aconteceu. e falta-nos imensa informação “emotiva”, mais do que “técnica ou académica” que torna tudo apenas num “capítulo da história”. por isso o agradecimento.


  4. Um abraço para si, Isac; eu é que agradeço as suas palavras.


  5. é um ótimo poster, eu sempre adoro de ler o que você encreve, em meu website tambèm tem ums artigos e umas notícias legais. abraços.http://sensuaisegatas.blogspot.com

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