Polícia manda fechar “banca” da ILC-AO na Feira do Livro do Porto

Rui Valente

É no mínimo irónico que a Câmara Municipal do Porto tenha decidido homenagear um combatente da Liberdade na edição deste ano da Feira do Livro da “invicta”.

Liberdade foi tudo o que não houve ontem, dia 12 de Setembro, quando três elementos da Polícia Municipal cercaram a “banca” da ILC contra o Acordo Ortográfico, obrigando à sua desmontagem e à cessação imediata da recolha de assinaturas.

De nada serviu invocarmos a Lei 17/2003, que diz expressamente que a recolha de assinaturas é livre e gratuita, e não pode ser impedida por quaisquer entidades públicas ou privadas. A isto responderam os agentes da autoridade que o espaço em questão — em plena Avenida das Tílias, nos Jardins do Palácio de Cristal — é um “espaço privado”. [Read more…]

Ortografia sem filtro

In Britain’s case, I’d suggest that we think of financial services as the industry in question. Such services are subject to both internal and external economies of scale, which tends to concentrate them in a handful of huge financial centers around the world, one of which is, of course, the City of London.

– Paul Krugman

When there are external economies of scale, a country that has large production in some industry will tend, other things equal, to have low costs of producing that good. This gives rise to an obvious circularity, since a country that can produce a good cheaply will also therefore tend to produce a lot of that good.

– Krugman & Obstfeld

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Segundo o Público, o «imposto sobre o tabaco foi o ponto fraco das receitas fiscais», tendo sido a única cobrança a descer em 2017. Pelos vistos, aliás, o Governo contava com esta descida, mas de forma marginal, tendo a diferença ficado muito acima daquilo que se previra no OE, et pour cause, “oficialmente” (eis as aspas, na conhecida versão gráfica do gesto das orelhinhas de coelho).

O Governo tem vindo a contribuir, sistematicamente, desde 2012, para a acentuada descida da qualidade dos Orçamentos do Estado. Curiosamente, tal como a descida das receitas fiscais com o imposto sobre o tabaco, a descida geral na qualidade ortográfica estava prevista e deve-se também a um efeito único. Todavia, o Ministério das Finanças não previu esta descida e não sabe qual o efeito . Para prever e para saber, convém estudar. E querer saber. E o Governo está-se rigorosamente nas tintas.

Sim, nas tintas. Para isto: [Read more…]

Santana Lopes e a ortografia à deriva

Jorge Sampaio escreveu o seguinte:

Fartei-me do Santana como primeiro-ministro, estava a deixar o país à deriva — mas não foi uma decisão ad hominem.

De facto, este anúncio de Santana Lopes foi muito mau :

em relação ao acordo ortográfico […], o empenho do Presidente [do Brasil] Lula da Silva é o de que se dinamizem todos os instrumentos nesse domínio.

Contudo, isto é bem pior:

Agora facto é igual a fato (de roupa).

Efectivamente. Hoje, no sítio do costume.

Sampaio acrescenta:

De vez em quando é preciso dar voz ao povo – e percebi qual era o sentimento do povo.

Então, vamos por partes:

Já assinou a petição? Sim, esta. Óptimo.

Já assinou a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação do AO90? Muito bem.

E a Iniciativa de Referendo? Sim? Excelente!

A CPLP e os pontos de contato

Kule brzęczą o sprężyny w kanapie. Sprężyny wydają długi, wibrujący ton. […] Zaprowadzili mnie do fotografa, zrobili zdjęcie, wywołali je i natychmiast skonfiskowali.

Sławomir Mrożek 

Não interessa como, é para a frentex.

— Rodolfo Reis, 22/1/2017

Nobody speaks English anymore.

— Faith No More (*)

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Onde? No sítio do costume.

 

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Por falar em “onde?” e em “sítio do costume”, já assinou a petição? Que petição? Esta.

E a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação do AO90? E a Iniciativa de Referendo. Já assinou? Óptimo!

(*) ‘Spanish’, nesta versão.

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Ensaio sobre os centrais

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O Luisão escorrega, não é? No golo. Toda a gente pode escorregar. Escorregou. Escorregou. Quer-se dizer, estes centrais já estão um bocado ó tio, ó tio!

— Rodolfo Reis, 4/12/2016

Le fait que l’acte de porter une lettre à la poste est un comportement différent de celui de se promener dans la rue est dû à l’objet-but de l’acte.

Joseph Nuttin

 

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Efectivamente, Fevereiro, mas direto. Sim, estamos em Dezembro de 2016 e já terá havido tempo para a consolidação dos conhecimentos obtidos durante as acções de formação anunciadas, onde provavelmente até terão sido proferidas barbaridades como «se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’». Aliás, recordemos que a grande divisão da doutrina era entre «não mais que 15 minutos» e «basta uma meia hora».

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O desastre prossegue, imparável. Imparável? Nem por isso. Temos sempre [Read more…]

O Acordo Ortográfico de 1990 explicado pelo Expresso

Expresso, a dois meses de celebrar cinco anos de adopção assim-assim do Acordo Ortográfico de 1990, ilustra desta forma as “palavras que ficam ao gosto do freguês”:

Sector ou setor, característica ou caraterística, acumpunctura ou acumpuntura, caracteres ou carateres.

Acumpunctura? Acumpuntura?

Acumpunctura? Acumpuntura?

Acumpunctura? Acumpuntura?

Um jornal que chegou a “poupar letras” onde não devia, gasta letras onde não pode.

Em 17 de Junho de 2011, a presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira, dizia: “a comunicação social já está quase toda a usar a nova ortografia”, o que “irá facilitar”.

Efectivamente, é muito simples.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

(página do Expresso, via Tradutores Contra o Acordo Ortográfico)

AO90 Expresso

 

Objecto (✓) e objetivo (sic)

Isto é, “tem como objetivo evitar a partilha do objecto”. Exactamente. Via ILC contra o Acordo Ortográfico.

De fato, todos esses fatos e todos esses contatos

darwin

Darwinilus sedarisi (*)
© Museu de História Natural de Londres

Soube-se hoje que Mendes Bota defendeu, numa reunião do grupo parlamentar do PSD, a suspensão da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

Sim, exactamente: a suspensão da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

Se não souberem o que é o Acordo Ortográfico de 1990, eu explico. O Acordo Ortográfico de 1990 é aquele acordo ortográfico que tem sido aplicado “sem problemas de maior” e cuja adopção tem vindo a contribuir, “numa base quotidiana e de forma progressiva e natural”, para “a população” se familiarizar “com [Read more…]

Acerca dos *fatos, só mais uma ou outra coisa

Relativamente ao comentário do senhor embaixador Francisco Seixas da Costa, deixo aqui algumas nótulas.

É inadmissível que responsáveis políticos pela criação, promoção e execução do AO90 veiculem inexactidões em relação ao âmbito da supressão consonântica preceituada na base IV e nada me leva a pensar noutro motivo para tal, a não ser ignorância. Acerca disto, creio, estamos de acordo.

Apesar de, em meu entender, os responsáveis políticos não serem obrigados a conhecer, de forma aprofundada, os aspectos técnicos dos diplomas que criam, promovem e executam, não é aceitável o fomento de fugas para a frente, depois quer da emissão de pareceres extremamente críticos, quer do reconhecimento por responsáveis pelo dossier em apreço das imprecisões, dos erros e das ambiguidades («Só num ponto concordamos, em parte, com os termos do Manifesto-Petição quando declara que o Acordo não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambigüidades»).

Por exemplo, uma das ilações que um leigo atento — ou um especialista distraído — terá tirado de determinadas declarações de Pinto Ribeiro poderá ter sido a de que o ex-ministro da Cultura conhecia tão bem e de forma tão profunda o tema que até se dava ao desplante de rebater a Petição N.º 495/X/3.ª com considerações vagas e com piadas de algibeira (Jornal de Letras, n.º 1010, 17 a 30 de Junho de 2009, p. 15):

Compreendo que as pessoas que lideraram a petição tenham essa posição e que estejam grudadas no purismo. É como se não quisessem que as respectivas mulheres mudem de cortes de cabelo ou os maridos deixem crescer ou cortem a barba.

Aquilo de que se desconfiava acabou por vir à tona, na resposta [Read more…]

O Correio da Manhã não sabe adoptar o AO90

Correio da Manha 15 de Março de 2013

Pelo menos, é aquilo que esta notícia de Março deixa transparecer, considerando que o número de ocorrências em ortografia portuguesa europeia (‘Março’, Novembro e ‘pólo’) ultrapassa o das que respeitam o AO90 (uma singela ‘atividade’): estaremos perante um meritório acto de insurreição relativamente à vontade de adopção assim-assim do AO90 manifestada pela direcção do Correio da Manhã? Obviamente, as co-ocorrências apreciadas impedem igualmente que possamos falar de aplicação da norma de 45, mas essa é outra conversa.

Claro, o respeito pelas directrizes de Octávio Ribeiro poderá servir de atenuante para aquele *fato, porque, afinal de contas, o AO90 não interessa nada, aquilo que interessa são as orientações do Correio da Manhã, pois, como é público, quem manda na ortografia portuguesa não é o Governo, quem manda nesta tropa toda é o Correio da Manhã. Por isso, aprendam: facto passa a fato e pára não passa a para. As bases IV e IX do AO90 só servem para inglês ver.

Como hoje estou bem-disposto, não direi desta mistela ortográfica o mesmo que o Dr. Christian Couzinou disse acerca do problema apreciado na notícia, mas só porque – e repetindo-me – estou bem-disposto. A propósito, ao contrário daquilo que se crê no Correio da Manhã, o Dr. Couzinou não se chama Couzino. Claro, a imprensa francesa. Pois, eles lá saberão. Exactamente.

Post scriptum: Ia aproveitar o refrão dos Black Company para o título (‘adoptar’ em vez de ‘nadar’), mas contive-me. Fica prometido. Um dia.

Isaltino Morais: o -ente não é a -ência

Já sabíamos que qualquer semelhança detectada entre as grafias do -ente e da -ência seria mera coincidência.

A moda, pelos vistos, pegou.

A -ência da Câmara Municipal de Oeiras, como não sabe qual das grafias há-de adoptar, adopta duas. Contudo, o (ex-) -ente, Isaltino Morais, escreve em ortografia portuguesa europeia correcta e escorreita. Em suma, tudo aponta para um grave problema concelhio. Felizmente, tanto quanto sei, há duas câmaras (Covilhã e Caldas da Rainha) que encontraram a solução para este problema.

Isaltino M

O Acordo Ortográfico não está em vigor coisíssima nenhuma

O Acordo Ortográfico não está em vigor coisíssima nenhuma

Sim, coisíssima nenhuma.

Até ao ano *letivo 2013/2014, na classificação das provas, continuarão a ser consideradas *corretas as grafias que seguirem o que se encontra previsto quer no Acordo de 1945, quer no Acordo de 1990 (*atualmente em vigor), mesmo quando se utilizem as duas grafias numa mesma prova

Os meus agradecimentos a João Pedro Graça, pela divulgação deste contributo para acabar de vez com a ortografia em Portugal.

A CPLP e Maio. E o Keynes?

Keynes

http://econ.st/Yqwcir

Ao ler estas informações acerca de «colóquio subordinado ao tema “O Direito Constitucional de Língua Portuguesa”» (tendo o programa chegado ao meu conhecimento através de publicação de Ivo Miguel Barroso de partilha de Jorge Bacelar Gouveia), deparo com o seguinte cenário catastrófico: uma *receção, oito *perspetiva, um *diretor, uma *subdiretora, dois *objetivo uma *atividade, uma *atuação, uma *ação, um *retroprojetor e, para rematar, dois Maio (exactamente) com maiúscula.

Sabemos, através de nota informativa, que o colóquio é organizado pela CPLP. Tendo o programa sido divulgado por Bacelar Gouveia e participando o próprio activamente no colóquio, convinha alguma cautela nas partilhas em redes sociais e que a organização fosse alertada quer para a extraordinária redacção da base XIX, 1.º, b), quer para o início desta reflexão de Bacelar Gouveia acerca do AO90: «Quem se der ao trabalho de ler esse tratado internacional logo perceberá que se trata de um conjunto de normas sem sanção, aquilo que os romanos designavam por lex imperfecta». Efectivamente, convém alguém “dar-se ao trabalho de ler esse tratado internacional”. A começar pela própria CPLP.

No caso de a CPLP decidir, duma vez por todas, ignorar o AO90, o processo, garanto, é reversível e a solução, como todas as coisas boas da vida, é bastante simples: mantêm-se os dois Maio e, quanto ao resto, não demora muito (uma recepção, oito perspectiva, um director, uma subdirectora, dois objectivo uma actividade, uma actuação, uma acção e um retroprojector). [Read more…]

Teoria geral da adopção facultativa

 «A ideia original não era má, quando se começou a espalhar passou a ser perigosa e quando foi adoptada por tudo e por todos passou a ser uma desgraça». Será que Ricardo Costa se refere ao Acordo Ortográfico de 1990? Terá “a ideia original não era má” alguma coisa a ver com o “tudo começou em 1967, em Coimbra”, do excelente ensaio de Fernando Venâncio? Estará o “quando se começou a espalhar passou a ser perigosa” de algum modo relacionado com a forma como o Poder tem ignorado aquilo que sobre o Acordo Ortográfico de 1990 tem vindo a ser denunciado na praça pública? Será que o “quando foi adoptada por tudo e por todos passou a ser uma desgraça” se refere à Choldra Ortográfica em geral ou ao Diário da República em particular? Perdão, terei eu próprio escrito “Acordo Ortográfico de 1990”? Acordo Ortográfico de 1990? Aquele cuja aplicação está a ser acompanhada pela Assembleia da República? Aquele que o Expresso ia adoptar? Ricardo Costa é director do Expresso? E não adopta o Acordo Ortográfico de 1990? Será que o director do Expresso já assinou a Iniciativa Legislativa de Cidadãos e ninguém deu por nada?

Expresso2342013

Acordo Ortográfico: uma carta que é de Homem!

A carta que Madalena Homem Cardoso dirigiu ao Ministro da Educação arrisca-se a ficar para a história do combate ao Acordo Ortográfico como um documento fundamental. É uma exposição completíssima e rigorosíssima das várias deficiências do Acordo Ortográfico, incluindo referências a aspectos pedagógicos, jurídicos e linguísticos.

Mais uma vez, seria importante que todos os que se interessarem pelo assunto lessem com a devida atenção o texto de uma cidadã responsável e informada. Os interessados em secundar Madalena Homem Cardoso podem fazê-lo aqui.

Acordo Ortográfico: o que nasce torto nem a CPLP endireita

No dia 30 de Março, os Ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) reuniram-se e, entre outros assuntos, abordaram, também, a questão do Acordo Ortográfico de 1990. A Declaração Final pode ser lida aqui.

O primeiro aspecto a merecer destaque é o facto de o texto respeitar a ortografia portuguesa de 1945, talvez por vontade das representações angolana e moçambicana.

No que respeita à secção relativa à questão ortográfica, para além de declarações vagas sobre a “promoção e defesa da Língua Portuguesa no espaço da CPLP e no Mundo”, os presentes reconheceram que a “aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 no processo de ensino e aprendizagem revelou a existência de constrangimentos que podem, no futuro, dificultar a boa aplicação do Acordo”. [Read more…]

Contra o Acordo Ortográfico: uma espécie de conclusão

Muitas outras questões mereceriam, ainda, uma análise demorada, como a passagem dos nomes dos meses de próprios a comuns, sem qualquer argumentação, ou a supressão disparatada de acentos em determinados ditongos, mas não é possível nem necessário esgotar aqui todos os problemas levantados pelo AO90. Para além disso, quem quiser, verdadeiramente, informar-se sobre muitas outras questões que não abordei, facilmente encontrará nas páginas indicadas no primeiro texto desta série material suficiente.

As questões legais relacionadas com o AO90 são importantes, como ficou demonstrado. De qualquer modo, mesmo que a situação legal estivesse assegurada, o Acordo continuaria a ser negativo. [Read more…]