A sessão ortográfica

It was a new breed of men, created by the Renaissance cult of the individual, who embarked on these hazardous voyages of exploration.
Gustav Jahoda

You’re perfect, yes, it’s true.
Mike Patton

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Já aqui se reconheceu a vantagem de sexão em relação a secção, por não haver cê à mão de semear para suprimir. Ou seja, enquanto secção é uma presa fácil, sexão é uma grafia à prova de bala. Há uns anos, secção começou a transformar-se em seção na consciência grafémica de determinados escreventes e chegámos ao ponto de sessão. De facto, no caso aqui apreciado, a doutrina alternativa de 1990 — a do n’importe quoi, estimulada por pérolas como “agora facto é igual a fato (de roupa)” ou “se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’” — dividir-se-á entre duas interpretações extremamente sofisticadas: por um lado, a sexão de voto e, por outro, a sessão de voto.

Secção de voto, algures na cidade de Lisboa. Foto: Cristina Carvalho (http://bit.ly/2JGgAo2), cf. Aventar, 26/5/2019 (https://aventar.eu/2019/05/26/sexao-seccao-secao/)

Tudo começou a descambar [Read more…]

O Acordo Ortográfico de 1990 e a consagração da falta de respeito

A thing of beauty is a joy for ever.
Keats

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José Cutileiro (1934-2020) escreveu o livro Inventário. Desabafos e divagações de um céptico. Além de o título permitir uma identificação imediata do código ortográfico adoptado pelo Autor — aliás, a melhor ortografia disponivel —, no próprio livro se declara: “Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990“. Convém lembrar que “a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990” não é a prescrita pelo Acordo Ortográfico de 1990. É a outra, a anterior, a óptima.

No obituário dedicado a Cutileiro, António Araújo, como qualquer pessoa minimamente correcta, decente e educada, grafa céptico, ao referir-se ao título do livro. Todavia, numa entrevista postumamente publicada pela plataforma SAPO 24, escreve-se três vezes o título do livro e nessas três vezes surge a grafia *cético. *Cético? José Cutileiro não merece tamanha afronta. Além de atrevidamente apagarem um pê que Cutileiro manteve de forma intencional na palavra que encerra o título do livro, os redactores da plataforma SAPO 24 desrespeitam uma vontade explícita do Autor. Esta prática, corrente noutras publicações, como Diário de Notícias, Observador ou TSF, ou seja, entre gente sem o mínimo de respeito pelos outros, é completamente inadmissível.

Por exemplo, na Visão — outra publicação de empresa privada ortograficamente obediente ao que o Governo determina para o próprio Governo, para quem dele depende, para o sistema educativo e para o Diário da República—, apesar de adoptarem produtos cientificamente deficientes, pelo menos, há respeito pelos outros.

Continuação de um óptimo resto de fim-de-semana e votos de óptima saúde.

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Nótula: Estive com José Cutileiro uma única vez (há dez anos, na Orfeu), quando apresentou o livro Retrovisor, da minha querida colega Vera Futscher Pereira (1953-2019). Houve vários momentos que me impressionaram durante a intervenção de Cutileiro. Um deles, logo a abrir, foi o Keats da epígrafe. Eis a resenha.

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Adenda, com sete imagens, ao meu artigo de hoje no Público

Na passada sexta-feira, dia 24 de Abril de 2020, ao fim da tarde, enviei para publicação o meu artigo de hoje no Público. Nos anexos, incluí algumas imagens. Entre essas imagens, encontrava-se esta:

Trata-se de uma imagem deste texto de 19 de Abril de 2020, protagonista do meu artigo de hoje. Como vêem, lá está o vêem de Vital Moreira na quarta linha.

Aumentado, para aqueles que não o vêem bem:

Como refiro hoje, aquando do envio para publicação deste meu outro artigo no Público que tanto incomodou o ex-eurodeputado, adoptei exactamente o mesmo procedimento.

Eis a imagem da discórdia, do texto de 17 de Abril de 2020: [Read more…]

O fato de Tolentino de Mendonça

Lembrando as palavras de Donald Davidson, recordando uma das faces mais visíveis do drama e agradecendo esta imagem aos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico, aqui ficam umas levíssimas canções de Billy Bob Thornton & The Boxmasters, a pesada explicação do Karl Childers/Billy Bob Thornton e os meus votos de um óptimo e espectacular domingo.

Trump, Chomsky e as línguas

Quem quer ouvir pintar em inglês do Mali?
— GNR

I’ll tell you what I want, what I really, really want
So tell me what you want, what you really, really want
I wanna, (ha) I wanna, (ha) I wanna, (ha) I wanna, (ha)
I wanna really, really, really wanna zigazig ah
— Elijah Wood (o original é este e eis um bónus)

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Segundo a versão do Politico («Without the US, the French would be speaking German»), Donald Trump terá escrito que, sem a intervenção dos EUA na Segunda Guerra Mundial, hoje em dia, os franceses estariam a falar alemão — como língua dominante no território francês, entenda-se. Já agora, fica aqui uma nótula informativa a indicar que a paisagem linguística do hexágono é extremamente complexa e interessante e, já agora, há vida francófona além do hexágono.

Adiante.

Com esta asserção do presidente dos EUA (a veiculada pelo Politico, a original encontra-se no chilreio), depreende-se que Trump não lê, não escuta, não ouve (ou — existe sempre esta hipótese — não concorda linguisticamente com) Chomsky. Há uns anos, perante a pergunta de  Al Page “porque é que a língua francesa é tão diferente da alemã?”, Chomsky criticou implicitamente o ‘tão’, retorquindo que Page estava a partir do princípio de que a língua francesa era diferente da alemã.

Além desta pequena provocação, deixo-vos uma linda imagem do sítio do costume, desta vez, sem fatos, sem contatos, mas com um belíssimo panorama de um aspecto que só tenho difundido em dias de Orçamento do Estado. Tradutores Contra o Acordo Ortográfico, obrigado pelo mote.

Efectivamente, ontem, no sítio do costume.

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A recessão calorosa

O seu papel não era olhar; era ir inteiro com as mãos ao pescoço, com o joelho à arca do peito, e retirar-se uns minutos depois, como um instrumento que tivesse cumprido correctamente a sua função.

Miguel Torga

passaríamos pela sala do senhor Oliveira, que nos ouviria de olhos esbugalhados e testa toda franzida e perceberia logo que ui, essa zona quando dói é sinal que a coisa já está bastante mal, isso não me cheira nada bem

— Carla Romualdo

Hic ostendit propheta, si a bonis eloquiis interdum propter taciturnitatem debet taceri, quanto magis a malis verbis propter poenam peccati debet cessari.

— Regula Benedicti

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Há alguns anos, avisei: “vem aí a recessão“. Ei-la, calorosa.

recessao

Os Tradutores Contra o Acordo Ortográfico (aos quais agradeço a foto aqui reproduzida, tal como ao autor, Daniel Abrunheiro) indicaram esta distinção proposta por Malaca Casteleiro, na entrevista dos assentos: [Read more…]

Diz que é uma espécie de ortografia

Hoje, quarta-feira, dia 23 de Novembro de 2016, durante este invervalo do confronto entre o Glorioso e o colosso turco Beşiktaş [beˈʃiktaʃ], façamos um balanço sobre o que tem acontecido durante esta semana.

Por exemplo, na segunda-feira, aconteceu isto:
dre21112016a

Contudo, na terça-feira, foi isto que aconteceu:

dre22112016a

Já agora, o que estará a acontecer hoje? Hoje,  [Read more…]

Crónica de algumas adopções anunciadas

ggm

Gabriel García Márquez, con un ejemplar de la primera edición de ‘Cien años de soledad’ sobre la cabeza. ©Colita (via El País) http://bit.ly/1iq0cqi

 A partir de entonces ya no era consciente de lo que escribía, ni a quién le escribía a ciencia cierta, pero siguió escribiendo sin cuartel durante diecisiete años.

Gabriel García MarquezCrónica de una muerte anunciada

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Os Tradutores Contra o Acordo Ortográfico indicam que o jornal Sol  se juntou “à lista dos que contribuem para o caos ortográfico”. Efectivamente, no dia 6 de Setembro de 2015, a notícia da Lusa acerca de Gabriel García Marquez, além de ter contagiado, por exemplo, o Correio da Manhã e o Observador, afectou o jornal Sol — isto é, dois dias depois da data anunciada: “A partir de 4 de Setembro, todos os textos respeitarão o Acordo”.

Hoje, o caos ortográfico continua no sítio do costume — contudo, além dos habituais ‘fatos’, temos outro problema grave e o problema tem um nome: chama-se Fernando [Read more…]

O Acordo Ortográfico de 1990 explicado pelo Expresso

Expresso, a dois meses de celebrar cinco anos de adopção assim-assim do Acordo Ortográfico de 1990, ilustra desta forma as “palavras que ficam ao gosto do freguês”:

Sector ou setor, característica ou caraterística, acumpunctura ou acumpuntura, caracteres ou carateres.

Acumpunctura? Acumpuntura?

Acumpunctura? Acumpuntura?

Acumpunctura? Acumpuntura?

Um jornal que chegou a “poupar letras” onde não devia, gasta letras onde não pode.

Em 17 de Junho de 2011, a presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira, dizia: “a comunicação social já está quase toda a usar a nova ortografia”, o que “irá facilitar”.

Efectivamente, é muito simples.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

(página do Expresso, via Tradutores Contra o Acordo Ortográfico)

AO90 Expresso

 

A regra e a *excessão

excessão

Depois da *excessão completa, ficamos igualmente a saber que “este ano não foi *excessão“. Contudo, aparentemente, nada disto está a acontecer: não há nem constrangimentos, nem estrangulamentos.

Post scriptum: Muito obrigado, Tradutores Contra o Acordo Ortográfico.

Aproveitar melhor o fato

sampaio

© NUNO FERREIRA SANTOS (http://bit.ly/1rYfBMa)

Segundo a Lusa (os meus agradecimentos aos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico):

O antigo Presidente da República Jorge Sampaio considerou hoje que a Comunidade de Países de Língua Portuguesa “podia aproveitar melhor” o fato de ter uma língua comum, defendendo mais políticas concertadas de cooperação para o desenvolvimento.

Efectivamente, está tudo dito.

A falta de pessoal para urgências do 112

Exactamente: a falta de pessoal para urgências do 112. Esta falta de pessoal provoca a paragem das urgências do 112. Sim, porque ‘pára’ e ‘para’ não são bem a mesma coisa. Já terão lido, por aí, que  os “órgãos de comunicação social” têm contribuído, “numa base quotidiana e de forma progressiva e natural, para a familiarização da população com as novas regras ortográficas”. Pois, “a roda não pára“.

Os meus agradecimentos aos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico.

CM