aquele que sabe que vai morrer

Quando se olha um homem que sabe que vai morrer – não num qualquer dia incerto, mas em breve e inexoravelmente – não é a morte que contemplamos, mas a vida que nele resiste, essa vida que nos desconcerta porque a achávamos impossível quando o futuro, a redentora ideia de futuro, desaparece. Um homem que sabe que vai morrer já só tem o presente e tudo o que a ele conduziu, tem o tempo – contado, escasso, precioso –, tem um corpo que talvez já não domine, tem fé ou não a tem, tem gente à sua volta ou está sozinho, tem-se a si mesmo – inteiro, desmascarado, definitivo.

Que o homem que sabe que vai morrer faça uma piada, chegue mesmo a contar uma anedota, parece-nos o supremo heroísmo, ou a piedosa fuga que a consciência sempre permite. Mas este homem não tem pena de si mesmo, nem lamenta a injustiça, nem pede nada mais a não ser que o deixem despedir-se a seu modo, a uns com acertos de contas antigas, confissões, abraços, palavras por fim pronunciadas, a outros com não mais que um prato de tremoços e uma cerveja sorvida muito devagar, sem nada para dizer, e se dissesse alguma coisa seria:

– Que gosto estar assim e não ser preciso dizer nada.

Mas nem isso, nem isso. Só uma troca de olhares de vez em quando, um sorriso que se estende lentamente pela rua em volta, pelo voo da gaivota, pelo som estridente do eléctrico, pelas sardinheiras vermelhas à varanda, pelas adolescentes que passam, à gargalhada.

Olha-se um homem que sabe que vai morrer e tudo nele é vida. Esse é o seu mistério e a sua grandeza.

Comments


  1. Excelente!

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