O monstro debaixo da cama

Há uns meses, Tim, vocalista de Xutos & Pontapés, dizia que por cada disco vendido a banda recebia muito pouco. Era tão pouco que acabavam por receber, em proporção, mais dinheiro cada vez que um fã comprava um toque de telemóvel com uma pequena parte de uma canção.

Este é um daqueles segredos de polichinelo. Há muito, para não dizer desde sempre, que os maiores rendimentos em redor da indústria da música vão para os editores e outros agentes, deixando os verdadeiros protagonistas, os músicos, com uma fatia mais pequena.

Não espanta que, em todo o mundo, a guerra contra a distribuição digital ilegal de ficheiros de música tenha sido liderada pelos administradores das editoras e pela associação que representa estes tubarões da indústia. Ficaram famosos os processos da RIAA (Associação da Indústria Discográfica Americana) a algumas pessoas que fizeram downloads ilegais de música. Alguns deles terminaram com condenações ao pagamento da multas ridículas de milhões de dólares. A RIAA, como outras entidades, incluindo algumas portuguesas, seguiu o caminho da repressão. Já que não consegues vence-los, processa-os. A estratégia foi a pior de todas. Foi uma reacção de quem não vê um boi à frente mesmo que os seus cornos estejam quase a entrar pelos olhos. Enquanto se processam uns desgraçados, que tiveram azar, milhões de outros continuam a descarregar música de forma ilegal. Por certo, a industria musical lamenta não poder sentar todos no banco dos arguidos. Os amantes da música lamentam que a indústria da música continue a seguir um caminho autista. Os músicos continuam a ser os principais derrotados.

Em França, os deputados aprovaram, no início deste mês, uma emenda à lei que obrigava os internautas condenados por transferência ilegal de ficheiros a pagar o serviço da internet, mesmo não o podendo utilizar, devido a limitação judicial. Isto é, depois de apanhado a copiar produtos defendidos por direitos de autor e após dois avisos, o cliente de um provedor de internet seria julgado, multado, impedido de utilizar o serviço de net mas teria de o pagar até cumprir a penalização. A justiça teria mesmo de ser cega para aceitar uma coisa deste género.

A lei, que foi sabiamente emendada, pretendia fazer dos provedores de acesso à net os bufos perfeitos: acusavam alegados infractores e continuavam a receber dinheiro do cliente denunciado, além deste não poder usar o serviço. Os “ratos” perfeitos. Em Portugal, alguns protagonistas da indústria queriam o mesmo.

Acontece que a pirataria só vai ter menos praticantes – mas nunca será eliminada -, quando os preços da música ficarem mais acessíveis. A compra de música é demasiado cara e a maior parte dos rendimentos não segue para os criadores. Segue para uma série de parasitas que gravitam em volta de quem cria para eles e pouco mais fazem que um agente de jogadores de futebol.

Há cerca de um mês, num outro espaço, disse que nos dias de hoje, as editoras e etiquetas musicais, os agentes de artistas e bandas, além dos promotores de espectáculos insistem em anunciar os espectáculos de grande parte dos intérpretes como fazendo parte da “digressão de promoção do novo álbum”. Uma estratégia de marketing como qualquer outra e baseado nas fórmulas de outros tempos.

Disse ainda que no passado, os músicos lançavam discos e iam para a estrada promove-los. Era, claro, uma forma de ganhar dinheiro, mas sobretudo de contacto com os fãs e fazer com que comprassem discos, antes ou depois dos espectáculos. Os tempos agora são outros e o dinheiro para os artistas está do outro lado do arco-íris chamado “concertos”. É na estrada, em espectáculos em estádios, pavilhões, salas de concertos ou pequenos clubes e bares, que os músicos ganham dinheiro. A fórmula está alterada. Do tempo em que faziam uma “digressão de promoção do novo álbum” passamos, passaram os artistas, ao tempo em que lançam um novo disco para promover a digressão.

Os discos, sejam CDs ou DVDs musicais ou ainda ficheiros em MP3 ou outros formatos de distribuição, representam a fatia fina do rendimentos dos artistas.

O dinheiro investido na compra de música por parte dos fãs começa por pagar à editora os custos de produção – desde pagamento do estúdio, técnicos, promoção, gravação, produção de imagens, entre outros -, depois paga à editora a percentagem da editora, depois há outras pequenas despesas a suportar e só no final da linha os artistas.

É claro que auferem ainda os direitos de autor ao longo dos tempos. Se não fosse isso, e os concertos, mais valeria tocar e cantar as canções no metropolitano ou nas ruas das cidades. Há uns anos, na comunidade dos músicos, falava-se de que os concertos estavam em queda. Há um ano e meio alguns agentes anunciavam que a crise dos artistas estava a chegar, não só porque a música era “sacada” da internet sem que os intérpretes recebessem algo por ela, mas também porque a crise ia inibir os fãs de pagar bilhete para assistir aos espectáculos. Não foi isso que aconteceu. Antes pelo contrário. Daí que sejam os concertos a fornecer real rendimento, do dinheiro a sério, aos músicos.

Os dados divulgados no início de Fevereiro pela norte-americana Billboard mostram isso mesmo. É na estrada, nas “tours”, que está o “show me the money” das bandas e cantores. Basta olhar para o top dos fazedores de dinheiro em 2008 no mundo da música. Os primeiros 20 fizeram diversos concertos ou digressões inteiras. Com Madonna no topo.

Duvidam? Perguntem a um músico. Em Portugal perguntem, por exemplo, a Xutos e Pontapés ou a Tony Carreira. O mais popular dos cantores nacionais não deve ter muitos fãs a “sacar” canções ou discos inteiros da Internet sem pagar. Vende milhares de exemplares de cada disco, o último é platina por cinco vezes, mas por cada ano faz dezenas de espectáculos e os primeiros de cada digressão são de produção própria, através da sua empresa.

Há menos de um mês, o Diário de Notícias contava que a venda de discos continua a cair. Em 2008 o mercado discográfico português, conta o jornal, só facturou 44.332.628,09 euros. É muito, é pouco? É menos 12,47 por cento que em 2007. No entanto, apesar desta queda, o segmento digital cresceu. Em 2007, os downloads de músicas e toques de telemóvel tinham rendido 2.631.520,89 euros. No ano passado, aumentou quase 17 por cento, para 3.077.128,18 euros. A Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) fez as contas e apurou que foram aquiridos 46.043 álbuns, 423.077 singles, principalmente de artistas internacionais, e 829.347 toques de telemóvel.

“Desde o ano 2000 até hoje, as vendas desceram de 105,8 milhões de euros para os actuais 44,3 milhões, e o sector perdeu aproximadamente 138,8 por cento da sua facturação”, diz-nos ainda o jornal.

Claro que a AFP aponta a “pirataria digital” como é a responsável pela quebra das vendas de música. Dizem que está tudo ainda por fazer para a combater. É verdade. Sugiro que dêem um primeiro passo e comecem este processo através da redução do preço da música. Será um primeiro passo. A sensibilização do público, sobretudo dos mais jovens, é outra opção obrigatória, mas por si só, não
chega.

Continuar a bater na tecla de que a culpa é só da pirataria é tentar tapar o sol com a peneira. Até porque muitos desses ‘bandidos’ são aqueles que compram bilhetes para os espectáculos dos artistas e bandas. São estes os consumidores de música que convém captar para o lado dos não infractores. São estes os potenciais clientes da indústria musical que esta não soube captar porque os seus administradores estiveram mais interessados em contar dinheiro do que em compreender o mundo que circulava à volta deles.

Persistir no caminho trilhado até aqui será como procurar monstros debaixo da cama. Tenho quase a certeza que não estarão lá.

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