A sombra de Caxias (IV – A libertação dos presos políticos)

continuação de I, II e III)
 
Uma das primeiras medidas a tomar depois do fim do regime prendia-se com a libertação dos presos políticos, que continuavam em Caxias e noutras prisões. Para esses, detidos por razões exclusivamente políticas, a liberdade começou mais tarde.
Uma das facções mais radicais do MFA defendia que a libertação de Caxias se processasse de imediato e sem quaisquer tergiversações. Já outros sectores, mais moderados, eram da opinião de que os crimes de sangue deviam ficar de fora. A primeira posição acabou por sair vencedora, embora a abertura das portas não se tivesse processado de imediato.
A prisão foi tomada às sete da manhã por um grupo de fuzileiros especiais e pára-quedistas, comandados respectivamente pelo Comandante Monteiro Serra e pelo Capitão Mário Pinto. Comandava então a prisão de Caxias o Tenente Neves de Matos, elemento da GNR. Sem oferecer resistência, entregou-se às forças que tomaram posse do complexo e ali ficou sob o seu controle.
Na mesma altura, o grupo comandado pelos Comandante Monteiro Serra e Capitão Mário Pinto, já referidos, prendeu sem qualquer resistência vários elementos da PIDE/DGS. Entre eles, quatro agentes motoristas e os inspectores Passos (director do estabelecimento prisional), Parra da Silva (director do reduto norte) e Tinoco, ligado à investigação.
Barbieri Cardoso, um dos mais conhecidos inspectores da PIDE, o inspector Mortágua e o chefe de brigada Inácio Afonso poderiam também estar presos, numa altura em que ainda não se sabia muito do que tinha realmente acontecido. O «Expresso» do dia 27 de Abril de 1974, escassas horas depois do acontecimento, levantava ainda esta e outras hipóteses acerca de eventuais detenções.
Pode-se considerar uma grande operação mediática, o momento da libertação dos presos de Caxias. Chegaram os jornalistas à parada e os presos começaram a lançar cravos vermelhos sobre eles, iguais às que os fuzileiros tinham a ornamentar as suas armas.
Aproximava-se o grande momento. A ordem definitiva é recebida no interior da prisão e os fuzileiros que a guardavam começam a abrir as celas. Nove mulheres e setenta homens abraçam a liberdade com todas as suas forças e saem finalmente para o exterior.
No entanto, de repente, um «golpe de teatro». Os jornalistas recebem ordem de retirada e os presos são obrigados a recolher de novo às suas celas. Momentos antes, Spínola acabava de dizer que era preciso estudar o caso daqueles que tinham cometido crimes de sangue.
Foi apenas uma questão de horas. O MFA impôs a sua vontade e, à noite, os presos acabaram mesmo por ser todos libertados.
Nesse histórico 27 de Abril de 1974, as objectivas dos fotógrafos e as câmaras da RTP fixaram para a posteridade os mágicos momentos da libertação de Caxias. Quem não se lembra dos longos abraços entre familiares, amigos e camaradas! Quem não se lembra dos fartos bigodes e boinas na cabeça dos recém-libertados! Quem não se lembra das comovidas expressões «Ó meu amigo!», «Ó meu amor!», ou das mais prosaicas «Fixe, pá, fixe!»
Quem não se lembra de que, naquele dia, em Caxias, concelho de Oeiras, «a liberdade passou por aqui».