A ARTE (12)

A ARTE (12)

Nada do que disse atrás tem a ver com a Arte em si, e pode levar a que a obra perca a capacidade de se impor pela força da sua presença, e se imponha apenas pela assinatura ou pela auréola que à sua volta criaram os fabricantes de ideias e opiniões, vendo-se reduzida ao estatuto de simples objecto transacionável. Em minha opinião, esta é a face negativa da expressão artística, a que faz descer a obra do elevado patamar dos valores imateriais do homem, para o rasteiro patamar do ter e do poder, para a vertente menos edificante do ser humano, a posse. Este assunto é, todavia, muito complexo, abrangendo conceitos de dimensão mental e cultural, de dimensão económica, de dimensão simbólica, de dimensão política e de dimensão social, que não cabe aqui analisar em pormenor, e que levam a comportamentos e percursos que vão desde a dignidade à degradação.
Talvez tudo fosse diferente se a obra de Arte não tivesse autor nem valor material. O autor da obra é, com efeito, um dos maiores obstáculos à supressão do real-palpável. O autor-pessoa deveria desaparecer na conclusão da obra, a qual seria lançada ao vento como natureza essencial, com toda a sua liberdade e autonomia. Se tal fosse possível, e a obra pudesse ser património colectivo, então sim, poderia atingir o seu verdadeiro estatuto de ponte entre a dimensão antropocêntrica e a dimensão universal do homem, deixando de ser um mero ingrediente deste caldo generalista da nossa cultura. (Conclusão).

                            (adão cruz)

(adão cruz)

Comments

  1. isac says:

    “Talvez tudo fosse diferente se a obra de Arte não tivesse autor nem valor material. ” É curioso, mas já em tempos disse exactamente o mesmo, a propósito do mesmo problema: a posse.

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