A Sua Excelência, o Dr. Salvador Allende Gossens

Nota da Administração: O prof. Raul Iturra pediu expressamente que este texto fosse publicado apenas hoje, dia 12 de Setembro. Por ter nascido no Chile, ontem foi dia de luto para ele.

Ontem, 11 de Setembro de 1009, estive em silêncio. Era o aniversário do assassinato do Presidente Constitucional do Chile, Sua Excelência Dr. Salvador Allende.
Dr. por ser médico e não por arrogância, como em muitos sítios da Europa e da América Latina, continentes onde apenas se tem um grau académico e as pessoas gostam de ser denominadas por Dr.. Enquanto isso, nós os Doutores costumamos pedir para sermos chamados pelo nome. Excelência, por ter sido a forma de se endereçar a ele como Presidente de todos os chilenos.
Um protocolo que acabou quando ele foi eleito, por sufrágio universal, Presidente da República do Chile. Gostava de ser denominado Companheiro Presidente e era assim que nos o chamávamos quando tínhamos a sorte de falar com ele.
A sua história é conhecida por todos. O que não se sabe, era da sua calma, serenidade, tratamento igualitário à Babeuf (1) da Revolução francesa. Como ele, lutava pela igualdade, usando o socialismo científico da Karl Marx, retirado, como devoto luterano que era, da teoria económica de Lutero dos anos 1540 em frente.
O Companheiro Presidente, como se sabe, fez tudo, excepto ser médico. Ministro de Estado nos Governos Radicais dos anos 30 do século passado, Senador (2) durante vinte anos e Presidente da República, eleito para seis anos, mas que não conseguiu atingir pela traição da Forças Armadas do Chile, inédito na nossa História Cronológica, por ordem dos manda-chuvas Nixon e Kissinger. História mais do que sabida.
A sua vida familiar e como indivíduo tímido que era, é outra história. Teimoso e persistente, mas com respeito pela humanidade e direito dos outros, excepto pela burguesia, que explorava a imensidão do povo pobre que era o Chile.
Nunca esqueço o dia, comigo ainda no Chile e com quinze anos de idade, em que um dos motoristas do nosso Senhor Pai entra na nossa quinta, colocada no sítio mais alto das terras da indústria que produzia força eléctrica e separada dos 370 descosidos que para ele trabalhavam, para me dizer: Don Raulito, está o Senador Allende às portas das terras e da população, mas o Senhor Engenheiro não o deixa entrar, mandou fechar o portão e colocou a Guarda Civil para ele se afastar. No Chile são chamados Carabineros e fazem parte da Forças Armadas.
Furioso, percorri a correr esses dois quilómetros que separavam a nossa quinta das casas do operariado, entrei de imediato ao quartel da polícia e mandei abrir as portas. A Guarda não queria, mas eu bati com um punho na mesa, acrescentei que era uma ordem para ser obedecida e que do Patrão eu tratava depois. Agarrei chefe da Guarda pelo braço, fomos cumprimentar o Senador, enquanto o resto dos carabineros corriam a abrir os portões da propriedade privada. Mandei a Guarda entrar para os seus aposentos e acompanhei o Senador casa após casa, para falar com as pessoas. Aliás, mandei um outro operário para juntar pessoas e o encontro foi feito com discurso nas partes públicas dessas terras.
O Senador, preocupado por mim, disse-me para me ir embora. Não ouvi: era o dinamizador da sala. Fiquei, ouvi, cumprimentei todos e cada um dos operários, referi que não sofreriam represálias e assim foi: o debate foi feito em casa, à qual tinha acesso livre toda a Democracia Cristã, que mais tarde ajudaria a derrubar o Presidente Constitucional, voltando atrás ao perceber o delito que tinham cometido e ajudaram a libertar o país… após muitas mortes, cadeia, exílios, ente os quais, o meu, o de minha mulher, filha de um General, sendo hoje a nossa descendência Britânica, outra Neerlandesa ou Holandesa, como são enganosamente denominados.
Saímos do Chile, para estudos, eu e a minha mulher, voltamos atempadamente para as eleições e o nosso candidato ganhou. A seguir, nunca mais o vi. No dia da sua morte, ganhei um campo de concentração, do qual os meus docentes da minha britânica Universidade me resgataram.
Desde esse dia, fui socialista materialista histórico: a Sua Excelência era o melhor orador. Vamos ouvir os seus discursos e a convicção das suas explicações. A história parece ser a minha, mas é parte da benfeitoria do Companheiro Presidente. Ele foi morto a 11 de Setembro, eu fui preso e enviado para o exílio até hoje. Voltar? Imensas vezes, por curto espaço de tempo,, para pesquisar saber social entre os meus.
Silêncio. O Companheiro Presidente fala:

1) Babeuf, Nöel Gracchus Gracchus Babeuf (1760-1797), o primeiro que, durante a Revolução Francesa, soube ultrapassar a contradição, da qual tinham-se retirado todos os políticos que se estimavam aderentes à causa popular, uma contradição entre o direito a existência e a recuperação da sua propriedade de trabalho e a sua liberdade de trabalhar onde melhor houver, para ganhar o direito da liberdade económica. Por causa do seu pensamento e da sua actividade com o adágio todos somos iguais, foi o iniciador de uma sociedade nova. Por causa dessa procura de igualdade, o cidadão Babeuf foi guilhotinado pelos seus colegas de Partido, os partisanos de Robepierre Foi um premonitor do tempo da história socialista científico criada por Karl Marx, a sua mulher a Baronesa Prussiana Johanna von Westpalen ou Jenny Marx, e ideias retiradas de um texto sobre a evolução da propriedade privada e a família de Friedrich Engels, sedo Jeny Marx a redactora de Manifesto Comunista. Base dos princípios social -democrata do Companheiro Presidente.
2) A república do Chile tem um poder legislativo bicameral, como na Grã-bretanha. O Senado era a Câmara Alta e o poder era exercido pelo Presidente da República por meio do veto presidencial para um certo tipo de leis.

Comments

  1. Ana Paula Fitas says:

    Obrigado, Professor Raul Iturra. Pela memória. Pela História. Pela Homenagem. Um grande abraço,Ana Paula Fitas

  2. Ricardo Santos Pinto says:

    Caro professor, é um orgulho para mim tê-lo no Aventar. Abraços fortes.


  3. Companheiro Raul Iturra: Foi com emoção que li o seu límpido texto e ouvi as palavras do Presidente Allende, sobretudo as últimas, cuja gravação já escutei por diversas vezes, mas que sempre trazem a memória dolorosa daquele dia negro de há 36 anos. Um abraço, companheiro.

  4. maria monteiro says:

    Chove sobre Santiago e Missing dois filmes, vistos já há umas boas dezenas de anos, mas que me transmitiram o que de tão grave aconteceu no Chile. Hoje o seu texto completa as imagens que sempre me ficaram. Obrigada, maria

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