Experiências científicas com animais: Por que é que Leonor Beleza não experimenta nela própria? (as alternativas)


Há uns meses atrás, a propósito da criação do Biotério, um projecto da Fundação Champalimaud com capacidade para 25 mil animais, escrevi este post, no qual perguntava por que razão Leonor Beleza, que em tempos andou a fazer experiências com sangue contaminado, não fazia experiências nela própria. É que é esse um dos objectivos do Biotério, fazer experiências com animais. O outro objectivo é exportá-los para outros países, alguns dos quais não têm qualquer legislação que proteja os animais.
O nosso leitor Dorean Paxorales perguntou-me então qual era a alternativa que eu defendia às experiências científicas com animais. Desde aí, está prometida a resposta. Que chegou hoje.
Ponto prévio: antes que me perguntem se é mais importante o ser humano ou o animal, ou se devemos sacrificar humanos com doenças incuráveis para proteger os animais, respondo desde já que há uma enorme diferença entre experimentar em nome da medicina ou experimentar em nome da indústria da moda, da indústria da cosmética, da indústria dos perfumes e quejandos.
Posto isto, vamos às alternativas e comecemos exactamente pela indústria médica e farmacêutica. O método mais eficaz no que concerne aos resultados, e que permite poupar o sofrimento de milhares de animais, é o da cultura de células, tecidos e órgãos. Actualmente, é possível retirar células de animais e mantê-las vivas quase indefinidamente, utilizando-as nas experiências com os mesmos resultados. Além disso, podem cultivar-se pedaços de tecido ou de órgãos dos animais ou mesmo do corpo humano. A descoberta do mecanismo de crescimento dos nervos, o estudo da fisiologia dos nervos e das suas actividades eléctricas, o estabelecimento do número de cromossomas das células humanas e em particular as causas do Sindrome de Down ou algumas causas do cancro foram conseguidos graças a esta técnica.
Para saber qual é a toxicidade de determinado produto que se pretende vender, é usual utilizar o teste LD 50, em que se determina a quantidade de produto ingerida necessária para matar metade dos animais no teste. Não é necessário, no entanto, intoxicar o animal até à morte. O Bio-Ensaio de Neutral Red, uma solução que é dissolvida em água e adicionada às células, numa caixa de cultura de tecidos, permite aquilatar da toxicidade de um determinado componente. O Método de Difusão de Agarose também avalia a toxicidade dos materiais sintéticos usados em aparelhos médicos.
Para avaliar o potencial de corrosão de um produto ou ingrediente, não é necessário queimar a pele de um animal. Existe o Ensaio de Corritex. Utiliza-se uma barreira de matriz de colagénio como uma forma de pele artificial e um indicador de PH colocado de forma a detectar quanto tempo leva o químico a penetrar nesta barreira.
Para ensaiar o grau de irritação que um produto pode provocar na pele ou nos olhos do ser humano, é normal utilizar coelhos albinos, que são rapados e raspados antes de se colocar o produto na pele nua durante 4 horas. Existe a variante do teste de Draize – o produto é colocado nos olhos dos coelhos durante 21 dias.
Não é necessário. Um sistema de alteração protaica ensaia uma irritação, modificando a matriz de proteínas causada pelos materiais estranhos que são indicadores potenciais de irritação do olho ou da pele. Ainda com o mesmo objectivo, existe o Ensaio de Passagem Trans-Epitelial, que mede o químico induzido numa barreira artificial construída por células para estimar a potencial irritação do olho aos químicos. A EpiDerme (que recorre a pele artificial), a EpiOcular (tecido artificial semelhante à córnea), os Modelos Matemáticos e Computacionais (prevêem o grau de irritabilidade de substâncias de teste com base nas estruturas e propriedades físicas e químicas) ou o Teste Epipack (que utiliza folhas de células clonadas), são outras das técnicas que já provaram ser eficazes na experimentação médica.
A farmacologia quântica, por seu lado, é uma técnica usada na química baseada em computador, para estudar a estrutura molecular das drogas e dos seus receptores no corpo. É utilizada em estudos de transmissores de nervos, hormonas, bloqueadores Beta, anestésicos, antidepressivos e muitos outros.
Não faltam as alternativas à experimentação animal, sendo que os resultados são os mesmos. Ou melhores, visto que não se podem considerar fiáveis os resultados que são obtidos em animais cujo estado emocional, devido ao stress, está completamente alterado. Cerca de um milhão de animais são criados, todos os anos, propositadamente para serem utilizados em experiências.
No fim disto tudo, apetece-me perguntar: e os humanos somos nós?

Nota: Devido à especificidade do tema, socorri-me dos sites da Animal e do Centro Vegetariano, entre outros.

Comments

  1. isac says:

    as alternativas existem, só que custam mais. isto é como em tudo, uma questão de custos. tu perguntas qual é mais importante, o humano ou o animal. Para mim são os dois importantes e acho que nem um nem outro deveriam ser sacrificados. Digo isto com uma certa dose de hipocrisia, porque sei que quanto estiver doente e o medicamento que me vai salvar foi testado em animais até à total agonia, eu não o vou recusar. Mas isto acontece porque alguém o fez por mim, porque se tivesse que ser eu a chacinar um animal qualquer, provavelmente não conseguiria. Só mesmo em situação de vida ou morte conseguiria maltratar um animal. e no fim, se calhar são eles que nos vão salvar. a vacina da gripe é cultivada em ovos, por isso se não fosse a galinha…


  2. Parabéns 🙂


  3. […] propósito de um tema que já foi discutido aqui no aventar (ver Experiências científicas com animais: Por que é que Leonor Beleza não experimenta nela próp…) a Campo Aberto realizou em 25 de Julho no Clube Literário do Porto o debate “Biotério: futuro […]


  4. […] o que é muito, demasiado, e irrecuperável. Pouco sobrou desse Período, exceto a Leonor Beleza, que agora arranca os olhos aos coelhos, para fazer experiências &agrav…Quis a História que depois tivéssemos alguns sobressaltos, entre os quais produzimos […]


  5. […] 60 anos de um século, o que é muito, demasiado, e irrecuperável. Pouco sobrou desse Período, exceto a Leonor Beleza, que agora arranca os olhos aos coelhos, para fazer experiências à Champali… Quis a História que depois tivéssemos alguns sobressaltos, entre os quais produzimos Durão […]


  6. […] Fundação Champalimaud com capacidade para 25 mil animais, escrevi este post, no. fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  7. Teresa says:

    Eu não percebo, muito sinceramente, qual é o “problema” que têm com a Drª Leonor Beleza.São métodos cientificos q estão aqui em questão.O Isac diz tudo, se um dia estiverem numa situação em que necessitem de cuidados médicos, quero ver se se lembram de que forma é que os medicamentos foram testados.E tenho outra sugestão, pq que em vez de utilizar a Drª Leonor Beleza, não se oferecem voçês para substituir os animaizinhos???? Já que são tão contra a utilização deles para fins de investigação?

  8. Teresa says:

    E respeitem a Srª, que além de ser uma pessoa fantástica é uma mulher de imenso valor pessoal e profissional.

  9. Ricardo Santos Pinto says:

    Se tiver lido o texto com atenção, verá que há imensas alternativas para fazer experiências sem utilizar animais. Se calhar, só leu foi o título.De Leonor Beleza, retenho a sua passagem pelo Ministério da Saúde e a forma como fez experiências com sangue contaminado. Aí, concordo consigo, foi bem mais grave, porque as experiências foram feitas em humanos.

  10. Teresa says:

    1º sou Biologa, logo não preciso de ler o texto para saber quais são as alternativas.2º Aconsellho-o a informar-se sobre o processo da Drª Leonor Beleza no caso dos hemofílicos. Porque o seu comentário só demonstra falta de nformação. Experimente ler o livro do Drº Proença de Carvalho sobre esse processo, ou os artigos do Público, publicados na altura. Provavelmente não acompanhou o processo, e apenas leu os titulos dos jornais da época.Porque na minha opinião, fez uma “má retenção”.3º Não é Leonor Beleza, é Drª Leonor Beleza. E não faça juízos de valor sem conhecimento de causa, ou sem conhecimento da pessoa.Ela é, como lhe disse, uma pessoa de grande valor pessoal, profissional e político, por muito que doa a algumas pessoas. E o facto de ter sido convidada para o cargo que exerce numa fundação com a dimensão da que preside, a convite, é a maior prova disso.

  11. Teresa says:

    Uma pequena nota: O trabalho da Drª Leonor quando ministra, foi igualmente demonstrativo das suas grandes qualidades. Mas concerteza que também o desconhece. Aconselho-o a fazer uma boa pesquisa sobre o assunto.

  12. Ricardo Santos Pinto says:

    Cara Teresa,A tragédia do sangue contaminado tocou-me pessoalmente através de um familiar. Não preciso de ler os jornais da época.

  13. Ricardo Santos Pinto says:

    Como ministra, apesar de algumas medidas positivas, teve a mesma atitude que tem hoje Maria de Lurdes Rodrigues: achava que os médicos eram os culpados de tudo e tratou-os como achou que deviam ser tratados: muito mal. Só que os médicos não são os professores…

  14. Teresa says:

    Lamento pelo seu familiar. No entanto, penso que deverá ser mais uma razão para se informar sobre o processo mais a fundo, para q não culpabilize alguém inocente.A Drª Leonor fez o trabalho enquanto ministra, mesmo nesse processo, sem qualquer indicío que a pudesse culpabilizar.Se ler a entrevista que ela deu recentemente ao JN, ela diz claramente q nada tem contra os médicos, e justifica-o.Mas tem razão, os médicos não são os professores, têm mais força, o q não implica q tivessem a razão.Tenho uma grande admiração pessoal pela Drª Leonor. E acredite que é uma pessoa com muita sensibilidade e mt humana.Características completamente adversas ás acusações que mts vezes lhe são feitas.

  15. Miguel says:

    Ainda defendem essa Sra incrivel essa senhora se soubesse o que é discriminaçao social devido a hiv ou hvc ou ate voçes ja nao nao falavam assim !! os tratamento dolorosos, incrivel com tamanha burrice que se le em alguns posts

  16. Teresa says:

    A falta de conteúdo no post q deixou, Miguel, responde por si. Nem comento!

  17. maria monteiro says:

    “Os humanos somos nós?” pois tem dias … vão das fracas virtudes aos grandes pecados

  18. Miguel says:

    é assim nao quero ofender ninguem todos nos erramos mas ha coisas que nao tem perdão!


  19. qua a esperiencia mais criada

  20. Paulo Liberato says:

    Cara dra teresa -sim, porque a senhora deve pertencer ao grupo dos 98% dos licenciados que tiraram o curso para serem “dr.”- a sua ciência, já não falando da da decrépita l. beleza, que para mim não passa de uma assassina com sorte, não presta nem nunca prestou. A verdadeira ciência observa, não impõe morais aos factos naturais. Tenho dó de pessoas tão fúteis como a senhora, que estariam melhor a lavar escadas que a manchar a causa científica.

  21. Paulo Liberato says:

    Esta causa reacende-se hoje porque em Portugal não há justiça mas todos querem ser “doutores” para depois irem engrossar as listas do desemprego. Só estas amostras de gente, como a dra. teresa, e a dra. beleza medram aqui neste país, onde o nepotismo, a corrupção e a incompetência reinam. Onde a moral se resume a abusar dos mais fracos e desfavorecidos e a ciência se resume a molestar animais indefesos. Parabéns Ricardo!

  22. sarah says:

    isso é uma injustiça coitados dos animais


  23. parabens pelo seu trabalho!!!!!!

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