Não é o hábito que faz o monge. É o monge que tece o hábito, que usa o monge, que faz o monge

Parece ser um trocadilho, uma brincadeira. No entanto não é. É a lógica da vida. A sonhamos sempre. Ou, sonhamos sempre com a vida. Calderón de la Barca (1), o dramaturgo do Século de Ouro Espanhol, escreveu a sua comédia trágica: La vida es un sueño, onde o príncipe encarcerado para não ser El-rei pensa:

«¡Ay mísero de mí! ¡Y ay infelice!
Apurar, cielos, pretendo
ya que me tratáis así,
qué delito cometí
contra vosotros naciendo;
aunque si nací, ya entiendo
qué delito he cometido.
Bastante causa ha tenido
vuestra justicia y rigor;
pues el delito mayor
del hombre es haber nacido.»

Não seria assim que, no séc. XIX, falaria Karl Marx. Convicto estou de Marx ter sido um devoto luterano, um homem de fé, que escreveu o seu primeiro livro, aos 15 anos, ensaio sobre Religião, com o título Die Vereinigung der Gläubigen mit Christo nach Johanes 15,1-14, in ihrem Grund und Wesen, in ihrer unbedingten Notwendigkeit und inihren Wirkungen dargestellt (União dos Crentes com Cristo, segundo João 15, 1-14, representada no seu fundamento e essência, na sua necessidade incondicional e nos seus efeitos) (doravante Vereinigung), seguido de uma tradução do grego dos versos 140-176 da peça de Sófocles. Karl Heinrich estudou no Ginásio Jesuíta Frederico Guilherme, em Triers, entre 1832 e 1835, onde revolucionou os conceitos de economia e sociologia. O trabalho de Alexander von Humboldt, cientista natural e pesquisador, foi fundamental para a mudança do pensamento burguês de Marx: O princípio da causalidade estabelecido por Humboldt, inspirado no racionalismo de Descartes: “como conheço”, seria para a Geografia: como se constitui o fenómeno? Qual a sua causa primordial? Esta dúvida serviu de mediação para o conhecimento científico que, para ser considerado como tal, deveria ser demonstrado, justificado e só assim considerado verdadeiro, como é dito no texto “A geografia no pensamento filosófico” de Maria Flortice Raposo Pereira, da Universidade Federal de Ceará, pode ser acedido em: http://www.mercator.ufc.br/index.php/mercator/article/viewFile/65/40 e comentado em: http://portalsaofrancisco.com.br/alfa/alemanha/alemanha-5.php. Fonte a que eu próprio recorri para o meu trabalho (de Setembro de 2009): A religião é o ópio do povo, título tirado da introdução do livro de Marx, datado de 1943-44: Crítica aos princípios da Filosofia do Direito, do seu professor Georg Hegel.
Pôde um cristão luterano, instruído e ensinado na fé cristã proferir essa frase? A resposta é, para mim, positiva, porque se trata de um protestante no mais amplo sentido do conceito. A prová-lo aí está o livro em que debate Hegel, mas também o livro que escreveu a sua mulher, baseando-se nas notas do seu marido e de Engels, a Baronesa Católica Prussiana Johana von Westphalen, intitulado O manifesto comunista, de 1848. Baronesa que deixou a vida da corte para redigir os textos do seu marido, passando a ser uma desconhecida que escrevia o que Marx estudava: a economia. Uma família solidária, que entendeu o lucro, definiu a mais-valia e organizou a luta contra o capital e a burguesia que o possuía; fundou a Primeira Internacional ou a Primeira reunião dos Trabalhadores do mundo, em Londres, no ano de 1861, assistiu às iniciativas sindicais e colaborou na união dos trabalhadores, com o sonho de uma sociedade sem propriedade privada nem hierarquias.
Uma família, podemos dizer, à Calderón de la Barca.
Família perseguida e expulsa de vários países europeus pelas suas ideias radicais e pelos textos de Jenny Marx, assinados por Marx e Engels.
Com descendência que soube organizar, após a morte dos seus pais, a Segunda Internacional e colaborar com Kautsky na criação do primeiro partido social-democrata, de socialismo científico.
Família que teceu o hábito que usou, fazendo dos seus membros monges revolucionários.
Donde: Não é o hábito que faz o monge. É o monge que tece o hábito que usa que, por sua vez, faz dele o monge.

(1) Pedro Calderón de la Barca (17 de Janeiro de 1600 – 25 de Maio de 1681) foi um dramaturgo e poeta espanhol. De família acomodada, o seu pai exerceu funções administrativas na corte. Após os extensos e abundantes estudos Universitários no Colégio Imperial dos jesuítas e nas Universidades de Alcalá de Henares e de Salamanca, cursa Humanidades, Clássicos e Teologia, preparando-se para o sacerdócio católico romano, que abandona e parte para a Flandres, onde se torna soldado lutando no cerco da Catalunha. Mais tarde, retorna aos estudos para o sacerdócio, é consagrado padre e adoptado por El-rei como o dramaturgo da corte. Nomeado capelão de Honda delrei, escreveu autos sacramentais, peças de teatro, entremeses, zarzuelas, comédias religiosas, de amor, de ciúmes e filosóficas. Nos seus 60 anos de actividade criativa fixou as regras do teatro espanhol. La vida es sueño, sobre ética e El Alcalde de Zalamea, sobre costumes e justiças, são apenas dois exemplos da sua vastíssima obra.

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