POEMAS ESTORICÔNTICOS

Canção de Natal

Sábado à noite
dia vinte e um
vésperas do Santo Natal.
O frio enrugava os ossos
a rua de Santa Catarina era um rio de gente
um rio de águas desencontradas
sem destino nem rumo
umas correndo para baixo outras para cima
e mesmo para os lados
-se algum dia se viu -!
gente por cima
gente por baixo
gente saindo e entrando
não se sabe bem onde
tanta porta aberta
tanta porta fechada
não se sabe ao certo.
Pessoas em cima de gente
embrulhadas em pessoas e sacos
e mais gente
e mais sacos
pendurados nas mãos
nos ombros
no pescoço
nas orelhas
nos olhos.
Uma velha andrajosa
suja e gorda
– de doença seria a gordura e não de fartura! –
uma provável anasarca cardíaca
que faz do doente
uma espécie de boneco Michelin
rebentando de inchaços
uma velha gorda
excrescente tumoral
– de trapos seria a gordura também! –
(o frio enroscara-lhe o corpo
com todos os farrapos do lixo)
uma velha suja tentava subir a rua
por entre a multidão limpa.
Com grande agonia arrastava pelo chão
puxada por um cordel
uma caixa de papelão
que dentro continha outras caixas
e restos de caixas
e mais papelão
provavelmente
toda a sua mobília de quarto
que haveria de montar
nesse arrastado andar
lá para o meio da noite
no vão de uma porta muito acima do 575
mais fora dos olhos dos enxotadores de pobres.
A velha cuja idade mirraria as carnes
se os inchaços se escoassem
não ia bem disposta
nem dava ideia de estar bem
no meio daquele mar de gente.
Antes de tudo sentia-se afogar.
Não era inveja dos sacos nem dos cheiros
nem dos casacos nem do luxo
– sabia cá ela o que era o luxo! –
importava-se lá ela com todo o papelão dos outros
todo o papelão
que ia dentro daquele mundo de sacos!
Ela só queria o seu papelão
e que não estorvassem
os seus bocados de passos
que juntos
não dariam mais do que dez à hora.
Ela só queria que aquela gente toda
ali parida pelo diabo
a não impedisse de arrastar a sua casa
então praguejava bem alto:
vão todos pró caralho vão-se todos foder.
Ouvia-se como música de fundo
um lindo cântico de Natal…
filhos da puta deixai-me passar
vão-se todos foder.
Dois putos atiçaram a velha:
vai-te foder tu velha ranhosa
ao mesmo tempo que ironizavam à gargalhada:
avariou-se o mercedes à gaja!
A velha não se agastou mais do que já vinha
estava treinada na cena para não perder energias
com a inutilidade de erguer a voz
e ripostou num grunhido cavo:
vai levar no cu paneleiro de merda.
A melodia de Natal
escorria pelos ouvidos cheios de sacos
de paz e harmonia.
Já quase exausta
com voz mais cava a velha dizia:
deixai-me passar bandalhos.
Lá em cima
Deus não deve ter levado a mal.
Como reza o Divino Testamento
dos pobres é o reino do Céu.
Em breve ela estaria com Ele
para usufruir da eterna justiça
e…
na altura devida
Ele lhe daria com ternura
um puxãozito de orelhas.

118
(adão cruz)

Comments


  1. É um bom poema neo-realista, desculpa o rótulo. A vida dos sem-abrigo bem justificava que alguém como o Reinaldo Ferreira, o Repórter X mergulhasse nessa estranha realidade que vai para lé das fronteiras da miséria. Por aquilo que vejo em Lisboa, é gente que nem sequer recorre aos débeis recursos sociais que o Estado lhes poderia disponibilizar. Porque será que fogem tão desesperadamente de tudo e de todos? Bom poema, Adão, faz-nos pensar.

  2. Belina Moura says:

    Essa é uma pergunta que eu faço muitas vezes a mim mesma. Porquê? Será que é porque os sem abrigo já perderam toda a capacidade de acreditar e já nem neles mesmos acreditam?


  3. O Adão terá uma resposta, por certo. Eu também tenho porque só faço perguntas para as quais tenha uma resposta (ainda que errada). Acho que fogem deles próprios.

  4. Belina Moura says:

    That’s the question!Tenho uma amiga que deu guarida, em casa dela, cedeu mesmo o quarto de hóspedes, e a senhora que ela “tirou” das ruas ficava lá, à porta da casa, sempre à espera que a minha amiga chegasse do trabalho, ao fim da tarde. E quando entrava, ia logo para a banheira, e a minha amiga manteve-a limpa e asseada, para não empestar a casa de todas as bactérias e afins que ela pudesse trazer da rua. E dava-lhe as refeições, mudava-lhe os lençóis, como se fosse uma filha.Esta senhora viveu em casa da minha amiga e marido durante seis meses e até emprego ela lhe arranjou. Mas quando se viu forçada a ter de enfrentar uma vida “normal”, a ter de ir todos os dias trabalhar para a fábrica e a receber o seu salário ao fim do mês, esta senhora desapareceu. A minha amiga encontrou-a, semanas mais tarde, após buscas incessantes, na rua, a dormir no meio dos caixotes de papelão…Uns meses depois descobriu que, ao atravessar uma rua, esta senhora foi atropelada e… faleceu.Como dizias, Carlos, porque será que fogem tão desesperadamente de tudo e de todos?Porquê?

  5. Belina Moura says:

    Achas que é essa a resposta, Carlos? E tu, Adão, concordas?

  6. isac says:

    os sem abrigo só têm uma capacidade: sobreviver. Eles já estão nessa situação precisamente por já não acreditar em nada, nem em ninguém. E, na rua, o mundo fecha-se e dificilmente se abre novamente. É um caminho sem saída.


  7. Quando se fala de miséria e se estudam os fenómenos sociais relacionados com a pobreza extrema, a questão dos sem-abrigo escapa a todos os dogmas, ideias feitas e conclusões científicas. Porque não é uma realidade que afecte apenas os países pobres, como o nosso, em Francoforte, a capital financeira da Europa, ao fim da tarde os sem-abrigo tomam conta da cidade, com os seus caixotes de cartão, os seus cães, os seus andrajos. Vêmo-los em Londres, em Nova Iorque, em Paris, em Amesterdão… em cidades de países desenvolvidos. Alguns receberam educação formal e arranjariam emprego se tentassem. São associais, não querem integrar-se. Porquê – respondo da mesma maneira – fogem de tudo, de todos e deles próprios.

  8. Belina Moura says:

    Sei que é essa a resposta, Carlos, mas continuo sem entender… Porque fogem deles próprios? E mesmo quando há pessoas dispostas a dares-lhe uma mão, ajudá-los genuinamente, lavares-lhes a feridas, tirar-lhes as doenças, porque preferem eles viver naquela estagnação de morte em vida? Não consigo entender a mente deles…Sim, porque nós somos aquilo que pensamos. Não aquilo que sentimos nem aquilo que experienciamos, não! E se nós pensamos “eu sou assim”, seremos assim. Porque o poder da mente é o único que existe, imutável e belo. Eu acho que é isso, eles são aquilo que pensam sobre eles mesmos.

  9. isac says:

    Não seria assim tão pragmático em relação a arranjarem emprego se tentassem. Não há emprego para todos e isso é óbvio. Mas concordo com o “associais”. Mas também há que admitir o facto de que há pessoas que também são empurradas para a rua. Conheço vários casos e todos eles são diferentes. Um familiar meu foi sem-abrigo por opção, por exemplo. Não se encaixava na sociedade actual. E não quis sair das ruas. Quando quis sair, saltou da ponte D. Luís.

  10. Belina Moura says:

    Vêm-me sempre lágrimas aos olhos quando leio sobre alguma história verídica de alguém que atentou contra a própria vida. E que conseguiu.

  11. Carlos Loures says:

    Isac, tem toda a razão – as generalizações são sempre peigosas. Eu referia-ma ao «sem-abrigo-tipo», que talvez nem exista, pois cada caso é um caso. Belina, tem razão, mas os sem-abrigo não são suicídas. Parecem viver noutro planeta. Mas recuso-me a continuar a conversa enquanto o Adão, que desencadeou tudo isto, não tomar a palavra. Um abraço, amigos.

  12. Belina Moura says:

    Vejam lá quem está aqui em minha casa. Ele manda dar estas pistas:- Não é um sem-abrigo;- Gosta das ruas e das esquinas por estética e por aventura;- O nome dele começa por “D” e acaba em “y”…Quem é? Quem é? O sem-abrigo rico à procura de aventura…

  13. Adão Cruz says:

    Não posso tomar a palavra em assunto que muito me ultrapassa. Limitei-me a escrever uma história a que assisti pessoalmente. Penso, no entanto, que há caminhos que não têm regresso. O grande mal está em que nada se faça antes de se entrar por esses caminhos de que se não volta. Uma professora finlandeza, um dia, no Porto, ao ver os desgraçados de Santa Catarina a dormir nas soleiras das portas, disse: “eu recusar-me -ia a viver num país que permitisse tal coisa. Isto, no meu país não existe”. A Finlândia, país capitalista sem dúvida, não é um país perfeito, todos concordamos. Todavia, deve ser um país que faz, conscientemente, a profilaxia do tal resvalamento para caminhos sem regresso. Os tais países civilizados a que Calos Loures se refere, nada mais são do que sociedades profundamente injustas, de profundo e selvagem cariz capitalista (um mal crónico, de empedernido egoísmo), totalmente incapazes de resolver os problemas sociais. Eu não tenho a mínima dúvida de que a solução para a fome e para a miséria não seria difícil se houvesse da parte dos donos do mundo interesse em resolver tão dilacerante problema. Estão-se pura e simplesmente cagando. Bastava, segundo os técnicos, 1% do que foi injectado na economia para tentar resolver a crise actual, para dar ao mundo uma reconfortante esperança de vida aos humilhados e ofendidos da Terra, bloqueando muitos dos tais caminhos sem regresso. É fácil apelidarem-me de burro ou de ingénuo, difícil é provarem-me, convincentemente, que não tenho razão.


  14. É uma bela maneira de terminar esta mesa redonda (ou bicuda). Estava a ver que não falavas, apesar de todas as provocações que fui fazendo. Obrigado Adão, pelo teu poema tão realista e humano.

  15. maria monteiro says:

    ninguém gosta de ser tratado/olhado como um farrapo, como inútil, como “lixo”… muitas vezes quem anda em trabalho voluntário de apoio aos sem-abrigo trata-os/olha-os como coitadinhos … há apenas uma aproximação qb quase como “picar” o cartão do voluntariado.Eu já fiz voluntariado e o que mais me agoniou/tirou o sono nessa época não eram os sem-abrigo mas sim a forma como nós voluntários encarávamos essa tarefa … há pequenos gestos que dizem muito

Deixar uma resposta