Crítica à Crítica

Reparei que ultimamente, muita gente discorda da crítica em tom de sátira. Mas mais importante que isso, reparei que meio mundo critica o facto do outro meio mundo criticar alguma coisa. A própósito disto, queria só dizer uma coisinha rápida…

Uma crítica que faço a mim próprio é a de ser demasiado agressivo verbalmente. Volta e meia, perco as estribeiras e rebento em asneiradas. Está mal. Às vezes, sou até bastante estúpido, precisamente porque fervo em pouca água. Embora, a quente, discorde de mim próprio. É estranho, mas é verdade. Critico tanta coisa, que acabo até por me criticar. Ainda há pouco tempo estive envolvido numa discussão acesa, na qual, depois de longa argumentação, consegui piorar mais ainda a situação, chamando estúpidas às pessoas que vêem telenovelas, porque, para mim, as telenovelas são mesmo uma estupidez pegada e uma anestesia cerebral. Obviamente, a mãe ou a avó de alguém (eu incluído) vê religiosamente “a telenovela” (como se não existissem aí umas quinze) e acho que até acreditam que aquela porcaria é mesmo verdadeira, e que aquelas personagens se chamam mesmo Dulcineide e Wordinaldo. Portanto, devido a esse estranho item denominado de “proximidade”, não se pode dizer estúpido, nem nada. E também por respeito, mas hei!, estamos no século XXI, que respeito é que estamos mesmo a falar?!? A minha liberdade de falar abertamente (e criticar) esbarra na liberdade de outro não me querer ouvir e querer responder na mesma moeda. Ou, levemente inspirado, nas palavras do “nosso” ainda Primeiro Ministro: a minha vontade de te dar um soco nas trombas, termina na falta de vontade do teu nariz. Percebo isso. Mas também aprendi a ser verdadeiro. Sempre me ensinaram a não mentir, e analisando o mundo em meu redor, todas as suas implicações e todas as suas complexas relações, e se acho que algo é estúpido, não sinto nenhum pudor em lhe chamar como acho que deve ser chamado. Tenho é de o fazer “para dentro” ou muito baixinho, precisamente por causa da tal dualidade própria de me exprimir livremente. E também porque entendo o conceito de empatia. É que do outro lado, pode estar um gajo com um maior “arsenal de asneiras” e mais meio metro de altura. É tudo uma questão de força. Eu, por exemplo, reajo muito mal à crítica. Tanto positiva como negativa. Se no caso da crítica positiva, não sei muito bem o que fazer ou dizer e preferia muito sinceramente que ninguém dissesse nada, por outro lado, a reacção às críticas negativas pode ser, digamos, um pouco violenta. Violenta, não. Emotiva, como se diz na política. “Tanta coisa está terrivelmente mal no mundo e eu é que sou o criticado, só por criticar?” Não reajo bem. Não sou político ou figura pública, portanto sou imune à perfeição e posso ser violento/emotivo, como todo o ser humano normal por esse mundo fora. Não podem ser só virtudes. E depois penso novamente na empatia e critico-me a mim próprio por estar sempre a criticar tudo. Portanto, não sei muito bem se a crítica, no sentido geral, é válida. Mas também, se não criticar o que acho que está mal, acabo por entrar na lógica do “quem cala consente”. Dúvidas existenciais profundas só porque um gajo qualquer se lembrou de fazer um provérbio.  É claro que se a crítica girar em torno de algo em que toda a gente (ou uma maioria) está de acordo, esse problema de contenção e “proximidade” já não existe. Se num grupo de pessoas apolíticas alguém critica a política e/ou chama a um qualquer político de ladrão ou mentiroso, todos os outros aplaudem e conseguem até arranjar uma forma de criar novos palavrões ainda piores. Mas isto acontece num círculo fechado. Em aberto, publicamente, pura e simplemente não acontece.

E assim, devido a todos estes condicionalismos, a crítica cómica, o sketch e a sátira, tornam-se a arma de eleição para criticar sem criticar e, principalmente, para criticar sem esperar represálias. Tudo com um sorriso nos lábios, que é bem melhor do que levar um soco nos dentes. E também por uma questão de audiência. Ninguém (ou quase) quer estar a ouvir um homenzinho muito sério, com um tom de voz sério, à frente de um cenário muito sério, a falar de coisas sérias. Mesmo o Marcelo R. Sousa tem aqueles tiques todos e uma maneira esquisita de falar, só para não parecer tão sério. Aquelas histórias de ele ler 20 livros enquanto dorme também é com o mesmo propósito. Gajos sérios não têm piada nenhuma. Os portugueses já são um Povo deprimido por natureza, não estão para aturar mais um gajo sério. Por outro lado, a crítica “séria” quase não existe, e não existe porque paira no ar uma consciência de que não é possível criticar os gajos sérios, sem se meter numa carga de trabalhos, arranjar inimizades duradouras, passar um longo tempo em tribunais, atolados em papéis para provar que não disse o que disse. Enfim, a suprema violência burocrática. E a carga de trabalhos é proporcional ao tamanho do criticado. Tenho ideia de que na altura em que a crítica se tornar mais séria, directa e objectiva, as contendas vão-se resolver à porrada, num mano-a-mano de mangas arregaçadas. Alguém tem tomates suficientemente grandes para ir contra e criticar aberta e publicamente o núcleo duro da Política? Da Banca? Das Corporações? Bem, o Francisco Louçã faz isto, mas como tem também aquela maneira esquisita de falar e um programa de governo de extrema-esquerda ninguém o leva a sério. Eu sou sincero e desmarco-me desde já. Ainda é preciso levar muitos “carolos” e umas chapadas “à padrasto” para chegar a esse ponto. Mas para lá caminho. Fico com a dúvida se a crítica “na brincadeira” existe porque afinal as coisas não estão assim tão más, até porque ainda dá para ir “mandando umas piadinhas”… ou se existe porque quem critica está meio acagaçado e é melhor não abrir a boca toda.

Pensando bem, para quê tanto trabalho, para quê as nódoas negras e um corte no sobrolho, para quê o “inferno dos papéis” se se pode criticar exactamente a mesma coisa, ainda por cima, com a possibilidade de o alvo das críticas poder estar ao nosso lado a rir-se, apenas tendo para isso, que fazer um pouco de parvo para ninguém me levar demasiado a sério? É preciso ter noção que, hoje em dia, para criticar alguém ou alguma coisa na praça pública, é necessário fazer um inquérito prévio para determinar todas as opiniões e tomadas de posição envolvidas, de modo a não suscitar acesas discussões que suscitem demasiada argumentação. Até porque toda a gente sabe que, acabando os argumentos, só resta virar costas à discussão ou dizer palavrões e/ou falar mais alto que os outros, e isso é considerado uma extrema falta de educação. Novamente, o exemplo da política: sendo que a argumentação há muito que já não existe, resta apenas o insulto (apesar de muitos virarem as costas à discussão). E um dos poucos insultos permitidos é chamar o outro de demagogo, o que não aflige quase ninguém, porque também quase ninguém sabe o quer quer dizer. Fica apenas o recado para “dentro” e é praticamente uma piada própria da Assembleia da República. É o sinal para acabar com as discussões, antes que alguém chame outro de néscio.

Conclusão: actualmente, quem tem voz pública, tem uma táctica que passa por criticar mas sem criticar ninguém, nem magoar ninguém, nem insultar ninguém. O P.R. deu o mote institucional: falar, falar e não dizer nada. A única crítica verdadeiramente autorizada é a crítica positiva, mas também não seria de esperar outra coisa, já que vivemos no Tempo do Optimismo-Salvador e dos Manuais de Auto-Ajuda. Para criticar alguém convenientemente, de preferência têm de se citar autores mais ou menos desconhecidos que criticaram dissimuladamente situações mais ou menos parecidas com o que se quer criticar ou utilizar linguagem que quase ninguém perceba. E depois discute-se se o autor A tem mais livros editados do qu
e
o autor B e esquece-se a crítica.

A crítica aberta, em praça pública, fica assim restrita a um estilo moderno de “Revista à Portuguesa”, sem os adereços populares, o improviso e uma vareira a cantar um “faduncho”, até porque sendo a Identidade de Portugal, o fado, esse ninguém o critica. Pessoalmente, continuo a ver a crítica, seja ela qual for (positiva, negativa, séria, cómica, colorida), apenas como uma gigantesca sondagem ao País e ao Mundo. Obviamente, menos fiável, mas muito mais abrangente. Mas também, qual é a sondagem que é fiável hoje em dia? Por isso mesmo, acho que todos devem criticar e ser criticados de volta. Todos, menos eu, claro.

Digo tudo isto a brincar, não vá alguém se ofender…

Comments

  1. maria monteiro says:

    Isac, se queria só dizer uma coisinha rápida… esticou-se na escrita mas… muito bem : -)

  2. isac says:

    pois eu sei. não tenho muita capacidade de síntese. escrevo como falo: começo e nunca mais consigo parar. e isto era só o comentário a um post do Arrebenta por causa dos “Gatos Fedorentos”.

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