A máquina do tempo: viagens ao futuro (feitas no passado)

Não sei se recordam como começa a novela de Dostoievski «As Noites Brancas». É com esta frase: «Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor». E esta ideia de que o tempo, o clima subjectivos se sobrepõem ao tempo e à meteorologia objectivos é reforçada mais para o fim da novela, ou do «romance sentimental» como lhe chamou o autor, quando uma velhinha, a avó de Nastenka diz que «noutros tempos, tudo era diferente, no seu tempo, quando era jovem, «o sol era mais quente, as natas não azedavam…»

Nos anos 60, os famosos anos 60, eu era muito jovem no princípio da década e, obviamente, menos jovem no seu final, mas ainda bastante novo. Em Portugal, e não só, mas em Portugal foi, de facto, uma década terrível, vínhamos do «terramoto Delgado» de 1958 e, logo em 1961, aconteceram tantas coisas que, para um país onde nos queixávamos que não acontecia nada, foi demasiado: o assalto ao Santa Maria, o início da Guerra Colonial, a invasão do Estado da Índia pela União Indiana, o assalto ao quartel de Beja no último dia do ano… E, depois nunca mais parou – sucessivas crises nas universidades, emigração clandestina, greves, o recrudescimento da guerra, que alastrou por três frentes, sucessivas vagas de prisões, porque com os reveses o regime tornava-se cada vez mais susceptível, temeroso e rancoroso.

Dito assim, isto ganha um ritmo épico, mas para quem estava mergulhado naquela realidade era sentido como um tormento, pois éramos obrigados a fazer a guerra e era uma guerra que muitos de nós sabiam ser suja, contra povos que queriam legitimamente ser livres, e éramos presos e torturados e vivíamos todas as vicissitudes duma situação mesquinha, cinzenta, que nada tinha de épica ou de elevada. Éramos vítimas de uma besta estúpida, de uma ditadura liderada por um velho tacanho e sem coração que actuava em nome de valores cediços, apodrecidos, com o cheiro enjoativo das sacristias velhas.

Apesar de tudo isto, os jovens daquela época encontravam espaço para a felicidade, para o amor, para a amizade, para a partilha fraterna do pouco que havia para partilhar. E sempre que podíamos viajávamos até ao Futuro, assim mesmo, com F maiúsculo. E como fazíamos isso? Reunindo-nos, com os cuidados que a situação exigia (e às vezes sem os tomar). Ouvíamos discos do Zeca, do Yves Montand, do Jacques Brel, do George Brassens, do Luís Cília, do Fanhais, o Jean Ferrat… Ouvíamos as gravações das Declarações de Havana, e havia um arrepio colectivo quando Fidel chegava ao fim da Segunda e dizia: «Porque esta gran humanidad ha dicho “basta” y há echado a andar. Y su marcha de gigantes, ya no se detendrá hasta conquistar la verdadera independencia, por la que ya han muerto más de una vez inútilmente. Ahora, en todo caso, los que mueran, morirán como los de Cuba, los de Playa Girón» – nesta altura Fidel era interrompido pela tempestade de aplausos de uma enorme multidão – «morirán por su única, irrenunciable independencia. Patria o Muerte! Venceremos!»

Uma vez, em 1967, estávamos a ouvir a gravação em fita magnética de um apelo ao povo grego dito por Mikis Theodorakis, o cantor, compositor (autor da música de «Zorba») e político marxista grego que passara à clandestinidade quando do golpe militar de direita de 21 de Abril desse ano – um apelo ao seu povo. Alguns de nós tinham estudado grego no Complementar dos liceus ou na Faculdade. Mas mesmo os que haviam estudado o grego clássico, mal compreendiam uma ou outra palavra e depressa os que não compreendiam exigiram que cessasse a tentativa de tradução. A emoção que, de forma crescente, ia transparecendo da voz de Theodorakis, era tão forte que no fim da audição ficámos em silêncio e todos com lágrimas nos olhos. Porque no nosso coração havia certamente tradução para cada uma das palavras. Vivíamos sob uma ditadura e isso fazia-nos compreender a oratória de qualquer cidadão fugido à polícia política, á tortura e à morte, falasse ele que língua falasse. Theodorakis só podia estar a apelar a que os Gregos e as Gregas lutassem pela liberdade e pela democracia.

Curiosamente, e por mero acaso, cerca de dez anos passados, fui encarregado de traduzir o «Diário de um Resistente», de Mikis Theodorakis (da edição francesa, que o meu grego apenas deu para ler as placas toponímicas de Atenas quando ali estive uns dias). E pude saber o que o famoso cantautor e político dissera e que naquela noite nos pusera a chorar. É um texto muito longo que começava por dizer que «O rei, oficiais traidores e magistrados perjuros, de colaboração com os imperialistas americanos, aboliram a democracia na Grécia.» E terminava. «No país onde a democracia nasceu, os tiranos estão votados à morte. Abaixo a ditadura monarco-fascista! Fora com o opressor estrangeiro! Abaixo o carrasco Collias! Viva o povo Grego! Viva a Grécia!». Tinham sido estes brados finais que nos tinham emocionado. E a nossa emocional tradução estava certa.

Essas reuniões que iam fazendo pelas casas de diversos companheiros e companheiras, eram viagens ao futuro. Sonhávamos com a Liberdade e nunca ouvi alguém sonhar que ia ser ministro, ou deputado (embora alguns o tenham vindo a ser). Todos queríamos viver como cidadãos livres, num país livre. Era o único privilégio com que sonhávamos e era esse lugar que visitávamos quase todos os dias no Futuro – um país livre.

*

E cá estamos nós no futuro. Podendo, na realidade, dizer o que quisermos, associarmo-nos como entendermos, sindicalizarmo-nos ou não… Nesse plano o nosso sonho cumpriu-se. E a democracia? Não, aí o sonho superava a realidade. Temos um simulacro de democracia em que a nossa única participação consiste em votar. E, pelas razões que todos sobejamente conhecemos, temos o pesadelo da corrupção, da subordinação a centros de poder situados fora de Portugal, do desemprego, das arbitrariedades… O que sabemos. Não, não tenho saudades dos anos 60. Tenho saudades do Futuro com que sonhava nos anos 60, um Futuro que nada tem a ver com este presente. Naturalmente, como a avó da heroína de «As Noites Brancas», acho que nesses anos cinzentos, o céu era mais azul, o mar mais oloroso a sal, mas isso é outra história. O problema que para mim se coloca é: se os jovens de hoje quiserem ir até ao Futuro, como o deverão imaginar? As perspectivas não são muito animadoras.

Comments

  1. Belina Moura says:

    O futuro existirá sempre e apenas no nosso imaginário. Só o presente importa. E para os jovens de hoje o que é real é o que eles possam imaginar hoje sobre o futuro, o hoje deles é que é real, tal como era o futuro que os jovens dos anos 60 imaginavam no momento em que o imaginavam… que acabou por ser completamente diferente, quando se chegou a esse futuro, cronologicamente falando.

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