Tourada em Salzburg

Eu e o Luis Rocha tínhamos chegado à cidade bastante tarde, numa noite de neve que caía aos farrapos, silenciosa e fria com as luzes a tremilicarem por entre o nevoeiro .Chegados ao hotel nada quente para beber ou enganar a fome tudo fechado salvo, diz-nos o recepcionista, uma taberna no fundo da rua, talvez aí.

Lá fomos encolhidos rua abaixo sem alma de gente a travessar-se no caminho, uma ténue luz a sair de uma porta no rés-do-chão, grossa, batente de ferro que deixava escapar um vozeirão contido. Que sim, havia que comer e beber, mas a casa era de bancos e mesas corridas, tratassemos nós de arranjar lugar e companhia.

À minha frente Franceses, ao lado esquerdo Suiços, mais uns quantos Austríacos e à minha direita um casal americano, ele alto e grosso, ela naquela meia idade como o Outono, coberta de cores, a beleza evidente de uma delicadeza que condizia com a pela bem tratada, uns olhos avelã e um cabelo louro/castanho. Portugueses? ela olhava-nos com curiosidade, conhecem o cavalo de raça “Lusitano”? pergunta com os olhos a rirem de curiosidade, lá nos esforçamos a falar da Coudelaria de Alter, como tem vindo a ser mantida uma pureza de raça, catalogada, de que se conhece a genealogia há mais de dois séculos.

Ela tinha um Lusitano na sua quinta em Utha, adorava o cavalo, que caracteristicas tinha desenvolvido? onde e em que era utilizado? tudo queria saber com uma graciosidade que em tudo se opunha à rudeza do marido, que não se conteve quando ouviu falar de tourada, pegas do touro à mão, que era mentira, ninguem se colocava à frente de um touro de 600 kgs, eles lá nos USA tambem o apanhavam mas era saltando para cima do cachaço , e às tantas a minha gritaria cruzada com a dele, movida a copos, ouvia-se por cima das mil conversas .

Que sim, diziam os Franceses que já tinham visto uma vez no sul de França e os Suiços nunca tinham visto mas sabiam que era verdade e os Austríacos, como era isso expliquem lá. Eu e o Rocha no meio da algazarra, com interlucotores a falarem diversas línguas não nos entendíamos, eh, pá, o melhor é fazer uma demonstração, o Francês que já viu é o touro, eu sou o cabeça dos forcados, o Rocha explicava e orientava as posições, mais dois austríacos atrás de mim a fazerem de forcados do grupo, e o Francês não vai de modas atira os forcados para cima do público já em pé a cantar e a rir, espaço, é preciso espaço e o pessoal em cima das mesas e o francês a levar o seu papel de touro demasiado a preceito e o cabeça do grupo já metido em orgulhos com os espalhanços, uma e outra vez…

O Americano bêbado que nem um cacho ainda o vi a descer a rua ás curvas e fixei bem o porte altivo e gracioso da mulher. Por momentos as nódoas negras não me doeram nada!

Comments

  1. Belina Moura says:

    Tu, o cabeça dos forcados???Já parti o côco a rir!!!!!Deves ter feito uma figurinha jeitosa.eheheheheheheBoa, Luís!

  2. maria monteiro says:

    ainda bem que nunca entrei nessa taberna em Salzburg… senão lá se iam as minhas recordações bem mais musicais…

  3. Luis Moreira says:

    A música ficou para os dias seguintes…

  4. maria monteiro says:

    Provavelmente mais para as noites seguintes : -) Os salões com as janelas abertas fazia com que a música chegasse à rua onde uma outra multidão, que não tinha bilhetes (sempre o meu caso), confortavelmente se acomodava entre cadeiras, almofadas ou simplesmente sentada pelo chão criava uma outra plateia…

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