A máquina do tempo: a lição do Chile

FOTO_002

A nossa máquina do tempo vai hoje regressar ao Portugal dos anos 70 do século XX. No dia do golpe de Pinochet, ainda sob a ditadura do Estado Novo, íamos recebendo as notícias terríveis que chegavam. Lembro-me de estar na estação do Cais do Sodré, pouco depois das seis da tarde (passava do meio-dia em Santiago e tudo estava perdido), com o jornal da tarde – o Diário de Lisboa – tremendo-me nas mãos e fazendo um grande esforço para que as lágrimas não se soltassem. Porque com o violento esmagamento da Revolução chilena, para nós, os marxistas que não acreditavam que da Rússia, da China, da Coreia ou da Albânia algo de positivo nos chegasse, vendo a Revolução cubana ir sendo cada vez mais enredada nas malhas do imperialismo soviético, o Chile era para nós um farol de esperança. Mais um farol cuja luz era, naquele dia, brutalmente extinta.

Quando, a partir de 25 de Abril de 1974, pudemos livremente comentar o trágico acontecimento, cada tendência política fez a leitura que mais lhe convinha – os católicos conservadores viram nele a consequência lógica da tomada do poder por forças ao serviço do marxismo internacional, uma espécie de castigo de Deus. Os neo-liberais, não fugiram muito a esta explicação, pondo a tónica nas dificuldades que o governo de Salvador Allende colocou às leis do mercado. Isto é, puseram o mercado no lugar de Deus. Curiosamente, as diferentes linhas marxistas – os pró-soviéticos, os pró-chineses e os pró-albaneses – viram o golpe como uma resposta do imperialismo à política «aventureirista» do governo popular do Chile. Condenaram o golpe, mas a lição que tiraram foi a de que não se deve provocar o capitalismo.
Porém, no fundo, quando se falava do Chile, era de Portugal que se estava verdadeiramente a falar. Naqueles dezoito meses que a nossa Revolução durou, o povo celebrando a liberdade nas ruas, promovendo assembleias à revelia dos partidos, preocupava tanto os que defendiam uma solução «democrática» como os que pugnavam pela disciplinização do caudal revolucionário por parte das cúpulas dos partidos marxistas, estalinistas, marxistas-leninistas, maoístas, etc. PCP, UDP, MRPP e as dezenas de grupúsculos em que essa esquerda se cindiu.
A cada um sua verdade, como diria Pirandello, neste caso, a cada um o seu Chile. Pelas ruas, quando no «Verão quente» de 1975 se sentia já o bafo fétido da reacção, gritávamos «Portugal não será o Chile da Europa!», procurando esconjurar o perigo de um banho de sangue e de um regresso ao fascismo. Franco, apesar de moribundo, não hesitaria em nos enviar a sua divisão Brunete. Para tal, os generais espanhóis, apenas esperavam autorização do Pentágono. Que não veio, pois Frank Carlucci, o embaixador norte-americano e homem da CIA, viu maneira de o assunto se resolver com a prata da casa – os Comandos e as suas «chaimites» foram suficientes para dominar uma esquerda militar dividida e hesitante. Otelo, que comandava o COPCON e dispunha de força suficiente para fazer os Comandos engolirem as «Chaimites», deixou-se aprisionar em Belém.
Havemos de um dia falar neste dia 25 de Novembro de 1975, mas quero deixar já a minha opinião de que Otelo fez bem em não ter mergulhado o País numa guerra civil, pois seria isso que aconteceria, mais cedo ou mais tarde, se ele tivesse posto o COPCON em marcha. A posição do PCP também foi decisiva, embora considere que os pecepistas não podem orgulhar-se dela – Por exemplo: os trabalhadores da J. Pimenta, na Amadora, tinham bloqueado com betoneiras os portões do Regimento de Comandos. O Partido Comunista, creio que o próprio Álvaro Cunhal, foi falar com a Comissão de Trabalhadores, as betoneiras foram retiradas e Jaime Neves pôde fazer o seu trabalho de «limpeza».
No primeiro comício realizado após o 25 de Novembro, Álvaro Cunhal, no Campo Pequeno, disse que «por paradoxal que pareça, a derrota da esquerda militar, pelos trágicos ensinamentos» veio «criar novas condições para a unidade das forças interessadas na salvaguarda das liberdades, da democracia, da revolução.» Isto é, há males que vêm por bem. Acusou também como responsável pelo golpe militar a esquerda de «orientação fechada, sectária, divisionista e aventureirista», a qual redundou numa hipoteca que toda a esquerda veio a pagar. No fundo, acusou a esquerda, a militar e a civil, dos mesmos males de que acusara o governo popular do Chile. Pinheiro de Azevedo, no seu «O 25 de Novembro sem Máscara» (1979) denuncia a aliança PCP – Militares golpistas. Bem sei que Pinheiro de Azevedo não goza de muita credibilidade, mas que este pacto existiu, ainda que informalmente, parece-me inegável.
Onde quero chegar é que, apesar de toda a simpatia do actual secretário -geral, não podemos esquecer o papel que o PCP teve na destruição do movimento popular gerado após o 25 de Abril. O Partido convivia mal com todas aquelas multidões que escapavam ao seu controlo, que decidiam a coisas, mandando às urtigas as directivas do comité central. Quantas vezes comissões de trabalhadores, de moradores, assembleias de fábrica ou de faculdade, dominadas pelo PC, não tiveram de ir a reboque de decisões «esquerdistas» tomadas pelos militantes de base? E entre «esquerdismo» e o advento da «democracia» neo-liberal, o PCP escolheu a última. Bem sei que a lição do Chile continuava presente nas cabeças. Allende e o povo chileno, escolhendo a Revolução, escolheram a repressão e a morte. Por isso, aos que queriam levar a Revolução por diante, chamavam esquerdistas.
Citando Lenine, diziam que o «esquerdismo é a doença infantil do comunismo». Talvez seja. Sem querer contrariar Lenine, diria que, em contrapartida, o reformismo é a doença senil do comunismo. Doença por doença, quem não preferiria o sarampo da infância, ou mesmo o acne da adolescência às mil e uma maleitas que a velhice acarreta? Que os seus 6 a 8% de votos, o seu mini grupo parlamentar, as suas caixas de ressonância – CGTP e outras, façam bom proveito ao Partido Comunista. Mas, não se queixem! Eles também quiseram «isto» que agora temos. A Revolução bateu-lhes à porta e eles fecharam-lhe a porta na cara. O povo, mesmo estando unido, pode ser vencido quer pelos seus inimigos quer pelos seus falsos amigos. Foi assim no Chile. Foi assim em Portugal, embora de forma muito menos dramática. Os chilenos, pelos caminhos da repressão brutal, os portugueses conduzidos por cavilações subtis, estão todos onde os donos de Pinochet e os patrões dos governantes portugueses queriam. Nos braços da economia de mercado.

Comments

  1. isac says:

    Eu tenho a convicção de que nós próprios nos tornaremos uma pequena “parcela de América Latina” aqui na Europa. Para mim, é reflexo da opressão (mesmo que passiva) dos grandes países europeus. Penso que é esse o grande problema da América Latina que sofre uma pressão imensa por parte dos EUA e das políticas imperialistas.

Deixar uma resposta