O melhor ainda é não reflectir

Estava a reflectir aí há uns trinta segundos e fui assaltado por pesadelos que me obrigaram a abrir a janela e depois sair para a rua, apanhar ar e sol que ainda são das poucas coisas que nos restam e que não pagam imposto.

Vi uma grande cabeça cheia de tentáculos, que cresciam sem parar, asfixiando as pobres criaturas que fugiam desorientadas e aos gritos e algumas já não resistiam oferecendo-se ao sacrificio final. Eu bem fugia mas as pernas não ganhavam terreno, entrei numa floresta sem luz com as enormes raízes das árvores tudo subjugando. Grossas pingas de suor escorriam-me cara abaixo enquanto ouvia uma grossa voz entre gargalhadas infernais. “Quem se mete com o PS leva!” Afastei o pesadelo enquanto mudava de posição.

Caí numa vaga dormência aqui e ali assaltada por imagens de carros de alta cilindrada a acelerar para a fronteira, um dos que passou por mim assumou à janela e vi num relance alguem conhecido que devia estar no lugar para que fora eleito mas que fugia deixando para trás as almas que prometera salvar. Todas de tanga! Estuguei o passo tentando não entrar em pânico e vi um enorme edificio com plasmas a acender e a apagar, pareceu-me um bom lugar para não ser esmagado pela turba em delírio.

Lá dentro reinava o silêncio e as figuras eram sombras que só se adivinhavam, algumas de avental e régua e esquadro, outras vergastavam-se com grossas correntes e todos se tratavam por “irmãos”, fui sendo encaminhado sem que alguem me falasse ou tocasse e quando dei por mim estava na rua sem a pouca roupa com que entrara.

Tornei a mudar de posição, o meu coração batia descompassadamente, ouvia a ladaínha de fim de tarde nas aldeias miseráveis, o povo a voltar depois de uma jorna de sol a sol, rodeado de GNR, padres e gente feia vestida de preto, botas e de chapéu. Em vez de campos de trigo e de centeio ouvia um comboio que não se via, e pontes num emaranhado de betão.

Estou na rua leio as páginas dos jornais no quiosque da esquina o Porto joga logo com o Sporting está tudo normal, respiro fundo, acalmo, ao longe um irmão burro faz-se ouvir…

Comments

  1. carlos fonseca says:

    Estás inspirado. Parabéns!

  2. Luis Moreira says:

    Obrigado, Carlos.E tambem estou preocupado, este país não aprende.

  3. carlos fonseca says:

    Não tens que agradecer. É merecido. Somos o povo e o país que somos – ‘La Grande Bouffe’, a farra e o prazer do sofrimento.

  4. maria monteiro says:

    com tantos pesadelos, visões… até eu, que nada sei, fico preocupada

  5. Belina Moura says:

    O que interessa é que o nosso F.C.Porto ganhe, carago!

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