A máquina do tempo: a televisão do futuro

Numa intervenção no Festival Internacional de Televisão realizado este mês em Edimburgo, Vint Cerf, com 64 anos, um dos cientistas que há trinta anos criaram a Internet e actual vice-presidente da Google, além de presidente da organização que administra a rede, assegurou que a televisão se aproxima de um momento crítico semelhante ao que a indústria discográfica enfrentou com a chegada do sistema áudio digital MP3. Anunciou que está a trabalhar, com outros especialistas, num sistema para a utilização da rede nas comunicações espaciais. Em determinado ponto da sua intervenção, disse Cerf: «85% de todo o material de vídeo que vemos foi pré-gravado, pelo que cada um pode preparar o próprio sistema para fazer oportunamente as descargas que entenda» (…)«Vamos continuar a necessitar da televisão para certas coisas, tais como para as notícias, para os acontecimentos desportivos e para as emergências, mas cada vez será mais como um iPod, no qual se pode descarregar o conteúdo para o ver mais tarde». Dirigindo-se aos executivos da indústria da televisão, Cerf, incentivou-os a que deixassem de ver a Internet como uma ameaça à sobrevivência do meio, devendo encará-la como uma janela de oportunidade: «No Japão já é normal descarregar o conteúdo de uma hora de vídeo em apenas dezasseis segundos». E concluiu afirmando »Quero mais Internet, quero que cada um dos 6000 milhões de habitantes do planeta possa ligar-se à Rede, pois considero que podem contribuir com saberes que a todos beneficiariam.

Portanto, do ponto de vista tecnológico, a televisão tal como hoje a conhecemos, tem os dias contados. Para além da televisão digital, que já é uma realidade, projectam-se inovações que transformarão radicalmente a «caixa que mudou o mundo» que, logo para começar, deixou de ser uma caixa. Anunciam-se novidades tais como o aumento do visionamento da televisão através da Internet e do telemóvel e o desenvolvimento de uma nova tecnologia, a 4K, que permite ver filmes com uma definição de oito megapixéis (em vez dos dois que os actuais televisores de alta definição proporcionam). Além de muitas outras novidades que, surgindo em catadupa, irão tornando obsoletos equipamentos acabados de comprar iremos, por exemplo, ter ecrãs de visão dupla, verso e reverso.…

http://www.youtube.com/watch?v=3SGU6VZk3kY

Anuncia-se a televisão holográfica e em 3-D. A holografia, que se prevê há muito tempo, é a técnica que permite criar imagens tridimensionais em movimento, com a utilização de raios laser. Desde 1947 que se investiga esta tecnologia. Um professor da Universidade do Texas é da opinião que dentro de 10 anos teremos os primeiros televisores holográficos. Nunca irá parar este tsunami de inovações tecnológicas que, já num futuro próximo, transformarão a televisão num «iPod» gigante. Quem quiser (e souber) poderá construir a sua própria grelha de programas, seleccionando-os no vasto leque de oferta que o cabo já oferece. Quem souber, insisto, poderá (pode já hoje) ver televisão de grande qualidade, incluindo serviços de notícias.
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Mas pondo de parte todas estas inovações que assim, ou de outra maneira, irão ocorrer, há um aspecto que me interessa mais do que as inovações tecnológicas, as que se vão dar no imediato e aquelas com que a nossa imaginação não consegue sequer sonhar. De algum modo, pela positiva e pela negativa, os três excelentes jornalistas que vimos no vídeo com que iniciei este post, abordaram a questão que me parece central – a dos conteúdos que os novos meios irão servir. Mário Crespo pôs o dedo na ferida ao assinalar a degradação dos conteúdos que a diversidade de canais generalistas trouxe consigo, a «era da tabloidização» a que deu lugar. Judite de Sousa preferiu desculpabilizar essa descontrolada produção de incultura – com o equivalente à celebre frase de Pessoa – primeiro estranha-se, depois entranha-se. (no fundo, Pessoa e Judite falam de lixo – da Coca-Cola o grande poeta e dos programas televisivos campeões de audiências a jornalista). Porque não se trata de emoções aquilo por que grande parte do público anseia. Trata-se de fuga ao quotidiano descolorido ou mesmo negro que a maioria das pessoas vive. Porque não me diga a Judite que as telenovelas, por exemplo, reflectem a realidade. E não se trata de hipocrisia, como ela diz.
Eu conto a minha experiência: vinha no carro para casa e estava sintonizado na TSF para ouvir uma comunicação ao País que o presidente Sampaio ia fazer quando, como quem anuncia um acontecimento de grande importância, o programa que estava a ser transmitido, foi interrompido e o locutor anunciou que o Marco tinha dado um murro na não sei quantas. E aconselhava a ligarmos para a TVI. Quando cheguei a casa, foi a primeira coisa que fiz e passados momentos lá passaram a gravação do murro ou do pontapé. Nunca tinha visto o «Big Brother» e, atónito, lá assisti durante uns minutos àquele espectáculo deprimente de seres humanos a comportarem-se ao nível mais rasteiro que se pode imaginar. Será a isto que Judite de Sousa chama «emoções»?
Mário Zambujal faz uma referência importante ao carácter educativo que a televisão (pelo menos o serviço público) nunca devia perder de vista e Crespo, lucidamente, afirma que a RTP «terá de mudar de formato, pois no actual formato híbrido não tem futuro». É uma realidade, querendo proporcionar ao grande público as tais «emoções» de que fala a Judite de Sousa (e que mais não são do que concessões à estupidez), mas não o fazendo da forma totalmente despudorada com que a TVI actua, perde nas audiências e trai absurdamente o seu dever para com os contribuintes – o de ser um serviço público de televisão – educando, esclarecendo, informando, divertindo. Servindo.

Comments

  1. isac says:

    Já o tinha dito. nos dias de hoje, é irreal estar sujeito às grelhas fixas da TV quando através da net se pode escolher o alinhamento do que se quer ver. Mas este tipo de “liberdade” de escolha revela um problema maior. O já pequeno e polémico ponto da “função educativa” da TV desfaz-se totalmente. A TV/NET funcionará ainda mais na base “do ver o que se quer ver” e menos “do ver o que é importante”. A TV/NET será mais feita pelas próprias pessoas (como o youtube e semelhantes) do que por profissionais. Vai-se transformar numa ferramenta de disseminação de propaganda sem precedentes e sem barreiras. Face aos problemas da actual TV, esta evolução não me parece nada boa ideia.


  2. A liberdade de escolha implica saber escolher. E aí é que a porca torce o rabo. De todos os modos, meu amigo, essa evolução é irreversível, embora o canal de serviço público pudesse ter um papel muito importante na fase de transição – papel do qual cada vez mais parece abdicar.

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