INDUSTRIA FARMACEUTICA

Hoje, ao sair do hospital após uma reunião sobre um novo fármaco ainda não comercializado, fui reflectindo sobre aquilo que nos rodeia dentro da nossa profissão.
Vivi e ainda vivo diariamente em contacto com a Indústria Farmacêutica, tenho pessoas amigas ligadas à IF, e, apesar de procurar manter sempre, em toda a minha vida, os olhos abertos e a consciência limpa e transparente, não consigo libertar-me de tudo aquilo que me envolve e me obriga, por vezes, sobretudo por delicadeza, a fazer parte de coisas que não me agradam, ou que colidem com a minha filosofia e a minha forma de ver o mundo e as coisas.

A IF é, indiscutível e praticamente a nossa maior fonte de investigação médica, infelizmente direccionada para um objectivo prioritário, o objectivo de qualquer indústria, o lucro máximo possível. Claro que não é difícil aceitar pela sociedade que ela se apresente sempre, com um eufemístico interesse pela saúde da humanidade. Mas é difícil ser aceite por mim, ainda que reconhecendo a sua enorme importância no que tem de positivo, precisamente porque sei e muito bem o que ela arrasta de negativo. São questões de natureza ético-política e de organização social, que não são para aqui chamadas neste momento.

No pára e arranca do engarrafamento, veio-me então à memória uma conferência que ouvi há uns tempos atrás, feita por um Senhor chamado Prof. Jerome, na qual ele disse taxativamente o seguinte:
Não há maior influência na medicina do que a do dinheiro. Disse ainda que quase todos nós somos um agente de marketing da indústria farmacêutica e que a influência das indústrias farmacêuticas é oculta e subtil, infiltrativa, ubíqua porque está em toda a parte, disseminada, e eficaz.

E pergunta:
A IF será mesmo parceira dos médicos ou apenas os utiliza? Para responder, diz que os manipula através de ofertas, viagens, honorários para produzirem conferências, bónus para recrutamento de doentes a incluir em estudos, e tudo isto para que os médicos promovam os seus produtos. Publicidade mentirosa nas revistas, enganando os próprios editores e publicidade em tudo o que possa aliciar e influenciar os doentes. Promoção, extrapolação e mesmo invenção de falsas doenças com vista ao consumo massificado de produtos.

As instituições académicas não escapam a este tentáculo, pois os fundos da IF para estas instituições são superiores aos do Estado. Aos médicos universitários são oferecidas bolsas, obrigando-os a escrever artigos e proferir palestras à volta dos seus produtos. Os investigadores também não escapam, através de fundos para a investigação e para os próprios investigadores. Só que nessas investigações os investigadores, nem sempre verticais, podem ser manipuláveis, sendo muitas vezes obrigados a escamotear resultados negativos ou pouco favoráveis ou mesmo a falsificarem os resultados. As organizações profissionais estão fortemente infiltradas pela IF através do apoio a reuniões e congressos, patrocínio de oradores “opinion- makers”, viagens e convites, bolsas e prémios, desenvolvimento de “guidelines”. Muitos dos especialistas envolvidos na elaboração destas têm fortes ligações a empresas farmacêuticas.

Em resumo, disse o Prof Jerome:
Doentes, médicos, enfermeiros, universitários, investigadores, directores de instituições, directores de jornais, toda a sociedade está sob a influência da Indústria Farmacêutica.
É pena, em minha opinião. Seria bem mais saudável que cada um fosse independente, ainda que dependente de uma sã e profunda colaboração, que enobrecesse esta magnífica arte de curar e dar vida.

Comments

  1. isac says:

    Sendo médico, reconheço-lhe uma enorme coragem para escrever o que escreveu. Mas ainda bem que o fez. Pode ser que as pessoas comecem a ter noção do que as rodeia. Pena é que este envolvimento tentacular não se resuma apenas à IF mas a todos os sectores produtivos do chamado “mercado livre”.

  2. Kafka says:

    Pelo postal e pelo comentário de isac deverá inferir-se que a Investigação Farmacêutica deveria ser entregue ao Estado?Bem me parece que as Medicinas, ditas alternativas, ainda serão o futuro. Afinal sempre é mais barato apanhar umas ervinhas nos prados.

  3. isac says:

    Não acho que tenha nada a ver com entregar-se ao Estado. Até porque o Estado até já nem existe. Existe um sistema corporativo que É o Estado. Mas isso é outra história. Acho é que devem haver limites. E basta ler um bocado, aprender e ver como as coisas funcionam nos lobbys para perceber que neste momento, quase não existem limites. Na IF, nem noutros sectores, como a banca por exemplo. Que eu saiba existe neste momento uma crise mundial derivada do descontrolo das instituições financeiras, não é verdade?

  4. isac says:

    Concordo em relação às medicinas alternativas serem o futuro, até porque o mais importante é que tudo seja cada vez mais barato


  5. Um médico, meu grande amigo e companheiro de muitas lutas, o Carlos Leça da Veiga, ao qual enviei o teu texto, respondeu-me: «Meu Caro Carlos Loures, o Adão Cruz só retratou a realidade nua e crua. Embora haja produtos da Indústria Farmacêutica que dão um contributo magnifico para a cura ou, mais comummente, para evoluções clínicas imensamente satisfatórias a verdade é que a IF é,substancialmente, um dos maiores negócios do mundo. Vende drogas, tal como os bandidos, só que até fazem bem!!!Não devia ser assim e a documentá-lo está a atitude histórica do Doutor Fleming – o homem da Penicilina – que nunca registou a patente da sua descoberta e,num gesto muito escamoteado da opinião pública – nada de maus exemplos – ofereceu-a ao mundo. » Um abraço.


  6. Outro médico amigo, o Rui de Oliveira, que esteve ligado ao Instituto Câmara Pestana, a quem também enviei o texto disse: «Caro Carlos, Não “vivi” muitos ensaios farmacêuticos e os que orientei não eram clínicos, mas apenas laboratoriais (de eficácia de antibióticos, p.ex.) em que as regras que estabelecíamos eram necessariamente respeitadas. Contudo concordo com as afirmações do Adão Cruz. Há indiscutivelmente escândalos imensos de abuso dos interesses farmacêuticos e similares. O mais grave estará com certeza na falsificação de resultados com prejuízo óbvio dos doentes a quem são administradas drogas ineficazes ou mesmo nocivas ; porém nesse campo descobre-se em pouco tempo o logro e o inconveniente é corrigido. Talvez, no entanto, o mais lucrativo financeiramente seja a mistificação diária em que são induzidos os consumidores, desde as “falsas doenças” (que ele menciona) até aos milhões de produtos inúteis (e alguns deles a longo prazo mesmo lesivos da saúde) que são anunciados com base nos tais ensaios “cientificamente” válidos em todos os media (televisão, jornais e jornalecos, encartes e folhetos distribuidos às portas, etc) … e que as academias nem os organismos profissionais denunciam devidamente.Um abraço Rui»

  7. Adão Cruz says:

    Amigo Carlos Loures um abraço e obrigado pelo teu interesse e pelas palavras dos teus amigos.Eu vivo dentro da medicina e no meio de remédios e sei o que valem para a humanidade. Há hoje medicamentos quase “milagrosos”, a par de muita coisa negativa. Eu não sou de modo algum um derrotista nem um radical, mas não posso deixar passar ao lado o que é evidente. O capítulo das doenças iatrogénicas, isto é, das doenças produzidas pelos medicamentos, pelos médicos e pelos exames é hoje um dos mais importantes dentro das patologias. A terceira causa de morte no mundo industrializado (ainda não há muito era a quarta), está nas doenças iatrogénicas. Mas não há só uma iatrogenia química, há uma iatrogenia económica e social tremenda. Isto dava pano para mangas. Um abraço, caro amigo.

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