POEMAS ESTORICÔNTICOS

Les Angles

Deslizar na brancura da neve de Les Angles
é quase um sonho
um sonho cego
mudo
paralítico
sem a cor das pinceladas do céu franjado
de arco-íris
cavalgando os altos cirros velozes e frios
incapaz de desfibrar o complexo estroma
que nos enlaça
e entrelaça
num abraço de fogo e água
amor e raiva e mágoa
voando sobre o abismo serôdio de um beijo alheio
ridículo-lascivo
criptogâmico-adolescente
que torna fria a madrugada e sem sol o acordar.
Alguma coisa eu perdi lá no céu
aqui na terra ou no mar
para não ser capaz de sonhar
com olhos
palavras
e pernas para andar.
Deslizar na brancura da neve de Les Angles
é um sonho morto…
doem muito os sonhos mortos!
Talvez em Villefranche de Conflent
nas margens de La Têt
em Villefranche de Conflent
encontrei-me com Chagall
eu mal o conhecia
ele de mim nem sabia.
Enquanto o Nuno corria atrás do petit train jaune
eu corria atrás do sonho (sonho do Sonho?)
mas Chagall nada me dizia.
Mal o conhecia
gostava dele
da frescura
da audácia
da sua enganosa realidade
mas naquele dia!
Amores flutuando nos ares
silhuetas bizarras
criações poéticas
não me tocavam
soavam a falso.
Apenas uma frase me deixou pensativo
o nosso universo interior é a realidade
talvez mais real que o mundo visível
mais real do que as pedras
do que o frio e a pele arrepiada.
Sempre pensei que a infância marcara a minha vida
(onde vai a infância se bem corresse!).
Nunca dela pensara fugir
ao contrário de Chagall.
Alguma coisa eu perdi lá no céu
aqui na terra ou no mar
alguma coisa eu perdi
que falta ao sonho p’ra sonhar.

                    (adão cruz)

(adão cruz)

Comments

  1. Belina Moura says:

    É sempre um espanto essa tua veia.

  2. Adão Cruz says:

    Obtigado, Belina

  3. Belina Moura says:

    E esse “obtigado” tá genial! eheheheh

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