TRANSCREVO UM BELO TEXTO DE EVA CRUZ, PROFESSORA APOSENTADA

Reflexão sobre o Ensino-Aprendizagem

Foi publicada no jornal “O Labor” de 17 de Setembro parte de uma entrevista, a pedido deste jornal, sobre a minha opinião acerca do Ensino.
Considerando que a jornalista Anabela S. Carvalho retirou a essência das minhas palavras, devo, no entanto, explicar melhor, se é que aos leitores interessa, a minha maneira de ver o processo Ensino- Aprendizagem.
Leccionei 36 anos, aposentei-me há nove. Vivi intensamente todas as reformas, algumas revolucionárias, de todo este processo. Continuo a interessar-me por esta matéria, mas, confesso, sem o afinco e a devoção com que a acompanhei quando estava no activo.
Fui aluna no Velho Regime, passei pelos crivos apertados de um liceu Carolina Michaëlis, de uma Universidade de Coimbra, formatei-me no Estágio Clássico, fiz Exame de Estado, leccionei e tive cargos na organização direccional da Escola Velha, como a considero.
Apesar de reconhecer que foi essa Escola que me deu o saber, julgo que foi também ela que, com os seus defeitos, me abriu os olhos e a mente para desejar que nunca regresse. Digo isto, porque a atoarda de que” noutros tempos, sim”, de que “hoje não há respeito por nada, nem por ninguém”, traduz, em alguns casos, um saudosismo de uma Escola que já não serve. A Escola do Velho Regime tinha muitos defeitos. Potenciava e gerava desigualdades, desprotegia os mais fracos, calava as ideias e camuflava a verdade com a hipocrisia.
Surgiu a Revolução do 25 de Abril, que pôs fim a uma ditadura obsoleta e a uma guerra cruel que deixou marcas profundas na pele dos que com ela sofreram, como foi o meu caso. Brilhou então a luz, e o sol entrou na escola inóspita e bolorenta, transformando-a. A Escola Democrática foi assim sendo construída passo a passo por professores, sindicatos, ministérios, alunos e outros intervenientes no processo. Surgiu a Lei de Bases do Sistema Educativo, conquistou-se o Estatuto da Carreira Docente, criaram-se órgãos pedagógicos importantes e a gestão Democrática da Escola. Foram 35 anos de lutas e conquistas de grandes pedagogos, grandes pensadores e corações generosos, rumando à construção de uma Escola Nova, a Escola do Saber Ser, assente em projectos de cidadania e felicidade humana.
Sabem hoje todos os professores e alunos que apontaram o barco nesse rumo, avaliar o que a Escola actual vai perdendo. Digo isto porque, apesar de um pouco alheada do Ensino, vejo sucederem tantos atropelos e tanta conquista ir por água abaixo, sem saber a troco de quê. Só a título de mero exemplo, em que é que incomodava uma Gestão Democrática?! E porquê o Director? Saudades do velho Reitor?! O modelo da Gestão Democrática tinha algumas lacunas, mas este é pior, porque concentra o poder numa só pessoa. Um órgão colegial serve melhor a democracia, distribuindo e equilibrando poderes. Fora os outros perigos que daí hão-de resultar. Ao que parece, nem benefícios económicos tal alteração trouxe para o país.
Há sem dúvida uma visão tecnocrática da Escola. Hierarquiza-se, burocratiza-se, rotula-se em rankings, manipulando estatísticas, desenvolvendo competições com causas e consequências negativas para um Ensino sério. A Escola não é uma empresa. É uma organização com um estatuto muito próprio, onde os recursos materiais e humanos têm de ser orientados de forma singular no sentido de conseguir os seus nobres objectivos – formar pessoas, seres livres e pensantes.
Quanto à avaliação, há necessidade de saber distinguir entre avaliação e classificação. Sou pela primeira e contra a segunda. A avaliação teve sempre para mim uma carga valorativa e pedagógica, em detrimento da carga punitiva.
Avalie-se antes de mais o Sistema, incluindo os Ministérios e os Ministros da Educação. A arrogância não leva ao diálogo, nem ao esclarecimento. Ministros há que nem a sua própria língua usam com correcção. Erros de conjugação de verbos e de construção de frases não abonam a favor de ninguém, em campo nenhum e muito menos no da Educação.
Avalie-se a Escola. Avaliem-se os professores, exigindo na sua formação, não só a vertente científica mas também a humana.
Para além de saber a ciência que ensina, o professor tem de ser um bom pedagogo. Para além de outros atributos, o professor tem de saber exprimir-se bem por escrito e oralmente. O escrever e falar bem não deve ser apanágio só dos professores das Humanidades, mas de todos. Há profissionais tecnicamente competentes mas incapazes de passar o seu pensamento para um texto escrito ou discurso oral. Exprimir-se bem resulta de pensar bem. Aí se revela o espírito de análise, de síntese, de concatenação de ideias, de lógica, de ordem. E é preciso criar nos alunos essas competências de escrever e falar bem.
Aposte-se no perfil do professor. Exija-se na sua formação inicial e contínua, mas com seriedade. Valorize-se a profissão. Vale a pena o investimento. Melhorando a Educação, melhora a Saúde, a Justiça, melhora a Vida.
É preciso dar à Escola capacidade para ver mais longe, com outra amplitude, a fim de, analisando em profundidade e com verdade, apostar numa nova ética da Educação.

Eva Cruz

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