Almoços de reformados

Não compreendo esta tendência para o pessoal se juntar em almoços, num determinado dia da semana, olha o gajo está velho, que grande barriga, morreu o fulano, o sicrano está  nas últimas…

 

Depois todos  são todos muito amigos, quando durante a vida activa ninguem ligava a ninguem, não fosse encontrar alguem que precisassse de ajuda, para o filho, a mulher precisa de uma promoção, tudo gente importante, agora assentam o pó, volta tudo para o bairro onde nasceu, pelo menos aos olhos dos outros é tudo arrumado na gaveta da memória da infância, pé descalço, como é que este gajo quer que eu o ache o máximo?

 

Há alguns que são rídiculos, mantêm a pose, já não têm poder nenhum, têm problemas na próstata e mijam para a frente e para os pés, andam com toalhetes nas partes, mas têm a a mania que são conhecidos.

 

A Lídia " parisienne" fala português com mistura de francês, apanha bebedeiras de caixão à cova, e eu depois é que a levo a casa, tiro o meu casaco para lhe tapar as pernas, e o resto, porque ela acha que é uma menina e veste vestidos largos e rodados. Ao fim de quarenta anos sem me ver, diz-me " ah! o Luis Couto (era assim que me tratavam) era um rapaz alto e magrinho, com o cabelo a cair-lhe no pescoço", olha que porra, obrigado !

 

Depois há umas viúvas e outras divorciadas que andam num rodopio, vamos jantar, vamos dançar, arranja um grupo para irmos dançar, e um gajo vai e depois "pardais ao ninho" podíamos ir beber um último copo a minha casa, até lá ficavas se não te apetecer voltar. 

 

E eu, Oh! rapariga, arranja um puto novo, não tenhas medo, é só uma tarde bem passada,

tomas um banho e ficas como nova, juntas a juventude à experiência, agora dois experientes é que não dá em nada, alguem tem que se mexer…

 

Um destes amigos ainda faz maratonas de quarenta Kms, outros fazem maratonas de cirurgias ao coração, aos instestinos e à próstata, passam a vida a falar em doenças e a mostrar as cicatrizes como se fossem um trofeu, não tenho paciência para isto, não vou mais, fico na Guerra Junqueira a ver as "teen"…

 

Além disso sou o único que toma Viagra, ninguem precisa, pergunto ao meu farmacêutico e ele, vende-se aos montes, até malta nova, é para as maratonas de sexo ( e vocês a julgarem que eu falava de maratonas por dá cá aquela palha…) e volto costas, e sou o maniento que já em novo tinha a mania que era bom.

 

Então, não apareces? Pois, não, pá!

poemas estoricônticos

A mais bonita de todas

a mais bonita da festa

a mais bonita do mundo.

Uma estrela que caiu lá de cima

e rolou por ali abaixo

percorrendo as ruas da cidade a luzir e a cantar

de uma forma quase imaterial

quase sonhada

quase santificada.

Há muito que a beleza me não enchia

de tanta poesia.

Há muito que os olhos se não molhavam

desta forma.

Há muito que eu não sabia dizer coisas

com tanta verdade.

Os rios correm para o mar

mas tu és um rio que nasce no mar

e avanças sobre mim

afogando-me nas tuas ondas.

Parecendo às vezes um lago tranquilo

de um qualquer paraíso

entras em mim como um tornado

revolves tudo até ao fim de mim mesmo

e quando a tua força acalma

restituis-me

sob a forma de um verso ou de um beijo

a minha própria identidade

nua e crua.

Os teus lábios são a força da vida

a contemporaneidade da existência

a aniquilação da mentira universal

que o homem carrega aos ombros

de geração em geração

entre os esgares da estupidez humana.

O que nessa manhã eu ouvia

Não eram Kiries e Aleluias

mas a tua voz deliciosa

a projecção da tua beleza

vivente e amante

o ecoar da tua presença

nos montes e vales da nossa existência.

Não te deixes embrulhar em papel de seda

ainda que amanhecido de sol

e anoitecido de estrelas

para que te ofereçam aqui e ali

como prenda banal.

Tu não és uma prenda

e muito menos banal.

Tu não és de se mostrar mas de se viver.

Tu és uma mulher.

Não posso deixar de to dizer

por um lado

porque não consigo deixar de to dizer

por outro lado

porque ninguém sabe dizer-to

tão bem como eu

e ainda porque eu sei

que dizê-lo a ti

não é dizê-lo a qualquer pessoa

a qualquer pessoa que não tenha da vida

a volúpia

a paixão e a carência

que lhe dão a alma e o sentido de existir.

Nem a ciência

nem a arte

me dão a realização humana

da tua presença.

Olhar-te

é mais do que tudo.

Na complexidade da vida

ver-te

é tudo o que preciso para encher a alma!

Tão simples como isso!

No entanto

sabes bem que não sou louco.

Formalmente não me pertences

mas antes não me pertenças

no sentido folclórico da vida

e me pertenças como elemento essencial

da minha inquietação.

Sei que morro por dentro

– a pior das mortes –

se não te abraçar de novo

se não te apertar contra o peito.

Mas por dentro tenho eu morrido lentamente

toda a minha vida

e vou morrendo todos os dias!

Penso que o mesmo se passa contigo.

Somos singularmente iguais!

Mas não te deixes morrer

pois são tão raras as vidas!

Não te deixes secar

pois são tão raros os cactos intumescidos!

Não te deixes apagar

pois são tão raros os vulcões!

Tu és um rio impetuoso

tu és um ventre de fogo

tu és uma presença de início de mundo

um pedacinho de céu caído do firmamento

e que anda por aí

tropeçando nos caminhos da vida

onde ninguém sabe

o que é um pedacinho de céu.

Só eu sei.

Por isso te quero

por isso te reclamo como criação da natureza

pintada por mãos e tintas

que a vida banal e vulgar desconhece.

 

FUTAventar – Dragões de branco

O F C Porto não vai lá, este ano, emperra, não flui, treme, não acerta.Logo que os primeiros vinte minutos se esgotam os jogadores começam a ficar nervosos, não acreditam que marcam golos, quando é preciso.

 

Ora, sem essa confiança não há nada a fazer, já contra a Briosa foi mais do mesmo, não há confiança.

 

Será que é por verem que este ano há uma águia que vôa alto?

Podia viver sem mulheres? Podia, mas não era a mesma coisa

Pergunta a Carla Romualdo se os homens podem viver sem mulheres.

Pois claro que podem. No meu caso pessoal, podia perfeitamente. Não era a mesma coisa, mas podia. Já vivi dois anos fora e desenrasquei-me perfeitamente.

Já sem a minha mulher, acho que não podia viver. Ou melhor, podia, mas facilmente me perderia no louco mundo do sexo e do álcool. Está ali a base, a base que me protege de mim próprio. Acredito que não sou o único.

Não queria estar na pele do juiz

Há por aí um juiz português que, se tem ambições de carreira, já deve estar a tremer. Esse juiz é aquele que, a partir da próxima semana, vai dirigir os interrogatórios a Armando Vara, Paulo Penedos e, muito provavelmente, José Penedos.

Como se viu no caso Paulo Pedroso, quem se mete com o PS leva e, até hoje, nunca mais o juiz Rui Teixeira foi promovido. O mesmo acontecerá, muito provavelmente, ao juiz que decidir enviar para julgamento aqueles figurões do PS. E ao juiz que decidir condenar os arguidos.

É por isso que, já se sabe, nada vai acontecer de especialmente relevante neste caso. Por mais provas que haja ou que dizem que há.

O pântano socialista

Armando Vara foi despedido do governo pelo Presidente Sampaio, devido às embrulhadas na Fundação rodoviária, ou coisa que o valha, que no fundo era uma forma de utilizar dinheiros públicos sem o controlo administrativo do Estado.

 

Teve como prémio ir para a Administração da Caixa Geral de Depósitos, que é controlada a 100% pelo Estado, logo quem o lá colocou foram os amigos do governo. Vara ,até se mostrou muito ufano quando foi à Assembleia Geral da PT, accionar a golden share do Estado para impedir a OPA da Sonae.

 

Quando passou para administrador do BCP, banco privado, mas caso único no mundo,onde o governo coloca os seus homens de mão, Vara passou a ser um banqueiro privado. É, pois, como privado que Vara terá cometido os deslizes. Pressão sobre os governantes para decidirem a favor de quem lhe pagaria as comissões.

 

Mas, pergunto eu, este trabalho não é trabalho de banqueiro, fazer render os seus conhecimentos pessoais para favorecer um cliente? Onde acaba a intermediação e começa a corrupção?

 

Este exercício é só para mostrar como o governo se vai enforcando na teia que vem tecendo. Qualquer negócio neste país passa pelo gabinete do primeiro ministro, onde reside o poder, que transforma concursos públicos em ajustes directos que vão direitinhos para as empresas amigas. E porque são empresas amigas?

 

Em que são diferentes estes negócios, estas adjudicações, do ajuste directo dos Contentores de Alcântara? Em que o próprio Tribunal de Contas vem dizer que o interesse do Estado não foi acautelado?

 

São precisas escutas?

 

Desabafos

Se há coisa que não suporto são snobes intelectuais. Não gosto de pessoas convencidas no geral, mas as pessoas convencidas que depois acham que são intelectuais é uma coisa que me chateia especialmente.

Nunca na vida me consideraria "intelectual", muito menos aos 16 anos. E sinceramente, não é algo que espere vir a considerar-me. Eu esforço-me por ler de tudo, ver de tudo, e ouvir quase tudo. Não tenho problemas nenhuns em ter na mesa de cabeceira Proust, Gore Vidal, Evelyn Waugh, ou Anthony Trollope, e ao mesmo tempo, ter o Harry Potter, Dan Brown e aquilo a que hoje em dia chamamos literatura light. É um facto que o meu livro preferido é um do Garcia Marquez e não o "Diabo veste prada", mas isso não quer dizer que eu não o tenha lido; nem que seja para dizer que não gostei.  E também é um facto que quando saíram os últimos três livros do Harry Potter eu estive na livraria à meia noite. Atenção: não estou a dizer que não suporto pessoas que não gostam de determinado tipo de livro, ou filme ou música. Se eu não gosto de rap não ouço, ou se não gosto de ficção cientifica não vou ler livros sobre isso. Mas rejeitar algo à partida porque não parece intelectual, ou inteligente ou erudito, é algo que me irrita. E irrita-me ainda mais a superioridade com que essas pessoas olham para os restantes. Já avisei quem de direito: se algum dia me tornar assim têm autorização para me dar um estalo.

Prémio Just Perfect: Delito de Opinião

Depois do Prémio Lemniscata, que nos foi atribuído pelo Carlos Santos de O Valor das Ideias, acabamos de receber um outro Prémio bloguístico, o «Just Perfect». O Activismo de Sofá teve a amabilidade de ver em nós algo de suficientemente bom para merecer um prémio.

Pois bem, o Aventar, conforme as regras, recebe e reencaminha. Assim sendo, iremos atribuir o Prémio Just Perfect a um único blogue: o Delito de Opinião. Um blogue plural, que não se limita à espuma das notícias e que frequentemente vai mais longe. Gosto daquele blogue.

Everybody Loves Marcelo

VAGA DE FUNDO

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Quase sem se dar por isso, e depois do Professor ter ficado triste e não ter aparecido à reunião, hoje um, amanhã outro, lá vão aparecendo apoios para levar o sr dr Rebelo de Sousa a candidatar-se à presidência do PSD. Ele é Rangel, ele é Morais Sarmento, ele é Alexandre Relvas, ele é José Luís Arnault, todas a empurrar o sr Professor para onde ele já disse que não quereria ir.

Toda a gente sabe que o que o sr Professor Marcelo quer, é uma real vaga de fundo a seu favor, e que lhe peçam com muito jeitinho.

Até agora, o que começa a preocupar realmente alguns dos dirigentes é ver Pedro Passos Coelho a correr sozinho para a liderança. O homem é demasiadamente adepto de um bloco central, e quer ser presidente só por querer ser presidente (palavras de Rangel), para poder colher um alargado consenso à volta dele.

Quem não concorda com o apoio a Marcelo Sousa, é Miguel Relvas, es-secretário geral, que entende que os que apoiam a hipótese da candidatura do sr Professor, são os responsáveis pelo desastre eleitoral das últimas eleições. Miguel Relvas é apoiante de Pedro Passos Coelho

O Professor, que já deixou de pensar no assunto, vai ter de começar de novo a ponderar a sua candidatura. Os movimentos são já mais que muitos.

E então a renovação e a abertura ao futuro, começa quando?

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JFM

No Centenário (1): maluquices couraçadas

 

 

O Couraçado Queen Elizabeth

 

O antigo e defunto prp, usou de todo o tipo de expedientes propagandisticos para atingir os seus fins. As promessas de redenção abrangeram os mais diversos sectores, e sendo arautos do nacionalismo mais exacerbado, naturalmente as forças armadas surgiam como um alvo primordial. Eram um dos sustentáculos da legalidade constitucional e num país onde a escassez de meios financeiros sempre foi um problema, os reduzidos efectivos do Exército e da Marinha Real tornaram-se fonte de discussão.

O prp alegava o desperdício de fundos ou o seu desaparecimento nos bolsos da classe política dirigente e chamava a si a exclusividade da probidade, decência administrativa e justiça na distribuição da riqueza nacional.

Tal como na imprensa que lhes era afecta, os senhores AlmeidaCosta eBernardino, entre outros, urravam nos comícios, contra o alegado "abandono" das forças armadas que tinham que defender o vasto património colonial. Em plena Belle Époque e já delineado o sistema de alianças que se confrontariam em 1914, a corrida aos armamentos incendiou a Europa, os Estados Unidos, o Japão e alguns países sul-americanos.

A corrida aos armamentos navais foi um dos aspectos mais relevantes, particularmente quando a Grã-Bretanha apresentou o HMS Dreadnought, o "all big gun ship" que revolucionaria a construção naval.

Sempre utilizando pretensos desvios de dinheiros públicos como causa do nosso atraso, os "republicanos" prometiam na aurora do novo regime, uma drástica modificação da situação da armada portuguesa, pretendendo equipará-la, pelo menos, à congénere espanhola. O conto de reis diário que desde 1822 (D. João VI) era atribuído à Casa Real para cobrir todas as despesas inerentes à representação, viagens de Estado, pessoal, residências, etc., era, segundo se gritava nos comícios, o maior óbice ao progresso. O lisboeta que acorria a ouvir os arautos da demagogia, queria acreditar e avidamente discutia as possibilidades de um Portugal imperial e poderoso que ombrearia com os maiores. Era uma outra versão do prometido "bacalhau a pataco" que viria jocosamente a colar-se à imagem da 1ª república. Este pequeno texto que se segue, é um precioso testemunho da ligeireza e desfaçatez com que os aspirantes a restauradores da pátria, tratavam de assuntos queridos à opinião pública de que dependiam:

"A estas horas, o problema da marinha de guerra portuguesa está virtualmente resolvido nas suas linhas geraes, e o programma naval elaborado só espera pela sancção das próximas constituintes para entrar em plena execução. Este programma, considerado pelos competentes como um documento notável de ponderação e de previsão, dota a esquadra nacional com os primeiros couraçados que figuram na armada portugueza – onde o Vasco da Gama não era, com todos os seus concertos, senão uma caricatura de couraçado".

Seguindo-se a estas linhas, apresentavam-se inúmeras possibilidades e modelos desejáveis, desde a classe Minas Gerais, construída na Inglaterra e em serviço na marinha brasileira, até a elaboradas apreciações acerca de modelos mais recentes. O caricato da situação, reside no constante aumento das exigências quanto à dimensão e poder de fogo dos navios a encomendar, assim como – claro está, era fatal -, às ajudas pecuniárias a prestar pela fiel aliada, a odiada Pérfida Albion do Ultimatum.

Visitando os diversos estaleiros britânicos, as luminárias do prp iam perorando sabiamente acerca das conveniências e provas dadas das casas Vickers e Armstrong, possíveis construtoras da marinha da república.

O alegadamente modesto, razoável e ponderado programa, era de facto, um colossal projecto de impossível realização e desde a primeira discussão parlamentar, deixou de ser levado a sério pelos hipotéticos construtores. Se os doutos destronadores da "ominosa" começaram por se contentar com a classeMinas Gerais, pouco depois já discutiam a nova classe Orion, mais pesada e melhor armada.

Quando na imprensa europeia foi revelada a intenção inglesa de iniciar a construção de super-dreadnoughts (drédenós, como de forma hilariante lhes chamavam as sumidades que entre o café Gelo e o palácio de S. Bento discutiam o porvir da nação), logo se escutou grande vozear de protesto: se a Inglaterra já planeava melhor, eram esses super-drédenós que interessavam à magnífica república portuguesa! E nada menos.

Muito a sério, seguia-se a lista do pretendido programa naval:

3 couraçados (60.000 toneladas, no caso da classe escolhida ser a Minas Gerais)

3 cruzadores (10.500 toneladas, da classe Almirante Spaun, da marinha austro-húngara)

12 contratorpedeiros (9.900 toneladas, do tipo HMS Cossack)

6 submarinos (2.160 toneladas)

1 navio de apoio aos submersíveis

e tudo isto, sem contar com unidades menores para uso nas colónias, assim como a construção de infraesturas de manutenção, bases logísticas e um grande arsenal – o " nosso Pozzuoli", como eles diziam -, em Cacilhas. Nada mais fácil! Eram apenas necessários 45.000 contos da época (só para construir os navios), preço pelo qual se manteria a "ominosa Monarquia" durante mais de cem anos!

Como pérola de remate, mais este naco de demagogia parlamentar:

"O governo e o parlamento não vão hesitar e dentro em pouco no Tejo, vinte e cinco navios com a nossa bandeira mostrarão quanto, com o novo regimen, se pensa em remodelar tudo, em reconstruir, com um entusiasmo a que a realidade ha de corresponder da mais bela maneira!."

E para descobrir o filão aurífero de onde sairia a módica soma apresentada ao cãndido português, alvitrava-se, claro está, um empréstimo a vinte anos. O problema consistia no total desinteresse dos potenciais financiadores, assustados com este enorme rol de patetices debitadas por senhores de lustrosa cartola copiada à moda parisiense.

Como nota final, desde já podemos informar que apesar da pretensa "vitória" da república em 1916-18, ainda não seria o momento azado para satisfazer as loucuras couraçadas daquela gente proba e de elevados princípios morais, os pudicos, como abertamente se chamavam entre si.
O
auto afundamento da esquadra do kaiser Guilherme II em Scapa Flow, privou o senhor Afonso Costade tentar convencer os ingleses a oferecer-lhe como despojo, um couraçado que fosse. Quem tem a agradecer por mais este – entre muitos outros – insucessos, é a cidade de Lisboa. É que a marinha republicana, tinha o péssimo hábito de utilizar a sua artilharia contra o casario, martelando impiedosamente os seus oponentes políticos e não olhando a civis ou combatentes: era o que então se chamava a "Fróternidade" (sic). Só como curiosidade, informo que a almejada classe Queen Elizabeth possuía oito canhões de 385mm de boca e cada uma das suas granadas produzia uma cratera equivalente à queda de um pequeno meteoro, esmagando tudo o que se encontrasse numa área circular de sessenta metros.

O epílogo de toda esta lamentável comédia, foi o esperado. Até à década de trinta – e se excluirmos uns poucos navios de pequena tonelagem saqueados à liquidada marinha austríaca em 1919-, os marinheiros nacionais tiveram que se contentar com as unidades herdadas da Marinha Real Portuguesa, ou sejam, o Vasco da Gama, o D. Carlos I, o D. Amélia, o S. Rafael, o Adamastor e alguns outros que ignomínia monárquica lhes deixou.

Hoje tudo é diferente, mas o espírito do "bacalhau e couraçado a pataco" ainda medra por aí. Emulando os seus antecessores de 1911, ainda ouviremos o ministro da Defesa afirmar muito circunspectamente, pretender entregar aos estaleiros de Newport News, o caderno de encargos correspondente à construção de três porta-aviões nucleares da classe Carl Vinsen, três cruzadores do tipoTiconderoga e de doze destroyers da classe Spruance , ou seja, o equivalente à reedição da promessa republicana de outrora. É uma excelente oportunidade para a comemoração dos 100 anos do Regimen (eles diziam regímãe) e já agora, um móbil de propaganda para os entusiastas da 4ª república.

 

Vara Oculta

FACE OCULTA ENCONTRA ARMANDO VARA

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A rede tentacular integrava Armando Vara e mais onze companheiros. Para já, só dois, ele, Godinho e José Penedos (REN), foram constituídos arguidos. Manuel Godinho, empresário de Aveiro, está detido.

Nos negócios ocultos, os pagamentos incluíam dinheiro em notas e carros de alta cilindrada, Mercedes de preferência de valores nunca inferiores a dez mil euros. E não foi há muito tempo! São negócios recentes.

Armando vara é um alto dirigente do BCP e já o foi da CGD, grande amigo de Fátima Felgueiras e do nosso Primeiro, Sócrates II, O Dialogador, e politicamente muito influente, e ninguém terá ficado surpreendido por ver o nome deste sr misturado nesta coisa.

A exemplo do amigo Pinto de Sousa, também ele se formou na Universidade Independente, mas em Relações Internacionais, três dias antes da sua nomeação para a Administração da CGD.

Terá sido mais um salto à vara.

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Década perdida

Desde 1996, ano em Guterres formou governo, que o país não deixa de empobrecer.

 

Ernâni Lopes, ministro das finanças de Mário Soares, afirma que "Esta década revelou-se um registo sem garra, sem ideias, sem verdade, sem força, sem lucidez, sem densidade política"

 

"Portugal terá grandes dificuldades para sair da crise, é na sociedade que se vão arrastar por mais tempo os efeitos da crise. Portugal está a viver um cenário de definhamento. Este é o principal problema da economia nacional "

 

" Um permanente esforço exibicionista sem conteúdo e uma expressão sem nobreza."

 

Campos e Cunha tambem ele ex-ministro de um governo do PS: "Espero que a legislatura não seja cumprida". A economia vai enfrentar um período dificil relativamente prolongado, e o governo vai estar sempre em pré-campanha."

 

Para sair da crise, é preciso acabar com todas as medidas que não têm efeitos dinamizadores na economia, como os grandes projectos políticos, que apenas têm contribuições negativas para o crescimento e condicionam o financiamento do Estado.A condição para se manterm os apoios sociais, é não levar por diante o TGV, novas autoestradas e com o novo aeroporto, embora este possa ser construído por módulos.

 

A deflação espreita, o que é um problema complexo de que se sabe pouco. A política orçamental deveria dar uma ajuda para evitar este potencial perigo, mas não há folga.

 

O que terá levado gente tão mal preparada para o governo?

Dos cães

 O escritor Mário Cláudio publica hoje, na sua “Agenda”, um elucidativo retrato de um canil de uma cidade não identificada. O título sintetiza o tom geral do texto: “Descida ao Inferno”.

 

Não me conto entre os activistas da causa animal. E isto deve-se fundamentalmente ao facto de considerar que os direitos dos humanos ainda estão longe de cumprir-se, questão que me parece mais prioritária. Também não me inclino, como alguns, a considerar que o conhecimento dos humanos nos aproxima mais dos animais, porque não estendo a toda a humanidade os defeitos de uns poucos.

Mas considero que é dever de todos repudiar qualquer tratamento cruel que seja infligido a um ser vivo, admitindo, porém, que essa minha convicção está tingida pela contradição de eu não ser vegetariana.

 

Há uns anos, quando cá em casa foi decidido que era hora de adoptar um(a) companheiro(a) para a rafeira Changana, fomos a um canil. Nas suas celas de cimento frio, ainda esperançados pela possibilidade de serem escolhidos, ou já resignados à morte certa, sucediam-se os encarcerados. Quem os guardava desprezava-os, era evidente. A cada novo corredor, o percurso ia-se fazendo mais angustiante.

A escolha era impossível, e o ambiente era propício a que os visitantes fossem carregando aos ombros, a cada passo, o peso da crueldade da sociedade humana, como se dela fôssemos os desapiedados responsáveis.

 

Acabámos por escolher um rafeiro velhote, que fora abandonado nas ruas quando perdera os encantos da juventude. O veterinário iria diagnosticar-lhe uma doença cardíaca que o poderia fulminar a qualquer instante, e passámos os primeiros dias à espera de vê-lo tombar ao mínimo esforço. Ele resistiu e ao fim de uns meses era o pai orgulhoso de uma ninhada de sete. 

 

Foi justamente com essa ninhada de encantadores cachorrinhos que descobri que a relação com os animais é, na verdade, um delicioso potenciador das relações entre pessoas. Conseguir uma família para cada um dos seis que decidimos oferecer ocupou-nos várias semanas.

Um foi para uma família que lhe chamou Jardel, o goleador da época, outro foi parar a Mortágua, de onde era a amiga que o adoptou. Eu começara a conduzir pouco antes e quase nos espetava contra uma parede quando os fui levar á estação de comboios, mas acabámos por sobreviver. Outros dois foram para famílias da vizinhança.

 

Um dos cachorros, talvez o mais bonito, foi adoptado por uma família dona de uma rede de sapatarias, e transformou-se, em poucos meses, de filho de rafeiros em herdeiro de um império. Nas primeiras fotos que nos chegaram, ali estava ele, muito penteado, instalado em cima de um sofá aparentemente caríssimo, com uma coleira de brilhantes e ar de quem se instalara na vida.

Restava-nos um problema, uma cachorra difícil, a única que não brincava com os irmãos e resistia a carícias, e que ninguém escolhera. Pensámos em ficar com ela, juntamente com outra, a mais gorda e pesadona, que também não era muito cobiçada e que já tínhamos decidido deixar cá em casa.

Acontece que um dia em que regressávamos a casa com a difícil, talvez do veterinário, já não me lembro, uma das senhoras que trabalham na rua junto a umas pensões ao pé da nossa casa de então, a viu e ficou, claramente, apaixonada. Ganhou coragem para meter conversa, elogiando o bicho, e nós, interesseiros, vimos uma oportunidade. As vizinhas metediças passavam com ar horrorizado, calculando que acertaríamos as condições de algum "ménage à trois", enquanto nós ficávamos a saber que a senhora vivia sozinha com uma filha de oito anos, e que a menina tinha muitas dificuldades em estabelecer relações com outras crianças, permanentemente encerrada sobre si mesmo, receosa do mundo e dos outros, os mesmos que já a tinham magoado.

Uma semana depois éramos recebidos na casa delas para levar-lhes a cadelinha. O encontro entre o animal e a criança foi dos episódios mais comoventes a que assisti. Pareciam ter reconhecido de imediato uma na outra o aconchego que buscavam sem saber onde. Tornaram-se inseparáveis, soubemos depois, e a amizade da cadela viria ser fundamental no percurso daquela criança.

E a nossa cadela gorda sofreu um transformismo digno de uma borboleta. Em poucos meses, transformou-se num bicho esguio, capaz de saltar a alturas improváveis, e que, durante a sua turbulenta adolescência, foi uma delinquente que saltava o muro para ir matar, numa orgia de sangue e penas esvoaçantes, as galinhas da vizinha.

Também podia falar-vos dos gatos, em particular do intrépido Pancho, que adoptou como lema de vida a divisa "vive depressa, morre jovem", mas por hoje não vos maço mais.  

 

Eis a procuradora que está investigar Vara e Penedos

Como é que não fico admirado?

O Palácio de S. Lourenço

TEXTO DE FRANCISCO LEITE MONTEIRO

 

Em apontamento da correspondente na Madeira, o DN de 28 refere a reivindicação, pelo Presidente do Governo Regional, da entrega da velha Fortaleza, hoje Palácio de São Lourenço, à região, um diferendo que, inexplicavelmente, se arrasta há largos anos, tema sobre o qual – desde pelo menos 2001 – tenho abordado, em particular na imprensa regional madeirense. O atraso do governo central em reconhecer que à Madeira cabe decidir sobre o património regional que, obviamente, continuará parte do património nacional, é uma abstrusidade, como é também, fazer depender a decisão dos militares, espécie de bode expiatório, na velha perspectiva de que com a tropa ninguém se mete, passando como tal o novo ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, a ser o “mau da fita”.

 

Efectivamente aos militares quase desde sempre se deve muito do que se não conseguiu fazer através dos tempos. Evocando o livro “Palácio de São Lourenço na Cidade do Funchal” (José Leite Monteiro, 1950) cabe recordar dificuldades dos velhos tempos coloniais, envolvendo a ocupação da ala nascente do palácio pelos militares que, pelo menos, por duas vezes impediu a concretização de obras de valorização. A primeira foi no final do terceiro quartel do século XIX, “porque o Comandante Militar – Coronel Macedo e Couto – a isso se opôs”. Estava em causa a unificação da fachada sul, que sessenta anos mais tarde, viria a ser de novo contemplada mas só parcialmente foi conseguida, obviamente pela incompreensão dos militares.

Os tempos hoje são outros e, como já escrevi, não pode tolerar-se que em pleno século XXI, se continue a impedir a criação de um espaço histórico-cultural, incluindo os Museus da História e das Actividades Económicas da Madeira, bem como um “Centro Cultural” e também a sala de visitas e de convívio das gentes da Madeira e de quantos a visitam e revisitam, nesse padrão memorável que é São Lourenço onde, “dentro das suas muralhas se conserva, material e espiritualmente, a continuidade da sua História”. Publicado também no «Diário de Notícias»

 

A máquina do tempo: é a arte necessária?

 

 

 

 

 

Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso. Tal como Prometeu, o artista é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra, pela magia da cor, pelo sortilégio do som, cria a beleza para a ofertar aos homens. E produz esta magia usando as mesmas palavras que se utilizam, no dia a dia, para comprar pão, as mesmas cores com que se pintam muros e os mesmos sons que ecoam por campos e cidades. É o poder mágico do homem sobre a natureza hostil que o rodeia, transformando-a, adaptando-a a si. Humanizando-a. E como? Pelo poder da palavra, pela magia da arte. Por isso, enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá. Esta, a natureza da arte, é uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, milhares de filósofos e de poetas discorreram longa e sabiamente sobre este tema. Não vou entrar por aí – o GPS da minha máquina não funciona em labirintos.

 

 

Por isso, a nossa viagem de hoje não nos levará para tão longe. Mais recentemente, nos anos 60 do século XX, num trabalho com o título «A Necessidade da Arte», Ernst Fischer (1899-1972), o ensaísta austríaco,  dizia que «a arte é ela própria uma realidade social. A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social.» Na verdade, com o advento do capitalismo, surge pela primeira vez na história das civilizações uma classe dominante que não procura colocar, de uma maneira objectiva, a arte ao seu serviço. Pela primeira vez, o artista é livre de qualquer tutela e fica desvinculado das suas obrigações para com a comunidade de que faz parte.

 

Naturalmente que esta desmedida liberdade, longe do o libertar no sentido mais nobre da palavra, o sujeita a uma terrível tirania – à solidão, à angústia e ao desespero. Em alternativa, à submissão. É uma liberdade que, em última instância, o força a enfrentar sozinho toda uma sociedade orientada para o lucro. Das duas uma: ou o que produz é mercadoria vendível ou é rejeitado. Rectifico, portanto: o capitalismo não dá liberdade ao artista – abandona-o, rejeita-o, ignora-o. Dá-lhe a liberdade de aceitar as suas leis ou de não existir.

Voltemos a Fischer: «O artista na época do capitalismo encontrou-se numa situação muito peculiar. O rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro: o capitalismo transformou tudo em mercadoria.» A arte passou, pois, a ser uma mercadoria e o artista um produtor. O sistema de mecenato foi substituído por um método de iniciativa privada e por um mercado livre onde a apreciação mercantil da obra ficou à mercê do gosto do público, gosto (de)formado por toda uma dinâmica de relações de mercado. Digamos que um livro, um quadro, uma partitura, têm de submeter-se às contingências da competição mercantil, às leis da oferta e da procura.

Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, viviam de tenças, de sinecuras ou de cargos atribuídos pela Corte. Shakespeare, ainda que burguês de origem, fazia parte da casa do conde de Leicester, submetendo-se a um estatuto feudal. Milton, que foi secretário dos negócios estrangeiros de Cromwell pôde guiar-se por uma norma burguesa, conciliando a sua poesia com as condições em que a criava, com uma total identificação entre a sua obra e as suas concepções políticas e sociais. Também manda a verdade que se diga que os artistas raramente foram gratos a quem os apoiava. Como disse Montesquieu «quase todas as monarquias foram instituídas na ignorância das artes e destruídas porque as cultivaram demais.» Por vezes a arte foi a víbora que tiranos distraídos alimentaram e que os veio a destruir.

Mas então não é um avanço o facto do artista poder criar a sua obra sem ter de agradar aos mecenas, ao rei, a senhores feudais, a burgueses ou ao Estado? Num certo aspecto,  é verdade. Porém, não esqueçamos que agora é a opinião pública que ajuíza do valor da sua obra. E como é formada (ou deformada) essa opinião? Por pedagogos, por gente de cultura? Não. Os chamados opinion makers são, em regra gente ou inculta ou desonesta, frequentemente as duas coisas. O «gosto popular» é formado pela imprensa – tablóides, revistas do coração – pela televisão, da forma que se sabe – telenovelas, reality shows, talk shows e toda essa tralha que nada tem a ver com a cultura. Em suma – o «gosto popular» é construído pelo marketing. No que se refere ao vestuário, à alimentação, a tudo – e também aos hábitos culturais.

Vejamos a literatura. A síndrome de Dan Brown leva a que se produzam em catadupa romances com a dimensão de tijolos competindo em acção e intriga, em teorias da conspiração e teses esotéricas com as séries televisivas e com os filmes de Hollywood. É este tipo de literatura que mais se consome. Está nas grandes superfícies a par com os iogurtes que regulam o trânsito intestinal, com os cereais que mantêm a linha, com o pão tipo esferovite, com as bebidas à base de aditivos… Terão estes livros alguma coisa a ver com arte? Acho que não. Mas têm tudo a ver com as necessidades do mercado.

Saramago, um bom e prestigiado escritor, recorre ao marketing para vender. O que vende milhares de livros seus não é apenas a inegável qualidade da sua escrita, mas a habilidade com que a promoção das suas obras é feita. Atente-se no exemplo recente de «Caim». As declarações que o Nobel produziu em entrevistas sobre a Bíblia são bem mais agressivas do que o livro propriamente dito que se limita a recontar uma história bíblica, virando-a do avesso, mas levando-a a sério. Resultado: a Igreja Católica, mesmo antes de ler o texto, saltou encolerizada, a polémica instalou-se, o livro vende-se a bom ritmo. Ontem, no décimo dia após o lançamento, esgotou-se a 4ª edição – 80 mil exemplares vendidos. É Saramago igual a José Rodrigues dos Santos ou a Margarida Rebelo Pinto? Claro que não. É um bom escritor. Mas numa coisa são iguais –  estão submetidos às leis do mercado, são tutelados pelas regras do marketing.

Dirão, «mas então uma das funções da arte não é precisamente a de entreter, a de distrair? Antes da escrita, quem contava histórias nas cavernas ou as pintava na rocha, não correspondia, nesse esforço de recrear, aos artistas actuais? Sim, uma dos objectivos  da arte será esse. Mas há um outro, mais importante – que é o de chamar a atenção para os problemas do ser humano e da humanidade – «abrir portas fechadas». Voltemos então a Ernst Fisc
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Criar de acordo com o que o mercado pede é, como disse Fischer, «passar por portas abertas»: «A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas. A cultura deve ser compreendida como todas as formas de expressão artística e todo o património material é simbólico da sociedade. Esse conjunto é fundamental para a nossa memória e identidade. Quando se promove oportunidade para que todos os grupos, inclusive as minorias, se exprimam culturalmente, fomenta-se o respeito pela diversidade. Assim, a cultura constitui-se como um veículo eficaz de promoção da paz, da cidadania, da coesão nacional». 

Quando o artista trabalha exclusivamente com a preocupação do mercado está a trair a arte. Pessoa escreveu os seus maravilhosos textos não para o mercado, mas para o baú onde os ia arrumando. Os anos 20 e 30 do século XX não estavam preparados para os receber. Morreu apenas tendo publicado o livro menor que foi a «Mensagem». Suspeito de que tinha consciência da sua grandeza. E, se assim foi, mais difícil lhe terá sido não ter destinatários para essa grandeza, gente que o lesse, críticos, leitores… Público, numa palavra.

*

Fischer salienta o carácter mágico da arte. Se for desprovida da magia que provém da sua natureza original, segundo ele, a arte deixa de ser arte. A arte tem a idade do homem e o homem foi, desde a sua origem e face à hostilidade da natureza, um mago. A magia da criação da ferramenta transforma um primata superior num homem. O homem produziu a magia que deu lugar à humanidade. É um produto de si mesmo. Só inventou deuses porque não entendia nem os mecanismos, nem o poder da sua própria magia. Não entendia também a natureza sobre a qual exercia essa magia. E precisava de explicar tudo isso. E a sua magia criou também os deuses e a lenda de que tinham sido os deuses a criar o homem.

A mão precedeu o cérebro no desvendar dos mistérios. A agilidade da mão fabricou o utensílio: mão e utensílio passaram a ser indissolúveis. Por isso disse aqui há dias que «no princípio era o trabalho». O homem primitivo não distinguia a sua actividade do objectivo que a determinava – actividade e objectivo formavam uma unidade. A abstracção veio depois com o advento da palavra. E a palavra veio substituir a magia. Transformou-se ela própria em magia. Os homens eram todos magos. Com a palavra consolidou-se o salto entre animal e ser humano.

Com a palavra nasceu a poesia, como referi num texto em que falei de George Thomson e do seu estudo sobre a origem e a evolução da poesia. Foi-me chamada a atenção para a antiguidade do texto de Thomson (e a primeira edição do texto de Fischer remonta já aos anos 60). As deduções que estabeleço não se baseiam nas últimas descobertas da antropologia, é um facto. Mas não é o estar em dia nessa informação que me preocupa. Há reflexões de Aristóteles que continuam a ser pertinentes. E ele não via a «National Geographic»…

Esta é precisamente um das maiores funções da literatura e arte contemporânea. Finalmente, o homem que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo.  A arte, em todas as suas formas, era uma actividade comum a todos e elevando todos os homens acima do mundo animal. Mesmo muito tempo depois da quebra da comunidade primitiva e da sua substituição por uma sociedade dividida em classes, a arte não perdeu seu carácter colectivo. Somente a verdadeira e autêntica arte consegue recriar a unidade entre o singular e o universal. Somente a arte consegue elevar o homem de um estado fragmentado a um estado de ser íntegral, total. A arte é uma realidade social.

 

Embora não tenha consciência disso, a sociedade necessita do artista e da arte É a arte, entendida nos seus múltiplos aspectos, que leva o homem a compreender a realidade, e mais , a suportá-la e, até a transformá-la, tornando-a mais humana. A arte é indispensável. Sem ela a humanidade fica amputada e confinada à sua animalidade. Sem arte não há humanidade. Poderá haver robôs ou produtos da engenharia genética. Mas já não serão homens.  

Enquanto houver seres humanos, a arte não morrerá.

 

 

 

Sócrates e Vara: Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és

Provavelmente, nada acontecerá a Armando Vara, apesar de ter sido constituído arguido no âmbito da operação «Face Oculta». A Polícia Judiciária e as primeiras instâncias do Ministério Público e dos Juizos fazem o seu papel mas, quando entram em cena outras figuras, mais graúdas, os processos simplesmente são travados. Daí até à prescrição ou ao arquivamento, vai um pequeno passo.

Para a Justiça portuguesa, os poderosos nunca são culpados. Corrupção ou tráfico de influências? Veja-se Lopes da Mota.

Quanto a Armando Vara, todos se lembram da forma como foi obrigado a demitir-se do Governo por causa da Fundação para a Prevenção e Segurança e das irregularidades cometidas. Nada que o tenha afectado especialmente – regressado à Caixa Geral de Depósitos, passara automaticamente de simples empregado de balcão a Administrador do Banco.

Alguns anos antes, em 1990, criara a Sovenco – Sociedade de Venda de Combustíveis. Como sócios, José Sócrates e Virgílio de Sousa. Curiosamente, estão todos a contas com a Justiça em processos de corrupção – Vara com a «Face Oculta», Sócrates com o Freeport, Virgílio de Sousa já condenado a prisão por corrupção no Centro de Exames de Condução de Tábua.

Todos estes escândalos acabaram com a carreira política de Armando Vara, mas nem por isso a sua influência política diminuiu, traduzida agora no mundo dos negócios. Da Caixa Geral de Depósitos, passou para o BCP pela mão de José Sócrates. Já estava no Banco privado quando foi promovido, na Caixa, à categoria mais elevada do vencimento, com efeitos a partir do momento em que regressar. Sim, porque antes de sair foi-lhe concedida uma licença sem vencimento.

E agora isto. 

Através de escutas e movimentações da conta bancária, o Ministério Público tem provas de que Armando Vara recebeu 10 mil euros para intervir directamente junto do ministro Mário Lino na entrega de negócios a grandes empresas privadas.

Haverá certamente uma justificação, porque, como é óbvio, estamos em presença de mais uma campanha negra.

E Mário Lino?

 

 

 

A digna arte de fazer política

Ninguem quis aceitar a transparente proposta de coligação de Sócrates, daí à oposição ter que assumir as suas responsabilidades, foi um pulinho. Qualquer lhe servia se aceitasse o programa de Sócrates, sem reservas e sem concessões, em maioria absoluta.

 

Acontece que o PS não tem maioria absoluta, pelo que terá que negociar apoios e fazer concessões, numa palavra, tem que exercer a "digna arte de fazer política".

 

Cavaco, no discurso de posse do governo, chamou a atenção para os graves problemas nacionais. Dívida externa, os vários déficites estruturais da economia e o desemprego. E aconselhou que  o veículo prioritário são as PMEs, a inovação, a produtividade e a produção de bens transacionáveis e exportáveis.

 

Sócrates faz de conta que não ouve, nunca se refere à dívida externa monstruosa, que irá atrasar por muitos anos o desenvolvimento do país. Prefere fazer de conta que tem dinheiro ou que lho emprestam, para fazer as grandes obras públicas.

 

Só tem um objectivo, lançar as obras públicas, pouco lhe interessando quem terá que fechar a luz, quando sair.

 

A oposição terá nesta matéria um papel de grande interesse nacional, obrigando o governo a apresentar razões e estudos que mostrem a viabilidade dos projectos.

 

Ninguem compreenderia que assim não fosse!

Três mulheres numa só vida de Sócrates

 

 

Imagem KAOS

 

Eu sei que é estranho vir, a esta hora da noite, falar de "mulheres" com Sócrates, já que é o mesmo que tentar fazer um "cocktail" de água e azeite, mas, como o Governo ainda está no seu período de estado de graça, resolvi dedicar esta minha meia horinha, depois da meia noite, para o nosso bem amado agente técnico de engenharia de Vilar de Maçada.

A primeira mulher de Sócrates acabou no Parlamento, como prémio de consolação, depois de ter descoberto que não podia competir com o legítimo, já que gostavam ambos de pernas peludas. Partiu-lhe um braço com um candeeiro, quando descobriu a mentira em que vivia, mas é hoje como Deus: não se vê, mas sabe-se sempre que está lá, e bem instalada. 

A segunda, mais polémica, diz-se que o ajudava a vestir, mas ao contrário da primeira, que, entre bocejos de frete e tédio, lá o deve ter conseguido ajudar a despir, pelo menos duas vezes, não o conseguiu, depois, despir nunca. Condoo-me, com sinceridade e emoção, com Fernanda Câncio, nessa sua dor de não conseguir tirar a farda, ao boneco de lata que ajuda a mascarar. Têm muito bom gosto, os dois, exceto na batata que ele tem na ponta do nariz, e não há Armani que a disfarce.

A terceira é mais complicada, e chama-se Lena, um verdadeiro avião, com umas mamas brutais, e uma cona sempre húmida, e ávida de receber encomendas. A prima, a Abrantina, é mais dada ao lesbianismo, o que fica sempre bem entre duas gajas, e é o sonho de qualquer homem, que é o de ver aquelas línguas castro-laboreiras a laborarem vorazmente nos grandes lábios umas das outras.

Tudo isto seria brilhante, e erótico, não tivesse vindo, via mais um daqueles passarinhos que me amam, e que me disse que era, hoje em dia, abertamente, conversa de contentor, na sujeira das obras: o impoluto e honesto Secretário de Estado do Ambiente, o tal que deixava o motorista do Estado parado à porta da "Independente", enquanto fingia que ia acabar um curso, e era "um dos pilares do Governo PS e (…) tido como a integridade em pessoa (!)", parece que dava uns jeitos de modo a que a Lena, sempre húmida, fosse ganhando concursos por esse mundo fora. 

Não me perguntem como, porque não sei.

Dizem as más-línguas que o Paulo Pedroso, um gajo sério, e vereador da Câmara de Almada, andou pela Roménia, nos intervalos dos rapazinhos, a construir, mais a Lena, essa vaca, autoestradas, embora a coisa já esteja agora disfarçada em capitais franceses, porque Sua Excelência, "a integridade em pessoa", é extremamente hábil em usufruir e imediatamente apagar pistas, embora me tenham garantido que não foi tão rápido que a coisa não estivesse já para estoirar. Acontece, não é?…

Ao pé disto, o Armando Vara vai parecer uma história de porteiras.

Acho que me vou calar por aqui. A minha especialidade nunca foram investigações, e vou odiar quando a Procuradora Cândida Almeida for nomeada, para branquear, mais uma vez, o assunto. Sobretudo, com o desemprego que grassa em Portugal, o que menos eu quereria ver era a Lena fechar as pernas, e acabar com ainda mais gente no olho da rua, ou até — horror dos horrores — a Abrantina deixar de ser fufa, porque eu adoro fufas.