FUTAventar – O Braga é uma senhora equipa

Bom jogo, com duas boas equipas a darem vivacidade ao futebol para melhor procurarem a vitória.

 

Um Braga que dominou por completo a primeira parte, até ao golo do Naval, resultado de uma possível falta do Tomas sobre um jogador do Braga que transportava a bola.

 

Os números não enganam, o Braga teve perto de 60% de posse de bola, rematou três vezes mais, mas a verdade é que marcaram um golo cada.

 

Mesmo que o Benfica ganhe amanhã o Braga, vai continuar em primeiro, o que é uma boa proeza. Oxalá não venha a ser castigado pelo atrevimento.

 

Em Portugal, vimos bem como o Boavista conseguiu ganhar um campeonato, em plena época gloriosa do homem de Gondomar…

Para o amigo Carlos Loures: Às voltas com a gramática

Amigo Carlos Loures,

 

O texto que se segue é de um grande amigo meu, Magalhães dos Santos, a quem pedi opinião sobre " A maioria dos comentários revela…(e não revelam)".  Simples curiosidade.

 

934      GRANDE DICIONÁRIO DE DIF1CULDADI~ E SUBTILEZAS

 

 O excomungado, no lance, foi o grande escritor Rodrigues Lo Corte na Aldeia, redigiu:

“Nem é outra cousa os desvarios e desalentos dos que amam.”

O escritor pecou, segundo a Gramática, a qual ensina que ele deveria ter escrito:

‘Nem são outra cousa os desvarios.

Mário Barreto, benemérito gramático brasileiro, foi mais indulgente para com

os pecadores, visto que admitiu a possibilidade do singular, quando no predicado não

entra a palavra coisa. Citou ele um dia o mesmíssimo Rodrigues Lobc ‘Os títulos é coisa conveniente e necessária. . • (‘).

Até aqui, falou a Gramática.

Agora vão falar os escritores, isto é, os pecadores, e eu serei humilde mas sincero advogado.

 

 

Venha em primeiro lugar o grande Mestre da Arte de Dizer e de de Escrever

o glorioso Padre António Vieira. Redigiu assim num dos seus modelares

sermões:

“A morte do Infante, considerada da parte de Deus, foi ciúmes”.~

Isto vem assim mesmo no volume xv, pág. 205 (ed. 1748).

Note-se bem — a morte foi (e não foram) ciúmes.

Distracção pecaminosa! — vociferam os gramáticos julgadores. E eu observo que Mestre António Vieira sempre era muito distraído! Em outro dos seus magistrais Sermões, redigiu outra vez com o verbo no singular, onde a Gramática impõe o plural:

Os mais celebrados montes, que há no mundo, é o monte Olimpo, o monte

Sinal, o monte Tabor e o monte Olivete~ (xv, pág. 110, cd. 1748). Exclamam, agora, alguns gramáticos:

—Isso, agora, já é mania, o emprego do verbo no singular.

Venha, então, outro maníaco (sem ofensa), Mestre Alexandre Herculano, Cartas (11, 250):

O         cânon enfitêutico, o censo, qualquer quota no produto da terra, senhorio directo de um prédio. . . reserva para si. . . é, em rigor a renda de um capital.

Mas, então (objectam-me os puritanos), o senhor quer fazer violência à Gramática? Não se tratará de meros descuidos dos escritores, tal concordância, ou antes, tal discordância do singular, em vez do plural?

 

 

(1)               Cf,, neste mesmo artigo, a alínea 11.

 

 

 

 

 

 935

Eu sinto as mãos dos gramáticos prestes a agredirem-me, se me atrevo a proferir uma desobediência, mas peço justiça; peço que, antes de me condenarem, vejam não ser eu o desobediente, mas sim a fluência natural de quem fala e escreve.

Aos meus exemplos de Vieira e de Herculano ajuntarei mais dois, registados pelo douto vernaculista Padre Pedro Adrião, no belo livro Tradições Clássicas da Língua Portuguesa.

Ai se lê:

‘Já tudo é cinzas; tudo, destruição.. (De Gonçalves Dias.)

‘Um livro nem sempre é uma obra: as mais das vezes é palavras.,… (Castilho.)

o que indelevelmente diviso na tela do meu espírito é as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos.. (Camilo.)

Senhores gramáticos: tenham piedade para com os grandes escritores de Portugal. Consintam que, mais uma vez e também neste facto de expressão, o uso seja o inspirador da lei. Permitam que o verbo ser concorde com o sujeito

ou com o nome predicativo (nos casos, mencionados), consoante ao espírito de quem escreve ou fala apeteça uma redacção ou outra, pois tal duplicidade sintáctica é humana, é natural, é psicologicamente necessária.

Evidentemente, a concordância ‘Migalhas é pão” está de acordo com a gramática, e evita a detestável sequência fónica — são pão.

Mas, se Gonçalves Dias escreveu, contra a Gramática, ‘Já tudo é cinzas., escreveu eufonicamente melhor, escreveu expressivamente melhor do que se houvera redigido: Já tudo são cinzas.

Além do ciciar de “são cinzas”, o é tem expressividade. Tudo é só isto:

cinzas.

Quando o genial Camilo escreveu “o que diviso na tela do meu espírito é as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos”, o Mestre não quis saber da Gramática, e só o Estilo ganhou com isso, pois o é ficou mais intenso (no significado de ser) do que um esbatido e pouco enérgico são.

Não se julgue, aliás, que eu sou apologista daquelas infracções dos Mestres que nada têm a seu favor senão o dormitar natural. Para prova, lembro o que escrevi nos Estudos Vernáculos (pág. 24), ao estudar a linguagem de Camilo:

‘É horas…” Na pág. 7 da Luta de Gigantes aparece a redacção:

‘É já horas de lhe falar de umas paixões do tempo que foi”. Não é para imitar

semelhante construção, visto que a Gramática, neste ponto fidelíssima ao g
n
io da

 

 

            936      GRANDE DICIONÁRIO DE DIFICULDADES E SUBTILEZAS

 

 

língua, determina que se realize, por atracção, a concordância do verbo ser empregado impessoalmente, com o nome predicativo.

Aliás, o próprio Camilo escreveu logo após, na mesmíssima pág. 7:

‘Eram paixões de uma classe.

Portanto:          são já horas, e não ‘é já horas..

No entanto, devo acrescentar a esse meu comentário, de 1930, que estudos posteriores me deixaram esta explicação (de modo nenhum defesa) do erro de Camilo. Ao escrever “é já horas”, o escritor, de certo, tinha em mente ‘é já tempo , e esta influência analógica determinou o lapso.

Em resumo, e a meu ver, tão legítimas devem ser as concordâncias deste tipo assim:

— ‘Os sinos são uma coisa poética e santa.. (Herculano.)

— ‘Eram tudo memórias de alegria.. (Camões.)

— A vida são dois dias (frase de nós todos).

— Migalhas é pão (maneira mais expressiva e gramatical) como legítimas devem ser igualmente consideradas as construções destoutro género sintáctico:

—        ‘A morte foi ciúmes.. (Vieira,)

— Tudo é cinzas.» (Gonçalves Dias.)

— ‘O que nos falta é exemplos. (Camilo.)

E, ainda que os respeitáveis gramáticos não queiram, a não menos respeitável vida da Expressão portuguesa quer, e há-de querer mesmo.

Contra factos teimosos da linguagem de pouco valem argumentos rígidos ou intolerantes da Gramática.

Esta só vence, quando não exorbita. E se exorbita, nem sequer convence, como provam as belas páginas da literatura portuguesa e as bocas populares nas suas dições louçãs. (G. C.).

*

 

 

 

Qual será a frase correcta — ‘Na mina estão soterradas algumas dezenas de operários ou “Na mina estão soterrados algumas dezenas de operários” ?

Consoante já frisei no meu livro intitulada Contra os Gramáticos, há duas espécies de concordâncias — a gramatical e a semiótica, mental ou latente..

Ora, revertendo às frases apresentadas, temos isto:

Concordância semiótica, mental ou latente— “Na mina estão soterrados algumas dezenas de operários”.

A concordância semiótica é, muitas vezes, mais lógica e por isso deve preferir-se, mesmo que a Gramática proteste.

 

937

 

 

 

São os operários que, de facto, estão soterrados, e não as dezenas.

Para reforço dou este exemplo:

Comi ontem uma dúzia de carapaus estragados Se inverter, direi — comi, estragados, uma dúzia de carapaus.

Semelhantemente: ‘Aquela dúzia de carapaus estavam estragados’ é concordância semiótica, perfeitamente lógica.

Aliás, já neste Dicionário apresentei a redacção de Frei Luís de Sousa, que é assim: ‘se tirarão um grande número de corpos’, comparável à frase que estou a estudar.

Claro que também, gramaticalmente, se podia redigir— ‘se tirará um grande número de corpos’. Mas Sousa fez a concordância mental— ‘se tirarão um grande número de corpos’.

Nas mesmas condições, temos, repetindo:

Concordância mental ou semiótica — ‘Na mina estão soterrados algumas dezenas de operários.’

A lógica, portanto, explica certas concordâncias semióticas, mentais ou latentes, embora não gramaticais. (P.).

 

 

 

 

 

Os jogos Olímpicos já começaram?

O Rio de Janeiro está a ferro e fogo por causa de uma guerra entre traficantes. O nível de violência é muito superior às guerras anteriores e habituais naquela cidade.

 

A guerra entre bandidos do Comando Vermelho e dos Amigos dos Amigos provocou já a morte de 12 pessoas e dez autocarros foram incendiados. A capacidade bélica já levou ao abate de um helicóptero, o que quer dizer que os gangs estão armados para uma guerrinha urbana e não, sòmente, para uma luta inter favelas.

 

O Presidente Lula, que recebeu há duas semanas a grande notícia que os Jogos Olímpicos foram atribuídos ao Rio, tenta remediar a má publicidade, anunciando que vai comprar helicópteros blindados por forma a não serem derrubados pela metralha dos gangs.

 

Como se previa e muitos lembraram, a guerra e a violência no Rio de Janeiro vai ser uma das maiores dores de cabeça das autoridades, para que em 2010 os Jogos se realizem em paz e

harmonia.

 

Muitos, aqui no Aventar, acharam pouco razoável que no meio dos festejos se trouxesse à discussão a violência que  grassa há muito tempo na cidade e que é endógena. Não é um epifenómeno, que aparece e que pode ser  controlado por representar a causa-efeito de um qualquer negócio de tráfico de droga que corre mal. Não, a violência no Rio, faz parte do modo de vida, da forma como as pessoas se movimentam, interagem e coabitam.

 

Ora, essa violência não termina porque se compram mais hlicópteros blindados, ou se colocam mais polícias na rua. Não acaba assim! Acaba com a erradicação das questões sociais que estão na sua base. A pobreza e a injusta repartição do rendimento.

 

O que não se consegue até 2010!

Considerações breves sobre o novo Governo

Basicamente, o novo Governo é mais do mesmo. Teixeira dos Santos, Pedro Silva Pereira, Augusto Santos Silva, Vieira da Silva, Luis Amado, Rui Pereira, Ana Jorge e Mariano Gago continuam. Jorge Lacão, João Tiago Silveira e Alberto Martins já faziam parte do sistema. Isabel Alçada há muito que estava sob a alçada do PS. O resto são minudências sem qualquer força política – irão apagar-se perante a força do primeiro-ministro.

No meio disto tudo, estou curioso para ver o desempenho de Santos Silva na Defesa – para quem gosta tanto de malhar, vai ser engraçado a tropa pô-lo em sentido. E também vou gostar de ver Isabe Alçada, que vai ter os seus principais problemas resolvidos logo que a Oposição acabar com a divisão do Estatuto da Carreira Docente e com o actual modelo de avaliação de professores. Quanto à ministra Pássaro, mais valia chamar-se Betão, porque tem sido esse o papel do Ministério do Ambiente – a glorificação do betão.

O matrimónio homossexual, direito mínimo a liberdade de amar

Bem sabido é que dedico vida, tempo, e pesquisa a analisar crianças, os seus sentmentos, ideias e formas de aprendizagem. Como é sabido também, o meu eterno comentário: estudar crianças é uma investigação muito difícil. Inclui não apenas os mais novos, bem como os adultos que os acompanham.

Há imensas opiniões sobre o seu cuidado e o seu crescimento, desde as mais doutorais até às mais simples. De todas as opinões, há uma que jamais é tratada, especialmente com meninas, a da sexualiade, o seu desenvolvimento e o desejo que não conseguem imaginar de onde vem, na, ainda, mente sem conceitos.

Não entenderiam se os adultos falassem com eles sobre a paixão ser uma força da natureza. E, no entanto, o desejo sexual começa em nós desde o 5º mês de gavidez da mãe, como tem sido provado pelo psicanalista britânico Wilfred Bion em várias das suas obras, especialmente do seu texto Learning from experience, 1962, Karnac Londre e Nova Iorque 

(texto inspirado no ensaio da sua professora Melanie Klein Envy and Gratitude, primeira aproximação na Hungria de 1924, publicado em língua inglesa em 1946 e1957, já refugiada em Londres, por causa de guerra, e traduzida para o luso- brasileiro, professora e discípulo, em 1991 a primeira e em 1998, o segundo, Imago Editores, Rio de Janeiro).

O que no entanto interessa é esse saber doutoral, escrito, desenvolvido e provado em várias línguas. Interesa saber que lein comçara a interessar-se pela inveja ao descobrir que aparecia na criança bebé pela voracidade mostrada por ela ao ser amamentada ou voracidade oral endereçado ao seio bom, esse que acaricia e nutre com doçura e serenidade, afastando outros enquanto é alimentada, ou chorar se não consegue a sua satisfação.

Bion repara que a criança no seio materno, dentro do líquido amniótico do qual se alimenta, começa, pelo quarto mês de gravidez da mãe, a mexer ao sentir que um corpo estranho está a roubar-lhe o alimento: o pénis do pai ou de um outro qualquer. Esses movimentos do bebé dentro do útero não é uma simpatia de se depreguiçar do não nato, é uma luta encarniçada pela sua subsistência.

Crianças todas, que na medida do seu crescimento e do prazer obtido do seio bom, começam a sentir inveja de pessoas que acarinham a mãe. Conhecida é a frase dos pequenos que debatem com o pai ou outra pesoa, de quem é a mãe: a vitória é sempre deles, porque não há adulto que tenha a audácia de confrontar a reivindicação dos pequenos sobre a pertença da mãe. Caso aconteça essa negação, a criança fica mais perto da mãe para a defender e fazer dela uma pertença.

Primeira ideia qua aparece na minha mente ao tentar experimentar as bases da homossexualidade. Bases que talvez nem precisem de explicações doutorais. Há os que a denominam aberração, como Freud em 1906, aberração criada por ele ao reparar que estava apaixonado pelo irmão da sua mulher e por um dos seus discípulos, como consta da autopsicaánlise do autor em praticamente todos os seus textos que tratam de como a libido manda nos nossos sentimentos e racionalidade e sinterizada por Didier Anzieu no seu texto de 1958, traduzido ao luso portugês em 1970 Edições 70.

O sentimento homossexual do fundador da psicanálise fica provado, sentimento conhecido, pela sua filha Anna Freud e intuído por especialistas. Aliás, é o próprio Freud quem no seu texto de 1923 Das Ich und das Es, Internationaler Psycho-analytischer Verlag, Leipzig, Vienna, and Zurich. traduzido ao inglês como The Ego, the superego and the Id, e a nossa língua como O ego, o superego e o id, sendo o ego o que aparentamos ser, o superego o que queremos ser o Id o travão entre hábitos e costumes éticas e estéticas e os nossos namoros segredos.

Nas minha análises, tenho observado que o desejo pelo género semelhante ao nosso começa cedo na vida. Há várias formas de exprimir essa bivalência sexual – note bem, bivalência, não ambivalência.

Uma delas, a mais usada, é a inteligência de amar em quem acorda em nós sentimentos de admiração e emotividade, Se a libido comanda o nosso comportamento e aparece em frente de nós uma pessoa do nosso género de quem gostamos e essa outra pessoa gosta de nós, existe, por lei, a liberdade de optar entre o nosso apetite sexual e a nossa acção. Se existe a liberdade de amar e mudar de sentimentos após um tempo, deve também existir a liberdade de se apaixonar por quem nos acorda um sentimento libidinal.

Têm existido imensas interptretações sobre a base da existência da homossexualidade. Uma delas é a classe social: é sabido e conhecido que o rei inglês que perdeu as colónias americanas, George III Hannover, tinha a sua mulher e aos seus jóvens amantes masculinos. E outros seus descendentes mais recentes, que, por conveniência de serviço, não menciono.

A libido manda na nossa racionalidade e se essa libido não é libertada, acaba por danificar a quem sofre por amar em segredo, e não ao contrário. A homossexualidade foi sempre uma acção exisitente, que era punida, justamente, por existir.

É verdade também que o nosso bivalente Freud defendia o desejo proibido pela cultura, ao definir o conceito de sublimação ou manter sempre no Id, o nosso desejo. Aliás, até o concílio de Trento da confissão romana, era elegante ter mulher e um jovem amante.

A partir desa reunião de Bispos, muito prolongda,apareceu o matrimónio entre seres de diferentes sexos, uma cadeia que levara aos piores sintomas de luta dentro de família ou ente amigos que convertiam o amor em rijas de galo. Sabemos hoje em dia que o matrimónio homossexual dentro da forças armadas europeias e norteamericanas,é uma reivincação ganha.

O amor não satisfeito é desesperante e é capaz de endoeicer os frustados, que punem as suas famílias porque eles são punidos. Razão tinam Passolini e Fassbinder nos filmes feitos sobre o amor homófomo e esses ocultamentos das indústrias cinematográicas sobe profecias
se
xuais por causa do lucro que deixariam de dar actores como Humprey Boggart, Orson Wells, esses começos de Lawrence Olivier, os de Marlon Brando e o ocultamento de outros actores que fazem a delicia do público feminino

Para acabar, porque há muito pare dizer, o matrimónio homossexual é um remédio santo para as depressões, essas que fazem parte do pais. Que não podem criar filhos? Por acaso as crianças precissam modelos masculinos/femininos se passam a maior parte do tempo fora de casa? E em casa não é o jogo preferido das crianças ou no matrimónio ou do doente e o médico? E a masturbação colectiva, como tenho observado entre jovens e adultos, à noite, em dias de festa?

Se assim não fosse, porque Karol Woitila ia dictaminar em 1991 as palavras que consinadas nos artigos 2331 a 234 do seu catecismo, ao permitir a homossexualiade e a masturbação?

Tenho falado até este minuto apenas do amor entre homens. É evidente que há um imenso amor entre homes e mulheres, paixão, diria eu, que são punidas pela lei e pela doutrina cristã e muçulmana como adultério. Suficiente. Apenas dizer que a maior punição é a entregue pelo grupo social que ainda pensa que estes actos são condenados, apesar de que entre os proletários, como tenho observado, acontecem com muito frequencia. Fica para outro aventar, Hoje, é a lei do matrimónio o que mais nos importa e a salvaguarda da paixão de seja de quem com quem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (Auteuil, 10 de Julho de 1871Paris, 18 de Novembro de 1922) foi um escritor francês.

A homossexualidade é tema recorrente em sua obra, principalmente em Sodoma e Gomorra e nos volumes subseqüentes. Trabalhou sem repouso à escrita dos seis livros seguintes de Em Busca do Tempo Perdido, até 1922. Faleceu esgotado, acometido por uma bronquite mal cuidada.

 

O regresso de Jaime Ramos

 Atarantados com as questões bíblicas, esquecemo-nos, ou deixamo-nos distrair, do novo livro de Francisco José Viegas, “O Mar em Casablanca”. E, isso sim, é imperdoável. Com a devida vénia, permitam-me que transcreva aqui parte do parágrafo inicial. Um retrato impressionista de uma paisagem outonal, a do Passeio Alegre tomado pela mais portuense melancolia:

 

“(…) Noites destas eram vulgares quando vinham as primeiras neblinas de Novembro – e as manchas de nevoeiro passavam pelos feixes de luz  amarelada dos candeeiros da ponte. Nuvens baixas, podia ser. Nuvens que tinham descido até à cidade e a deixavam molhada. Primeiro, pegajosa, manchada de poeira. Depois, com o tempo, apenas molhada, escorregadia, obrigando o trânsito a circular com lentidão, as portas dos cafés a fecharem-se. Não havia ainda o frio do Inverno, rigoroso, silencioso – ao longe, o rumor nas ruas, despedindo-se do dia. Folhas de árvores arrastadas pelo vento, juntamente com lixo e jornais abandonados nos parques.”

 

É o regresso do detective Jaime Ramos, inspector da PJ do Porto. Haverá quem desdenhe a comparação, mas, se Mafalda teve direito a estátua em Buenos Aires, fosse eu autarca no Porto e erguia uma estátua a Jaime Ramos. Com cigarrilha entre os dedos e o rosto do Ben Gazzara. 

HORA DE INVERNO

VAMOS MUDAR A HORA!

Os cidadãos da UE atrasam uma hora os seus relógios na madrugada deste domingo, quando termina o horário de Verão e começa a aplicar-se o de Inverno.

A partir de amanhã, e durante uns meses, até à nova mudança (em Março), vamos ter a dificuldade de sair de manhã para trabalhar, quando ainda é de noite, e voltar do trabalho já noite cerrada.

Única vantagem, a possibilidade de ver diariamente o nascer do sol.

Na realidade, penso eu, deveríamos mudar a nossa hora para a HCE (Hora Central Europeia) de molde a ajudar o país a manter e melhorar o comércio com os restantes países europeus.

Só nós, em conjunto com o Reino Unido, mantemos a HMG (Hora Média de Greenwich).

Amanhã, domingo, 25 de Outubro, vai ser o dia maior do ano de 2009, com 25 horas.

.

Today is Churchill day

Em meados de 1940, Churchill e a Inglaterra estavam sozinhos. Hitler tinha, em poucos meses, invadido vários países. A França estava em ruínas e à beira do armistício, os Estados Unidos não cedia apoios, Rosevelt conspirava contra Churchill, Mussolini acabara de se juntar a Hitler e, para cúmulo, os britânicos tinham sido forçados a uma retirada humilhante em Dunquerque e Hitler preparava-se para invadir a Inglaterra.

Tudo corria mal.

Churchill percebeu então que as ilhas britânicas estavam em sério risco. O Primeiro-Ministro inglês, que tinha sido Ministro de Guerra, sabia que Inglaterra estava a correr sérios riscos de derrota. Abandonado por todos, sabia que a única esperança era a “Royal Navy”. A frota inglesa era considerada a mais poderosa do mundo, e ele sabia que a defesa da Grã-Bretanha e mais do que isso, a sua sobrevivência, dependiam directamente da sua Marinha.

A Inglaterra tinha assinado um tratado com a França que dizia que nenhum dos dois países podia render-se sem a aprovação do outro.

Quando Hitler invade a França e o Primeiro-Ministro francês se demite, o novo Governo decide rasgar o tratado que tinha feito com a Inglaterra e assinar o Armistício. No acordo que Hitler propõe ou impõe à França, diz que deixa o Sul de França desocupado, mas que a frota francesa tem que passar para as mãos dos alemães. Ao saber disto, Churchill fica aterrorizado. 

Se os navios franceses passassem para a posse dos alemães, juntando ainda à frota alemã e italiana, a marinha inglesa, por muito poderosa que fosse, nunca conseguiria fazer frente ás outras três. Contudo, foi prometido a Churchill, pelo Almirante Darlan, que caso os alemães tentassem apoderar-se dos navios franceses, estes iriam ser destruídos antes de serem entregues aos alemães. Darlan deu a sua palavra.No entanto, Churchill, sentindo-se traído pelos franceses, não acreditou. Prepara então a “Operação Catapulta”, que consistia em mandar navios britânicos a todos os portos onde estavam atracados navios franceses e reclamar para os britânicos a entrega dos navios. Por qualquer meio que fosse. Isso aconteceu com os navios que estavam na costa inglesa, com os navios em Alexandria, e com os navios que estavam na Argélia, pois eram nestes locais que estavam atracados os principais navios da frota francesa. Os navios franceses situados na costa inglesa foram entregues aos ingleses com alguma retaliação o que acabou por matar três britânicos e um francês. Os navios na Alexandria foram entregues sem retaliações, mas o maior problema deu-se na Argélia, em Mers el Kébir. Era aqui que se encontram os maiores navios franceses, o Dunquerque, Provence e o Bretagne. Churchill dá ordens expressas ao Almirante Somerville, para entregar um ultimato ao almirante francês Gensoul, que era Almirante de um dos maiores navios que estavam em Mers el Kébir. Este ultimato dava aos franceses três opções: 1- acompanhem os britânicos, com os navios, para continuarem a lutar contra os alemães 2 – Dirijam-se a um porto britânico com a menor tripulação possível. 3- Ou então dirijam-se para algum porto francês nas Caraíbas ou para os Estados Unidos. Caso recusassem alguma destas opções, os britânicos não teriam outra hipótese senão atacar os navios.

Este ultimato provocou uma onda de indignação. Gensoul sentiu-se ofendido e transmitiu a situação a Darlan que, furioso, lhe disse para ele empatar até que reforços franceses chegassem a Mers el Kébir. Os ingleses interceptaram-se esta mensagem e Churchill percebe que não tem outra hipótese senão dizer a Somerville para abrir fogo. O que se segue é absolutamente terrível. Os marinheiros franceses foram encurralados no porto, e os ingleses abriram indiscriminadamente, fogo. Os que ainda há poucas semanas tinham sido seus aliados estavam agora a atacá-los. No documentário que passou na RTP 2 e que motivou este texto, há um relato arrepiante de um marinheiro francês que conta como viu os seus companheiros sem membros, a morreram queimados, implorando pela morte. A água, supostamente a única salvação, “fervilhava” como se fosse uma fritadeira, e ele próprio não teve outra hipótese senão saltar para a água arriscando-se também a morrer queimado. O navio em que estava, Bretagne afundou-se vinte segundos depois. Os navios Provence, Dunquerque e Mogador foram reparados, e dirigiram-se para Toulon. Morreram mais de 1200 franceses, sem contar com os que ficaram feridos.

Churchill ao saber das baixas sentiu-se fisicamente doente, como os relatos contam. Tinha ainda outro problema. Como é que ia justificar as suas acções perante a Câmara dos Comuns? No discurso que fez disse que não podia arriscar que a frota francesa passasse para as mãos dos alemães. No discurso que fez, chorou e a Câmara dos Comuns levantou-se para aplaudir. Todos aprovaram. A imprensa, os deputados, os ingleses, e finalmente, Rosevelt percebeu que Churchill e a Inglaterra nunca desistiriam. Nunca cederiam. E o Presidente americano acedeu finalmente aos pedidos de Churchill e começou a ajudar a Grã-Bretanha.

Meses depois, quando os alemães foram apoderar-se dos restantes navios franceses, Darlan cumpriu a sua promessa. Os marinheiros franceses afundaram ou incapacitaram os navios para que os alemães não pudessem apropriar-se deles. Em resultado disto, o Almirante Darlan, mandou uma carta a Churchill dizendo que era aquela a prova de que o ataque de Mars el Kébir tinha sido completamente despropositado.

Churchill disse a História o iria julgar. E julgou, sem dúvida. E a História foi bastante simpática. Há, contudo, algo que é semelhante a todas as grandes personagens históricas. Todas elas são complexas. Todas elas são contraditórias. Todas elas tiveram os seus maus momentos, os seus erros. Como devemos então decidir quem admiramos? Se vamos buscar inspiração à História e se quase ninguém na História é completamente Bom, se toda a gente na História cometeu erros, como decidimos que determinada pessoa deve ser idolatrada e admirada? Não decidimos. Pura e simplesmente aprendemos. Aprendemos e tiramos lições com os erros deles e inspiramo-nos com os seus feitos e com a sua coragem. É assim que deve ser.

O Colégio Militar e os interesses imobiliários (carta a um Deputado)

Sou mãe de um aluno que frequenta o Colégio Militar há 4 anos, para onde foi depois de uma experiência de um ano numa escola pública em que era maltratado fisica e psicologicamente por colegas e ignorado por professores, tendo perdido o ano com cinco negativas e apoio psicológico. No ano seguinte, já no Colégio Militar, ficou no quadro de honra com média de 14,5 e, decorridos 4 anos, adora o Colégio e está "de rastos" com o que tem sido dito na comunicação social.

 

Assim, uma vez que ouvi as suas declarações na RTPN, não posso deixar de manifestar a minha opinião sobre as mesmas.

 

Compreendo as motivações profissionais do Dr. Garcia Pereira no assunto, mas confesso que tenho alguma dificuldade em perceber o empenho do BE em geral e de V. Exa. em particular na condenação de um Colégio, que pode ter regras que não são compatíveis com a V/ visão do ensino, pode ser criticado nalguns aspectos, mas que não merece a campanha persecutória e sistemática que lhe tem sido movida.

 

Não pretendo desculpabilizar actos que *só aos tribunais compete avaliar e, se for o caso, condenar*.

 

Parece-me, porém, que não cabe a V. Exa., nem a qualquer partido político, condenar uma instituição de ensino da forma exarcebada e degradante como o têm feito e, com isso, rebaixar todos os alunos que a frequentam e que ficam desestabilizados com todo o circo mediático que isso gera. Especialmente quando V. Exas não têm conhecimento – nem procuram conhecer – todos os lados da questão. Talvez devessem informar-se porque

razão os pais de 400 alunos defendem o Colégio e porque é quea mãe de dois dos alunos queixosos, ao que soube, mantém os filhos no Colégio!

 

Como mãe e cidadâ não aceito uma tomada de posição desta força e dimensão por parte de membros da Assembleia da República quando *não vi – nem vejo – o mesmo empenho, igual indignação e o pedido de urgente condenação (como hoje V. Exa tão veementemente manifestou) com os graves problemas com que o Estado de Direito se debate e a vergonha que foi e continua ser o processo de pedofilia da Casa Pia*. Talvez os meninos pobres e desprotegidos desta instituição, cujo processo não mereceu da PGR a consideração de "violência escolar" que justifica a celeridade do processo dos alunos do CM, não constituam para V. Exas. uma causa com que se identifiquem por não permitir o ataque a instituições da estrutura (militares ou outras).

 

Permita-me um conselho final: a próxima vez que V. Exa falar publicamente do Colégio Militar será importante investigar antes sobre se nãoestarão em causa eventuais interesses no fecho de um Colégio com 19 hectares no centro da capital, que, a existirem, V/ Exa e o partido que representa estarão inadvertimente a ajudar.

 

Com os melhores cumprimentos,

 

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

 

Caim e Abel ou a luta de classes

Caim conduzindo Abel à morte,

quadro de James Tissot

 

 Não pretendo falar do livro de Saramago, apesar de ser de muito bom. Mas, de onde será que Saramago retirou a ideia de escever sobre Caim e incluir outras personagems e narrativas bíblicas? E de que seria a idia de por em debate a um escritor  materialista com um sacerdote católico que carece de ideias materiais, mas está cheio de ideias virtuais?

E defino virtual à Hegel: é necessário pensar antes para identificar o objecto depóis. Hegel era presbítero e filosófo luterano, e académico na Universidade de Bonn  e, a seguir, da de Berlim. 

Mas o que interesa é esse debate: o livro está em qualquer livraria. Carreira das Neves, colega de Cátedra e de vários júris, apenas sabe falar de ideias apocalípticas e denegrir  quem não sabe teologia. José Saramago, esse meu amigo de jantar com Jorge Sampaio na Presìdência da República e colega – se puder comparar, quem me dera – na escrita, com a humildade de todo escritor laureado, apenas é capaz de dizer: escrevi o livro, porque aconteceu.

Mas José Saramago é ribatejano e de partido político de esquerda e nos delicia com uma história romanceada da factos retirados dum livro, também cheio de ideias virtuais, mas que ele materializa.

Porquê? 

Porque tem lido o livro primeiro da Bíblia cristã, intitulado Génesis, Capítulo 4, versiculos 21 a 26. É narrada a história de dois irmãos de sangue, filhos de pais injustiçados por terem desobedecido uma divinidade que está em todas partes, mas que ninguêm ve.

Apenas que, nos tempos Bíblicos, aparecia perante os seres humanos sob diversas formas e falava directamente com eles Divindade arrogante que tudo sabia e tudo punia se fosse desobedecido. Como aconteceu com os pais de Caim e Abel: Nascidos, ou,mais bem, criados no Éden ou jardím das delicias onde não era necessário trabalhar mas podia-se comer de tudo, excepto de uma ávore denominado da sabedoria, exactamente a ávore que os nossos progeniores foram buscar, como narra a Bíblia, mesmo livro, Capítulo 3, versiculos 3 a 24.

Não se espante o leitor: os denominados Escritos do Mar Morto, escritos em pergaminho, são capítulos muito curtos, que fui capaz de estudar por meio de aparelhos electrónicos – se são tocados, partem-se. Li por estarem preservados na minha britânica Universidade de Cambridge, escritos em Aramaico com tradução simultânea ao inglês e outras línguas.

Aí se diz que os filhos de pais desobedientes podem ter esse gene hereditário. Como aconteceu com Abel, o filho obediente, por ser pastor, oferece o melhor do seu rebanho ou porção de gado lanígero para apagar a maldição, enquanto Caim, por ser lavrador sacrifica o pior fruto da sua terra. Pergunta a divindade se está zangado com ela, Caim responde que não. A divindade refere que Abel tinha dado o melhor de si, e pergunta onde anda o teu irmão. Responde Caim: sou por acaso, guarda do meu irmão?

Esta especial predilecção é, no meu modo de ver e, adivinho,do José Saramago, o começo da luta de classes. Caim não tinha má intenção, apenas sentia dor e fraqueza por não ser o preferido nem dos seus pais nem da sua divindade.

Para ganhar sítio, tipo Comuna de París de 1871, quer ver desaparecer o rival e o mata. Como na França do Século XVIII, as relações de interacção pioraram: há revolução  de operários da Associação Internacional, organizada por Jenny Marx, Karl Marx e Engels, os corpos são escondidos pela guarda imperial, como Caim esconde o corpo do seu irmão. Ele era guarda do seu irmão por meio da solidariedade fraterna, que nem Luís Napoleão nem Bismarch tiveram: matavam havia mais operariado para substituir.

Os revolucinários são banidos, como Caim que se ofende e diz que a punição é mais forte que o crime cometido: a terra envenenada pelo sangue do irmão nunca mais renderia frutos, como acontecera com os banidos na segundar revolução na França. Os subversivos tinham dossiers criminosos internacionais e não havia trabalho para eles, eram levados às cadeias. Como os filhos de Caim, até nascer o seu filho Enoch, e, daí em frente, até nascer o seu neto Me-thu’ shalem. Este viveu mil anos e acabou com a maldição por ser um homem soldário e amigo dos seus, bom pai e melhor marido das suas mulheres. Pelo que esta hitória da Caim ensina que a revolução é perigosa e dura imenso tempo, até ao dia que alguém acalma as desavenças, como Blanqui na França e a família Marx, no mundo inteiro.

Sem ler a Bíblia e textos marxistas ao mesmo tempo, é impossível mudar o fio da meada. Como fizeram  o Sacerdote e o Escritor. Caim e Abel prenumciam a luta de clases, é o que me parece, que, queira ou não o autor, está contido na mensagem de Saramago em forma de livro, e nas palavras virtuais de quem nunca conhecera a pobreza, com Saramago conheceu, filho e neto de jornaleiros do Ribatejo, ele proprio, como Caim, a cultivar a terra com as sua mãos…até passar a ser serralheiro, em Lisboa. Conhece as vidas dos Caim, como se fosse a sua prória vida.

Será que Carreira das Neves a conheceu?

Será uma luta de classes o debate que vi e li, entre um betinho e um descosido a triunfar na vida, caso o Nobel seja um triunfo? Mas Caim não precisa de Nobels para o triunfo de um português.

Carreira das Neves, faça como Ratzinger, leia pelo menos a Ideologia Alemã dos Marx!


 

O fax que diz o contrário do que alguns gostariam de ler

 

Esta frase, integrada no contexto da mensagem trocada entre os elementos do Freeport, é extremamente elucidativa. «O Ministro do Ambiente é tido como a integridade em pessoa».

Ou seja, as pessoas pensam que ele é íntegro. Ninguém vai desconfiar…

Carlos Vidal – Saramago deita a arte fora*

 

Esta conferência de imprensa é deprimente e desoladora. Vi um minuto e, por favor, mais não. A crueldade e o incesto está em toda a história da arte. A Bíblia é uma grande alegoria da condição humana e das suas misérias. Inspirou quase toda a história da arte.

Só pode satisfazer-se com estas declarações de Saramago quem com a arte não se relaciona, nunca se relacionou, nem se relacionará. Sem o saber, Saramago deita a arte quase toda fora.

E não é preciso ser "Igreja" (que não sou nem nunca fui) para afirmar isto.

Comunista e ateu também eu sou, mas dediquei anos e anos de vida a Caravaggio (uma das bases do meu doutoramento já entregue há algum tempo). Não pode vir um tipo de Lanzarote, tenha o prémio que tiver, deitar isto fora, nem o Caravaggio, nem o meu trabalho sobre o dito cujo.

É só pensar um pouco: Saramago ataca a arte e não a Igreja (instituição que desconheço de todo).

 

* O Carlos Vidal, «blogger» do «5 Dias», comentou desta forma a conferência de imprensa de José Saramago a propósito da polémica que já vai longa. Entendi que este comentário merecia ser transformado num «post». O Carlos concordou.

Poemas com história: Reunião conspirativa

Este poema foi escrito em 1968. Inspirei-me numa reunião em casa de antifascistas abastados de uma cidade de província no Outono daquele annus horribilis do capitalismo internacional e da ditadura portuguesa – com a onda de choque do Maio parisiense a atingir as universidades, com Salazar a cair da cadeira, com a agudização da Guerra Colonial, sobretudo na Guiné. A repressão aumentava, mas a esperança dos antifascistas também. A forma de exprimir essa esperança assumia, por vezes, aspectos caricatos, como os que refiro no poema. A «unidade antifascista» obrigava, porém, a pactuar com este tipo de «resistência», onde havia mistos de reunião conspirativa, cocktail e vernissage. Com outros dois companheiros, percorremos algumas centenas de quilómetros para assistir a uma suposta reunião política e deparou-se-nos um agradável e acolhedor, mas politicamente inócuo, convívio social  entre a burguesia bem pensante da pequena cidade. Nessa altura, por bem pensante já se entendia ser democrata e antifascista. Apenas se salvou a recolha de fundos a que procedemos (o uísque também não era nada mau). O poema com que reagi a esta realidade só foi publicado, no meu livro O Cárcere e o Prado Luminoso, mais de vinte anos depois de ser escrito. Diz assim:

 

Reunião conspirativa

Uma memória dos anos sessenta

 

Chez revolucionário de lareira,

cada coisa está no seu lugar:

Lenine na estante,

uísque na garrafeira.

Nas paredes é uma festa:

Mondrian, Utrillo e Leonardo

(em boas molduras de aço anodizado),

submetem-se ao poster;

«Che» preside,

com os cabelos ao vento da Baía e a boina guerrilheira. (1)

Cá em baixo,

ao nível da alcatifa,

o Zeca chora a morte da ceifeira.

Come-se aperitivos de importação

e (presença da cultura popular)

pastéis de bacalhau.

Entre um cigarro americano

e uma (oportuna) citação

do presidente Mao,

a anfitriã cala o Zeca

e liga a televisão.

_________

(1)     – O muito divulgado poster com o retrato de Ernesto «Che» Guevara, depois também estampado em T-shirts, pensava-se na altura que era uma fotografia tirada quando foi repelida a invasão da Baía dos Porcos, organizada pela CIA. Soube-se depois que fora feita em 5 de Março de 1960 pelo grande fotógrafo cubano Alberto Korda, quando uma sabotagem fez explodir um barco em Havana.

 

Petição para salvar a casa de Salgueiro Maia

 

O Aventar lançou uma petição para salvar a casa onde nasceu o capitão Salgueiro Maia em Castelo de Vide. Uma casa que se encontra em estado de degradação evidente e em perigo de ruína. Para assinar a petição, que será enviada à Assembleia da República, basta colocar nesta caixa de comentário o nome e respectivo Bilhete de Identidade. Já temos centenas de assinaturas e, enquanto a respectiva página na barra lateral não está disponível, terá de ser este o método utilizado (coisas da mudança do wordpress para os blogs do Sapo. Salvar a memória de Salgueiro Maia é salvar a nossa memória comum. Façamos alguma coisa por todos nós. Um agradecimento final à Maria Monteiro, a autora da foto e a primeira a alertar para o estado de destruição da casa.

 

Poemas estoricônticos

A luz era azul

 

A luz do sol era azul…

lembro-me como se fosse hoje!

A luz azul azulava os claustros

as caras e o sentir.

Imaterial

pálida e fria.

As grandes janelas filtravam

a luz azul que entrava dentro de nós

como chuva miudinha.

Pela vida fora senti sempre um arrepio

ao recordar essa luz azul e fria.

As batinas negras dos jesuítas eram azuis e frias

frias e azuis como os olhos

a alma e a sombra.

A alma não era

nessa altura

apenas designação académica.

Por isso ela punha os braços de fora

e estrangulava a minha frágil personalidade

de adolescente

sem sexo nem liberdade.

Se Deus existisse e fosse justo

teria poupado Ignacio de Loyola

à mística Cristocêntrica

e ter-lhe-ia dado Catarina

Germana ou Leonor.

Se Deus existisse e fosse humano

teria posto A Freira no Subterrâneo

dentro da pureza dos meus lençóis

aquecidos de saudade

e vazio azul e frio.

A saudade excitava-me

vivia-me de dia e adormecia-me de noite.

Saudade do Caminho Novo

da minha fogueira quente e vermelha

do meu sol vermelho e quente

do meu campo

do meu rio

da minha noite de estrelas e luar.

A luz azul e fria

reacendeu-se ao fim de quarenta anos

e eu tive medo.

A imposição do azul

desfaz as formas e os sons

e remete para a cidade da morte.

Discordo de Kandinsky

no movimento do azul para o infinito

solene e metafísico

a caminho da eternidade tranquila.

A culpa foi daquela luz azul e fria!

O medo do azul abre as portas do inferno

e mostra lá dentro a coragem a arder.

Sem coragem não há saudade

último reduto da liberdade.

Coragem

liberdade

saudade

inverteram as horas e perderam o tempo.

Correm agora fora das veias

à velocidade de uma luz fria e azul

azul e fria.