A máquina do tempo: a força positiva do futebol – Eusébio

Já aqui confessei o meu gosto pelo futebol e também a minha indisponibilidade para falar do tema sem ser em termos muito gerais – já pude verificar como, rapidamente, pessoas de grande saber e inteligência parecem perder esses atributos mal pegam no assunto. Quem já não é muito prendado, quando discute futebol ainda o fica menos.

O facciosismo, a clubite aguda, são inimigos da clarividência e pasma-me a convicção com que, por exemplo, se afirma que num determinado lance houve ou não houve grande penalidade, quando, por vezes, árbitros e comentadores isentos (se é que os há), têm dificuldade em discernir mesmo depois de verem e reverem o lance de vários ângulos.

Em família, embora sejamos todos adeptos do mesmo clube, lá vou discutindo e dando vazão aos meus sentimentos futebolísticos, se tal coisa se pode chamar às pulsões malignas que o futebol provoca (sobretudo quando o nosso clube não ganha). Em crónicas anteriores, lamentei o meu desapontamento quer face ao mau futebol praticado pela generalidade das equipas portuguesas, quer perante a corrupção associada a este desporto. Verberei as miseráveis claques, gente asquerosa, pelo menos quando em manada. Hoje queria falar de uma força positiva que o futebol também tem. A de ser fonte de inspiração para escritores e não só.

Há muitos anos, traduzi um livro de Ernesto Sábato, o grande escritor argentino, um dos indigitados este ano para o Prémio Nobel da Literatura. Foi o romance «Sobre héroes y tumbas» que na edição portuguesa, e com o acordo do autor, ficou «Heróis e Túmulos». Não foi um trabalho fácil, porque tendo eu estudado o castelhano europeu, deparou-se-me um texto cheio de argot porteño que só consegui decifrar com a amável ajuda de Sábato com quem fui trocando correspondência e que, compreendendo a minha justificada atrapalhação, me mandou um glossário enorme com termos que nenhum dos dicionários de que dispunha registava.

Contudo, o que me surpreendeu num intelectual de tamanha dimensão foi o rigor com que as suas personagens discorriam sobre futebol. Vim depois a saber que Sábato, hoje quase centenário, pois nasceu em Junho de 1911, é um fervoroso adepto do Boca Juniors, o clube do mítico Diego Maradona. Hei-de voltar a falar aqui de Ernesto Sábato e oxalá que seja muito em breve e a propósito da atribuição do Nobel – poucos escritores houve e há que tanto justifiquem esse galardão. Esta a força positiva do futebol – artistas como Maradona, Eusébio ou Pelé, inspiram grandes escritores, artistas plásticos, músicos…

Não é pecado (e se fosse tanto melhor) – sou adepto e sócio do Benfica. Sendo agoráfobo – ou tendo a mania que o sou, o que vem a dar no mesmo – raramente vou ver os jogos ao estádio (mas tenho as quotas em dia). Porém, apesar do meu convicto benfiquismo, alguns dos meus melhores amigos são adeptos de clubes rivais. Para mim, o futebol é um jogo e há coisas infinitamente mais importantes. Mas, quando bem jogado, é um jogo bonito.

Hoje, como o vídeo indicou, queria referir uma figura que transcende as fronteiras do universo vermelho – Eusébio. E, mais adiante, explicarei porque é que não digo «encarnado».
Num almoço que, há muitos anos, por motivos profissionais, tive com o grande musicólogo João de Freitas Branco e com o maestro Ivo Cruz no restaurante Belcanto, no Largo de São Carlos, Freitas Branco contou-me um episódio muito curioso ocorrido durante a vinda a Lisboa do grande violinista ucraniano David Oistrakh, que na altura era considerado o maior executante do mundo, sobretudo de compositores do repertório russo contemporâneo.

Logo após a chegada, a recepção, os cumprimentos, este, chamando Freitas Branco de parte, lhe pediu para lhe arranjar maneira de ir ver o Eusébio jogar. Embora muito surpreendido pelo inusitado pedido, João de Freitas Branco, entrou em contacto com o presidente do Benfica e logo foi disponibilizado um camarote para Oistrakh e Freitas Branco assistirem ao jogo. Diz-se que, no final do concerto, o grande violinista nem sequer veio agradecer pela segunda vez os aplausos do público do São Carlos, para poder chegar rapidamente ao estádio. No final do jogo, em que Eusébio marcou um dos seus magníficos golos, David Oistrakh foi ao balneário cumprimentar o jogador. Sobre este concerto em Lisboa, o grande escritor José Gomes Ferreira escreveu um interessante poema, que vem publicado no 2º volume do seu livro Poeta Militante:

Não, não deixes secar
este fio de água de violino
que nas manhãs de ouro
completa as nossas sombras com flores –
enquanto os pássaros de sementes nos olhos
procuram na espiral dos voos
outro cárcere de recomeço.

A leitura deste belo poema de Gomes Ferreira, leva-nos até a Fernando Namora e a Manuel Alegre. O primeiro, no seu poema «Marketing», alude aos 5-3 do Eusébio à Coreia. Manuel Alegre, sobre o «Pantera Negra» diz:

Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.

Houve e há outros grandes jogadores, nomes míticos como Pinga, Peyroteo, Luís Figo . Mas Eusébio foi, numa época em que o nosso futebol era pouco conhecido além-fronteiras um caso aparte. Ele faz parte da face positiva e inspiradora do futebol.

Falemos agora do vermelho e do maldito encarnado. Nas primeiras décadas da sua existência sempre se chamou aos jogadores do Benfica, os «vermelhos». Em 1936, o fascismo internacional desencadeou a Guerra Civil de Espanha. O governo de Salazar, sem ser de forma oficial, apoiou desde a invasão o exército rebelde nacionalista. E forneceu o apoio logístico que podia – por exemplo as antenas do Rádio Clube Português foram postas ao serviço dos insurrectos emitindo da Parede para toda a Península.

O embaixador do Governo espanhol, Claudio Sánchez Albornoz, apresentou protestos formais, mas indignados. Salazar fez orelhas moucas. Em 20 de Janeiro de 1937, o RCP foi alvo de um atentado com uma bomba-relógio, mas o major Jorge Botelho Moniz, responsável pela emissora, com o apoio do ditador, lá prosseguiu a sua campanha contra os «Vermelhos».

«Vermelhos» foi a designação pejorativa que os fascistas deram às forças leais à República. Os benfiquistas foram proibidos de usar essa expressão que sempre tinham usado para se auto designar e os jornalistas idem. Por isso, não alinho na mariquice do «encarnado» (que até a Benfica TV usa). É VERMELHO, raios os parta!

Viram? Isto estava tudo a correr bem, até podia ter sido acompanhado por um dos diversos concertos para violino do Chopin (os tais que o Santana Lopes descobriu enquanto secretário de Estado da Cultura), mas já está a azedar. O futebol, mesmo sendo uma fonte de inspiração, tem este efeito absolutamente contrário ao do Prozac.

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