A máquina do tempo: coisas elementares, gente simples – elementos transcendentes na poesia de Neruda

Dou a palavra a Isabel Allende: «A 23 de Setembro de 1973, doze días após o Golpe Militar, morreu Pablo Neruda. Estava doente e os tristes acontecimentos desses dias acabaram com a sua vontade de viver.»(…)«que está a acontecer? Ficaram todos loucos? murmurava o poeta com a vista extraviada.»(…)«Enterraram-no no dia seguinte, numa cova emprestada, num funeral eriçado de metralhadoras ladeando as ruas por onde passou o negro cortejo. Poucos puderam ir com ele no seu último percurso, os seus amigos estavam presos ou escondidos e outros temiam as represálias.» («Paula»,tradução de José Carlos Gonzalez).

Pode, pois, dizer-se que Neruda morreu de tristeza. Uma tristeza profunda por tudo o que estava a acontecer no seu Chile. Estava doente, com um cancro na próstata; a emoção e a tristeza foram demasiadas. O coração do poeta não aguentou.

Li tudo o que pude ler de Pablo Neruda. Sempre em castelhano – naqueles anos 50, os livros dele, não só não estavam traduzidos, não se vendiam livremente, alguns livreiros tinham-nos «debaixo do balcão», como se dizia na altura. Lembro-me da emoção com que, na adolescência, pegava nos livrinhos de capa cinzenta da Editorial Losada, de Buenos Aires e devorava as suas páginas.

Lia Neruda, com a sensação transgressora de quem abre uma porta proibida, ainda com a ajuda de um velho dicionário de David Ortega Cavero. Sabia de cor muitos dos «Veinte poemas de amor y una canción desesperada» e, depois, deslumbrei-me com os ainda mais clandestinos dois volumes do épico «Canto general».

Anos depois, saboreei os quatro volumes de «Odas elementales». Encantou-me a ideia de se dedicarem palavras tão belas a coisas tão simples e comuns, tão ligadas à face mais humilde do quotidiano, como uma cebola, o pão, uma colher, uma laranja, um cão, uma maçã… Uma coisa tão simples como transformar chumbo em ouro. Alquimia que só está ao alcance de um grande poeta como Pablo Neruda.

Em «Confieso que he vivido», confia-nos que nas «Odas» quis descrever coisas já cantadas, ditas e reditas. Como se fosse uma criança que começa, mordendo o lápis, uma redacção sobre o sol, sobre a ardósia escolar, o relógio ou sobre a família humana. Nenhum tema podia ficar de fora da sua órbita, tinha de tocar em tudo, andando ou voando, submetendo a sua expressão à máxima transparência e virgindade.

Ouçamos Pablo Neruda na voz do cantor andaluz Joaquín Sabina:

Isabel Allende conta como no funeral «diante dos olhares raivosos dos soldados, todos iguais, com os rostos pintados para não serem reconhecidos e com as armas a tremer-lhes nas mãos», os amigos desfilavam lentamente, com cravos vermelhos nas mãos, gritando: «Pablo Neruda! Presente, agora e sempre!»

Agora e sempre, Pablo, as tuas palavras ecoam nos corações amantes da liberdade.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Carlos, tu és o melhor bloguer em cultura. Não há, e os que há, estão tambem aqui no Aventar. É por essa e por outras que o Aventar é um fenómeno. Abraço

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