Memórias do Reviralho (II)

continuação daqui

II – DO 28 DE MAIO ÀS PRIMEIRAS MOVIMENTAÇÕES ANTIDITATORIAIS. O INÍCIO DO REVIRALHO.

Finalmente, a 28 de Maio de 1926, com a sublevação inicial do Regimento de Infantaria 8, de Braga, e em nome de “um governo nacional militar, rodeado das melhores competências para instituir, na Administração do Estado, a disciplina e a honradez que há muito perdeu” (como se lê na proclamação ao País de Gomes da Costa), inicia-se o movimento militar que rapidamente se estendeu às Divisões militares de Vila Real, Coimbra, Viseu, Tomar e Évora.
O General Adalberto Gastão de Sousa Dias, que, desde 1925, comandava a 3 ª Divisão do Exército, no Porto, assumiu então – após recusar o convite que, a partir de Penafiel, lhe fez o General Gomes da Costa, de se juntar ao levantamento militar, reiterando a obediência devida ao Ministro da Guerra – o comando das operações de resistência, organizando um Grupo de Destacamentos para contra atacar os revoltosos, que nesse mesmo dia marchou em direcção a Braga, ocupando posições em Famalicão e Nine.
Contudo, apenas dois dias depois, dada a clara superioridade das forças revoltosas, por um lado, a neutralização dos reforços enviados de Lisboa, pelo Governo, entretanto demissionário, juntamente com Bernardino Machado, por outro, e por fim a adesão à revolta de várias das unidades sob o seu comando, e após reunião com os comandantes dos vários corpos militares aquartelados no Porto, ao mesmo tempo que pedia a exoneração do cargo que exercia, acabaria por dar, em nome da 3ª Divisão do Exército, a adesão ao movimento.
Face à enorme instabilidade política da agónica 1ª República, à agitação social, e à crise económica e financeira em que o país se encontrava mergulhado, o regime ditatorial obteve senão o apoio, pelo menos a aceitação tácita de uma parte substancial da população.
No entanto ao contrário do que a historiografia do Estado Novo quis fazer crer, não foi nada fácil consolidar o regime que durante quase meio século Oliveira Salazar dirigiu. Com Fernando Rosas podemos mesmo concluir que entre 1926 e 1931, período em que o reviralhismo foi mais activo, o país viveu um período de “guerra civil intermitente”.
O reviralhismo ainda é, muitas vezes, encarado como uma página esquecida da nossa história, porque a história feita pelos vencedores aponta, em especial, no sentido da força hegemónica do Partido Comunista Português, que foi, como se sabe o principal foco de resistência organizada ao Estado Novo.
Segundo Luís Farinha (8), dentro do reviralhismo era possível encontrar dois tipos de facções republicanas: os conservadores ou moderados e os revolucionários ou radicais. Estes republicanos revolucionários estabeleceram uma estreita rede de contactos, em particular com Espanha. Outro dos aspectos a salientar é que quase todos estes homens, pelo menos os que apareceram a liderar os processos de revolta, tinham ligações maçónicas.

(8) Luís Manuel do Carmo Farinha, O Reviralho: revoltas republicanas contra a ditadura e o Estado Novo (1926-1940). Editorial Estampa, colecção Histórias de Portugal, Lisboa, 1998. O 26 de Agosto de 1931 foi o verdadeiro canto do cisne do reviralhismo insurreccional, já que a partir daí o espaço de manobra para a acção revolucionária foi drasticamente reduzido, pouco mais restando do que vagas movimentações que acabam por desaparecer com o rebentar da Segunda Guerra Mundial.

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