A máquina do tempo: Os dicionários, nossos amigos

 

Já aqui revelei o meu apego ao «Grande Dicionário da Língua Portuguesa», de José Pedro Machado, meu querido e saudoso amigo. Mas, numa estante na minha frente tenho algumas dezenas de outros que utilizo com frequência, monolingues e bilingues; o onomástico e o etimológico também de José Pedro Machado o de sinónimos e antónimos de Houaiss, vocabulários, gramáticas (entre elas a do Lindley Cintra e do Celso Cunha), ensaios sobre linguística, alguns «thesaurus»…  

Entre os monolingues, estão os seis volumes do «Houaiss da Língua Portuguesa». Um que não tenho e que sei fazer-me falta é o «Aurélio» (»Novo Dicionário da Língua Portuguesa», de Aurélio Buarque de Holanda(1910-1989); com uma primeira edição de 1975 e uma segunda, revista, corrigida e aumentada, de 1986). São amigos que permanentemente me aconselham e esclarecem. E, mesmo com tão boa companhia e assessoria tão qualificada, de vez em quando descubro (ou outros descobrem) erros no que escrevo.

Costuma dizer-se que os dicionários se inspiram uns nos outros o que, em parte, será verdade. Sem o «Vocabulário» do Padre Rafael Bluteau, talvez o «De Moraes», não existisse, sem o «De Moraes», dificilmente José Pedro Machado teria construído o seu e, sem o «Machado», Antônio Houaiss talvez também não tivesse concluído o seu trabalho tão depressa. Isto, para simplificar, pois a realidade é bastante mais complexa.

 

Entre o «De Moraes» e o Houaiss, para falar num com duzentos anos e noutro publicado há cerca de dez, vamos encontrar entradas iguais ou quase iguais. Digamos que um dicionário depois de acabado constitui um ponto de partida para outro. Mas não é dessas semelhanças que quero falar.

Também não vos vou falar da proto-história da ciência dicionarística, que remonta à Mesopotâmia. Apenas vou traçar, e de modo muito abreviado, a genealogia dos dicionários monolingues da língua portuguesa. O primeiro problema que se levantou, quando alguém pensou em organizar um dicionário da língua, foi questionar a sua utilidade: para que serve um dicionário monolingue se as pessoas, de um modo geral, conhecem todos os vocábulos do seu idioma? Para que precisa um português de um dicionário onde se explica o significado de palavras que ele usa todos os dias? Por isso, o  conceito inicial de dicionário apenas abrangia os bilingues. O primeiro que se fez no nosso País, foi o de Português – Latim, com o título «Dictionarium ex Lusitanico in Latinum Sermonem», foi publicado em 1569 e foi seu autor Jerónimo Cardoso (c,1510-1569); tinha cerca de 13 mil entradas.

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O «Vocabulário Português e Latino», do padre Raphael Bluteau, editado entre 1712 e 1728, é geralmente considerado como o «pai» de todos os dicionários gerais – seguiu-se o «Dicionário da Língua Portuguesa», de António de Moraes Silva, o velho «De Moraes», publicado em Lisboa no revolucionário ano de 1789. Em 1813, ainda sob a supervisão do autor, publicou-se uma segunda edição.

Ainda hoje, o «De Moraes» é considerado como uma referência e como um ponto de partida para tudo o que se faça nesta área da linguística. Uma pequena curiosidade de almanaque – interessante como, de um modo ou de outro, alguns dos nossos melhores dicionários se relacionam com o Brasil – António de Moraes Silva (1755-1824) nasceu no Brasil (então colónia portuguesa), Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989) e Antônio Houaiss (1915-1999) eram distintos filólogos brasileiros. José Pedro Machado(1914-2005), bem este não era brasileiro, mas casou com a Professora (e também filóloga) brasileira Elza Paxeco (1912-1989).

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Há um livro da Professora Isabel Casanova, «A Língua no Fio da Navalha», com prefácio do Professor Malaca Casteleiro e editado pela Universidade Católica, onde Isabel Casanova lecciona, que aborda toda esta temática, com uma profundidade que não alcancei aqui, por limitações de espaço e, sobretudo, por limitações de saber – desde a história dos dicionários a questões relacionadas com a utilização do idioma, nomeadamente o papel da Língua como forma de identidade nacional, os neologismos e a ortografia. Para quem se interessa por esta problemática é um livro a não perder.

Os dicionários são nossos amigos, ajudam-nos a respeitar o nosso idioma. Um aviso, sobretudo aos estudantes: não confiem nos correctores dos programas informáticos – estão cheios de erros. Um dia que esteja com paciência, organizarei uma lista com os erros mais gritantes destes supostos auxiliares. Com amigos destes quem precisa de inimigos?

Amigos verdadeiros e insubstituíveis, são os bons dicionários. Fiéis como bondosos cães, repousam nas estantes e acorrem solícitos a tirar-nos dúvidas. Os dicionários, nossos amigos, nunca nos negam a sua ajuda.

Comments

  1. isac says:

    Um dos livros que encontrei no lixo (é verdade, há pessoas que deitam tudo fora) foi precisamente um dicionário Português-Latim. Talvez por causa disso, acabei a “colecionar” dicionários de outra pessoas que já não os queriam. É excelente ler os prefácios e notar uma paixão enorme pelas palavras e pela língua por parte dos autores e revisores. Algo totalmente incompreensível para quem deita fora um dicionário.


  2. Encontrei no lixo (no edifício da empresa onde trabalhava) os fascículos quase todos da História de Portugal de Damião Peres, dita «de Barcelos». Comprei os fascículos que faltavam na Barateira, um alfarrabista, mandei encadernar e ofereci-o à biblioteca da empresa. Quanto aos dicionários, tenho muitos, mas considero que ainda me faltam alguns. 


  3. Eu ando a ver se convenço o Pai Natal a trazer-me o Houaiss e parece-me que a coisa está bem encaminhada

  4. maria monteiro says:

    Tenho dois dicionários (português-alemão/alemão-português; russo-alemão/alemão-russo) que me foram deixados em 1979 por um checo (anos mais tarde viria a ser o pai do meu filho) são … os nossos “amuletos da amizade”


  5. É muito bom, a revisão para Portugal foi relativamente cuidadosa e regista vocábulos que o do José Pedro Machado não tem. Veja se com os seis volumes lhe oferecem o sétimo, o dos sinónimos e antónimos.


  6. É como lhe digo, Maria Monteiro, os dicionários são nossos amigos.


  7. Vou tentar convencer-me. Vai ser um conflito Dr, Jekill vs Mr. Hide. A Carla a fazer contas à vida e a Romualdo a reclamar os dicionários


  8. Oxalá o Dr. Jekyll leve a melhor sobre Mr . Hyde , que deve estar a ser aconselhado por Mr . Scrooge . As respostas aos comentários estão baralhadas. Oxalá as destinatárias compreendam o que quis dizer a quem.


  9. É curioso porque ainda tenho os dicionários da minha infância, com a letra de aluno da primária, e depois no liceu, na faculdade. O Larousse de poche foi usado pelo meu filho, lá esta a letra dele.Tenho vários todos de aluno cábula, com as ajudas de memória, e descobri no outro dia 3 belos volumes do Kogland Larousse. Mas está visto que sou um amador ao pé dos meus amigos e amigas…


  10. E a Carla Romualdo a ganhar…


  11. Luís: no meiuo de toda esta parafernália dicionarística, também conservo os exemplares da infância e da adolescência – o de português, da Porto Editora (J. Almeida e Costa e Sampaio e Melo), os de francês do Olívio de Carvalho, bem comoi a velha gramática do Sousa Vieira, a gramática latina e os latini auctores, do José Nunes de fIgueiredo, os dicionários de latim do Torrinha… São as relíquias da colecção, uma espécie de jóias da coroa. 


  12. Ó Carlos, uma provocaçãozita: então e as edições em CD-ROM? Eu uso a do dicionário da RAE e é uma maravilha…


  13. Tenho aqui um Português-Inglês de 1956 Livraria Figueirinhas – Porto que roubei a alguem. Vejo aqui que o surrepiei ao meu amigo de infância Orlando Costa. Tem uma bela assinatura. Deve ter sido a paga de lhe resolver os problemas da matemática…


  14. Não é uma provocação, Carla. Há bons dicionários nesse suporte. Instalei e recorro com frequência diária ao CD-ROM do Oxford advanced learners . Mas mentiria se dissesse que não prefiro o papel. Porém, a nostalgia do papel não me faz recusar o que é novo.


  15. Vamos precisar de semáforos nos cruzamentos – Luís, Orlando Costa, o actor, o Zé Gato?


  16. Não me digas que és amigo de infância do Zé Gato???


  17. Zé Gato ? Não estou a ver quem é.


  18. Não será o mesmo, há muito que não o vejo.

  19. isac says:

    Toda a gente tem o Koogan Larousse de 3 volumes. Porque será?

  20. isac says:

    Esse de “Latino” do Torrinha, foi o que eu encontrei. com dedicatórias e tudo. Ainda assim foi parar à rua.


  21. O que acha da Lello, Carlos? Com justiça ou não, eu vejo-a como aquela que diz que masturbação é «um acto novico para a saúde». Durante muitos anos, tive um dicionário Lilliput. Não sei se alguém conhece, eram dicionários muitíssimo pequenos, minúsculos mesmo, de capa vermelha ou verde, que cabiam no bolso de uma camisa. Tenho pena de lhes ter perdido o rasto. Não sei se aquela do Zé Gato era aqui, mas é natural que seja o mesmo. O Orlando Costa e o Luis Moreira são da mesma idade – quem diria, o nosso Zé Gato está tão velhote!


  22. Não tenho nenhum dicionário da Lello em casa. Na editora tinha a Lello Universal» (tradução do Petit Larousse ). Tenho mais confiança nos dicionários da Porto Editora. Esses <liliput, não são os Langenscheidt com capa de plástico e pequenos – tenho muitos – francês, inglês, biologia, história, física… O Orlando Costa é «rapaz» para 60 e tal anos. Partcicpei com ele, com o Fausto, com o Zeca, em reuniões políticas. O Viriato Teles, num texto que circula na Net, fala dessas reuniões. Enfiim, o tempo passa e os detectives como o Zé Gato também vão envelhecendo.


  23. Eu estava a falar, Carlos, da Enciclopédia Lello Universal em 2 volumes, de capa verde ou vermelha (tenho a edição de 1974). Quanto ao Lilliput, o meu era mesmo um Dicionário de Português, mas lembro-me que havia muitos outros.


  24. Pois, o Lello Universal é uma tradução do Petit Larousse. A edição que eu tinha era muito antiga e desactualizada. As ilustrações eram arcaicas. Provavelmente, há edições mais recentes. A que eu tinha era bastante deficiente. Acabou por não dar a sua opinião sobre a ida do Vilas Boas para o SCP (embora não seja um tema deste espaço, num dicionário cabe tudo).


  25. O meu primeiro dicionário também era uma tradução do Petit Larousse , o Dicionário Prático Ilustrado da Lello . Acho que acabei por lê-lo todo, como se não fosse de consulta, mas uma espécie de romance das palavras.


  26. Pois, parece que o André Vilas-Boas não vai para o Sporting. Ainda bem! Posso estar a ser precipitado, mas gostava muito de o ver na próxima época no Porto. A ver vamos…


  27. Porra, Isac, eu todo contente…


  28. Pois é, Ricardo, os treinadores, «mal-acomparados », são como os melões, só depois de abertos se sabe se são bons. Imagine que quando soube que o Jorge Jesus ia para o Benfica, estive para devolver o cartão de sócio… Agora, ateu como sou, até passei a crer em Jesus. O FCP , com a estrutura e o plantel que tem, aguenta a experiência de um treinador jovem. O Sporting com mais uma experiência falhada pode colapsar. Agora, numa coisa acho que os portistas têm razão – o Jesualdo não serve, ganhou os campeonatos que ganhou porque tinha bons jogadores e a tal estrutura sólida, mas é um técnico medíocre. Se era tão bom, porque não fez nada que se visse no Benfica? Bem, para uma conversa sobre dicionários, não estamos a ir nada mal.


  29. Infelizmente, João José, a Lello foi reeditando sem actualizar, sem aompanhar as sucessivas edições da Larousse e a certa altura, tanto o «Prático», como o «Universal», estavam transformados em peças de museu. Quando folheio um deles estou sempre à espera de ver aparecer entradas como «fonógrapho»…