O PS não terá que mudar o primeiro ministro?

Não podemos continuar a fazer de conta que não existem estas suspeitas contínuas em relação a José Sócrates. Qualquer um se estivesse em condições de o fazer daria explicações públicas. José Sócrates já não tem condições para voltar a dar explicações.

 

Quem é que acredita que agora este caso das escutas do Face Oculta é novamente uma campanha negra contra a sua pessoa ? Com tantos pesos pesados socialistas, como é possível que alguem que é apanhado no "olho do tufão" pode dizer que não sabe de nada ?

 

Se a isto juntarmos todos os casos em que Sócrates  está envolvido e em que teve que dar explicações públicas a credibilidade não é nenhuma.

 

Paula Teixeira da Cruz acaba de dizer na SIC N que isto é o "Estado gangster", que é o próprio Estado que comete os maiores crimes e que depois controla quem o devia julgar. Dá o exemplo de um contrato com as  Estradas de Portugal, onde um consórcio dá como contrapartidas 200 milhões de euros para ganhar o concurso, e quando o contrato chega ao Tribunal de Contas, pelo caminho, os 200 milhões desapareceram. Este caso não é único!

 

Saldanha Sanches diz que José Sócrates não tem condições de continuar Primeiro Ministro, o PS ganhou as eleições tem direito a indicar o Primeiro Ministro mas não necessariamente este.

 

O PGR é cilindrado por um e por outro, envolve-se em contradições que não abonam em nada a sua capacidade e independência em ocupar o lugar.

 

Entretanto, na Assembleia da República, perante a exigência de explicações, o líder parlamentar do PS, pateticamente, vem acusar a oposição de querer politizar a Justiça!

 

Um Primeiro Ministro sob suspeitas é um caso eminemtemente político e só depois deixe-se a Justiça fazer o seu caminho.

Cartas

 Cara Isabel Alçada

 

Vamos saltar a parte de quem eu sou. Sou uma aluna e isso deve chegar até porque o que lhe quero dizer não implica o conhecimento do meu nome ou mesmo idade.

 O seu nome era o mais esperado para ocupar a pasta da educação. Quando digo o mais esperado refiro-me obviamente ao facto que desde que o executivo se começou a preocupar com a reeleição que se sabia que a sua antecessora seria amavelmente convidada a ir-se embora. Quanto a si começou mal. Negou ter sido convidada três vezes (onde é que eu já ouvi isto?), quando já era muito provável que tivesse sido contactada para o efeito.

Mas à parte deste pequeno incidente, eu acredito sinceramente em si. Deve ser difícil fazer pior do que foi feito até agora; e é por isso que, na minha qualidade de aluna, lhe queria dar as boas vindas e também dar-lhe algumas sugestões que eu penso que podem ajudar.

É verdade que o Governo tem maioria relativa o que quer dizer que o diálogo vai ter que efectivamente fazer parte das políticas, algo que, como sabemos, esteve em falta até agora. É também urgente que se resolva o problema da avaliação dos professores e do ECD. E pode começar a considerar, embalada pela minha afirmação anterior, a considerar propostas de outros partidos. Também o estatuto do aluno, que apesar de ter sofrido alterações continua a ser um motor de promoção de injustiças em especial o malfadado regime de faltas.

Tudo isto são, contudo, matérias específicas e nesta carta não pretendo de maneira nenhuma ensinar-lhe a fazer o seu trabalho, que fará, com certeza, melhor do que eu faria, caso estivesse no seu lugar. Pretendo apenas pedir-lhe que compreenda que a exigência, a disciplina, o rigor não fazem mal a ninguém, muito pelo contrário. É necessário, ou melhor, é urgente a existência de um ensino que puxe pelos alunos e não que, pelo contrário, facilite a tarefa. A escola não é para ser fácil. A escola não pode ser fácil. E na educação, a escola e os alunos tem que estar em primeiro lugar. Acima mesmo da estatísticas que somos obrigados a mandar para a União Europeia. Interessa também, em relação aos alunos, que, em vez de os encherem com disciplinas que não interessam a ninguém, lhes dêem tempo para eles aprenderem a estudar ou pelo menos que tenham oportunidade de ter mais acompanhamento. O facto de haver mais escola não significa que a escola é melhor. Normalmente, pelo o que tenho vindo a perceber, significa exactamente o contrário. A escola não é um depósito de crianças.

A educação nos últimos anos em Portugal faz-me constantemente lembrar uma cena de uma das melhores séries de sempre, o “Sim, Senhor Ministro”. Há uma vez em que o Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha pergunta à sua conselheira política: “O que é que eu posso fazer quanto à educação?” E diz a conselheira: “Fazer ou parecer que faz?”. E ele responde prontamente: “Parecer que faço. Não posso fazer, obviamente”. Só que aquilo era só mesmo uma série de humor. O que se passa em Portugal é a realidade. Por isso, senhora ministra, tente evitar que a educação se transforme numa anedota.

 

 

 

Fontes Pereira de Melo e Maria Filomena Mónica

 A verdade dita por Maria Filomena Mónica

 

 

Maria Filomena Mónica é uma mulher bonita, elegante e não a conhecendo pessoalmente, parece-me acessível.  Tem um certo ar de outros tempos, num misto de Marlene e de Deneuve, mas sem a frieza coquette da primeira ou o arrogante e desdenhoso olhar da gaulesa. Excelente comunicadora, é expansiva, ri com facilidade e o seu fácies expressivo testemunha aquilo que sente e a certeza do que diz. Não parece portuguesa porque exala optimismo, coisa tão afastada do clima que há tanto tempo se vive no nosso país, como se de uma longínqua galáxia se tratasse.

 


Ontem, tive o prazer de assistir à entrevista concedida a Mário Crespo, na Sic Notícias. Comentando a biografia que escreveu sobre o grande homem que foiFontes Pereira de Melo, Filomena Mónica mostrou uma total independência perante o comodismo académico ainda preponderante, dizendo de forma clara e inequívoca, estar o país a sofrer há mais de um século, o abusivo relato de uma história falseada, porque inexistente. Referindo-se ao período que a obra estuda – a Monarquia Constitucional – e comparando-a com o regime que se lhe sucedeu – a 1ª república -, a autora foi incisiva na afirmação daquilo que hoje se tornou impossível de esconder.

 

Disse uma grande verdade e tão incómoda quanto impiedosa: a inelutável lei da natureza, vai fazendo desaparecer os promotores de uma historiografia oficial que ao longo de cento e cinquenta anos se acirraram na promoção da ficção de uma história nada científica e apenas fundamentada no dogma, alinhamento partidário ou mero fanatismo de grupo. Em suma, os lóbis que se vão sucedendo no poder, vão amesquinhando o todo nacional, em benefício do arrivismo mais atrevido e seguidor de figurinos importados pela conveniência clubística do momento.

 

Todos sabemos que a Monarquia Constitucional consistiu no mais longo período de normalidade daquilo que o preceituado da cartilha liberal pressupunha. Fizeram-se todas as reformas necessárias que adequaram o país aos novos tempos anunciados por uma Europa saída do caldeirão fervente da agressão napoleónica e sem um rumo ainda bem definido, mercê da destruição da velha ordem pré-revolucionária e da derrota militar do imperialismo rapinante do Corso.

 

Estradas, caminhos de ferros e infra-estruturas correspondentes – pontes, túneis, portos, entrepostos comerciais, mercados -, abolição da Pena de Morte, modernização do sistema eleitoral, simplificação das medidas e sua normalização "à europeia", fomento de indústrias e promoção do conhecimento científico, eis sucintamente, o programa que foi sendo executado em Portugal ao longo de mais de três décadas. Uma autêntica revolução material e nas mentalidades, surgiu como possibilidade modernizadora que aproximaria Portugal de uma Europa que começava a descobrir as potencialidades de um Ultramar pelo qual se digladiaria. Independente o Brasil, Portugal prosseguiu fortemente ligado à antiga possessão além-mar, mas a África tornou-se numa outra possibilidade de expansão, onde o país contava com direitos históricos, tenuemente garantidos pela presença em presídios costeiros e tácito reconhecimento in absentia por parte de outras potências. 

 

A derrota da França em 1870-71, criou uma situação de status quo territorial na Europa, implicando paralelamente, a corrida aos mercados que no além-mar prometiam ser o sorvedouro dos produtos da  recente industrialização. Fontes foi o Presidente do Conselho num momento em que existiam os capitais estrangeiros destinados ao investimento em economias que pretendiam a modernização. Países como Portugal ou a Rússia a eles acorreram, conseguindo criar as bases de uma modernização urgente porque imperiosa para a própria segurança internacional dos Estados. A adequação do modelo social em todas as suas vertentes – movimento sindical, sistema eleitoral ou o despontar dos compromissos sociais patrocinados pelo Estado – suceder-se-iam normalmente.

 

Maria Filomena Mónica é uma boa comunicadora, de fala simples, incisiva e compreensível para a maioria dos interessados. Ontem, ousou dizer a verdade que geralmente anda tão afastada das crenças enraizadas por sucessivas gerações de eternos e privilegiados pensadores do pessimismo que amolece a nossa gente, destrói a consciência nacional e impede a verdadeira autodeterminação de cada um e de todos. A autora prestou um relevante serviço ao país que importa.

O samba do vestido cor-de-rosa

Era inevitável. O processo Geyse Arruda vai acabar nos tribunais. Este é um daqueles casos estranhos, sobretudo por chegar de onde chega. Se viesse de um qualquer estado com tendências repressivas, como o Irão ou a Síria, talvez não fosse estranho. Seria sempre repugnante mas, enfim, seria mais um entre outros de um moralismo falso e pensamentos retrogados. Mas veio do Brasil, a pátria do Carnaval e de Jorge Amado.

 

O caso tem alguns dias e muitos detalhes e desenvolvimentos mas o essencial da história conta-se em poucas linhas. Geyse Arruda anda na vintena de anos e é uma mulher vistosa. Estuda na Uniban (Universidade Bandeirantes), uma universidade privada, que diz querer “ser uma instituição de referência na Educação Superior no que diz respeito à qualidade de ensino e do corpo docente, à pesquisa e ao compromisso social”.

 

Num dia do mês passado, com a Primavera em alta, Geyse Arruda, estudante de turismo, foi para a universidade (reforço universidade para não ficarem com a ideia de ser uma escola pré-primária) com um vestido curto, cor-de-rosa. Nada de mais, um vestido que acabava um pouco acima do joelho. Foi o suficiente para começar a polémica.

 

Um grupo de energumenos, por certo aprendizes de talibã na Uniban, consideraram o vestido um afronta e uma provocação. Geyse foi insultada. Chamaram-na de “puta” e muito mais. Uma lapidação verbal que faria corar de vergonha os mais intrépidos e agressivos apdrejadores de outros tempos.

 


 

O inacreditável tumulto provocado pela mini-saia levou mesmo à interrupção das aulas e à intervenção da polícia militar. O caso, graças às imagens filmadas por telemóvel e postadas na internet, provocaram reacções. Em todo o lado. Até mesmo no gabinete do reitor. Foi aberto um inquérito e no final, zás, corta-se o mal pela raíz expulsando a aluna. Em comunicado, os responsáveis da coisa dizem que houve "flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade" por parte da aluna. Mas quanto às bestas lapidadoras, nada.

 

As notícias na televisão e nos jornais aumentaram, os blogues foram inundados de posts sobre o assunto e até no estrangeiro houve repercussão do caso. Há quem a defenda e quem a acuse, por alegadamente ter “provocado”. Como se sabe, vestir uma mini-saia é um crime tremendo no Brasil.

 

Os protestos foram crescendo e a reitoria teve de enfiar o rabo entre as pernas e readmitir a aluna. Geyse quer mais e processou a universidade. Quer uma reparação pela humilhação e a retirada dos vídeos da internet.

 

Tudo isto, recordo, passa-se no Brasil. A pátria do Carnaval, do Samba, das novelas, de uma banda chamada ‘Calcinha Preta’, de Jorge Amado, de Tieta do Nordeste e de muito mais. Até posso estar enganado mas no próximo Carnaval haverá um samba sobre o “vestido cor-de-rosa”.

Dos sindicatos dos professores vêm maus prenúncios…

Há uma guerra dura que se vem travando nos últimos anos entre os Sindicatos dos professores e o Ministério da Educação. Às vezes é necessário partir muita pedra e haver baixas de ambos os lados para que o bom senso volte.

 

Parece ser o caso. Hoje há vitórias da Educação ( não do ministério) formidáveis e que terão um importante impacto na qualidade do ensino. Atrevo-me a lembrar os concursos de colocação de professores por quatro anos, terminando com o circo anual, de queixas e queixinhas, de professores com as malas às costas e de alunos a conhecerem novo professor.

 

A avaliação que já ninguem contesta, com um modelo discutido e aceite por todos, mas com consequências na carreira, o que quer dizer que a progressão na carreira deixará de ser automática. O estatuto do professor que vai ser discutido e melhorado, já contando com as recentes contribuições.

 

Mas quando se ouve falar os representantes dos Sindicatos a sensação que fica é que nem tudo foi, ainda, devidamente, digerido. Se pensarem que as vitórias foram da Escola, a digestão será mais fácil. 

 

Acabar com a divisão entre professores titulares e não titulares parece consensual.  Não estou tão certo quanto a uma avaliação, por objectivos, mensuráveis, com consequências na carreira e no vencimento ; numa gestão da escola autónoma com pontes de coordenação com as forças autarquicas  e com os movimentos dos pais ; alargar e aprofundar a autonomia das escolas a partir dos Rankings existentes há vários anos;  considerar que os professores avaliados pelo modelo actual não possam ser prejudicados;

 

Enfim, que as reticências aqui e ali afloradas, não sejam mais que um  teste, inculcando as ideias no universo de professores, como uma vacina que vai alastrando…

O Professor Marcelo, a Bertinha e a Fátima Lopes

Os professores não fazem mesmo nada. Onde já se viu! A meio da tarde, a ver o programa da Fátima Lopes!

Seja como for, hoje em dia o professor Marcelo Rebelo de Sousa não perde uma oportunidade para aparecer na televisão. A sua pré-campanha para a liderança do PSD já começou, é vê-lo agora mesmo a beijar uma velhota chamada Bertinha. À direita da idosa, como fez questão de realçar, relembrou velhas histórias de Colégio, onde foi colega de Eduardo Barroso, o cirurgião que começou por dizer que a vida lhe corre bem. Claro que a vida corre bem a todos os que fazem mais ou menos parte do clã Soares.

Quanto a Marcelo, se não conhecesse o seu passado ainda diria que é um político populista. E que, qualquer dia, ainda se atirararia ao Tejo para mostrar a poluição do rio…

A máquina do tempo: ainda as origens do fado

 

 

Nesta bela gravura de Rugendas (1802-1858), o pintor alemão que durante três anos viajou pelo Brasil, recolhendo preciosos testemunhos dos costumes populares,  vemos escravos dançando o lundum. Há cerca de duas semanas atrás, publiquei aqui um texto sobre o fenómeno da canção urbana, falando das similitudes entre o fado e o tango. Quando recordava o pouco que se sabe sobre as obscuras origens da chamada «canção nacional», aventei entre as hipóteses que os especialistas têm vindo a explorar, aquela que é a mais comummente aceite – a de que o fado nos chegou nos barcos de torna-viagem que trouxeram de regresso a corte de D. João VI que, durante as invasões francesas, esteve refugiada no Rio de Janeiro, para ali tendo transferido a capital do reino.

 

Segundo essa teoria, o fado teria sido criado a partir de uma dança muito popular no Brasil (no início do século XIX), dança em que se misturavam elementos de danças populares portuguesas e de outras trazidas de Angola pelos escravos. Era um bailado que podia ser acompanhado de canto e a que as gentes chamavam «fado». Já em Portugal, este fado brasileiro e o lundum, foram-se mutuamente influenciando até se fundirem, dando lugar àquilo que veio a ser a canção nacional.

Foi um fenómeno explosivo, rápido que, como um incêndio de Verão, viajou da corte aos bairros populares e a partir destes se espalhou por todo o País. Hoje, o fado já não é lisboeta, canta-se, e muito bem, no Porto (de onde têm vindo excelentes intérpretes, como a magnífica Maria da Fé), no Ribatejo, onde adquiriu ritmo e sonoridade própria. Terá desencadeado o fenómeno do fado coimbrão, mais ligado à música beirã. É a canção nacional. Chama-se fado, fatum, destino… Começou nos saraus do Palácio de Queluz, viajou para as alfurjas, lupanares e tabernas da Mouraria, e agora com uma nova estirpe de cantores e cantoras aristocratas parece querer voltar aos salões.

 

O curioso é que já no princípio do século XX, antes de ter completado cem anos, já o fado era considerado uma canção tradicional. A estúpida «tradição» dos touros de morte em Barrancos tem cerca de oitenta anos e essa barbaridade é defendida nessa base – é uma herança cultural do povo barranquenho. Estranho país o nosso, fundado há quase nove séculos e onde as falsas tradições pegam de estaca em duas ou três gerações.

 

Mas, enfim, voltemos às origens do fado. Estava a falar do lundum, ou lundu. Há quem defenda que a sua proveniência é da África Ocidental e que teria chegado a Portugal, vindo de Cabo Verde, com as primeiras levas de escravos, ainda no século XV. Há a tal tese, mais difundida, da proveniência angolana. Indiscutível é a mistura de ritmos e cadências africanas e europeias, integrando os ritmos ibéricos, jotas, fandangos, e corridinhos, com o estalar de dedos a marcar compassos.

 

Pergunto se mornas, coladeras, fado, samba, lundum, maxixe, não terão origens comuns. De notar que, nesta matéria, só faço perguntas. Mensagens que meto em garrafas e atiro ao oceano da blogosfera – quem sabe se um especialista, um dia, não dará resposta a estas questões? Desde que, há uns anos atrás, no «Ponto por Ponto», me convidaram para falar sobre o D. Afonso Henriques e depois me fizeram perguntas sobre o fado, fiquei com esta obsessão.

 

Como exemplo, deixo uma excelente interpretação de Edu Miranda e do seu trio na execução de um fado em ritmo tropical. Como podemos apreciar, não existe qualquer espécie de incompatibilidade. Será que o fado original seria (mais ou menos) assim?

.

 

 

Outros funerais

romagem-1908-01

Populares depondo flores nas campas de Alfredo Costa e Manuel Buiça

O meu colega Nuno Castelo-Branco escreve sobre os funerais do rei Carlos e  seu filho e faz muito bem.

Já agora aproveito para deixar aqui umas citações sobre as homenagens do povo de Lisboa a Manuel Buiça e Alfredo Costa, executores dos citados senhores.

“Buiça e Costa foram visitados na morgue, como confirmam até mesmo escritores monárquicos, por milhares de pessoas, sobretudo homens e rapazes. (…) o enterro (…) foi rodeado de medidas de segurança, mas realizou-se quase clandestinamente pela madrugada. (…) Este procedimento é fácil de explicar. As autoridades monárquicas não arriscaram a possibilidade de o enterro dos regicidas poder tornar-se uma homenagem aos mesmos.

Apesar das precauções, no cemitério do Alto de S. João as campas não deixaram de ser visitadas, originando mesmo uma verdadeira romagem, que se repetiria nos anos seguintes. O monárquico António Cabral referiu-se-lhe como uma “(ignóbil peregrinação da matulagem republicana (…). Falou-se de 80 mil pessoas (segundo outras fontes cerca de 22 mil) que foram depor flores e deixar bilhetes nas campas

(…).

“Milhares de pessoas foram hoje ao Alto de S. João pôr flores nas covas dos assassinos d’El-Rei e do Príncipie!! Dá vontade de renunciar a nacionalidade! Arre canalha!”, escreve o médico da Real Câmara Tomás de Melo Breyner em 16 de Fevereiro de 1908.”

Mª Alice Samara, O Regicídio

“Aquele mistério dos funerais nocturnos causara grande impressão e viu-se uma cidade dividida em cóleras profundas. Muita gente fechava a janela, envergara o seu luto, quedava-se numa dolorosa expectativa; outros iam para o cemitério e espalhavam flores sobre as sepulturas dos regicidas. Organizavam-se combinações nos centros republicanos e a determinada hora chegavam alguns dos redactores dos jornais avançados, sobraçando ramos, e deixavam-nos sobre as campas. Conheciam-se as dos assassinos; a do assassinado, por engano, durante o tumulto, não recolhia uma só pétala. Ousadamente atiravam-se bilhetes-de-visita para terra seca diante da polícia, num desafio. (…)

Nas montras continuava a exposição dos seus retratos. A fama dos dois homens enchera as bocas e as almas; à porta da necrópole, durante alguns domingos, vendiam-se postais com os seus bustos e os garotos gritavam: “Olha o retrato do Costa e do Buiça… Olha o retrato dos mártires!”

Rocha Martins, O Regicídio

Simplesmente dalby…, by Adalberto (I)

TEXTO DE ADALBERTO MAR

 

  Dalby aos 5 anos

 

 

 

Era uma vez um rapazinho chamado dalby…
Rapazinho nascido de sangue 100% minhoto (Vila Verde) e do mais popular sangue nortenho de Avintes/Gaia, este rapaz nasceu um menino bonito de olho azul-verde, branco e de cabelos castanhos encaracolados….Peludinho.
Nasceu abençoado pelo anjo S.Valentim,  dia dos namorados, de madrugada, numa casa onde cresceu, amparado por uma parteira, que o ajudou a dar à luz.
Quando menino, as raparigas e meninas bonitas, e senhoras mais velhas, estragam-no de mimos e «trocavam» um beijinho por um rebuçado, ou outro beijinho por uma bolacha de chocolate, ou mesmo por um bilhete de circo daqueles longínquos anos sessenta, quando ele apreciava aqueles circos que visitavam as aldeias, tipo «circo Quinita apresenta…!!». Via sempre essas meninas, e as senhoras todas elas a fazerem xixi à sua frente..desde muito cedo que o sexo feminino não lhe era nada estranho…Quanto ao sexo masculino: duas tentativas de o molestarem abatidas, uma porque fugiu, outra porque bateu com um pé no trabalhador lá de casa nas trombas dele, e outra, um grupo de terror, no liceu de Gaia, porque gritou, esperneou e virou raiva-viva e largaram-no e ele foi directamente ao director da escola (reitor se chamava não se lembra..) e nunca mais foi molestado, como os outros eram, pelo ‘grupo do terror’ de então (1973).  Mas era sempre das mulheres que vinha sempre o açúcar. Ele sempre amou as mulheres. Hoje ama e odeia as mulheres, ama e odeia o sexo masculino. Por várias razões, mas mantém um ódio-amor bivalente com os dois sexos! 
 

Mas tanto açúcar houve que foi assim que as mulheres estragaram o nosso rapaz!!!!. Rapazinho criado e crescido com um entourage  núcleo duro de  religião católica apostólica, punições, padres, mas também bondade de Cristo, tudo muito beato, estratificado socialmente mas também muito pecado, desde que se mantivesse as aparências….o Dalbin sempre se distanciou dos padres, embora ache que foram sempre correctos com ele… O avô e o  pai eram absolutamente mulherengos, e a mãe, tias, primas, avós etc. mulheres fatais, belas, boas cozinheiras, moralistas mas com um quê de atrevidas…Filho de pai feio derretido com as gajas e com um sorriso cósmico, e de mãe de beleza helénica, como seu nome, mas… qual leoa-loba com pele de cordeira, o nosso rapazinho muito cedo habituou-se a ter de repensar e recompensar a sua doçura e fragilidade com  inteligência e sabedoria natas, que o ajudassem a poder viver num ambiente tão agreste. Simples mas sofisticado mentalmente, sempre se habituou ao luxo e ao lixo…num misto de Portugal profundo rural e raça lusitana como a dos cavalos…
 Escola pública, recusou o colégio dos Claretianos da vizinhança, privado, e hoje em 7º lugar nos rankings..achava, e bem, que «santos da casa não faziam milagres», isto no seu subconsciente, porque disse sempre ao paizinho que não queria colégios..….ou seja padres da terra, já bastava os da missa e das leituras…Na escola pública onde entrou com 6 aniinhos,  era ora amado ora odiado, e chamavam-lhe nomes, Beta-Faneca, e outras coisas que não gostava. Mas cedo ousou saber dar a volta às coisas..enquanto muitos levavam porrada, ele, o nosso dalbysinho comprava os inimigos, levando lanche duplo, um para ele, outro para o inimigo do momento…e cedo acabou por poder estar na escola sossegado, e sem mazela. O mesmo não se podia dizer já com o professor…Batia-lhe com a régua e furava-lhe a cabeça com a ponta da BIC..Contudo o nosso dalbito, na Primavera e Verão, fazia umas composições tão bonitas sobre o sol e as pessoas, que enterneciam o professor severo…ainda me lembro da bata severa dele, da mão peluda masculinissima e bem cheirosa da sua proximidade que me atormentavam..fazia mesmo xixi quando ele me olhava  e com horror via que me ia bater…Porém nunca hesitei em ir para a escola…dalby era um passarinho bonito e por isso gostava de sair e voar… (estuda, aponta Iturra que a tua técnica vai ter de se afinar muito!!) e desenhava um sol tão bonito e uma menina tão bonita e «azul» (não sabia ele ainda que era daltónico, mas usava os crayons todos, mas péssimo, como hoje em caligrafia!!), e por esse motivo sabia a cor dos olhos pelos outros, que ele próprio não via no espelho, nem tão pouco sabia o que valia, sendo as colegas da faculdade que o colocavam na lista do TOP+ de então ( e não só..Madrid, Lisboa,Ribatejo… sabiam dizer o que ele tinha e não…!!)..mas voltando ao professor da primária,  nesta altura levava e não era pouco não!!! Pobre dalbin…e sempre que não levava os deveres para a escola… levava…!!!
Tudo isso avivou-lhe a memória de que vivia numa ditadura, que os pecados eram proibidos, que a sua mente de néon pós-moderna, esse vanguardismo sonhador de« VARIG-VARIG-VARIG! ESTRELA BRASILEIRA DE NORTE A SUL!!!»  era uma lança perigosa, embora sempre adorado e apreciado por seu pai, que nessa altura de loucura e medo ambivalentes de finais de década de 60 eram apanágio de algo que esse mesmo pai admirava no filho..O pai, feio fisicamente, adorava ter assim um brinquedo tão perfeitinho….Esse pai pecador que tanto lutou por ele, e com as mulheres tudo perdeu (aponta Iturra, estuda !!!)…O pobre menino assim cresceu numa espécie de « Heaven, I’m in heaven, heaven that my heart merely can’t speak» misturava-se com muita dor e confusão…
 
O rapaz cresceu e nunca mais se soltou dos estudos, dos sonhos…nem do lugar onde vivia..sonhava com o estrangeiro ainda nem uma  mosca portuguesa sabia que poderia voar para NEW YORK, e o rapazinho da aldeia, simples, mas bem nascido e bem alimentado, com muito doce à volta, com tudo, sem lhe faltar nada..continuava a ler, estudar, sonhar, viver….os seus sentimentos eram sublimados com leituras do Novo e Velho Testamento, que leu religiosamente aos 14 e 15 anos….Aos 15 pediu a seu pai para que este o levasse para férias sozinho para as montanhas..Gerês, Marão, desde que o deixasse só..O Pai estranhou..que iria fazer em 1975 um rapazinho liceal, habituado às saias da mãe..que iria fazer para um lugar, um hotel pediu ele, sozinho, num ermo..Era a fase mística…O pai pegou nele, e no primo dele (a «dama de companhia eterna» do mesmo!!) e levou-os para Entre-Os-Rios, residencial Miradouro…proprietária de um amigo dele, assim o filho poderia ser controlado….
 
E eis que o pequeno dalbito, magrinho, de olhar doce, voz mole e fina, inocente e ingénuo como um nenúfar lá foi com o primo….
 
Era um amor e uma paixão anunciadas essa ligação à Natureza, ao campo que o viu crescer e que ele nem nas suas noites mais duras, cruas e rough de Nova Iorque, Berlim, Paris, Londres, Amesterdão, Madrid ou Marraquexe iria jamais deixar… Aliás que a tríade que rege ainda o nosso pequeno dalby é uma tríade de lugares impossíveis..Madrid, Ribatejo e Torrão do Lameiro, onde ainda hoje ele vai andar de bicicleta, Inverno Verão ou Outono…tentando recrear o menino que gostava de tirar a sandália e correr com os meninos pobres da sua aldeia sendo como um deles sem o ser, sendo…Ali está o nosso dalbito já maduro NÙ ou menos nú no Inverno…entre o Furadouro e essa mesma praia/bosque maravilhoso e selvagem do Torrão do Lameiro, onde a Natureza é um escândalo de preciosa, no seu fato sexy ultra sensual negro de ciclista, que ele afirma ser o mais
p
róximo do «estado nudista contínuo dele, Na Primavera/Verão/Outono» e lá vai ele de MP3 seu fato à Flash Gordon contra o vento, ao sol ou mesmo ao frio descendo o bosque, ouvindo carly Simon ou Sade..e cantando seus males espanta….…..AH mas um dalbito nudista? AHHHH que ironia se recuarmos atrás uns anos, quando ele tinha mesmo vergonha de se despir para fazer ginástica…Então….que aconteceu ao nosso rapaz, que evolução foi aquela de um rapazinho que lia as leituras na missa, adorado pela Igreja, pelas mães, pelo pai, pelos vizinhos, pelas mulheres que o corrompiam com beijos em troca de rebuçados e bolachas..como se transformou esse ser assexuado, morto, religioso e místico, doce e dourado, belo e ingénuo, tardio na sua sensualidade, frágil e indefeso, vítima e resistente….como pode ele tornar-se num ser implacável à medida que ia avançando na vida…e porque amando ele tanto o sonho do estrangeiro, tendo tido oportunidades de ouro, nunca quis abandonar a casa, nem mesmo trocar o «lugar» pela capital, ao menos pela capital do país???!!! Ele fica já agradecido pela eternidade dos passeios pela natural natureza normal ainda da floresta do Torrão, e de vestir-se, qual Batman, nessa sua versão de  ultraBEAR poderoso, agressivo, mas sem deixar a doçura e simpatia de quando era «somente» ingénuo e inocente?! (ITURRA QUEIMA AS PESTANAS!)
 
Para a próxima continuo, em …«Simplesmente, dalby, um filho/bisneto do MINHO profundo»
Vejam então as versões musicais e visuais de dalby o filho pródigo dos 10 mandamentos.

Ministra, Professores, Partidos, Sindicatos, movimentos

Tenho aventado com alguma insistência a ENORME vitória que os Professores conseguiram! Uma vitória com TODAS as letras: V-I-T-Ó-R-I-A.

Tal certeza resulta da permanente presença das temáticas em torno da classe no espaço mediático, no espaço púlbico e no palco político e partidário.

De uma maneira ou de outra há muita gente a tentar apanhar a onda – o Paulo Portas tem sido o mais descarado e dele espero pouco, ou mesmo nada, tão convencido que estou de que será ele a moleta do Governo.

O movimento gerado pela classe só aconteceu porque houve Professores.

Só aconteceu porque houve sindicatos.

Só aconteceu porque houve movimentos.

Só aconteceu porque aconteceram todos, uns e outros e importa muito pouco perceber quem aconteceu mais.

Agora, não aconteceu porque havia partidos. Não aconteceu porque há partidos. Entendo onde eles querem chegar e aplaudo todas as iniciativas parlamentares, mas a centralidade deve ser colocada entre o Ministério e os sindicatos, representantes democraticamente eleitos dos professores.

É às estruturas sindicais, representantes, de facto, de mais de 50% da classe (obviamente, há professores que não estão sintonizados com as direcções sindicais, mas estando de fora, limitam-se a dizer que não) que compete representar os professores.

O que exigimos, enquanto professores é que o Mário Nogueira, meu camarada da FENPROF e o João Silva, meu homónimo da FNE tenham a capacidade de perceber o que quer a ESCOLA PÚBLICA. Se o conseguirem, vamos sair todos a ganhar.

Todos não, porque talvez o Paulo Portas fique a perder.

Salto à vara

Ana Gomes é uma desbocada, mas às vezes diz umas coisas com coragem. Desta vez, não esteve com meias medidas e diz para quem a quer ouvir que "a corrupção só acaba se e quando o PS quiser".

 

Apresenta como sua defesa o facto de ter dito tal verdade no Congresso do partido em Abril último, reforçando "que o pântano só pode ser ultrapassado com salto à vara".

 

Ou a imagem de saltar à vara é uma premonição digna de uma vidente de Fátima, ou já sabia e usava estes remoques para quem, como ela, estava conhecedora, ou está a atirar com os seus 90 Kls para cima do Vara (90 kls políticos,claro).

 

Ana Gomes acrescenta que é necessário retomar a proposta de "Combate à corrupção" de João Cravinho, criminosamente chumbada pela "Máfia" da anterior maioria parlamentar (é curioso que vemos os partidos chumbar esta proposta e achamos que é natural) sem o que os políticos e a política se afundam no pântano da nossa vergonha.

 

Mas a maioria do PS e dos outros partidos continuam a assobiar para o ar, como se as prioridades não passem por tão sujo problema, mas passe pelo casamento dos gays, numa manobra de diversão, no mínimo  patética.

 

Isto só lá vai com "vara" mas é de marmeleiro!

 

PS: Causa Nostra e Blasfémias

Morreu Robert Enke

Foi o último grande Guarda-redes do Benfica. A sua morte leva-nos, mais uma vez, ao que é essencial – a vida.

Recordo, como forma de homenagem, sem qualquer tipo de ironia, um dia triste que vivi com ele – a derrota do BENFICA em Vigo. Lembro-me de ter perdido a noção de quantos golos já tinhamos sofrido, mas recordo também a forma leal como ele soube lidar com a situação, a pior que um guarda-redes pode ter: sofrer 7 golos e não poder fazer nada.

 

Descansa em paz!

Kalashnikov

 

 

 

O poder está na ponta da espingarda, dizia Mao. Mas estava bem melhor no cano da música e no gatilho do cinema.