Dicionário à vara

VARAPEDIA

 

Assalto à Vara – Assalto de fato e gravata

Varómetro – Medidor de corrupção

Varapau – A vara que julga o Vara

Varapau de corrida – Carapau corrupto

Vara verde – Corrupto inexperiente

Varamento – Acto de bater em corruptos

Varação – Encalhar a corrupção na PGR

Varar um barco – Encher o barco de corruptos

Vara de porcos – Partido Socialista

Vardade – Mentira                                                       

Varado – só dez mil euros?

Varada – escuta ao Vara

 

PS: enviado pela nosa leitora Adélia

 

 

Desemprego – O falhanço das políticas do governo

O desemprego tem um comportamento que é o espelho das políticas do governo. Mais de 500 000 pessoas estão desempregadas, o que representa 9.8% da população activa, o maior número dos últimos 23 anos.

 

Nos últimos três meses, 40 000 pessoas perderam o emprego e no desemprego homónimo ( Outubro a Outubro) mais de 140 000 pessoas .Estes números, que não são contestados por ninguem ( o que se pode dizer é que a realidade é ainda pior) mostra bem que as políticas de criação de emprego são um falhanço em toda a linha.

 

O governo que tem estes resultados não quer mudar de políticas, quer continuar a deitar dinheiro em cima das empresas habituais, quer avançar com os megaprojectos que  só criarão postos de trabalho daqui a dois anos e nenhuma riqueza.

 

Estretanto, "esmiuçando", verifica-se que 140 000 pessoas com habilitações até ao antigo 9º ano perderam o emprego e 40 000 pessoas com o 12º conseguiram um, somados a mais 12 000 empregos para licenciados.

 

A criação do emprego líquido é pois negativo, a renovação do tecido empresarial não está a ser feita, e Sócrates, incapaz de criar postos de trabalho nas áreas da produção de bens transaccionáveis e exportáveis e que substituem importações, lança-se às obras públicas em que se trata de pedir o dinheiro emprestado lá fora e fazer mais "betão" com emprego de baixa qualificação. Fácil demais para ser meritório…

 

Por um lado já decretou várias vezes o fim da crise, e que fomos dos últimos a entrar e os primeiros a sair, mas quando aparece o desemprego descomunal, o crescimento do PIB desgraçado, o déficite humilhante, aí a crise já serve de desculpa.

 

E a par desta desgraça envolve-se em "negócios escutados" e perde o tempo todo a "arredondar" os estragos na Justiça e na Comunicação Social…

José Sócrates é um assassino

O autor do disparo à queima-roupa que vitimou, há dois anos, um militante do PSD, nunca foi descoberto. E José Sócrates acaba de confessar a Armando Vara, enquanto este está a ser escutado, que foi ele o autor do disparo.

O Magistrado que autorizou e ouviu as escutas, convencido de que um crime de homicídio é suficiente para que seja extraída uma certidão, envia o processo para o Procurador-Geral da República, que o endereça ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Este declara as escutas nulas, porque não foram por ele autorizadas, e ordena a sua destruição. O Procurador-Geral da República não recorre e manda cumprir a ordem.

José Sócrates, Pinto Monteiro, Noronha do Nascimento, Clara Ferreira Alves e Mário Soares pensam que se fez Justiça, sendo que, para este último, estamos em presença de um «problema comezinho». Afinal, a Justiça americana, que liberta assassinos em série porque a obtenção da prova não seguiu todos os preceitos (como vemos nas séries), é que tem razão. 

Tudo está bem quando acaba bem.

 

 

Para desanuviar, porque o país está uma tristeza

O que acontece quando os neons ficam com uma face oculta…

 

De face às claras

 

O sr. Cavaco Silva anda aborrecido, com e sem razão. Com razão, porque os seus não o informam acerca do que se passa, negando-lhe assim, os essenciais elementos para o jogo político a que desde sempre se dedicou. Sem razão, porque neste jogo, tanto pode perder, como ganhar. Foi exactamente para isso mesmo que se fez eleger por um em cada três portugueses. São episódios que de longe vêm e a que sua excelência dá plena continuidade, como bem sabida lição da história.

 

 

"(…) O Partido Republicano não tem emenda. O Partido Republicano está cada vez peor. E, isso,  sendo um grande perigo, é, ao mesmo tempo, uma verdadeira afronta ao paiz, onde o Partido Republicano procede  como se fora um exercito invasor. Isto é d’elles. Mas é d’elles à má cara. Mas é d’elles a ferro e fogo."

 

H.C., Jornal Povo de Aveiro, 3 de Maio de 1908.

 

A formidável derrota de Maria de Lurdes Rodrigues (1.º semestre de 2007)

continuação daqui

 

No discurso de Ano Novo, Cavaco exige «resultados claros» para a área da Educação em 2007, sem que se perceba muito bem, como é costume, o que quer ele dizer com isso. Seja como for, Maria de Lurdes Rodrigues não quis comentar.

Ou melhor, percebeu-se muito bem. Porque alguns dias depois, o Presidente Cavaco promulgava o novo Estatuto da Carreira Docente e a inenarrável divisão entre professor e professor titular.

Começa a falar-se na monodocência no 2.º Ciclo, ou seja, um só professor (no máximo dois), para leccionar o 5.º e o 6.º ano. Isto porque os meninos, coitadinhos, ficam traumatizados no fim da primária. Ideia de Mono, diz Paulo Guinote.

Ideia melhor só a do inquérito que por estes dias começou a circular em algumas das escolas portuguesas. As perguntas eram algo de surreal: «O teu pai insulta a tua mãe?»; «O teu pai bate à tua mãe?»; ou «o teu pai obriga a tua mãe a fazer vida sexual contra a vontade dela?». Habituada aos inquéritos como método sociológico, a Ministra mostrava aqui o máximo respeito pelos alunos e sua vida privada. Sobre isto, não consta que o Pai da Nação, Albino Almeida, tenha dito o que quer que seja.

 

 

 

Nos finais de Janeiro, Valter Lemos diz que seria uma estupidez acabar com a TLEBS a meio do ano lectivo. Na semana seguinte, Jorge Pedreira anuncia o fim da TLEBS. Para apaziguar os ânimos, que já não andam nada sossegados, o Ministério da Educação institui um Prémio anual, no valor de 25 mil euros, para o Melhor Professor. O «Lurditas de Oiro», como passará a ser depreciativamente conhecido graças à inspiração de Antero.

Um prémio profundamente ridículo. Porque, como é óbvio, os professores devem desempenhar bem a sua função. Porque sim e não por causa de um qualquer prémio.

Em Fevereiro, Maria de Lurdes justifica o fim das Provas Globais, que eram «localmente viciadas». Viciadas pelos professores, como não podia deixar de ser. Como não pôde deixar de ser ao longo de quatro anos.

Entretanto, o Ministério apresenta a sua proposta para o concurso de acesso a professor titular. As primeiras rondas são marcadas pela discórdia e os Sindicatos ameaçam recorrer aos Tribunais. 

Todos os dias, são agredidos dois professores, no ano de 2006 foram 400, mas isso não parece preocupar a Ministra.  Enquanto isso, Valter Lemos gritava e atirava os papéis ao ar na Comissão de Educação da Assembleia da República. O mesmo Valter Lemos que considera que duas agressões por dia a professores «se dilui rapidamente» num Universo tão grande.

 

 Ao mesmo tempo que Salazar vencia o concurso dos «Grandes Portugueses» da RTP, o que diz bem da História que se dá nas escolas portuguesas, o Ministério da Educação tecia loas ao programa de generalização do ensino de Inglês nas escolas básicas. Só faltou referir que tal «sucesso» se deve à exploração laboral de milhares de professores por esse país fora, a maior parte deles a trabalhar com recibo verde e a 6/7 euros à hora (ou seja, é feriado, não recebem).

O mês terminava com Maria de Lurdes Rodrigues a assobiar os alunos no final de um corta-mato escolar em Santa Maria da Feira. Porque, como ela disse, «eu grito mais alto».

 

  

E eis que rebenta a polémica da licenciatura manhosa do primeiro-ministro, obtida num Domingo, via fax, na defunta Universidade Independente. Mariano Gago gagueja quando lhe falam do assunto, o «Público» noticia que antes da «licenciatura» na Independente já o título de Engenheiro estava na sua biografia oficial na Assembleia da República, Sócrates desfia o novelo do costume na «clarificadora» entrevista à RTP.

Entretanto, o Ministério da Educação toma medidas contra o abandono escolar. O fim das reprovações por excesso de faltas é a medida mais eficaz, porque se nunca reprovam, pode sempre dizer-se que continuam na escola.

Ao mesmo tempo que quase não há candidatos para o Prémio de Professor do Ano, o Lurditas d’Oiro, e que se debate os «rankings», ou falta deles, no ensino superior, chegamos ao 25 de Abril. E como a Revolução se fez para que houvesse igualdade entre todos, ficamos a saber que, para os dirigentes superiores da Função Pública, não há quotas para a avaliação do desempenho.

Continua o encerramento de escolas e a colocação de alunos noutros estabelecimentos com tantas condilções como aqueles que são encerrados. Sempre, sempre, sempre num interior cada vez mais esquecido e desertificado por causa de medidas como estas.

De um Governo que nem o direito à Greve respeita, vem a notícia de que « o Ministério das Finanças estipula que todos os serviços pertencentes à administração pública façam uma contabilização, obrigatória e imediata, dos trabalhadores que adiram ou não à greve». Ou como todas as estratégias são utilizadas para que os funcionários públicos tenham medo de exercer o seu inalienável direito – o direito à greve.

Estamos a chegar ao fim de Maio quando a comunicação social é atingida por um novo caso em que as liberdades democráticas estão ameaçadas – o caso Charrua, professor suspenso das suas funções na DREN por ter dito numa conversa privada, que alguém ouviu, que o Primeiro-Ministro é um filho da puta.

O caso Fernando Charrua representa o que de pior teve o regime socratino que agora finda. O terror, a censura, o culto do chefe. Numa conversa privada, Fernando Charrua terá dito que José Sócrates era um filho da puta. Tal qual nos tempos da PIDE, um inominável bufo ouviu o desabafo e foi contar às chefias. O professor foi suspenso de imediato e a sua comissão de serviços terminada. Iniciou-se então um processo disciplinar.

Num país decente, que não num lamaçal como Portugal, a Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, teria sido demitida de imediato, bem como a directora-geral da DREN, Margarida Moreira, e o respectivo bufo. Num pa
s
decente, o Presidente da República concluiria que estava em causa o normal funcionamento das instituições.

Ao invés, o bufo foi promovido, a directora-geral foi reconduzida e a Ministra assobiou para o lado como se nada fosse – o mesmo fizeram o primeiro-ministro e o Presidente da República.

Alcochete, esse deserto da Margem Sul, «Jamais!», proclama o ministro Mário Lino. Até porque se houvesse um atentado na ponte, a ligação a Lisboa seria cortada, junta Almeida Santos. Tudo numa altura em que o ano lectivo está a terminar e os funcionários públicos, professores incluídos, exercem de novo o seu direito à greve. Mais do que a adesão, cujo verdadeiro alcance esbarrou na habitual guerra dos números, ficava o ensaio geral para um empolgante ano lectivo de 2007/2008, fértil em lutas e em manifestações.

São finalmente publicitados os lugares existentes para professores titulares. Começa a inenarrável, original e efémera divisão da carreira em professor e professor titular.

O primeiro semestre termina com os Exames Nacionais de acesso ao 12.º ano. Foi especialmente escandaloso o exame de Matemática, como Nuno Crato bem fez notar. Havia até perguntas do 1.º Ciclo. Assim, realmente, é fácil brilhar nas estatísticas.

 

 

 

Da Lurdes e para a Lurdes – do seu livro "Gente d'Além Montes"

A minha alma aprendeu a voar

 

 «Ainda jovem, de feitio um pouco irascível, a minha experiência ainda era pouca em comunicação e tolerância.

Formei-me em Lisboa e os dois primeiros anos de estágio também os passei por lá. Habituada a trabalhar com outros colegas em equipa, lançada para um meio que não era o meu, ao ver-me sozinha, em trabalho isolado, entregue ao meu saber, julguei-me rainha, dona e senhora do meu nariz.

Naquele primeiro dia no serviço de urgência, tive a minha primeira lição, a qual foi a mais proveitosa de todas as que tivera até ali.

Um homem de meia idade, de dedos atarracados e grossos, tocando a mala a tiracolo, acompanhava a mulher espampanante que trazia uma criança ao colo.

Ela senta-se e diz:

– La petite começou com vomissements e viemos ao hôpital para ter a medicin…

Nunca gostei de estrangeirismos e critiquei:

-Fale-me em português, porque a senhora é portuguesa e aqui não é uma casa parecida com maison, com janelas iguais a fenêtres…

A mulher espampanante levanta-se, toca no braço do homem e pede:

– Vamos embora, que esta médica é maluca!

Ao ouvir este comentário, caí em mim…

Reconsiderei e achei que tinha sido muito incorrecta… Lembrei então do que respondeu um homem, de uma raça que não a minha, que veio para Portugal com a descolonização, quando lhe perguntei o que era para ele um médico – Médico… é gente que tem alma a voar entre o Deus e os homes…

Era isso mesmo – pensei – tinha que ser tolerante, compreensiva e acessível. Ter a sábia humildade daqueles que parecem nada saber, para poder voar um pouco e ser aceite.

Naquele dia a minha alma aprendeu a voar… e a comunicar, porque comunicar, mais do que falar, é ouvir deixando falar, sendo imparcial. É saber ver além, além do gesto de súplica de alguém de corpo irrequieto. É olhar, olhos nos olhos, sem magoar rugas profundas de olhos já tão magoados, de secos tornados molhados na solidão. É ser cego e ver o mudo falar. É tocar o outro, dialogar e ter tempo…»

 

(«A minha primeira lição», , do livro «Gentes d’Além Montes», de Lurdes Rocha Girão (1996)

 

 

2012, o fim do mundo americano

O Roland Emmerich fez um filme sobre o fim do mundo e a NASA teve de vir desmentir o "facto" face às preocupações crescentes de muitos americanos. Tenho de concluir que estes americanos não batem muito bem. Um país que que espalha a paz por esse mundo fora à bomba e a tiros de metralhadora e que acima de tudo não consegue discernir entre realidade e ficção é mesmo para ter medo. Eu tenho medo dos americanos, porque decididamente já não jogam com o baralho todo.

 

""Some people went to that movie and they thought it was reality, that it was an actual documentary," Betts said.

Morrison says Sony has crossed a line with promoting "2012."

"I think people are really, really worried about the world coming to an end. Kids are contemplating suicide. Adults tell me they can’t sleep and can’t stop crying. There are people who are really, really scared," he said.

"People are very gullible," he added. "It a sad testimonial that you need NASA to tell you the world’s not going to end.""

A máquina do tempo: Umberto Eco à Der Spiegel: «Gostamos de listas porque não queremos morrer»

 

 

Na passada semana, o escritor e semioticista italiano Umberto Eco, curador de uma nova exposição no Louvre em Paris, falou à "Der Spiegel", aos jornalistas Susanne Beyer e Lothar Gorris, sobre o lugar que as listas ocupam na história da cultura, as formas pelas quais tentamos evitar pensar na morte e por que motivo o Google é perigoso para os jovens. Acho importante transcrever as interessantes e esclarecedoras reflexões do grande escritor italiano:

Spiegel: O senhor é considerado um dos grandes académicos do mundo, e agora está a inaugurar uma exposição no Louvre, um dos museus mais importantes do mundo. Entretanto, os temas da sua mostra soam um pouco a lugar-comum: a natureza essencial das listas, poetas que listam coisas nos seus trabalhos e pintores que acumulam coisas nas suas pinturas. Por que razão escolheu esses temas?

Umberto Eco: A lista está na origem da cultura. Faz parte da história da arte e da literatura. O que pretende a cultura? Tornar a infinidade compreensível. Ela também quer criar ordem – nem sempre, mas com frequência. E como, enquanto seres humanos, lidamos nós com a infinidade? Como é possível entender o incompreensível? Através de listas, através de catálogos, através de colecções em museus e através de enciclopédias e dicionários. Há uma atracção em enumerar com quantas mulheres Don Giovanni dormiu: foram 2.063 pelo menos, de acordo com o libretista de Mozart, Lorenzo da Ponte. Também temos listas totalmente práticas – listas de compras, testamentos, cardápios – que, a seu modo, são também conquistas culturais.

 

Spiegel: A pessoa aculturada deveria então ser vista como um zelador tentando impor a ordem em lugares onde o caos prevalece?

Eco: A lista não destrói a cultura;  cria-a. Para onde quer que olhe na história da cultura, encontrará listas. Na verdade, há uma variedade atordoante: listas de santos, de exércitos e de plantas medicinais, ou de tesouros e títulos de livros. Pense nas colecções sobre a natureza do século 16. Os meus livros, a propósito, estão cheios de listas.

Spiegel: Os contabilistas fazem listas, mas também as podemos encontrar nas obras de Homero, James Joyce e Thomas Mann.

Eco: Sim. Mas eles, é claro, não eram contabilistas. Em "Ulysses", James Joyce descreve como seu protagonista, Leopold Bloom, abre as suas gavetas e tudo o que ele encontra dentro delas. Vejo isso como uma lista literária, e ela diz muito sobre Bloom. Ou veja Homero, por exemplo. Na "Ilíada", tenta transmitir uma impressão do tamanho do exército grego. Primeiro usa metáforas: "Assim como um grande fogo florestal investe contra o topo de uma montanha e a sua luz é vista de longe, enquanto marchavam, o brilho das suas armaduras reluzia nas alturas do céu". Mas não fica satisfeito. Não consegue encontrar a metáfora certa, e implora às musas para que o ajudem. Então tem a ideia de listar os nomes de muitos, muitos generais e seus navios.

Spiegel: Mas, ao fazer isso, ele não se desvia da poesia?

Eco: A princípio, pensamos que uma lista é algo primitivo e típico das primeiras culturas, que não tinham um conceito exacto do universo e que, portanto, eram limitadas a listar as características que podiam nomear. Mas, na história cultural, a lista prevaleceu ao longo do tempo. Ela não é, de forma alguma, uma mera expressão das culturas primitivas. Uma nova visão de mundo baseada na astronomia predominou durante o Renascimento e o período barroco. E havia listas. E a lista com certeza impera na era pós-moderna. Ela tem uma mágica irresistível.

Spiegel: Mas por que razão Homero lista todos aqueles guerreiros e os seus navios, se sabe que nunca será capaz de citar todos eles?

Eco: O trabalho de Homero depara-se constantemente com o topos do inexpressível. As pessoas sempre farão isso. Sempre ficámos fascinados pelo espaço infinito, pelas estrelas incontáveis e galáxias além das galáxias. Como se sente uma pessoa ao olhar para o céu? Acredita que sua língua não é suficiente para descrever o que vê. Os amantes estão na mesma posição. Eles experimentam uma deficiência de linguagem, uma falta de palavras para exprimir os seus sentimentos. Mas os amantes tentam parar de fazer isso? Eles criam listas: seus olhos são tão belos, assim como sua boca, e a sua clavícula… As pessoas podem entrar em grandes pormenores.

Spiegel: Por que perdemos nós tanto tempo a tentar concluir coisas que não podem realisticamente ser concluídas?

Eco: Nós temos um limite, um limite muito desencorajador e humilhante: a morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que acreditamos não ter limites, e que, portanto, não têm fim. É uma forma de fugir dos pensamentos sobre a morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer.

Spiegel: Na sua exposição no Louvre,  também mostra obras das artes visuais, como naturezas-mortas. Mas essas pinturas têm molduras, ou limites, e elas não podem mostrar mais do que aquilo que, de facto, mostram.

Eco: Pelo contrário, o motivo pelo qual gostamos tanto delas é porque acreditamos que somos capazes de ver mais do que elas mostram. Uma pessoa contemplando uma pintura sente necessidade de abrir a moldura e ver que coisas estão à esquerda e à direita da tela. Esse tipo de pintura é verdadeiramente uma lista, um recorte da infinitude.

Spiegel: Por que motivo as listas e as acumulações são particularmente importantes para si?

Eco: As pessoas do Louvre procuraram-me e perguntaram se eu gostaria de ser o curador de uma exposição no museu, e pediram para que elaborasse uma programação de eventos. Só a ideia de trabalhar num museu já era sedutora para mim. Estive lá sozinho recentemente, e senti-me como uma personagem num livro de Dan Brown. Fiquei ao mesmo tempo assustado e maravilhado. Percebi imediatamente que a exposição teria como tema as listas. Por que me interesso tanto pelo assunto? Não sei dizer exactamente. Gosto das listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou de pedofilia. As pessoas têm suas preferências.

Spiegel: Ainda assim, o senhor é famoso por ser capaz de explicar suas paixões…

Eco: Mas não por falar sobre mim mesmo. Veja, desde a época de Aristóteles tentamos definir as coisas baseados na sua essência. A definição do homem? Um animal que age de forma deliberada. Agora, levou 80 anos para os naturalistas conseguirem elaborar a definição de um ornitorrinco. Eles acharam infinitamente difícil descrever a essência desse animal. Vive na água e na terra; põe ovos, e apesar disso é um mamífero. Então com que se parece essa definição? É uma lista, uma lista de características.

Spi
eg
el
: Uma definição certamente seria possível com um animal mais convencional.

Eco: Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que a ciência descreve como um predador. Como descreveria uma mãe um tigre ao seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, grande, amarelo, com listas e forte. Só um químico se referiria à água como H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que nos podemos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o que estou falando. A lista constitui o marco de uma sociedade altamente avançada, desenvolvida, porque nos permite questionar as definições essenciais. A definição essencial é primitiva comparada com a lista.

Spiegel: Pode parecer que está a dizer que deveríamos parar de definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e listar as coisas.

Eco: Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período anterior já não serviam. As pessoas tentaram ver o mundo de uma perspectiva diferente. Galileu descreveu novos pormenores sobre a Lua. E, na arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade de assuntos expandiu-se tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser anárquicas.

Spiegel: Mas o senhor disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, tanto a ordem como a anarquia se aplicam? Isso tornaria a internet, e as listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para si.

Eco: Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas – não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar.

Spiegel: Está a dizer que os professores deveriam instruir os seus alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é mau? Se sim, como deveriam fazer isso?

Eco: A educação deveria voltar à forma que tinha nas oficinas do Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar aos alunos por que razão uma pintura era boa em termos teóricos, mas  faziam isso de uma forma mais prática. Veja, o seu dedo pode parecer-se com isso, mas ele é de facto assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação publicada está correcta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites copiaram os erros dos outros.

Spiegel: O senhor tem uma tendência maior a trabalhar com livros, e tem uma biblioteca de 30 mil volumes. Ela provavelmente não funciona sem uma lista ou catálogo.

Eco: Acredito que, agora, tenha na verdade 50 mil livros. Quando minha secretária quis catalogá-la, pedi que não o fizesse. O meu interesse muda constantemente, assim como minha biblioteca. A propósito, se você muda constantemente de interesses, a sua biblioteca constantemente dirá algo diferente sobre si. Além disso, mesmo sem um catálogo, sou obrigado a lembrar-me dos meus livros. Tenho um corredor para literatura com 70 metros de comprimento. Ando por ele várias vezes por dia, e sinto-me bem ao fazer isso. A cultura não é saber quando Napoleão morreu. Cultura significa saber como posso descobrir isso em dois minutos. É claro, hoje em dia posso encontrar esse tipo de informação na internet em menos tempo. Mas, como eu disse, nunca se pode ter certeza com a internet.

Spiegel: O senhor inclui uma lista simpática feita pelo filósofo francês Roland Barthes no seu novo livro, "A Vertigem das Listas". Ele lista as coisas de que mais gosta e as coisas de que não gosta. Adora salada, canela, queijo e especiarias. Não gosta de “motards”, mulheres com calças compridas, gerânios, morangos e cravo [instrumento musical]. E o senhor?

Eco: Seria um tolo se respondesse a isso; estar-me-ia fechando numa definição. Estava fascinado por Stendhal aos 13 anos e por Thomas Mann aos 15 e, aos 16, adorava Chopin. Então passei a minha vida inteira tentando conhecer o resto. Agora, Chopin está no topo novamente. Se você interage com as coisas na sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda para si,  é porque você é  um idiota.

Tradução: Eloise De Vylder (adaptada para a norma portuguesa).

Manuela Moura Guedes Sem Papas na Língua

.PRESIDENTE CRITICADO VEEMENTEMENTE

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Com a razão que lhe assiste, Manuela Moura Guedes, critica o nosso Presidente pelo seu silêncio face ao processo Face Oculta.

Desta vez, que há escutas a sério, e mandadas fazer por quem de direito, o Presidente mantêm-se mudo e quedo.

Manuela Moura Guedes prepara-se para se constituir assistente no processo em causa.

Podemos não gostar dela, mas que a senhora tem força, lá isso tem. . 

 

 

..

José Sócrates será o Mário Soares de Pinto Monteiro

Há uns anos atrás,  o Procurador-Geral da República de então, Cunha Rodrigues, recusou ouvir Mário Soares, Presidente da República, a propósito do Fax de Macau, na investigação que estava a ser liderada por Rodrigues Maximiano. «Cunha Rodrigues, envolvido em conciliábulos com Soares em Belém, optou pela versão mínima: deixar de fora o Presidente e limitar o caso a apurar se o Governador de Macau, Carlos Melancia, recebera um suborno de 250 mil euros». (Joaquim Vieira, «Grande Reportagem», Set/Out 2005)

Os indícios criminais abundavam, mas Presidente é Presidente e o entendimento de Cunha Rodrigues era o de que «dar esse passo era abrir a Caixa de Pandora, implicando uma investigação ao financiamento dos partidos políticos, não só do PS mas também do PSD.»

Hoje em dia, o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, tem o seu novo Mário Soares. Chama-se José Sócrates e é Primeiro-Ministro. O facto de um Magistrado de primeira instância considerar que há crimes contra o Estado na conduta do Primeiro-Ministro não é para ele relevante. Daí que mantenha o processo tanto tempo parado no seu gabinete, permitindo que Sócrates vença calmamente as eleições. Daí que não recorra da decisão do Supremo de anular e eliminar as escutas. Daí que se prepare para fazer o mesmo com as restantes certidões que já tem na sua posse. Primeiro-Ministro é Primeiro-Ministro e a função da Justiça não é perseguir os poderosos.

Exactamente ao contrário do que muitos dizem, parece-me que os Juizes e Magistrados de primeira instância são aqueles que mostram mais independência. Foram eles que prenderam Paulo Pedroso, que extrairam certidões sobre José Sócrates, que constituiram Armando Vara arguido. Quando a situação se torna complicada para eles, as instâncias superiores da Justiça são chamadas e tudo desaparece como que por magia. Anula-se. Arquiva-se. Nomeia-se Cândida Almeida, a grande amiga de Mário Soares e de Almeida Santos. E destrói-se. Tudo. Porque a função da Justiça não é perseguir os poderosos.

 

Brasil e a globalização

Artigo: O Brasil finalmente adere à Globalização

05/11/09, 10:06

OJE/Lusa

 

 Mas que grande notícia! Então o Brasil diz que quer aderir à Globalização, ou seja, a um comportamento cujo “crepúsculo dos deuses” já começou há muito e que se materializou na grande crise económica em curso? Quer, nesta fase, ainda aderir ao jogo de soma nula de uma Pax Americana e seus parceiros de liderança – nós – que tendo caminhado por caminhos errôneos nos levou ao atoleiro? Então no Brasil ainda não se descobriu que essa Globalização não constitui um desígnio nobre da humanidade mas sim uma intenção egocêntrica de saque aos eco e sócio sistemas?

 

 

Para dizer a verdade, estando tudo no mundo entrelaçado, os estados BRIC, entre eles o Brasil, já se encontram envolvidos até o pescoço na Globalização. Com efeito, foram em grande parte eles que permitiram que no contexto dessa Globalização executada de sinal errado os países do dito primeiro mundo pudessem exceder os seus limítes da sua própria “pegada ecológica”. Foi basicamente daí que veio essa ascensão económica dos estados BRIC. E eles, em troca pelos seus préstimos, receberam gigantescas importâncias em dólares falando-se, no caso da China, de uma reserva de divisas de $ 2 milhões de milhões. Repare-se que se trata de promessas de pagamento de um subsistema outrora líder incontestado do mundo e cuja moeda hoje corre perigo de virar “dinheiro macaco”. Basta que só a China coloque apenas uma parte dessas divisas à venda nos mercados mundiais e já está.

 

Esperemos para o bem de todos nós que a Pax Americana em breve volte a caír em pé ganhando, assim, um novo e são folego. Costuma-se dizer nestes casos aparentemente perdidos que “isto já foi chão que deu uvas” mas com a estratégia certa – objectivo: maximização de benefícios em vez de maximização de lucros – é perfeitamente possível que um chão esgotado volte a dar uvas.

 

Escrevi sobre isto no meu artigo anexo que foi publicado no jornal VidaEconomica de 23.11.2007.

 

Voltando ao Brasil: é sabido que tanto na fase crescente e de auge da construção de sóciosistemas pujantes e sãos – sistemas abertos! – como no seu declínio/saque – sistema fechado – se pode ganhar fortunas colossais. Alimentando as primeiras uma espiral de desenvolvimento positiva que não conhece limítes, as segundas alimentam a espiral negativa de um aparente sucesso que não deixando de ser passageiro reserva no fim a queda.

 

Sendo amigo do Brasil, espero que este grande país saiba distinguir as situações e encontre uma maneira para proteger-se contra o turbilhão final que vai engolir tudo. O Brasil tem pontos fortes únicos e inconfundíveis que terá que identificar* para explorá-los seguidamente em prol de algum grupo-alvo privilegiado onde podendo dar cartas deixa de precisar participar no saque aos ecosistemas. Só assim terá um sucesso sustentável a médio e longo prazo sem graves reveses.

 

Quanto mais Globalização, melhor – mas uma Globalização sob outros sinais e virada para fora e não para dentro!

 

RD

Rolf Dahmer

* Tem uma boa base, p.ex., Embraer, etc.

A gripe maricas…

Poema aos homens constipados – Lobo Antunes!

Pachos na testa, terço na mão,

Uma botija, chá de limão,

Zaragatoas, vinho com mel,

Três aspirinas, creme na pele

Grito de medo, chamo a mulher.

Ai Lurdes que vou morrer.

Mede-me a febre, olha-me a goela,

Cala os miúdos, fecha a janela,

Não quero canja, nem a salada,

Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

Se tu sonhasses como me sinto,

Já vejo a morte nunca te minto,

Já vejo o inferno, chamas, diabos,

Anjos estranhos, cornos e rabos,

Vejo demónios nas suas danças

Tigres sem listras, bodes sem tranças

Choros de coruja, risos de grilo

Ai Lurdes, Lurdes fica comigo

Não é o pingo de uma torneira,

Põe-me a Santinha à cabeceira,

Compõe-me a colcha,

Fala ao prior,

Pousa o Jesus no cobertor.

Chama o Doutor, passa a chamada,

Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.

Faz-me tisana e pão de ló,

Não te levantes que fico só,

Aqui sozinho a apodrecer,

Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes – (Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)

 

 

 

 

A Lurdes iniciou a grande viagem…

Como infelizmente se previa, a Lurdes iniciou a grande viagem sem retorno. Uma grande mulher, mãe, irmã, filha, amiga, médica que viveu para quem tanto amou.

 

Viveu uma vida sem cedências de nenhuma espécie, activa, cheia, generosa. A minha memória da rapariga cheia de talentos jamais se apagará. Vivemos no mesmo bairro, andamos na mesma escola.

 

O meu carinho vai para sua mãe, com 87 anos, que não merecia ver sua filha iniciar a viagem sem retorno antes dela e para seu irmão, tambem meu irmão, que precisa de toda a força para cuidar da mãe.

 

Lá, onde estás Lurdes, não te inibas, e faz soar as tuas gargalhadas, como sempre fizeste.

 

Descansa em paz!