Face Oculta – o que é certo e comprovado

O que se sabe do processo permite concluir que o Juiz  e o Magistrado de Aveiro, cumpriram escrupulosamente a Lei, ao contrário do PGR e do Presidente do tribunal de Justiça, que têm que explicar várias coisas que lançam o descrédito na vida pública portuguesa.

 

Antes de tudo, o tempo que decorreu entre a altura em que foi extraída a primeira certidão (Julho ou mesmo antes) e enviada para Lisboa e a actuação do PGR. Porque é que o PGR não tomou de imediato uma decisão e permitiu que a investigação prosseguisse? Na ausência de resposta não era lícito as autoridades de Aveiro concluirem que, face à informação e na ausência de desautorização, que o processo deveria prosseguir?

Ou essa questão, atenta a campanha eleitoral, não servia os interesses de quem manda e guardou-se para depois das eleições a presente controvérsia?

 

As lamentáveis embrulhadas do PGR e do presidente do STJ, empurrando as responsabilidades da decisão para o colo de um e outro, querem dizer o quê? E como é que se pode aceitar e que leitura  deve ter o desconhecimento dos  fundamentos da decisão, e a apressada decisão de mandar destruir as escutas à revelia da opinião de eminentes penalistas?

 

Porque se impede que as razões do Juiz de Aveiro sejam conhecidas, bem como as razões do PGR e do próprio Primeiro Ministro? Exclusivamente, na parte em escrutínio e em que se fundamentaram os índicios de "crime grave contra o Estado de Direito" ?

 

A transparência, a confiança e a credibilidade do Estado não valem "uma missa"?

A vergonha da informação de "referência"

  

 

 

Honra e Glória ao Dr. Jin Guo Ping, Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique

 

Nem passaram vinte e quatro horas desde a condecoração do Dr. Jin Guo Ping e já se erguem as mesmas vozes dos "jornais de referência", fazendo um favor à diplomacia de Pequim. O mundo das negociatas e o franzir de sobrolhos dos mandarins que trocaram os maoístas pijamas verdes pelos globalizantes fatos cinzentos "Arremani" ou "Vézatche", podem, porque pagam.

 

Como patriota, orgulhar-me-ia imensamente, se o dr. Ping recebesse a única Ordem portuguesa, que a par da Ordem da Liberdade, não consiste numa condecoração mutilada: o Rei bem podia atribuir-lhe no próximo 1º de Dezembro, a Ordem de Vila Viçosa! A Portugal fazem falta muitos intelectuais e amigos deste gabarito. A Ordem do Infante D. Henrique, é exactamente a mesma que outrora foi conferida ao grande historiador Charles Boxer, pela sua obra O Império Marítimo Português. Jin Guo Ping merece o reconhecimento e o Palácio de Belém agiu com acerto.

 

Que vergonha, esta humilhação pública de quem tem sido ao longo de décadas, um estrénuo defensor da portugalidade, fazendo ruir as fantasiosas construções anglo-saxónicas que os ventos de loucura midesca de Pequim bafejam benevolentemente!

 

Face Oculta – Juízes indignados

Eu tambem. É o direito à indignação de que falava Mário Soares quando, como Presidente da República, fazia a vida negra ao primeiro ministro Cavaco Silva, sucessivamente eleito com maiorias absolutas!

Despediram o poeta?

Depois de resultados pouco mais do que inconsequentes, o poeta da Polícia Judiciária responsável pelos nomes de operações como:

 

Noite Branca

Tridente

Apito Dourado

Furacão

Mãos Limpas

Primavera Adiada

Voo Picado

Erva Daninha

Espada Preto

Face Oculta

 

parece ter sido despedido. Ao que consta foi agora nomeado um cozinheiro para a função, cuja primeira criação foi hoje apresentada. Trata-se, nem mais, nem menos, da

 

Operação Paella

 

Com os pés assentes no chão e, literalmente, as mãos na massa, a Judiciária espera agora que as novas receitas se traduzam em refeições substantivas que possam ser cozinhadas e consumidas até ao fim. 

 

 

 

Está para breve a divulgação das escutas

Dizem-me que está para muito breve a divulgação das célebres escutas de José Sócrates e Armando Vara. Se calhar, digo eu, é esperar por um dos semanários de fim-de-semana.

Se for verdade o que me dizem, vai haver algumas surpresas. Vai cair o Carmo e a Trindade e, como é óbvio, vai cair José Sócrates.

Sendo que a Assembleia da República não pode ser dissolvida até Março de 2010, terá de ser nomeado um novo primeiro-ministro. Irá ser António Costa, Presidente da Câmara de Lisboa, o Santana Lopes do PS?

Pouco viverá quem não viver para ver!

Vai uma torturazinha para relaxar?

   Às vezes, para relaxar, dedico um tempinho a fazer arqueologia digital. Ia à procura de uma coisa e encontrei outra, no caso, a menina que se segue:

 

Há quem ache Guantanamo "um local lindo e relaxante"

 

Gira, não é? Mas vejam o que ela diz, algures num blogue que, pelos vistos, tem.

 

O peru da compaixão ou como os EUA atiram areia para os olhos do mundo

foto MICHAEL REYNOLDS/EPA

 

O presidente Barack Obama, prémio Nobel da Paz em 2009, que foi há dias notícia por se ter recusado a assinar a convenção internacional que proíbe as minas terrestres, perdoou a vida ao peru escolhido pela Federação Nacional do Peru para a mesa presidencial no almoço do Dia de Acção de Graças.

 

Courage, o peru, vai agora terminar os seus dias no doce remanso da Disneilândia.

Nem outro gesto seria de esperar de um Nobel da Paz. 

Face Oculta – os magistrados de Aveiro são inimputáveis?

Um após outro os envolvidos no caso são constituídos arguídos com pesadas limitações da liberdade e elevadas cauções. A não ser que o juiz que as decide faça tambem parte da campanha negra , os magistrados que investigaram vêm justificadas as suas decisões.

 

Isto adensa ainda mais o mistério de  as suspeitas lançadas sobre as escutas entre Sócrates e Vara, sejam tratadas como decisões de dois inimputáveis. Como é que os mesmos magistrados são , ao mesmo tempo, tão sensatos para uns e tão desastrados para outros?

 

Pode muito bem ser que tenham sido movidos por razões políticas, mas se assim é, não caem na alçada da responsabilidade  entre os seus pares, e não podem, Sócrates e Vara, mover acções judiciais contra os magistrados ?

 

Ou magistrados que lançam suspeitas infudadas sobre o primeiro ministro e um seu amigo, de um crime tão grave como "atentado ao Estado de Direito", continuam impávidos e inamomíveis em funções tão sensíveis?

 

Dizia Marinho Pinto que os magistrados, ao "escolherem" a tipificação do crime já sabiam da repercussão jornalística e social que iriam provocar, e daí a acusação. Mas, num Estado de Direito, isto fica por aqui?

 

Os magistrados que serão conotados toda a vida com uma decisão que os marca como ferro em brasa, não têm direito a mostrar e justificar a sua decisão?  A hierarquia não tem competência para os responsabilizar por um trabalho imbecil? Sócrates e Vara não têm direito de lhes mover uma acção judicial?

 

Ou é bem melhor que tudo fique entre as paredes da "inteligência" e longe do conhecimento popular?

 

O que é tão grave que é preciso destruir?

Se ele diz que a proposta do Ministério da Educação é má, nasce a esperança de que afinal não seja tão má como isso

Recuperação de privilégios

«Ministério da Educação garante carreira única aos professores».

 

Mas por que é que os professores do ensino básico e secundário hão-de ter uma tal prerrogativa privativa, uma "carreira plana" isenta de escalões profissionais, que é uma situação sem paralelo em qualquer outra carreira pública, muito menos no caso do ensino superior?

 

A qualidade da escola pública e o orçamento do Estado vão pagar este lamentável recuo

 

Infelizmente o professor Vital ainda não percebeu que o privilégio se multiplicou por três escalões com quotas. Quando perceber vai ser uma alegria.

A máquina do tempo: Os encontros da imprensa cultural

 

Momento em que no II Encontro se guardava um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe.

 

Fui colaborador dos suplementos culturais do Diário Popular, do Diário de Lisboa, do Jornal de Notícias e de páginas e suplementos de numerosos jornais de província, entre outros, do Jornal de Évora, A Planície (Moura), O Templário (Tomar), A Nossa Terra (Cascais), Notícias de Guimarães, Jornal da Costa do Sol (Cascais), Almonda (Torres Novas), etc. No entanto, a minha experiência mais marcante em termos de imprensa cultural, foi a da revista Setentrião, em Vila Real, e a do suplemento Labareda de «O Templário», de Tomar. Colaborar na imprensa regional era um trabalho de militância cívica a que muitos escritores e jornalistas não se furtaram.

 

 Às vezes, sem que se esperasse, um trabalho publicado nessas humildes folhas ganhava uma grande divulgação. Lembro-me de uma entrevista que fiz para a Labareda, em Janeiro de 1964, a Fernando Lopes Graça (na qual, embora o maestro tenha desconversado comigo todo o tempo, o resultado foi interessante). Com alguns foros de sensação, foi abundantemente transcrita na imprensa diária, em resumos ou na íntegra, em quase todos os jornais, e mencionada em revistas de referência. Até o Diário de Luanda a publicou. Entre outras afirmações desassombradas, Lopes-Graça considerava os agrupamentos folclóricos, criados por António Ferro, o Goebbels português,  tão do gosto do regime, como «meras contrafacções» da cultura popular genuína.

 

 

 

Em 1963, alguns colaboradores dessa imprensa regional, lançaram a ideia de se realizar um encontro anual das páginas culturais. Para quem não se lembre ou não tenha vivido esse tempo, recordo que os suplementos culturais desempenhavam um papel importantíssimo na resistência de uma cultura autónoma, não controlada pelo regime. Naturalmente que eram submetidas à Comissão de Censura que, muitas vezes, cortava tudo ou quase tudo.

 

Entre os escritores que impulsionaram esse movimento recordo os de Manuel Ferreira, Mário Braga, António Augusto Menano, Manuel Simões, António Sales, Vasco Granja, António Cabral, Arsénio Mota, José dos Santos Marques, Bento Vintém, Joaquim Canais Rocha, Aurora Santos, Fernando Grade, Silva Ferreira, Santos Simões, José Ferraz Diogo, Alfredo Canana, Jorge Moita e tantos outros.

 

Lembro, como paradigma dos suplementos, o que se publicou durante muitos anos no «Diário de Lisboa». O suplemento do Lisboa, ágil, lesto na crítica, rico no elenco de colaboradores, era um modelo para todos os que criavam estas extensões culturais na imprensa regional. Os principais suplementos culturais, que saíam semanalmente (quase todos às quintas-feiras), constituíam um acontecimento.

 

Ali se criticavam os livros, as emissões de televisão e de rádio, as peças de teatro, os filmes. Os melhores jornalistas, críticos, professores, escritores, colaboravam. Nada que se compare com o que agora se faz. Um exemplo: o suplemento de sexta-feira do Público, a «Ípsilon», graficamente luxuosa quando comparada com os modestos suplementos da época, é uma coisada intragável, superficial, comercialóide, que agora já deito fora sem ler, numa papeleira que está à porta do estabelecimento onde compro o jornal.  Não me estou a lembrar de nenhum suplemento que mereça a pena ler, hoje em dia. Talvez o tempo dessa forma de fazer cultura tenha passado.

 

Por estas amostras bastardas, meros recipientes de publicidade de editoras de livros, de discos e de outros produtos, não se avalia o que eram, nesses anos que antecederam o advento do regime democrático, os suplementos culturais. Eram um pouco, como os blogues de hoje, uma forma de, pessoas que não tinham acesso às tribunas de imprensa, rádio ou televisão e de alguns «colunistas desempregados», para usar a curiosa expressão de Clara Ferreira Alves, se exprimirem. Alguns desses párias, desempregados ou nunca antes empregados, era gente silenciada pelo poder político e que encontrava nos jornais de província um porto de abrigo para as suas vozes.

 

A designação inicial dessas assembleias era Encontros de Suplementos e Páginas Culturais da Imprensa Regional. A designação foi depois simplificada para Encontros da Imprensa Cultural, dado que os jornais diários começaram também a enviar representantes. O primeiro destes encontros realizou-se na Figueira da Foz em 28 e 29 de Setembro de 1963.

 

Estiveram presentes, entre outros, os escritores Daniel Filipe e Alfredo Margarido. Na ordem de trabalhos, salientava-se o carácter essencialmente cultural dos suplementos e páginas culturais (vacina contra a suspeição das autoridades), referindo-se as dificuldades intelectuais de colaboração. Aliás, a comunicação a esse primeiro encontro da Labareda, suplemento de que eu era activo colaborador, exortava os intelectuais a abandonarem a sua torre de marfim e escrever para um público diversificado de estudantes e de trabalhadores, abandonando a linguagem pseudo-elevada em que habitualmente se exprimiam.

 

Apontava-se também a necessidade de criar alguma coordenação entre os diferentes suplementos e páginas, ao nível do intercâmbio de textos e apontava-se a conveniência de criar um prémio literário anual. Entre as diversas conclusões e medidas, destaca-se a criação de diversas comissões específicas, a instituição de prémios anuais (tendo-se elaborado os respectivos regulamentos) e, por sugestão de Vasco Granja, a marcação do II Encontro para a vila de Cascais.

 

 

O II Encontro realizou-se, em Junho de 1964, conforme ficara determinado, em Cascais, organizado pelo jornal «A Nossa Terra» daquela vila.  Em representação da Sociedade Portuguesa de Escritores, presidiu Manuel Ferreira que na abertura da primeira sessão de trabalhos se congratulou por se assinalar a presença de representantes de todos os suplementos activos do país, registando-se um avanço relativamente ao encontro da Figueira. Antes de se entrar na discussão da ordem de trabalhos, Santos Simões, do «Notícias de Guimarães» pediu um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe. Estava também presente o escritor catalão Fèlix Cucurull. Foi criado, por d
ec
isão tomada nesta reunião, o boletim «Encontro» de que apenas saíram dois números. Em Fevereiro de 1965 todos os arquivos e material gráfico da publicação foram apreendidos pela PIDE e preso o seu coordenador.

 

O III Encontro realizado em Guimarães, no Hotel das Caldas das Taipas,  em Agosto de 1965, sob a presidência do escritor Ferreira de Castro.1966. Na foto, vemos o momento em que intervinha Santos Simões, do «Notícias de Guimarães», anfitrião do Encontro.

 

Não existe uma informação pormenorizada sobre a evolução deste movimento. Ainda estive presente no IV Encontro, realizado em 1967 no Casino da Figueira da Foz, presidido, salvo erro, pelo escritor Mário Braga. Em 1968 passei uma importante parte do ano preso em Caxias, mas deve ter sido realizado o V Encontro. Em Fevereiro de 1969, em Guimarães, presidido por Mário Sacramento, houve o VI e creio que último Encontro de Imprensa Regional. Muito do que estou a dizer é dito de memória, não encontro registos credíveis e se alguém tiver elementos que aqui faltam ou puder corrigir falhas ou imprecisões por mim cometidas, ficarei grato. Porque era importante fazer a história deste movimento que, reunindo gente de pequenas cidades, fora dos dois grandes centros urbanos do País, conseguiu criar bastiões, redutos, onde se defendia a cultura das investidas da estúpida fera fascista.

 

Mas creio que depois não se realizaram mais encontros. A partir de 1969, a luta política agudizou-se, as pessoas que animavam os encontros iam sendo presas ou estavam absorvidas por essa luta que passara do papel para as assembleias de empresa, de faculdade, para os quartéis… Os passos cadenciados que abrem a «Grândola Vila Morena» ecoavam já no nosso horizonte. Dentro em pouco, os capitães do MFA começavam a reunir. Uma nova realidade se avizinhava e nela já não cabiam as modestas folhas dos jornais de província.

 

 

O III Encontro foi realizado em Guimarães, no Hotel das Caldas das Taipas,  em Agosto de 1965, sob a presidência do escritor Ferreira de Castro.1966. Na foto, vemos o momento em que intervinha Santos Simões, do «Notícias de Guimarães».

Viver e morrer em Portugal

 

 

 

 Lenda: as terras do Luís

 

Tinha reservado o dia para comentar comentários de Aventar. Mas, uma má notícia, leva-me a protelar essas respostas para mais tarde. O filho de uma amiga deitou-se para descansar e nunca mais acordou. Deve andar pelos campos das Walküre, esse jovem engenheiro de alegre vida, cumprida cavalheira dourada enquanto a teve até aos seus trinta e poucos anos, cabelo que acabou por rapar no dia que começou a perder. Ficou….mais lindo que nunca. A sua mãe,  sem ajuda de ninguém, excepto da família, o criou como o menino preferido, o seu único filho, aliás, bom irmão da sua irmã mais velha e excelente sobrinho, primo e tio. A sua vida era diferente. Sabia imensa filosofia, lia tudo o que nas suas mãos aparecia e escrevia imensos comentários das suas longas viagens ao exterior, especialmente pelo Oriente. Essa sua vida diferente, foi aceite e apoiada por toda a família, que o guardou no seu seio, a ele e aos seus amigos e amigas. Há tanto texto escrito pelo Luís Miguel Pimentel Correia, que em duros apertos anda a mãe para editar cumpridos ensaios e publicar um livro dos seus poemas e outras histórias descritivas da família, de Tailândia, da China, do Japão e outros sítios exóticos que visitou. Teve uma vida cheia de felicidade e a sua melhor aventura, era o debate porque sim. Sabia tanto, que os debates eram sempre ganhos por ele: grande lábia, ideias esclarecidas. O seu melhor amigo guarda, na Grã-Bretanha, a papelada para entregar à família, amigo aceite pela família toda como mais um filho. Teve a morte do corpo mas não a das recordações e do conjunto imenso de pessoas que o adoravam. Porque em Portugal há 

várias formas de perecer. Há esta do Luís, que não é a pior, mas há outra que nos deixa tristes: a morte em vida. Ficamos doentes de bactéria social e as pessoas mais próximas afastam-se de nós. Não querem saber o que acontece connosco, pelo implícito temor da morte que levamos, desde a nascença até ao dia em que acontece. É a morte em vida: esse silêncio tão calado, que grita até  nos ensurdecer. Essa morte em vida que faz de nós pessoas que esquecem as palavras por não terem com quem as trocar; ou, se as trocamos, não sabemos qual é a palavra conveniente e adequada que deve ser proclamada. Acontece, especialmente, dentro das famílias em que ocorrem casos de violência doméstica. Não foi assim a vida do Luís, mas é a minha: família distante, família que não troca telefonemas com a desculpa de serem muito caros, pessoas que procuram a sua alegria de viver e tingem com sarna, na sua imaginação, o nosso corpo, esse ácaro que produz uma infecção cutânea e define certa distância entre amigos. Como a lepra, antigamente. Não foi o caso do Luís, mas é o meu. A família do Luís tem-me acolhido e cuidado: porque a minha, esqueceu-se da minha existência e culpa-me por factos nunca acontecidos. Nota-se bem que desconhecem a lei, nota-se bem a transferência do seu mal-estar para quem tem lutado imenso na vida para manter uma família isolada, unida. É como São Tomé costumava dizer: ver para crer. A vida do Luís foi uma vida calma e serena, tão calma que adormeceu de forma normal e não acordou. Mas vive nas recordações da família que sente o luto profundamente. Luto que por mim ninguém guarda por ser pessoa viva e aparentemente de boa saúde, como se as parcas não andassem por perto. Tive um amigo que me denominava, por escrito, campeão da amizade. Onde anda agora? Imenso trabalho? Todos temos, especialmente os etnopsicólogos, que analisamos e somos, também, escritores. Que escrevo mal em português? Paciência! Quem o aprendeu passados os trinta anos de idade e usa muitas outras línguas no quotidiano, é em todas elas faltoso…Viver em Portugal? Já o expliquei antes noutro texto: é andar pelas ruas da amargura e, para estar acompanhado e entretido, é preciso pagar. Sou português, faz-me falta uma família do país que me acompanhe. Triste? Estou. Inveja do acolhimento que o Luís Miguel teve? Imensa. Mas a sua família anda comigo enquanto a morte real não apareça, em silêncio. Se sou amado por outros? Sempre pensei que sim e vou continuar a pensar da mesma forma: choramingar nem acompanha, nem melhora, nem acorda o Luís do seu profundo sono. Ou a mim. Amei profundamente na minha vida, criei uma pequena família, adoro a minha descendência, mas faltam os amigos e a comunicação humana. Senhor leitor, é um desabafo que não merece ler, mas lá vai. Queria ser justo com os que me acompanham e, eventualmente, visitam. Estar doente neste país é a sarna que afasta de nós os mais queridos, excepto as senhoras que amam e amamos, sempre uma. Mania de ser fiel!

Lenda: homem feliz  que choraminga de forma injusta…

 

A banca ganha cinco milhões de Euros por dia.

Neste país, onde a riqueza não cresce há dez anos, e onde há desemprego, que não segura os cérebros jovens, em que os seus cidadãos são já os mais vergastados pelos impostos na UE, onde há, ainda, (vergonha!) dois milhões de pobres, a Banca ganha um milhão de contos por dia.

 

No país que se prepara para aumentar os impostos, que tem uma dívida externa colossal, um défice orçamental de 8% ( 3% é o défice aconselhável), que a sua balança comercial é deficitária desde sempre, e que é equilibrada pelas remessas dos que mais sentiram na pele, quanto madrasta  a sua terra pode ser, há ilhas de opulência e  níveis de captação de mais valias do trabalho de nós todos, indecentes.

 

O nosso país, que tem sido governado à vez por um partido que se diz social-democrata e por outro partido que se diz socialista, consegue ser o mais injusto da UE e o mais pobre!

 

Mas não satisfeitos com os lucros fabulosos, os bancos ainda têm um tratamento de favor

fiscal que roça o absurdo. Pagam de IRC menos de metade das pobres PMEs que asseguram trabalho a 80% dos trabalhadores portugueses, e que produzem 70% da riqueza e 90% das exportações ( valores indicativos).

 

Se entrarmos nos cálculos com os lucros obtidos nas off-shores e que desta forma fogem ao Fisco, os bancos não chegarão a pagar 10% de IRC, um terço do que pagam as PMEs

 

Mas são estes os gestores endeusados  que têm que ganhar milhões porque podem ir embora, não se sabe para onde, lá fora os países decentes são muito mais rigorosos e não os querem para nada. Quem tinha mercado de trabalho a este nível, há muito que já foi!

 

E é neste país nesta situação, pobre, injusto, com um futuro negro ( os próximos dez anos são de empobrecimento) que querem um povo taciturno, tontamente conformado !

 

É a  estes patetas incompetentes que nos levaram para esta situação de pedinte, depois dos milhões recebidos da UE, que devemos parcimónia nas críticas e respeito no tratamento !

 

Mereçam-nos!

 

 

 

 

 

Uma estória de brancos

 

Um diplomata estrangeiro deu-me a prova dessa revindicta. Ao aproximar-me dele, como sempre com o maior dos sorrisos, recusou-se apertar-me a mão dizendo "dont shake hands with a monarchist". Fiquei banzado mas fiz-lhe a vontade: nunca mais me verá à frente, tremendo orgulhoso que sou. Acresce que nada lhe devo e se alguém deve algo a alguém pedir-lhe-ia os livros que lhe fui emprestando ao longo dos tempos e que nunca teve a elementar educação de devolver à proveniência.

 

Nasci numa colónia e embora tenha vindo para Portugal Continental muito novo, sempre tive a plena consciência do pendor europeu para em tudo  e sobre todos ter uma lição a dar. Aos nativos africanos, a alvorada propiciada por um deus verdadeiro e as delícias do roçar do pano das calças, substituindo a nefanda tanga. Aos chineses, o necessário corte da trança ancestral, a europeização dos Chang Li que passam a ostentar o formidável Alfred  Hubert Li-Chang, convencendo-o simultaneamente a desfazer-se de lacas e charões, para usufruir plenamente do lixo Ikea e adjacentes. Enfim, é um tique que nos ficou de quinhentos anos de domínio pela graciosa mercê de colubrinas, cartas de corsário, razias "por bem", prazeirosos ópios e e assimilação do conceito de alargado concubinato em tempo de comissão. 

 

 

Este texto do Miguel, é elucidativo e sei perfeitamente a quem ele se refere, na pessoa da tal muito pouca diplomática figura. Embora não conheça o degustador de croquetes, a criatura faz decerto parte daquele exclusivo círculo de parasitas que de comenda ao peito e chauffeur na rua, gozam as delícias de uma embaixada num país solarengo, rico em gastronomias e outros fartos prazeres mundanos. Um sonho, apimentado por beldades ao alcance do lançar da rede do dinheiro fácil. E tanto mais estranha se torna a situação, quando sabemos que uma regra elementar da diplomacia internacional, consiste em manter os estritos preceitos da cortesia e boa educação que o supracitado indivíduo – de que país será? – não conhece. E mais ainda, referindo a "monarchist condition", balela vomitada num súbito ataque de aguda grosseria, pois se há coisas com que os tailandeses não transigem, é a falta de respeito para com a instituição real. Se o diplomata é de tal categoria, imagina-se então o calibre de quem o terá nomeado para esse cargo…

 

Os acontecimentos tailandeses denotam a persistente tentativa ocidental de tudo pretender formatar à medida dos interesses daquilo a que em Lourenço Marques designávamos de "cães grandes", ou seja, os que querem, mandam e podem, sem que para isso, haja uma razão que minimamente roce a racionalidade explicativa do privilégio.  A chamada União Europeia, mostrengo sem qualquer interesse que apele ao idealismo dos seus fundadores do pós-guerra, é o exemplo perfeito. Estrutura prepotente, absurda na sua sanha  de conquista de um sonhadolebensraum – que perdeu nas antigas colónias -, estabelece limites, calibra consciências e imita exactamente os chineses de outrora, que ao enfaixar os pés das garotinhas, satisfaziam um muito discutível  conceito estético, sem que o sofrimento alheio lhes causasse a mínima perturbação. Eles o querem e assim terá de ser, para poderem continuar a repartir lugares cativos, altissonantes nomes de departamentos vazios de conteúdo ou acção e o benefício da impunidade que otem que ser  obriga.

 

Mesmo na "Europa" – já agora um termo-conceito  que detesto visceralmente, pois português sou e português morrerei – , a pesporrência dos ditadores  mangas-de-alpaca que pontificam em Bruxelas e na germânica Estrasburgo, impõe ciclicamente a conveniente repetição de referendos intramuros e a Dinamarca já foi vítima desse tipo de chantagem de contornos tão mais escabrosos, porque se baseia sempre na ameaça da rendição forçada pela fome e prometida pobreza dos visados. Segui-se-á brevemente a verde e brava Irlanda. Para as sanguessugas que hoje nos surgem tão claramente nos irisdiscentes ecrãs televisivos dos noticiários das oito da noite, os desejos do clã devem ser lei geral para os comuns mortais, habilmente disfarçados aqueles, com generosas tiradas  acerca dos "caminhos do progresso", das "igualdades de direitos", ou a risível pseudo-cidadania que lhes convém. Após uma farta almoçarada debitada nas despesas de representação do organismo ou empresa que mensalmente lhes recheia os bolsos, lá discutirão entre um on the rocks e uma falhada tacada de golfe, os vai-vém dos activos e passivos on-line dos subprime e dos shares, o melhor local onde guardar os virtuais números propiciados por uma golpada além mar, ou a mais refinada branca à venda pelo fornecedor do costume que por acaso, até é colega no desporto de eleição. E chega esta gente à chefia de Estados!

 

Nós, os brancos*, parece termos um código genético particular, que num dado momento no tempo, despoleta um rol de cataclismos que como numa erupção vulcânica, incendeia, destrói e cobre de magma, comunidades outrora pacatas, felizes dos seus usos, costumes e tradições. A nossa brutal indiferença europeia a um bom dia, a um sorriso à entrada de uma loja, ao desaparecido acto de cortesia de deixar alguém passar, arrasa a reputação dos antigos conquistadores de liberdades e de mundos, amesquinhando-nos à condição
d
e directos descendentes dos homens das cavernas que ainda há pouco ocupavam esta minguada península da Ásia, que a vaidade dos seus habitantes atreve a chamar "continente".

 

Liquidámos os índios na América do Norte e na sua congénere do Sul, reduzimos aquela gente à condição de ilotas que assistem sem esperança, a uma sucessão de regimes onde pontificam idiotas, criminosos de delito comum, coristas alçadas à condição de santas e vigaristas de toda a ordem e feitios. Na Ásia, quisemos "democratizar" a Índia, mantendo-lhe o sistema de castas – honra seja feita à excepção lusa nos territórios que administrou -, sugando-lhe a outrora pujante força pré-industrial que nos inundou de luxos durante séculos, ao mesmo tempo  que desenhávamos as fronteiras conflituosas que hoje ameaçam o mundo com a tragédia nuclear. Na Indochina, a estúpida e republicana França dos Iluminados, liquefez o ancestral substrato em que harmoniosamente assentavam as populações que desgraçadamente caíram sob o domínio da força das suas canhoneiras e o resultado oferecido pelo Vietname, pelo Laos ou Camboja, são afinal, o completo desmentido de uma certa ideia das luzes que afinal jamais existiu. Por onde passaram, deixaram a fome, a guerra e uma devastação jamais vista nas suas milenares sociedades e História. Na China, foi o que sabemos: durante mais de um século tudo tentámos para liquidar um império ancestral, inventando lendas e estorietas de cordel e afinal, acabámos por conseguir condescender com um regime espúrio de doutrina alemã que chacinou mais de um cento de milhões e que hoje qual vaga de tsunami, ameaça arrasar-nos com uma inundação de produtos industriais que enviam os europeus e americanos para o desemprego maciço. Para não mencionar detalhadamente os crimes que os portadores do "facho da cultura ocidental" cometeram durante a investida aos monumentais centros históricos chineses, esmagando porcelanas, reduzindo a pó preciosidades de jade, queimando ancestrais edifícios de rendilhada teca e profanando o trono imperial com o sujo traseiro do parisiense diplomata de serviço.

 

Porque ameaçava a nossa periclitante e já ultrapassada supremacia, fizemos cair o Xá. Encolhemos os ombros perante o massacre inútil de milhões de japoneses em 1945. A propósito do Iraque, houve quem batesse as palmas em louvor do massacre do adolescente Faiçal II, substituído por uma progressista cáfila de bandidos a soldo dos armeiros de Moscovo, Paris, Washington e Londres. Na China, fechámos os olhos à mortífera aplicação da assassina ideologia europeia que engendrou o maoísmo. E podíamos continuar noite adentro, indefinidamente, tal é  a lista de imundícies a apontar.

 

Agora, parece ser a vez da Tailândia, o único país da região que jamais foi colónia europeia. Um país onde os brancos foram populares e tratados como iguais, sem os constrangimentos impostos pelos complexos de inferioridade herdados da colonização.  Os brancos querem impor ao povo, as mesmas cinzentas, feias e desprezíveis criaturas que na sua versão ocidental, vemos todos os dias desfilar em páginas e páginas de roubos, escândalos, manipulações e vigarices de toda a ordem. O senhor Thaksin tem os seus irmãos de sangue em Paris, Washington, Londres, Madrid e até nesta Lisboa em que vivemos. Como eles, controla bancos, televisões e "centros de aplicações financeiras", nome etéreo para antros de falcatruas. Liquida inimigos, tem as mãos medonhamente sujas. É farinha do mesmo saco, ou vinho da mesma pipa.

 

Ah, como às vezes compreendo a revolta dos boxers!

 

 

 

 

Uma questão de sustentabilidade… mas selectiva

Há deputados que acham que um cidadão com 40 (quarenta) anos de trabalho e descontos para a segurança social deve ainda contribuir com mais, mesmo que ache que é a altura de passar a descobrir novos horizontes e decida reformar-se.

 

O Bloco de Esquerda e o PCP propõem na Assembleia da República o acesso à reforma sem penalizações dos trabalhadores que tenham 40 anos de trabalho e descontos para a Segurança Social, independentemente da idade. O PS e o PSD vão inviabilizar. Em nome da "sustentabilidade" da Segurança Social. Dizem que, com esta proposta, a ruptura da Segurança Social não era para daqui a uns anos, era no próximo Orçamento do Estado.

 

Pergunto-me se não seria boa ideia, em nome da sustentabilidade do país, termos uma despesa do Estado menor. Por exemplo, ter menos cargos políticos, com agentes que gastem menos e melhor, com cortes nos desperdícios. Por exemplo, não ter deputados e outros elementos políticos que obtém capacidade de reforma após 12 (doze) anos. São apenas dois exemplos, mas posso arranjar mais.

Não é bem a mesma coisa

O Dia Internacional de Luta contra a Violência sobre a Mulher em castelhano europeu chama-se Día Internacional contra la Violencia de Género.

 

A data é aniversário do assassinato das irmãs Mirabal pela ditadura dominicana em 1960. Um crime político. Gosto mais de Día Internacional contra a Violência de Género. Desconfio que as três irmãs também.

Declaração de intenções

   Decidi aceitar um convite para aqui vir aventar. Não sou, no entanto, o Aventador que o Luís Moreira há dias desafiava, nem sei, aliás, que tipo de ventos cá farei.

   Não serei, isso sei, um vento constante, desses que sopra sempre com a mesma força na mesma direcção. Tão pouco me armarei em tornado, que se forma algures, se desloca e desaparece em nenhures, não ficando tábua sobre pedra à sua passagem.

   Algumas vezes serei brisa, talvez, outras ventania. Um dia soprarei de Norte, outro de Sueste, sei lá.

   Além disso, da minha parte, haverá épocas sem vento, verdadeiras calmarias. Mas é possível que surjam ocasiões em que, de repente, vos apanhe distraídos e vente despudoramente, de forma a desgrenhar algumas ideias.