O Diabo por Belzebú

É o espírito que conduz o mundo e não a inteligência

Antoine de Saint-Exupéry

 

Em 9 de Novembro 1989 caiu o muro de Berlim. Existia então a seguinte situação com os seguintes ingredientes imateriais: um sóciosistema podre, não reformável e condenado, uma constelação astral propícia, o mês dos Escorpiões, Novembro, e uma banda chamada “Scorpions” (“Escorpiões”) que cantando a canção “Wind of Change”* augurava mudanças. E estas mudanças materializaram-se.

 

O que na altura não se viu ou não se quis ver, foi o facto que todo o sistema mundial estava podre e caduco. Assim, este, com a queda do muro e com a despedida do indispensável antagonista “socialismo”, ficou fora de equilibrio de vez. Mas nós, na nossa mania de vermos apenas vencedores e vencidos e não tanto o bem comum e o TODO, declarámos a vitória unilateral do capitalismo pensando que iamos viver felizes para sempre.

 

Todavia, como um mundo unipolar e sem antagonistas não funciona, tiveram que surgir outros “ismos” (islamismo, fundamentalismo religioso, etc.) para tomar o lugar do defunto socialismo. Por outras palavras: substituimos, a partir e 1989, o diabo por belzebú. Por isso, após 20 anos de vãs tentativas – Globalização – de alcançarmos a felizidade, bem-estar e a harmonia, os ventos da mudança, desde 1989 suprimidos, ignorados e não aproveitados na altura para criar uma nova ordem, fazem-se sentir com cada vez mais força para restabelecer o equilibrio e a harmonia perdidas. Quem se opõe corre perigo de sucumbir, temos é que acompanhá-los. Assim teremos uma boa oportunidade de chegarmos, após alguns sustos e sobresaltos, a um mundo melhor.

 

Penso que em breve a canção “Wind of Change” conhecerá uma nova edição – talvez em em Novembro de 2010?

 

RD – bloguer convidado

 

P.S. Por mais paradoxal que pareça: depois da grande mundança qualitativa teremos os dois antagonistas, capitalismo e socialismo (ou egocentrismo e sóciocentrismo), de volta – felizmente! Todavia, desta vez sem estarem bipolarizados e sob uma forma de pensar e agir que permita vencer a dualidade entre os dois: olhando para a frente e primeiro para o benefíco do próximo. É esta a receita para os tempos áureos que o mundo periodicamente tem conhecido e voltará a conhecer quando a grande “seca” acabar. E então, em vez de quaisquer “ismos” estúpidos, teremos novo crescimento e ascensão sócioeconómica, política, cultural e ecológica para todos, ou seja, para os mais ricos e os mais humildes. Claro, tudo isso até que um dia voltarmos ao comportamento linear que depois traz consigo novos “ismos”. A não ser que entretanto tenha chegado o momento em que se cumpre o seguinte vaticínio feito em 1969:

 “O desenvolvimento espiritual da humanidade  acontecerá em três épocas: 1º comportamento  instintivo animalesco,  2º comportamento linear  sob o lema: o que serviu ontem, também há-de  servir hoje e 3º pensar e comportamento “em  espiral”. Com o comportamento em “espiral”  começará a reunificação entre natureza, homem  e técnica e com ela a época mais nobre da humanidade.” 

Professor Pannikar, catedrático para a filosofia  hinduista da Universidade de Benares (Frankfurter  Allgemeine Zeitung, 22.01.69)

Uma curta ausência

Estive num pequeno simposium em Barcelona e aproveitei para tirar uns dias de férias, revisitando algumas cidades onde já não ia há uns tempos: Valência, Tarragona e Barcelona, e mais junto de nós, Valladolid.

Continua bem aparente, apesar da crise, a qualidade de vida desta gente. A mesma esfusiante alegria, o mesmo convívio social contagiante e atraente que tornam este país, por assim dizer, único no mundo.

As cidades impecavelmente limpas e bem tratadas, os prédios em constante conservação, ausência de ruínas, as pessoas, velhas e novas, bem arranjadas, com muito gosto, vestindo com originalidade, fisicamente escorreitas, uma percentagem mínima de obesos, um comércio impressionantemente activo, sem lojas fechadas, uma quase ausência de grandes superfícies.

 

Como sempre, chegado ao meu Porto de que tanto gosto, invade-me a tristeza. O Porto podre, a cair, em ruínas, sujo como nunca esteve, infiltrado de “hipers”, lojas a fechar todos os dias, gente triste, mal arranjada, sem gosto, sem brio, desaparecendo das ruas mal o sol se põe, dizendo bom dia ou boa noite por entre dentes, com medo de falar. As próprias mulheres não têm um mínimo de originalidade no vestir, trajes massificados à base de jeans e botas à cavaleiro. E se têm, fazem-no sem estética, raiando por vezes o ridículo. A percentagem de obesos e obesas é alarmante.

Porquê? O que nos faz assim? Que gente somos nós? Qual a causa da nossa incultura e da nossa incivilidade? Que gente nos governa? Que indigentes autarcas nos calham na rifa? Que raio de “pool” genético nos coube?

 

 

George Steiner em Viseu

 

Ora aqui está um título improvável. Mas assim será, por ocasião das 5as. Conferências Internacionais de Filosofia e Epistemologia, organizadas pelo Instituto Piaget de Viseu, nos dias 23, 24 e 25 de Novembro.

A conferência de Steiner – “Can We Still Speak of a Human Condition? Some Brief Remarks” –  será no dia 23, na Aula Magna.

O programa e a lista de conferencistas estão disponíveis aqui

Fotografias que nos chegam ao email

Fotografia enviada pelo nosso leitor Pedro Sousa, a quem agradecemos.

 

Saberes em desencontro. O desabamento da criança

 

Para os estudantes do Liceu de Louriçal, especialmente para a sua professora Rosa Freire, texto que lhes dedico como conferência, com palavras simples, não académicas.

  

1.Abertura com palavras.

Nem sempre a palavra desabamento é usada para falarmos em crianças. Mas, sabemos que ensinar uma criança é construir um adulto. Por isso, desabar até me parece conveniente e adequado. Ao longo dos meus estudos de pequenos e pequenas em sítios como a Beira Alta, Trás-os-Montes, Alentejo e Lisboa, em Portugal. Os meus eternos estudos de crianças da Paróquia de Vilatuxe de Pontevedra, na Galiza e os meus reencontrados estudos da infância Picunche, do clã Mapuche, do Chile e Argentina, bem como os do bairro de Livingstone na Escócia, tenho observado directamente que são desfeitos para incutir dentro das suas mentes conceitos necessários para reproduzir as suas vidas, interagir com outros e entender o contexto social, histórico e económico da sua geração. Porém, este processo, como o denomino [1], é desencontrado: os adultos que ensinam as actuais crianças viveram como crianças em época diferentes. Épocas sem tempos, canções sem palavras. Uma cronologia desfasada não apenas no tempo, assim como nos costumes e nos conceitos, nas ideias e na organização da vida social. A criança deve ser desabada para emergir em adulto.

Lentamente, ao longo dos ciclos de vida, como Melanie Klein tem referido na sua obra [2] ao narrar a inveja e gratidão dos pequenos para com os adultos ou mesmo os sentimentos entre eles. Ou, ainda, como Alice Miller diz [3], a batalha estabelecida entre o adulto e a criança que convivem dentro de uma mesma pessoa ao longo de toda a sua vida. A criança é apenas desabada e as suas partes, antigas componentes de uma outra entidade, recompõem-se num ser que nós apelidamos de adulto [4]. Adulto, essa canção com palavras de opção para lucrar, investir, saber, orientar, mandar e, às vezes, punir. Quase que diria punir, para a maior parte das vezes que se quer estabelecer uma correlação entre o que se estima tabu ou proibido para os pequenos subordinados e o incentivo que o adulto estima, é a forma de orientar o futuro adulto entre os seus pares concorrentes. Concorrência a existir dentro da nossa sociedade em forma de cultura, conceitos e formas de ser, estimado comportamento para lucrar e reunir recursos para que, um dia, a infância de hoje seja capaz de ser feliz por meio da posse de bens que lhe permitam ser simpática e agradável para com os que interage. Interacção necessária para o objectivo da vida: trabalhar e dividir o trabalho entre todos na vida social, como foi definido por Durkheim em 1893.

 

2.- O adulto. Minueto Longe de mim inventar o desabamento de uma entidade para se converter num outro ser destinado a gerir o mundo. O mundo largo da vida social que lhe coube escolher e formar por simpatia com outros, ou separar-se por antipatia. A ideia já tinha sido defendida por Adam Smith em 1756 [5], organizada dentro de um programa designado actualmente de Economia Clássica, no seu livro citado em nota de rodapé. Um dos (apenas) dois que escreveu na sua vida, mas de uma enorme importância, ao ponto de serem considerados as "bíblias" da teoria económica que regem as nossas vias e à qual nos devemos "agarrar" para termos bens e sermos adultos felizes. Ideias que muitos autores se opuseram ao longo do tempo, mas que vou, de momento, negligenciar por serem conhecidos e pelo pouco espaço que tenho. Adam Smith faz, praticamente, um programa para o ser humano, retirado dos seus estudos das formas de reprodução de muitas nações do mundo. Em síntese, advoga a partir dos filósofos gregos e dos da sua época, que todo o ser humano tem duas alternativas: sofrer e calar para não afugentar com a sua tristeza e miséria as pessoas que necessita para, com elas, dividir o trabalho social de bens utilizados para ficar dentro da história dele e dos seus familiares; ou, espalha as suas tristezas e luto entre os seus parceiros na lide da vida. Argumenta que nenhum adulto fica amigo de quem sofre e fica a remoer, de forma sistemática, os seus sofrimentos. O ser humano nasceu para trabalhar na companhia dos outros e o luto é privado e íntimo para si ou para compartilhar com a ou as pessoas da sua proximidade social e emotiva. O adulto deve optar. A opção é feita na base do alinhamento social estruturado para a construção dos recursos humanos que permitam ao adulto trocar, procurar, vender, aprender, habilitar e outras formas artesanais ou habilidades. As primeiras letras que todo o adulto deve saber são as da economia do seu país e as da contabilidade do seu lar e da sua nação [6], tal e qual como se fosse feito pelo Papa Alexandre Médici no Século XIV, ao organizar uma escola de saberes de cálculo e saberes aritméticos, como relata no seu texto Gordon Childe [7] ao constatar que a construção do saber está na base da aprendizagem do cálculo e da opção maximizada para investir. O adulto fala, de forma sistemática, de poupança, trabalho, descanso, análise e lucro. Tal como é analisado por Jack Goody, o meu velho professor de Cambridge no seu texto The logic of writing and the organization of society [8]. Os conceitos do adulto são de cálculo e de opção, especialmente dentro da população com menos recursos que deve manipular para estruturar estratégias económicas com a sua lógica dependente da natureza de duas maneiras: a solidariedade social para dividir a produção e a necessidade de entender como produzir para vender habilitações ou bens. Linguagem à qual a criança está pouco habituada a usar. Especialmente porque nas escolas e nos lares é-lhe dito "caluda" quando se estima o cálculo para seguir dentro da História com subsistência ou bem-estar.

 

 

3. A criança. Sonata.

É desabada ao desmoronar-se. A criança, aceitem ou não os adultos, calcula. O seu cálculo vê-se no jogo e nas brincadeiras. O pião mede o tipo de solo sobre o qual se brinca: se é de areia, a pua deve ser curta para não se enterrar; se é de pedra, cumprida para bater melhor no outro. A macaca é a aprendizagem da distância, do equilíbrio e da concorrência de quem pode melhor do que o outro, saltar mais rápido e virar o corpo sem cair. Os berlindes ensinam a procura de associação para um grupo, aritmeticamente, derrotar outro. A criançada vai à escola pela obrigação imposta em casa e pela lei. O objectivo dos pequenos é brincar no recreio e fazer moca dos mais fracos, bem como ter companhia que não manda calar nem pune: entre parceiros, aprende-se a bater e a defender-se dos mais fortes com engenho e inteligência. A primeira interacção dos mais novos com o mundo de fora é com a mãe, em todas as culturas do mundo; a seguir, a casa, os parentes e os vizinhos. O social é simples e tem um traçado de Séculos. Diz Ariés [9] que não havia infância na idade média. Tratava-se de desenvolver os seres humanos o mais depressa possível por causa da curta duração da existência até há pouco tempo atrás. A vida tem-se prolongado e tornado mais complexo com os televisores, como todo o mundo sabe, mas, especialmente, com os computadores e as formas de criar o real configurado. Por outras p
al
avras, inventar o real a partir de ideias e conceitos já programados que libertam a infância da hegemonia do adulto. O saber infantil passa a ser resultado de aventuras desenvolvidas dentro da magia do computador. Magia que o não é para a criança. Essa virtualidade, é a realidade por meio da qual é possível calcular alternativas à altura do seu entendimento. Porque, e apesar de existir um computador em cada escola e em vários lares, a criança anda ainda a tactear o mundo, como gosto de dizer. É bem possível, como tenho observado ao longo de 35 anos de trabalho de campo, que os mais novos entendam o cálculo muito antes de entenderem a sua genealogia, a sua história ou a sua fisiologia. A sociedade não guarda segredos nas opções, apenas nos conceitos. E esta é a parte mais complexa e delicada. As idades da vida deslocam de um a outro ciclo 

 

 uma criança capaz de manipular o real virtual sem sentimentos emotivos. Estes ficam guardados apenas para as pessoas próximas que os fizeram e os criaram e, um dia, para as pessoas ou a pessoa que pode acompanhar na vida. As emoções têm definido essa entidade denominada criança, supostamente não capaz de se responsabilizar das suas capacidades e de reconhecer as habilidades dos outros ou o seu contexto; emoções não orientadas pela racionalidade lógica indutiva e dedutiva esperada do adulto, ou dessa criança, quando adulto [10]. O adulto espera ainda um comportamento subordinado dos mais novos ao conhecimento e saber de orientação dos mais velhos. No entanto, a criança distingue entre o que o adulto entende e aquilo que é apenas do seu próprio saber, como o imaginário. Durante um episódio do meu cumprido trabalho de campo na Beira Alta, perguntava aos pequenos quais eram os seus sonhos. As raparigas de 7, 8 e 9 anos, contavam, as de 12 e 13, iam calando. Os rapazes pareciam não terem outros que não fossem os dos jogos com os seus amigos ou lutas com os pais. Tal e qual Melanie Klein relata no texto citado. Os mais pequenos ainda, de três ou quatro anos, inventavam "estórias" retiradas de medos da escuridão, de contos para crianças e de cenas da vida real.

Este conjunto de sonhos, desenhos, aventuras e brincadeiras, fizeram-nos entender, a mim e à minha equipa, que os pequenos eram capazes de entender o real desde que este fosse explicado com palavras do quotidiano, sem essas sintaxes ou lógicas da língua que tentam espalhar o saber de forma igual entre todos, sem repararem nas histórias de vida de cada criança. Histórias de vida fundamentais para o docente ou professor, entender dentro de que contexto vai cair o seu processo de ensino. Processo de ensino abstraído da vida quotidiana que acontece ser a vida real.

Vida real que, tenho observado, serve de base para comparar com a vida abstracta que a escola deve ensinar por mandato da lei, com um programa feito por especialistas que nunca viveram com os mais novos que devem incutir dentro da vida social.

4. Coda final.

Em todos os sítios onde temos investigado a vida dos seres humanos e observado os seus objectivos (Europa, África, e América Latina), que não tenhamos começado por entregar um caderno e um lápis a cada criança para perguntar pelas origens da sua sociedade particular. Investigar a memória social local, tem sido o nosso maior empenhamento ao longo dos anos. E as crianças acabam por perceber que os seus adultos sabem menos do que elas esperavam, no campo da interacção social, que é muito fixa, datada e compartilhada por amizades, rituais e parentescos chegados ou vizinhanças. Em todos os terrenos, temos feitos Ateliers de Tempos Livres para brincarmos à família, aos médicos, à doença, à procissão, e outras actividades, como a escola. De boca aberta ficariam os professores se soubessem como, no entender infantil, eles (os professores) são pessoas para punir e castigar, transferir ideias que nada têm a ver com o que eles (as crianças) sabem ou lhes interessa. Longe de mim dizer que, em consequência, o modelo infantil deve orientar os programas. Mas, um enfático sim para convidar os professores a andarem pela geografia e o perímetro do bairro ou aldeia a entenderem primeiro a origem do grupo, passarem depois ao cálculo e, só mais tarde, começarem com as detestadas letras de livros que inventam histórias que acontecem noutros países, como analisei num outro texto [11], ao citar o ensino sobre o que era uma estação de comboios: mostrava-se a estação da Gare du Nord em Paris, as crianças que nunca tinham andado de comboio. Não é minha intenção chamar à atenção do Ministério de Educação: a minha equipa e eu estamos cansados de investigar, comparar, escrever e enviar textos subvencionados pelo Ministério da Ciência, antes também da Educação e Ciência, como de esperar para sermos ouvidos. Os governantes fecham-se no seu saber não actualizado a governarem durante anos, enquanto a realidade muda sem eles saberem: um perito em saber escolar deve dedicar apenas um tempo ao Governo e aos seus lobbies para, a continuação, seguir com a sua pesquisa. Tal e qual Joaquim de Azevedo [12] fez, ou José Manuel Prostes da Fonseca, cujos textos dou por citados. Bem como dou por esperado que esses excelentes investigadores deixem a Secretaria e o Ministério da Educação para nos continuarem a dizer o quê em educação. Talvez os Ministros e Secretários de Estado entendam que não se pode governar um país, voir, entenderem a epistemologia da criança, sem andarem no terreno com as suas equipas e não tentarem aplicar políticas apreendidas em tempos passados, bem antes da realidade virtual passar a ser parte do treino na vida da nossa criançada

Se assim não for, que sejam treinados para serem governantes: saberem ouvir os investigadores e, especialmente, os investigadores que convivem dia-a-dia com as crianças e as suas famílias, às quais até eles próprios pertencem. O poder seduz e mal cria as pessoas, como foi dito por Niccoló di Machiaveio [13] e Frederico de Prússia [14] que souberam ser líderes no seu tempo. O desabamento da criança pode também ser causado por uma má gestão escolar. Em síntese, o desentendimento cronológico do saber, a diferente epistemologia, a ignorada epistemologia da criança e a falta de saber das suas histórias de vida, em conjunto com a pouca simpatia para o corpo docente de Portugal cujo orçamento é bem mais baixo em salários que no resto da União Europeia e dos outros Ministérios Portugueses, bem somo a falta de licenças para se prepararem em cursos especializados que ensinem o saber da criança, são vários dos factos que a desabam ou abatem. Não quero chegar a ver o cumprimento da minha antiga profecia feita em livros [15] e que cito em nota de rodapé.

Raúl Iturra

[1] Iturra Raúl, 1994: "O processo educativo, ensino ou aprendizagem?" In Educação, Sociedade e Culturas N.º. 1,

Afrontamento, Porto. Ver também Vieira, Ricardo, (1992) 1998: Entre a escola e o lar, Fim de Século, Lisboa; e Reis, Filipe,

1991: Educação ensino e crescimento, Escher, Lisboa.

[2] Klein, Melanie, 1932: La psychanalyse des enfants, Puf, Paris. Há versão Portuguesa em IMAGO, Brasil, 4 Volumes.

[3] Miller, Alice, 1983: The drama of being a child, Virago Press, Londres. Há versão castelhana de esta e outras obras da autora em Tusquets Editora, Barcelona, 1994 e seguintes.

[4] Vide Iturra 1997: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral, Fim de Século, Lisboa; (19981 2007 2ª Edição: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto; 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto.

[5] Smith, Adam, (1756) 2000: The theory of moral sentiments, Prometheus Books, Londres; e 1775 An inq

uiry into the nature and causes of the wealth of nations, Routledge and Kegan Paul, Londres. De este texto original na minha posse, há versão portuguesa da Gulbenkian, Lisboa.

[6] Vide para este tema e definições: Iturra, Raúl (1991) 2001: A religião como teoria da reprodução social, Fim de Século, Lisboa; e Iturra, Raúl e Reis, Filipe, 1989: O jogo infantil numa aldeia portuguesa, Associação de Jogos Tradicionais da Guarda, Guarda.

[7] Childe, Gordon, 1925, The dawn of western civilization, Knopf, Nova Iorque.

[8] Goody, Jack, 1988, obra citada, Cambridge University Press. Há tradução portuguesa em Livros Horizonte. E no seu de1977: The domestication of the savage mind, CUP, especialmente Capítulo 5: "What is in a list?"

[9] Ariés, Philippe, 1964: L’enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime, Editions de Seuil, Paris. Há versão portuguesa da Relogio D’Água, Lisboa, 1988.

[10] Vide Código de Direito Canónico, Cúria Vaticana, nas suas versões de 1911 e 1981 que define como idade da inocência a infância até aos 7 anos de idade, bem como as diversas emendas ao Código de Direito Civil Português, que muda as idades ao longo do tempo; a maior idade era aos 25 anos, hoje é aos 18 e debate-se se não devia ser aos 16. Outras idades ficam "empatadas" por doença mental.

[11] Iturra, Raúl, 1990 b): Memória e aprendizagem. Insucesso escolar em Vila Ruiva, Escher, hoje Fim de Século, Lisboa.

[12] Azevedo, Joaquim, 1994: Avenidas da liberdade. Reflexões sobre política educativa, ASA, Porto.

[13] Machiavelli, Nicoló (1513) 1983: El príncipe, Planeta, Barcelona. Edição portuguesa do Círculo de Leitores, Lisboa, 2008.

[14] Frederico de Prússia o Frederico II O Grande, 1741: Essai de critique sur Maquiavel, recenseado visto por Voltaire. Há edição portuguesa da Guimarães Editores, Lisboa, 2000.

[15] Iturra, Raúl, 1990 a): Fugirás à escola para trabalhar a terra, Escher, Lisboa. 2002, O caos da criança. Ensaios de Antropologia da Educação, Livros Horizonte, Lisboa.

 

A Lurdes está a fazer o que sempre fez. Lutar!

Au mulheres Rocha são fortes, convictas, cheias de talentos vários, mil vezes melhores que os homens Rocha. E as duas gerações a seguir que já estão aí vão no mesmo caminho.

 

A Lurdes nasceu e viveu até ao antigo 7º ano no meu bairro, no Bairro do Cansado, em Castelo Branco. É da idade da minha irmã mais nova e sempre que eu impunha a minha autoridade de irmão mais velho, a Lurdes corria-me à pedrada e metia-me em casa.

 

Veio para Lisboa e tirou medicina, é a primeira mulher da família que tirou um curso superior, junta à determinação e capacidade de trabalho, outros talentos, como uma boa voz que faz ouvir nas festas de família, escreve e tem dois livros publicados e pinta quadros magníficos que eu ainda não consegui surrepiar, nem um.

 

Pois a Lurdes está aí no Porto, a travar a sua última batalha. Há dez anos teve que tirar as duas mamas e agora algo maldito que começou com uma dor, coisa de somenos, mas que se veio a revelar  um inimigo implacável.

 

Aguentou um tratamento intensivo fortíssimo mas no último dia diversos orgãos começaram a desistir. Ela não desiste, diz ao irmão para lhe apertar a mão para ver como ela está cheia de força, diz aos filhos que não quer que nenhum deixe de cumprir as suas obrigações, só não tem coragem de chamar a mãe.

 

É que a mãe não a deixaria  tirar os vários tubos  que a apoquentam, a mãe é  feita da mesma natureza, tem 82 anos e é a pessoa mais serena que conheço. Sempre a conheci, a tomar conta de todos. Dos filhos, do pai dos filhos e das crianças, que como eu, não tinham ninguem em casa durante o dia.

 

A Lurdes sempre tomou conta de todos, dos filhos, do pai dos filhos e dos doentes que não pagam por serem pobres. E tomou conta da minha irmã que é da idade dela.

 

Se a maldita lhe der uma hipótese que seja, a Lurdes vai tomar conta dela!

Uma história quase anónima, mas com um blogue e 37 livros malditos

 Talvez nada disto se tivesse sabido se a bibliotecária da pequena cidade fabril de Ursk, aos pés dos montes Urais, na Rússia, não tivesse um blogue.

 

Parece que foi assim: o Serviço Federal de Luta Anti-Drogas (SFLA) russo enviou uma circular às autarquias. O que estas fizeram pelo país fora não sabemos. O que, sim, sabemos, é que o pelouro da Cultura da autarquia de Ursk reenviou à biblioteca municipal local a lista que lhe chegara do Serviço Federal.

 

E também sabemos, graças a essa anónima bibliotecária que contou a história no seu blogue, que essa lista continha os títulos de 37 obras que se recomendava que não fossem entregues aos leitores. Escrevo “anónima” não porque ela se tenha escondido atrás do anonimato, mas porque, não sabendo eu ler russo, apenas posso reproduzir o que me conta o “El País” acerca deste assunto e aí não consta o nome dessa mulher.

 

Os 37 malditos são-no porque, terá dito o SFLA, incitam ao consumo de narcóticos. 

E aí estão os previsíveis William S. Burroughs e Irvine Welsh, mas também Philip K. Dick, Pérez-Reverte e Tom Wolfe. Estão também escolhas mais originais, como monografias sobre esta temática assinadas por cientistas de renome e até um manual de cultivo de cogumelos.

 

Uma vez descoberto o caso: a imprensa indignou-se; os responsáveis do serviço anti-drogas local sacudiram a água do capote; e o porta-voz oficial do SFLA negou a intenção de proibir qualquer obra literária, tudo isto mais ou menos por esta ordem de acontecimentos.

 

O único dos intervenientes nesta história de quem sabemos o nome é – talvez por ser aquele que está mais alto na escada hierárquica – este mesmo porta-voz: Nikolái Kartashov. O senhor Kartashov lembrou que só uma ordem judicial pode proibir a circulação de uma obra literária e remata com a sua interpretação do ocorrido: “Deve ter sido uma iniciativa particular de algum funcionário local, fruto do ser fervor profissional e pouco inteligente”. Deve ter sido.

 

Mas isto para dizer-vos que, não tivesse a senhora bibliotecária de Orsk cruzado o umbral da blogosfera, e quem sabe o índex dos narcóticos teria ficado debaixo do balcão de todas as bibliotecas russas, enquanto, sub-repticiamente, nos arquivos empoeirados um a um iam sumindo-se os livros malditos. E ainda dizem que os blogues podem afastar leitores dos livros. 

 

O Blasfémias não quer perceber

As chamadas foram feitas pelo Vara para Sócrates e não o contrário.

 

O Inspector de Aveiro perante uma evidência de crime não deve tirar certidões, mas antes, (como diz Júdice) destruir as escutas.

 

As escutas de Cavaco Silva e a sua divulgação foram um serviço público prestado por dois jornalistas que transcreveram uma conversa privada de dois colegas.

 

Quando a certidão e a gravação chegaram ao PGR este não fez o que manda o bom senso.Destruí-las!

 

O Presidente do Tribunal de Justiça, mal recebeu as gravações do PGR deveria devolvê-las sem tomar conhecimento do seu conteúdo.

 

Como diz, Ricardo Costa, no Expresso, há conversas do primeiro ministro gravadas na mão não se sabe de quem e é preciso destruí-las.

 

Quando um amigo cumpre o dever de telefonar a um amigo é sempre para falar de assuntos que leva a polícia a mandar tirar certidões.

 

Não há escutas nenhumas nem nenhuma certidão, o que há são conversas que levaram a polícia a mandar emitir uma certidão ilegal.

 

Tirar certidões de escutas gravadas pela polícia, é prenúncio de crime para qualquer um, menos para José Sócrates!

 

Entendidos?

Armistício esquecido

  

 

 

Passaram ontem 91 anos da assinatura do armistício firmado entre as potências da Entente e o Império Alemão. A curta cerimónia na floresta de Compiègne, punha fim à hegemonia da Europa sobre o planeta Terra e inaugurava um século XX de violência e extremismos sem precedentes.

 

Em Portugal, um dos derrotados de facto da I Guerra Mundial, o Armistício apenas tinha algum significado para o cada vez mais escasso número de antigos combatentes, que empurrados por um regime ignóbil para uma frente de guerra longínqua, foram sacrificados ao fugaz interesse de uns quantos políticos do momento, sequiosos do reconhecimento das Potências. O Armistício e as cláusulas de Versalhes consagraram essa derrota política e militar, pois o nosso país não obteve qualquer compensação territorial e materialmente, as indemnizações foram de pouca monta. Contando reequipar a marinha de guerra – o bastião armado da I república – com alguns dos despojos da Hoch See Flotte doKaiser Wilhelm II, chegaram ao Tejo, apenas uns fracos cascos de escolta da liquidada armada austro-húngara. Compreende-se assim, obliteradas pela hodierna informação as grandes tiradas e piedosas pagelas  dedicadas ao "Soldado Milhões", este conveniente esquecer que o regime vota à efeméride. 

 

 

A História da participação portuguesa na Grande Guerra está ainda eivada dos mitos endeusadores da iimplacável propaganda a que o país esteve sujeito ao longo de mais de três quartos de século. Se as Memórias de Chagas ou os Diáriosde Relvas os desmentem cabalmente,  as resmas de livrinhos, opúsculos e revistas que enaltecem essa autêntica saga de derrotados, impuseram a falsidade como norma. O Poder sempre viu como uma necessidade, um reescrever de uma História que lhe era e é , sem dúvida, totalmente adversa. Desde o mito de Tancos, até à "reconquista de Quionga" (Moçambique), teceram-se lendas, falsearam-se números, esconderam-se realidades. Estas ditas realidades são facilmente descortináveis no meio do autêntico matagal de cipós e trepadeiras parasitas com que o regime enredou o incauto aventureiro nestas actividades do conhecimento. Até há pouco, era unanimemente aceite como facto, o clássico duelo de um punhado de bravos que teve de enfrentar a colossal máquina guerreira engendrada pelo militarismo prrussiano e pelas novas artes de matar propiciadas pela fabulosa Revolução Industrial. 

 

A verdade é bem mais comezinha e típica daquele conturbado período que uma população indefesa teve de suportar estoicamente. A falta de organização, o desleixo e abandalhamento de umas forças armadas fatalmente atingidas pelo vírus desagregador do 5 de Outubro, colocaram desde o início em causa, a própria colaboração de Portugal com a sua formal  aliada, a Inglaterra.  O corpo de oficiais encontrava-se profundamente dividido quanto à forma do regime e pior que tudo, participava agora activamente nos combates políticos na arena de S. Bento. O efeito dissolvente sobre o sentido de hierarquia, seria absolutamente fatal no momento em que a tropa teve de enfrentar as disciplinadas, e aguerridas divisões alemãs. Os últimos anos da Monarquia tinham feito chegar aos arsenais armas novas, desde espingardas modernas  com as quais o exército se armou durante o próximo meio século, ao famoso canhão de 75mm francês. Comprado em importante quantidade e acompanhado por pessoal bem treinado, era talvez a única arma susceptível de prestar eficientemente o serviço na frente. Contudo, uma parte dos efectivos foi deixada em Portugal, com o estrito fim de controlar as crónicas sublevações políticas e militares que ensanguentavam o país e tornavam periclitante a república. Assim, o desastre foi total, desde as trincheiras de Armentières ao sul de Angola e a todo o norte e centro de Moçambique. Não se ganhou uma só refrega – por muito secundária que fosse -, a doença grassou com inaudita ferocidade, acompanhada pela fome, frio e parasitagem de toda a ordem. Resumidamente, foi este o palmarés que a república honestamente devia ter apresentado como seu, exclusivo, único. Mas não, não procedeu de acordo com o rigor histórico, porque colocou os seus publicistas ao serviço e de sentinela, escrevinhando-se mirambolantes feitos épicos de canhoneiras contra submarinos, de um soldado que sozinho aguentou vagas de Sturmtruppen, não se esquecendo no plano da valentia política, apresentar como glorioso feito, o apresamento das sete dezenas de navios alemães internados nos portos nacionais. A verdade foi outra e decorreu, como é óbvio, do acicate britânico ditado pela premente necessidade, no momento em que a guerra submarina fazia perigar o equilíbrio de forças a favor dos Impérios Centrais. 

 

Após a assinatura do Armistício, assistiu-se a uma patética correria na imprensa, tendente a fazer crer da inevitabilidade de uma portentosa recompensa territorial ao esforço da república. Assim, a Ilustração Portuguesa apresentava num dos seus números e na capa, um orgulhoso Afonso Costa que empunhando um mapa, mostrava o Tanganica (Tanzânia), como a natural anexação para a criação de um Grande Moçambique. 

 

Não foi a participação da república portuguesa  no conflito, aquilo que mais interessa reter neste aniversário. O que realmente importou, foi o tremendo erro e claro engano imposto aos vencidos que acreditando à letra no próprio significado político e militar da palavra Armistício, foram alguns meses depois, obrigados a submeter-se a uma jamais vista humilhação universal que para sempre mudou o conceito que os povos tinham da diplomacia e das relações internacionais. Decorridos à época, quase exactamente cem anos após a esmagadora d
er
rota do império napoleónico, à Alemanha não lhe foi permitido conservar o regime político, nem sequer teve o direito de negociar qualquer cláusula, fosse ela de índole militar, económica ou territorial. Estava-se num momento, em que mesmo que o Reich contasse com uma horda de Talleyrands, esta não teria exercido qualquer influência no desfecho daquilo a que se designou por Tratados. A guerra tinha sido dolorosamente longa e mercê dos equipamentos colocados à sua disposição pela magia tecnológica dos novos tempos, irredutibilizou os ânimos, fomentou ódios irreconciliáveis e lançou as sementes para um futuro e mais devastador conflito.

 

A I Guerra Mundial significou a liquidação da Europa como espaço político, económico e militar que durante séculos ditara uma hegemonia global. Os americanos entraram na guerra, precisamente para esse arrebatar  de testemunho, revertendo a seu favor o esforço de terceiros, drenando recursos, subsidiarizando economias e o espírito criador. Territorialmente, os 14 Pontos de Wilson significaram o fim da tradicional fidelidade dinástica que durante séculos e até 1918, fez com que os exércitos do Kaiser de Viena, congregasse nas suas fileiras  mais de quinze povos, unidos pela história e pelo interesse que uma situação geográfica vital, impunha  a necessidade da união, mesmo que pessoal. De facto, o destruir da Áustria-Hungria, jubilosamente gizada em Paris e Washington, representou um irremediável desastre para a Europa que hoje, tenta encontrar um modelo que lhe reabra o trilho de progresso e poder que foi seu ao longo de meio milénio.

 

Seria interessante saber qual teria sido a participação portuguesa, no caso de o 5 de Outubro – e logicamente o Regicídio – jamais terem ocorrido. É um trabalho para os historiadores que dispondo da informação contida  nos arquivos nacionais e chancelarias estrangeiras, poderão assim avaliar cabalmente um enigmático "se" da nossa História.

 

 

À socapa os impostos vão subindo…

Como quem não quer a coisa o Estado vai sacando tudo o que pode. Agora os chamados "brings benefits" tambem já pagam descontos para a Segurança Social e as empresas contribuem com a sua parte.

 

Se até sou capaz de estar de acordo ( são os carros, os almoços, os cartões de crédito…) quanto às empresas é que não é ajuda nenhuma, quando o que se discute na UE é baixar o peso das contribuições para o Estado. Mas aqui no nosso país não há margem para nada, a despesa pública cresce ( já é superior a 50% do PIB) e os impostos têm que subir.

 

Quem não sofre com os impostos é a banca que ganhou, nos últimos três meses, cinco milhões de euros por dia ,e que no ano passado não pagou mais de 15% de IRC, enquanto as empresas falidas pagam mais do dobro. E se lhe juntarmos o que se esconde nas off shores, o IRC não atinge os dois dígitos. Enfim, justiça e equidade fiscal à Partido Socialista.

 

Contra os 5.9% de déficite de Teixeira dos Santos aí estão os 9% da UE e a tenaz começa a apertar com a redução do déficite a começar já em 2010. E a Dívida Pública, e o desemprego, está tudo a subir e não controlado.

 

O mais depressa que lhes seja possível, vão começar a retirar as ajudas específicas da crise. Nos BPP, BPN e BCP é que não vão retirar nada, nos apoios ao desemprego vão começar a apertar porque a situação não é sustentável, embora isso seja um terramoto social, porque a retirar é a quem não tem outros rendimentos.

 

E a criação de emprego com as grandes obras só tem efeito lá para mais adiante, 2011?

 

A crise internacional está a melhorar, mas a crise nossa, muito nossa, está a agravar-se.

 

Desta vez quem será o culpado?

 

Certidões às Pinguinhas

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A CONTA GOTAS

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Como se fora um pagamento a pretações, as certidões importantes, vão chegando. Umas agora, outras daqui a dias, outras passado quase um mês.

Ninguém entende, mas, se pensarmos bem, até é fácil de explicar. Se observarmos atentamente quais são os intervenientes, chegamos lá.

Sócrates I, O Arrogante, foi ouvido a falar ao telemóvel, com o seu amigo Vara. Ele pensava que não, mas foi. Durante meses, consegui-se que as transcrições do que se ouviu, ficassem no segredo dos deuses. As eleições, vinham a caminho. Depois, Sócrates II, O Dialogador, ganhou-as. Já não era possível esconder por mais tempo, o que alguns sabiam, e a notícia veio a lume. As certidões do que se ouviu, tinham que ser apresentadas, mas as resistências que sempre existem nestes casos, continuaram a fazer o seu papel, e…. é o que se vê. Chegam às pinguinhas, a quem de direito.

Entretanto, uma tempestade se anuncia. As escutas estão provocar uma guerra no Parlamento. Segundo Ferreira Leite, o nosso Primeiro deve explicações ao País. Por outro lado, os defensores oficiais do chefe do governo, este não se sente obrigado a fazê-lo, já que se tratou de conversas privadas entre amigos. E ainda vão dizendo que a líder Social Democrata faz com essa exigência, baixa política.

A ideia de chamar ao que se está a passar, campanha negra, quer regressar, mas parece que desta vez não surtirá o efeito desejado. Não há ou haverá campanha negra para ninguém. A vitimização, que fez carreira no anterior governo, não deverá medrar neste.

O sr Pinto de Sousa, entretanto, respira de alívio, por breves momentos, porque se disse que o que se ouviu, não vale de nada. Foi ouvido sem autorização. Mas a opinião pública é que não se vai deixar levar por lorpa, desta vez. O não valer de nada, não iliba ninguém.

E imagine-se, até o Presidente está preocupado!

Também eu estou preocupado, e por essa razão pergunto:

– Se as conversas detectadas e gravadas fossem de outrem que não o nosso Primeiro, e o outro interlocutor fosse da mesma forma o sr Vara, teriam ido para o arquivo vertical (mais conhecido por lixo)?

Face a estas preocupações, e com um certo aproveitamento político ouvem-se por aí, nos cafés e esplanadas (apesar do frio vão conversar e fumar para lá), vozes anónimas e também das outras, a perguntar:

– Com mais este caso a juntar a todos os outros, será que o nosso Primeiro, deveria ser substituído?

– O partido que ganhou as eleições, deveria indigitar outra personagem?

E até há quem responda e diga que sim!

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A máquina do tempo: O fenómeno explosivo dos blogues

 

Segundo informação que colhi na Wikipédia, em 2007 foi rastreada a existência de mais de 112 milhões de blogues. Dois anos depois este número deve ter sido em muito ultrapassado. Caracterizados como uma fonte dinâmica de informação e de entretenimento, são um fenómeno típico dos últimos anos. Para além desta função de informar, de entreter, de permitir o contacto com outras pessoas, já aqui, noutra das minhas crónicas, salientei o carácter catártico deste meio.

 

 Através dele, dizem-se coisas que doutro modo ficariam sepultadas e, quem sabe, a remoer dúvidas e a adensar angústias dentro das cabeças dos bloggers. Com eles faz-se uma catarse que alivia tensões e evita dispendiosas idas ao psicanalista. Provavelmente, ao aliviar essas tensões, os blogues já terão salvo vidas, evitado suicídios (pensando melhor e lendo alguns comentários, talvez tenham provocado outros suicídios, digo eu com o meu feitio pessimista). Porque é preciso alguma contenção e cuidado com as pulsões que se libertam em posts e comentários. Algumas, transformam-se em rottweilers à solta e sem açaimo…

 

A propósito desta nova maneira de comunicar, Clara Ferreira Alves escreveu, estas linhas no Diário Digital, aqui já citadas pelo Arrebenta: “A blogosfera é um saco de gatos que mistura o óptimo com o rasca e acabou por tornar-se um prolongamento do magistério da opinião nos jornais. Num qualquer blogger existe e vegeta um colunista ambicioso ou desempregado ou um mero espírito ocioso e rancoroso. Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, agora publicam-se as ejaculações. Mas, sem querer estar aqui a analisar a blogosfera e as suas implicações, nem a evidente vantagem dessa existência e da qualidade e liberdade que revela por vezes, destituindo do seu posto informativo os jornais e televisões aprisionados em formatos e vícios, o resíduo principal de tudo isto é que os jornais mudaram, e muito, e mudaram muito rapidamente. Parafraseando Pessoa na hora da morte, We know not what tomorrow will bring.

 

Reconhece-se alguma razão ao que Clara Ferreira Alves diz – os blogues transformaram-se em receptáculos de prosas absolutamente impensáveis – a iliteracia, a ignorância, o facciosismo desbragado (político, futebolístico e não só), tudo é acolhido nos blogues com o mesmo estatuto que peças interessantes e culturalmente válidas. Qualquer anormal se sente no direito de dar vazão aos sentimentos mais primários, à obscenidade sem limites, à mais ordinária incontinência verbal.

 

Tudo cabe nos blogues. Na blogosfera, liberdade é igual a impunidade. Nestas condições, de facto, separar o óptimo do rasca, não é fácil (mesmo dentro de um texto, seja ele da Clara Ferreira Alves ou do Arrebenta). Embora esse seja um problema que não afecta somente os colaboradores dos blogues, reconhece-se que neste meio ele assume uma maior acuidade.

 

Há diversos tipos de bloggers – serão muitos os tais colunistas desempregados – e aproveito para perguntar à Clara que usa o termo num estranho sentido pejorativo – É crime estar desempregado? Quantos jornalistas ou colunistas desempregados não são mais dignos do que aqueles que mantêm os empregos à custa de sabujice, de amigos bem colocados junto das administrações, de favores sexuais, de se apostar nas teses mais convenientes, de se manter o silêncio sobre temas importantes, e fazer berraria por irrelevâncias  e por aí fora – esses «colunistas desempregados» escrevem muita vez com um sentido de responsabilidade que nem todos os colaboradores dos jornais demonstram. Porque, sobretudo no jornalismo, estar empregado, nem sempre é um mérito. Fechar parêntesis.

 

Há também os bloggers ignorantes, estúpidos e analfabetos que aproveitam a blogosfera para vomitar insultos e obscenidades que, ditas em qualquer recinto público, dariam direito a prisão imediata. A questão é – não podemos exterminá-los – como impedi-los de aparecer com os seus comentários piratas? A blogosfera é livre e isso é bom enquanto todos os bloggers se comportarem de forma civilizada. Oxalá a irresponsabilidade de imbecis, que só com muito boa vontade podem ser considerados gente, não obrigue a criar regras sem as quais até agora se tem vivido perfeitamente.

 

O blogger não tem de respeitar as ideias dos outros (as ideias fizeram-se para ser desrespeitadas, debatidas, rebatidas e, se necessário, abatidas); mas deve respeitar sempre quem expende essas ideias com que não concorda. A isto se de deve resumir o código deontológico de quem colabora em blogues. É lícito desrespeitar ideias com que se não concorda, por mais sagradas que sejam para outros. Todavia, tem de se respeitar os outros, mesmo que sejam os defensores de ideias que nos parecem absurdas.

 

 É tão simples, não é?

 

 

Variações à venda

Uma parte da vida de António Variações vai estar em foco, hoje, no leilão de um conjunto de objectos que pertenceram ao cantor.

Manuscritos, fotos, roupas, cassetes são apenas alguns dos muitos elementos que fazem parte de mais de 200 lotes a leiloar no Centro Cultural de Belém, cenário daquele que é o primeiro leilão do espólio de um artista pop no país. Pode ser acompanhado na internet através do site "p4liveauctions.com".

 

 

A leiloeira P4 colocou a base de licitação entre os dez euros e os mil euros. Há um conjunto de 41 cassetes originais que estiveram na base do projecto "Humanos", muitas fotografias, moedas, roupas, adereços, peças de bijutaria e objectos que o artista usava na sua arte de barbeiro.

 

Um dia destes alguém se vai lembrar de fazer um museu com o espólio de Variações. Argumentos há muitos. Desde logo, por ser o primeiro verdadeiro artista pop português. Graças ao carisma, personalidade e, claro, também aquela  excentricidade que tanto espantou um Portugal moralmente atrasado.

 

O problema é que quando quiserem fazer o tal museu, pode ser tarde demais.

As contradições incontornáveis do capitalismo

James Watsom, um dos co-descobridores do ADN, e que é Presidente da Comissão Científica da Fundação Champalimoud, veio cá fazer uma palestra sobre o cancro.

 

Espera que dentro de dez anos o cancro seja curável, pelo menos os mais importantes e mais habituais. Fez uma descrição empolgante dos últimos anos e dos avanços da ciência e focou a necessidade de os medicamentos que vêm aí sejam para todos, ninguem pode ficar de fora do tratamento por ser pobre.

 

Repetindo, uma e outra vez que não é socialista, reafirmou que é intolerável que as farmacêuticas se preocupem mais com os dividendos dos accionistas do que com os doentes.

 

São cada vez mais os exemplos de americanos  ilustres e milionários que se preocupam com as diferenças sociais e com os mais pobres. Bill Gates, é outro exemplo com a sua Fundação colocando ao dispor da ciência e das organizações internacionais enormes somas de dinheiro.

 

Aqui em Portugal, o industrial e milionário Champalimoud, antes dele Gulbenkian e tantos outros que acharam por bem deixar parte do seu dinheiro e da sua fortuna aos outros.

 

Há meses esteve cá um cientista a fazer uma palestra na Gulbenkian, julgo que outro dos co-descobridores do ADN ( Francis Crick? ) que após terminar a exposição se submeteu a perguntas. Uma jovem estudante perguntou-lhe o que faria ele se fosse um dos deserdados da fortuna.

 

 Francis Crick , respondeu, após alguns segundos de reflexão: " há muitas respostas que encontrei a perguntas diificeis e que duravam há muito tempo, mas há uma que nunca consegui perceber. Porque é que um pai que tem filhos com fome, não assalto um banco! Eu assaltava!

 

Com o aumento de assaltos, roubos e homícidios há gente que o ouviu !

Os 49 mil professores que pensaram que eram excelentes

são uma boa opção para leccionar nas turmas mais complicadas das escolas mais especiais. Parece-me óbvio – se são assim tão bons, devem ser eles a trabalhar nas escolas TEIP, por exemplo.

Isto parece-me tão interessante que estou tentar a apresentar esta proposta à senhora Ministra. Estou certo que os senhores professores e as senhoras professoras que tão rapidamentente espetaram a faca na classe estão absolutamente disponíveis para abraçar a causa. É que além de serem instrumentos nas mãos do Sócrates são certamente os melhores. Alguém tem dúvidas?