A máquina do tempo: breve nota sobre a poesia galego-portuguesa

Martim Codax foi um jogral galego, pensa-se que oriundo de Vigo, dadas as suas frequentes referências àquela cidade. Sabe-se ter vivido entre meados do século XIII e princípios do XIV. Dele, ouvimos «Ondas do mar de Vigo», composição ainda dentro dos cânones da poesia galego-portuguesa. Porém, há um momento ou, talvez melhor, um período que estabelece uma fronteira entre um idioma único, falado e escrito em Portugal e na Galiza, e o início de uma deriva em que a Galiza começava a sentir os efeitos da aculturação castelhana e, ao invés, em Portugal, dois séculos decorridos sobre a criação do País, se começava a fixar uma língua autónoma.

Segundo Giuseppe Tavani (1924), professor catedrático da Universidade de Roma «La Sapienza», grande especialista em filologia românica, particularmente nas áreas linguísticas do provençal, do catalão e do galego-português, essa fronteira situa-se algures entre o século XIII e finais do século XIV, inícios do XV. Numa Galiza que não obteve a independência, ficando ligada à coroa de Leão e Castela, a lírica galego-portuguesa começou a dar lugar a uma poesia galego-castelhana.

Assim na Galiza, ainda de acordo com Tavani, a linha de demarcação entre a poesia galego-portuguesa e a posterior, traça-se habitualmente, já no século em fins do século XIV, inícios do XV, com um cancioneiro específico compilado por Juan Alfonso de Baena, que passou a constituir o corpus da poesia galego-castelhana. O conteúdo do códice do século XIII do cancioneiro da Biblioteca da Ajuda e dos dois apógrafos italianos (cancioneiros da Vaticana e Colocci-Brancuti) é atribuído à poesia galego-portuguesa. Estes monumentos históricos e literários são os marcos que estabelecem a tal raia entre duas maneiras de falar e de escrever o mesmo idioma. Mas, como sempre ocorre nas regiões fronteiriças, há zonas de imprecisão em que as duas tradições dialectais se confundem.

 

Em Portugal, o rei D. Dinis (1261-1325), embora seguindo a matriz provençal, censurara o excessivo convencionalismo desses trovadores que privilegiavam o uso de lugares-comuns e frases feitas em detrimento da expressão de sentimentos genuínos como a amizade e o amor. Com a demarcação da poesia trovadoresca, com a fixação a Sul do rio Minho de um idioma que ia encontrando escritores que dele se serviam e o ajudavam a ganhar raízes e forma autónoma – D. Dinis, Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, enquanto que a Norte o idioma de partida se ia eivando de castelhanismos, com a fonética a ganhar sonoridades distintas, a separação ia-se acentuando ao ponto de, no século XIX, depararmos com um galego onde os neologismos eram empréstimos do castelhano e o galego começava a transformar-se naquilo que Madrid afirmava ele ser – um dialecto do castelhano.

Um galego-português, cada vez mais diferente do nosso, ainda que a língua falada nas aldeias galegas fosse muito semelhante ao português usado no Norte. O Rexurdimento lançado por Rosalía de Castro, Manuel Murguía, Eduardo Pondal, Manuel Curros Enríquez e outros, reatou o movimento de reaproximação e permitiu ir expurgando o galego dos castelhanismos mais gritantes (alguns dos quais ainda surgem em poetas do século XIX e XX).

Apesar dos muitos escritores galegos que optaram decididamente pelo castelhano (por ser língua mais universal) – Gonzalo Torrente Ballester e Camilo José Cela, entre muitos outros, penso que, hoje em dia, é perfeitamente legítimo falarmos de novo em idioma comum, o galego-português, designação de Carolina Michaëlis que encerra o conceito ainda hoje prevalecente – o galego não é um dialecto do português, como em tempos se disse, nem o português é um dialecto do galego, como alguns radicais galeguistas hoje afirmam.

O galego-português é um idioma que, devido a circunstâncias históricas, se cindiu em duas formas dialectais. A partir do século XIX, com o Rexurdimento, o idioma começou a recuperar na Galiza o seu estatuto de língua literária, reintegrando-se na sua matriz original. Havemos de voltar a este tema para falarmos sobre a prosa galego-portuguesa, da Idade Média aos nossos dias.

Entretanto, ouçamos agora os Segréis de D. Dinis em «Pois vos Deus», composição do rei português.

 

 

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  1. “Em Portugal, o rei D. Dinis (1261-1325), embora seguindo a matriz provençal, censurara o excessivo convencionalismo desses trovadores que privilegiavam o uso de lugares-comuns e frases feitas em detrimento da expressão de sentimentos genuínos como a amizade e o amor.”A crítica que D. Dinis dirige aos poetas provençais em “Preonçaes soen mui ben trobar” era, muito provavelmente, um tópico literário. De resto, devemos sempre desconfiar da sinceridade literária que levou muita gente a querer descobrir as desgraças biográficas do Camões nos poemas em que o homem, brilhantemente, se limitou a glosar influências diversas.


  2. A ler com atenção.É o que faço.