A coisa vai

José Saramago recentemente atentou para o facto da maioria dos católicos nunca terem lido a Bíblia. Que se lessem, ficariam chocados com o Deus que lá é apresentado: mau e vingativo (entre outros mimos).

Acontece que a Bíblia foi redigida bem antes de Cristo, pelo que a linguagem empregue e os conceitos dominantes devem ser entendidos à luz da rudeza de então.

Isto sem desprimor do direito que cada um tem de fazer uma interpretação literal da Bíblia. Ou do Corão. Ou seja do que for. Certo sendo que as interpretações literais dos chamados textos sagrados quase sempre são o que fundamentam as opções extremistas e radicais das correntes religiosas e que, não raras vezes, descambam para o terrorismo.

No entanto, a mim preocupa-me mais que a grande maioria dos portugueses não tenha lido a Constituição: um texto bem mais pequeno que a Bíblia, escrito de forma articulada e sistematizada, e com apenas 33 anos (curiosamente a idade com que Cristo terá sido crucificado).

Se os portugueses que nunca leram a Bíblia ficariam, segundo Saramago, chocados com o Deus que é lá retratado, eu estou certo que se lessem a Constituição, ficariam também chocados com o modo como andam a ser enganados há muitos anos e por tanta gente. Talvez não engolissem tanta coisa como parecem engolir. Barafustam, comentam, desdenham, mas  a maior parte engole…

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Está ali Sócrates a falar do milagre TGV, nem com a Grécia no estado em que está arrepia caminho. A constituição é para ser evitada sempre que possível.

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    O problema consiste na temática. A Constituição não passa de uma inaplicável fábula, para um país que não é rico. A Bíblia sempre serve de passatempo de estórias.


  3. Além do mais, com o gosto que a maior parte dos portugueses tem pela leitura, a esmagadora maioria está à espera da versão em telenovela.