e agora..que fazemos? o pib no chile

Com a morte de Émile Durkheim, coube ao seu discípulo e sobrinho, Marcel Mauss, orientar a Revista Anual L’Année Sociologique, por si fundada em 1896, editada em Paris por Feliz Alkan. Por respeito ao seu desaparecido parente, quase um pai parra ele, quer por consanguinidade, quer por desenvolverem juntos o que Durkheim tinha aprendido na École Normal Superieur de Paris, Mauss deu continuidade à publicação, acrescentando-lhe um novo título: II série. A primeira série era a do seu tio, a segunda, dele. É nesta Revista, que escreve o seu famoso texto sobre reciprocidade, intitulado: Essai sur le don. Forme et raison de l’echange dans les sociétés archaïques, passando, mais tarde, a ser denominado apenas por Ensaio sobre a dádiva. E de dádiva, passa a ser designada reciprocidade, que eu analiso exaustivamente no livro editado em 2008, pela Afrontamento, para o qual remeto o leitor para maiores detalhes técnicos, científicos e históricos.

O que, de momento, me interessa é a reciprocidade. Defini-a como uma troca de bens com mais-valia, isto é, faz parte de um comércio feito sem moeda, caracterizando-se pelo intercâmbio de bens que não se têm por bens que se possuem. Nunca a pensei como uma dádiva que não espera recompensa, quase uma forma de caridade que tudo dá sem nada esperar em retorno.

Até que um dia deste ano de 2010, a 27 de Fevereiro, uma hecatombe abala o Chile e milhares de pessoas ficam sem casa e muitas outras morrem. Ainda não sabemos quantas, como relato no meu ensaio de Terramotos. Memórias Apagadas. Durante menos de um minuto, a terra tremeu na República do Chile, cidades completas ruíram, deixando as pessoas na rua, sem casas nem bens. Em sítios onde nunca antes tinha tremido, como a capital e todo o centro, desde Santiago até Temuco, 800 quilómetros de desolação, de terras abertas que engoliam seres humanos, que sumiam casas, que derrubavam paredes. Cidades inteiras ficaram sem habitações, sem ruas, sem abastecimento de água e de energia eléctrica, com os iminentes tsunamis sempre a ameaçar o que tinha ficado em pé. Histórias que todos sabemos

O problema não é voltar a mesma história. O problema é: o que fazemos agora?

O Chile foi sempre um país pobre (com casas feitas de adobe e zinco e barracas de madeira, habitadas por mais de 50% da população), com uma entrada bruta (PIB) de $14.000 por pessoa em 2008, considerando que cada dólar norte-americano, moeda usada no Chile para as transacções internacionais ou de alto vulto dentro do país, custa $520 pesos chilenos. Por outras palavras, as entradas para as importações são de um alto custo, impossíveis de serem alcançadas num país que tem uma população cuja entrada média mensal, considerando valores baixos, é de $40.000. Cada grupo doméstico deve por a trabalhar toda a família para pagar a carestia da vida.

Construir uma casa, antes do terramoto era com créditos a juros a longo prazo e os juros aumentavam no decorrer do tempo. Sem aumentos salariais, passa a ser uma ironia insuportável pensar que com dinheiro solicitado ao estrangeiro pelo Estado como garante para reconstruir o que foi derrubado, estradas, linhas telefónicas, indústrias têxteis…, deixando a população na maior das solidões para refazer o seu lar e construir uma nova casa. É nestes sítios onde a reciprocidade é materializada. Hoje em dia, no Chile, encontrar uma casa não é possível, não há….e alugar as que ficaram, ultrapassa, em custo, as entradas mínimas de cada grupo familiar. Se já era um terço das entradas líquidas o pagamento de um aluguer, actualmente – sem se ter fixado ainda os valores de casas inexistentes e desaparecidas, passa a ser impossível de pensar. Primeiro é preciso manter vivos os vivos, sepultar os mortos e, a seguir, pensar na reconstrução, que deve começar primeiro pelos serviços públicos, como hospitais, farmácias, supermercados e abastecê-los… do ar.

Quanto tempo pode durar assim esse conceito de reciprocidade? Quanto, o bom coração?

O terramoto e posterior maremoto da madrugada de sábado passado interromperam de maneira dramática o sonho de milhares de chilenos e irromperam no processo de transição entre o governo de saída de Michelle Bachelet e o do liberal-conservador de Sebastián Piñera. O Chile aspirava, pelas mãos de Piñera, a escalar postos na economia mundial (hoje ocupa o 45º lugar è a renda per capita mais alta da América Latina).

Esse era o projecto do homem que venceu nas urnas a Concertação, coligação de esquerda que governou nos últimos 20 anos e que deixava a credibilidade internacional do Chile e os cofres do Estado na melhor posição para consegui-lo. Hoje, depois da devastação causada pelo cataclismo, Piñera teve de mudar o seu programa de governo, que dedicará quase totalmente à reconstrução do país.

Esse sonho, foi derrubado pela natureza.

O terramoto no Chile vai abalar as expectativas económicas para o país este ano, marcado pela mudança no governo e pela saída da nação de uma profunda recessão, segundo relatório do Goldman Sachs disponível no blog do The Wall Street Journal.

Após uma contracção de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009, o Banco Central esperava que o PIB chileno cresceria entre 4,5% e 5,5% este ano, mas as consequências do terramoto irão conter o crescimento nos dois primeiros trimestres, avalia o banco de investimentos.

“Em termos de actividade, o terramoto vai criar sérias rupturas por umas poucas semanas, que irão impactar negativamente o PIB durante o primeiro e segundo trimestres. Depois disso poderemos ver um salto extra na actividade ancorado nos esforços de reconstrução”, avaliou o economista Alberto Ramos, do Goldman.

Os esforços para reconstruir os danos à infra-estrutura do país irão provavelmente forçar a conservadora administração do presidente eleito, Sebastian Piñera, a aumentar os gastos fiscais. Fonte: Jornal on line Economia e negócios, que começa com estas palavras: Terramoto limitará PIB do Chile no início do novo governo.

É suficiente de momento. O país segue abalado por destruições dia após dia. Devemos enterrar os mortos, sarar os feridos e pensar no: e agora o quê? antes de avaliar a situação.

Comments

  1. ricardo says:

    É sempre, sempre um prazer ler os post’s do Raul Iturra.
    Um abraço solidário para todo o povo do Chile e para o Raul Iturra, que não tenho o prazer de conhecer. Espero um dia ter essa sorte.


  2. That is very significant article!


  3. Very well executed writing…


  4. I agree completely!

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