Que deus?

(Dedico este post à nossa simpática Maria Monteiro)

Apoiado nas leituras de Pepe Rodriguez, doutorado em psicologia pela universidade de Barcelona, e um dos mais categorizados conhecedores e especialistas em matéria de seitas e religiões, permitam-me que construa algumas das minhas opiniões àcerca da ideia de deus.

Deus é um conceito recente dentro da evolução do nosso processo cultural. Mas a força deste conceito tornou-se tão poderosa que permitiu às instituições religiosas, que governam a presunção da sua realidade, a mudança radical dos comportamentos individuais e colectivos das relações humanas.

Há mais de dois milhões de anos a espécie humana sobrevivia e morria sem deus, num planeta inóspito, no meio de uma total indiferença em relação ao Universo. Há noventa mil anos atrás, uma parte da humanidade parece ter começado a pensar na ideia de uma possível existência para além da morte. Há trinta mil anos deus ainda não existia. Por essa altura começou a esboçar-se a ideia de um deus, mas a sua imagem e características eram as de uma mulher todo-poderosa. Daí o dizer-se que deus nasceu mulher. Só depois do terceiro milénio a.C. começou a surgir a ideia de um deus criador/controlador, mais ou menos como é imaginado pela humanidade actual.

Segundo as religiões e as tão diversas concepções de deus que elas nos apresentam, a sua existência não admite discussão e não carece de provas. Existe porque existe, e tudo, absolutamente tudo, prova a sua existência. Deus é a origem e o fim de tudo. Ninguém tem de o provar. Se alguém tem de provar alguma coisa, são aqueles que dizem que ele não existe. Isto é, descarregam a responsabilidade probatória para os que defendem a inexistência de qualquer divindade. Ou seja, o absurdo, do ponto de vista lógico e racional.

Pode um deus eterno, princípio e fim de tudo, criador do Universo e do ser humano, permanecer oculto aos olhos do homem até há poucos milhares de anos atrás? Pode esse mesmo deus ter privado as suas criaturas, durante centenas de milhar ou mesmo milhões de anos, das normas fundamentais, dos ritos e da vaticana doutrina de hoje, indispensáveis para a “salvação eterna”?

As religiões publicam há milénios a natureza de deus, falam em seu nome, mas as formas, as características e as atribuições de cada deus são tão diversas e numerosas, os mandatos “divinos” que delas emanam são tão variados e contraditórios, que é extremamente difícil fazer-se uma ideia mais ou menos inteligível de deus.

O pensamento científico, mercê do método de aquisição de conhecimentos que o caracteriza, opõe-se abertamente ao pensamento religioso. A teoria cosmológica do “Big Bang”, aceite com elegante malícia pela igreja católica como dogma, permite-lhe dizer que esse é o momento da “Criação”, objecto da teologia e não da ciência. Mesmo não percebendo patavina do alcance das hipóteses científicas deste teor, aproveita o estribo do comboio.

A formação do Universo, segundo a teoria do “Big Bang” é avalizada por importantíssimos achados científicos. Este fenómeno ocorreu quando uma região que continha toda a massa do Universo a uma temperatura enormemente elevada, se expandiu após uma tremenda explosão, que fez diminuir a temperatura, a qual desceu até ao ponto de permitir a formação de protões e neutrões. Passados poucos minutos, a temperatura foi baixando até permitir a combinação de protões e neutrões para formar os núcleos atómicos.

Há muitas outras hipóteses e muitos modelos científicos. O astrofísico Igor Bogdanov diz que ainda não podemos saber o que sucedeu dez elevado a menos quarenta e três segundos antes do “Big Bang”, isto é, um tempo fantasticamente pequeno, que guarda a potência do Universo inteiro. Existiria deus nesse momento, dez elevado a menos quarenta e três segundos antes do “Big Bang”? Nunca podemos dizer que a melhor prova da existência de deus está onde existem limites físicos do conhecimento. O caminho do conhecimento, em princípio, não tem limites.

Uma visão teológica dos cosmos é muito mais fácil, muito mais pacífica, muito menos inquietante e muito mais gratificante do que uma visão científica. Mas ao pensar que a terra é uma quase imperceptível partícula de um Universo de tamanho inimaginável, não podemos deixar de sorrir, quando consideramos que deus, senhor de todo o universo, aqui veio, aqui sofreu, aqui morreu, aqui ressuscitou, para dar vida eterna a este punhado de bichos que diz serem seus filhos. Pior ainda é ter escolhido o Sr. Ratzinger, o Sr. Policarpo e o Sr. bispo de Leiria como seus representantes. Não pode haver mais ridículo antropocentrismo, egocentrismo e anticientismo.

Comments

  1. maria monteiro says:

    Obrigada, Adão – ao olhar a beleza do mundo sinto-me assim como uma humilde herdeira usufrutuária …

    seitas/religiões/clubes sociais lá vão “reclamando” a criação do universo mas …uma coisa é certa… aquilo que mais têm feito é a sua destruição

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