Futebol e Ditaduras

Anda muito na moda bater na selecção da Coreia do Norte porque o regime político que ali vigora é uma ditadura. Não concordo. Sendo certo que as vitórias na bola beneficiam por regra os governos, sejam democráticos ou não, confundir um país e um povo com o regime que suporta não faz o meu género. É a mesma lógica dos embargos: quem se lixa é sempre o mexilhão.

Por outro lado a Coreia do Norte não é o único país que vive em ditadura presente no campeonato do mundo. Por exemplo as Honduras vivem há  um ano as consequências de um golpe de estado, onde com a cumplicidade do velho dono do quintal se trava uma guerra diária entre a resistência e o governo, que alcançou o poder através de uma farsa a que chamaram eleições. Todos os dias os esquadrões da morte torturam e assassinam elementos da resistência, dizendo depois que se trata de lutas entre os traficantes de droga.

Sobre a selecção hondurenha escreve o meu amigo Fabricio Estrada

Nuestros jugadores buscan en su interior y se saben habitantes de una nación artificial, donde los premios, la imagen sobredimensionada y el nacionalismo decimonónico los separa de la historia de exclusión y represión vivida por la clase social de la cual provienen; saben que en las graderías no está apoyándolos el pueblo prisionero por la oligarquía, sino que quienes corean ¡viva Honduras! Son los que machacan sin piedad, los que lanzan a las hordas militares contra sus madres, contra sus hermanos, contra sus primos… los mismos gritones que bendicen el racismo y la vanidad.

Y sin embargo, lo que ellos convocan es el olvido histórico, aunque esta historia se esté gestando ahora mismo, aunque ésta se encuentre a 16,000 kilómetros de distancia.

La conexión espiritual con nuestra selección nacional de fútbol se ha roto. El espíritu que nos levanta en las adversidades es como una lupa que concentra la luz sobre un objetivo, y definitivamente, en esta ocasión, la luz del pueblo hondureño oprimido está concentrada en pasar a otra fase muy distinta de la que aspiran los Ferraris, los Callejas y los Atalas.

La buena vibra -que sí existe- se ha quedado adentro, muy adentro de esta Honduras revolucionaria.

Apesar de tudo isto, hoje vou torcer pelas Honduras contra a Espanha. Porque prefiro os pequenos aos grandes. Porque a selecção do estado espanhol é mimada demais para o meu gosto. E porque é das poucas coisas que posso fazer pelo povo hondurenho, mesmo sabendo que o campeonato que joga, o da resistência à ditadura, não se disputa na África do Sul.

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