O Xarajib de Silves


Santi Palacios

Uma visão das “Mil e Uma Noites”. foto Santi Palacios

“O palácio do Xarajibe, de Silves, foi, no Ocidente, uma autêntica visão das “Mil e uma Noites”. Cantaram-no os poetas com o mais alto requinte, adornaram-no os artistas com obras de estranho lavor, celebraram-no os historiadores, como encantadora residência principesca. Dessa harmonia chegam até nós os ecos apagados, num suave murmúrio…E o Xarajibe esplende, de novo, rebrilhando em vivos fulgores. Ficaram célebres as suas noites de festa e de música, de poesia e de dança, de encantamento sem par; as suas tardes suaves e mornas, de doces afagos, de reflexos violetas e de branda penumbra; os seus dias claros e ardentes de tragédia e de luta, em que os pátios e os mosaicos das salas se tingiram do sangue da vingança e do crime; as suas madrugadas de terrores, de suspeitas e de alucinações; as suas manhãs de iluminura, aureoladas pela esperança de novas e felizes alianças; as suas horas de fogo e de guerra, em que tudo se joga e tudo se ganha ou perde. Evocar o Xarajibe é evocar uma época, um estilo de vida _ a época e o estilo de vida dos luso-árabes.”

In “Atlântico” por José Garcia Domingues (DOMINGUES, 1997, pág. 155)

Khenifra

Palácio do Pacha . foto Bernard Rouget

Pouco sabemos hoje sobre este palácio outrora tão famoso e importante na Cidade de Silves, Al-Qassr Ax-Xarajibe, também conhecido como Palácio das Varandas. A mais antiga referência que existe sobre ele encontra-se na célebre poesia de saudação a Silves, escrita por Al-Mu’tamide ao seu amigo Ibn ‘Amar:

“Saúda, por mim, Abu Bakr,
os queridos lugares de Silves
e diz-me se deles a saudade
é tão grande quanto a minha.
Saúda o Palácio das Varandas,
da parte de quem nunca o esqueceu,
morada de leões e de gazelas
salas e sombras onde eu
doce refúgio encontrava
entre ancas opulentas
e tão estreitas cinturas.
Moças níveas e morenas
atravessavam-me a alma
como brancas espadas
como lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei,
lá no remanso do rio,
preso nos jogos do amor
com a da pulseira curva,
igual aos meandros da água,
enquanto o tempo passava…
ela me servia vinho:
o vinho do seu olhar,
às vezes o do seu copo,
e outras vezes o da boca.
Tangia-me o alaúde
e eis que eu estremecia
como se estivesse ouvindo
tendões de colos cortados.
Mas se retirava as vestes
grácil detalhe mostrando,
era ramo de salgueiro
que me abria o seu botão
para ostentar a flor.”

(ALVES, 1996, pág. 84-85)

castelo

O Castelo de Silves

Outra referência ao Xarajibe é a sua descrição feita por Almotaze, filho de Al-Mu’tamide, e wali (governador) de Silves, citado pelo historiador Ibn Cacane, que apesar de extremamente poética não deixa de dar uma ideia da grandiosidade desse edifício:

“Este palácio do Xarajibe chegara então ao mais alto cimo da magnificência e do esplendor. Era semelhante ao mais ínclito da cidade de Bagdade, no Iraque. Corriam nele os nobres cavalos nos seus átrios e brilhavam nos seus terraços os relâmpagos das coisas que mais se poderia desejar e ele oferecia. A fortuna, na verdade obediente, irradiava dele, desde aquele momento em que começava a viagem da manhã até ao fim da viagem da tarde, isto naqueles dias em que não eram afastados desse palácio os talismãs que constituíam a sua segurança. E não faltavam, sequer, ao palácio, cálices com as flores da juventude. Esta cidade tinha-o como local onde alegremente vivia a sua múltipla esperança e a mais alta das suas riquezas. Ao que se acrescentava a beleza do panorama, a fragância dos perfumes e das brisas e a disposição alegre e luxuriante dos jardins e dos tufos de arvoredo. Além do mais, era esta cidade quase rodeada pelos seus dois rios como por um colar, do mesmo modo e no mesmo local em que o homem costuma usar o cinturão” (DOMINGUES, 1997, pág. 157-158)

Xarajibe

Possíveis vestígios do Xarabije no recinto do Castelo

O poeta Ibn Alabana, também citado por Ibn Cacane, refere-se assim a Silves e ao seu Palácio:

Não sabes, Almotaze Bua,
Que encontrando-me no palácio real
Da cidade
me vi num jardim
Por onde o rio passava?
Notei porém que não era um rio
Em torno do qual
A relva criasse um verde tapete,
Mas sim uma espada cujo cinturão
Se fizera verde.

(DOMINGUES, 2006, pág. 13)

Xarajib

Recriação de dois arcos lobulados nos prováveis vestígios do Xarajib de Silves

O Xarajibe é também referenciado por Ibn Alabar, quando se refere à morte do sufi Ibn Qaci: “Assassinaram-no no mês de Jumada de 546, no Alcácer do Xarajibe, onde vivia.” (DOMINGUES, 1997, pág. 159)

 Garcia Domingues cita Abulfeda, historiador Árabe do século XIV, que escreveu: “É em Silves que existe o Palácio do Xarajibe”. (DOMINGUES, 2006, pág. 13)

Segundo Garcia Domingues o Xarajibe era de facto o Castelo de Silves, e nesse sentido poderia assim ser designado, mas o termo “palácio” vingou, “atendendo a que deu margem a autêntica vida palaciana e a que possuía ornamentos de vivenda” (DOMINGUES, 2006, pág. 14). A sua localização seria assim no próprio Castelo de Silves e não existem dados que permitam determinar como se estruturava, a não ser que apresentava pátios, terraços e varandas.

Sobre esta questão do castelo ou palácio refira-se que em Árabe a palavra mais comum para designar ambos os edifícios é Qasr, como é exemplo o palácio do Alhambra de Granada, cujo nome Árabe é “Qasr Al-Hamra” ou “Castelo Vermelho”.

Ainda segundo este autor, a origem do Xarajibe estaria na Chancelaria (mexuar) e no Conselho de Estado (diwan) que Bakr Ben Yahia instalou na cidade no século X, ao transferir a sua residência de Xantamarya Al-Gharb para Silves. Estas instalações seriam posteriormente modificadas e ampliadas pelos Beni Muzaine e pelos Abádidas. (DOMINGUES, 2006, pág. 16)

Muralhas de Silves

As muralhas de Silves vistas do lado Norte

Ahmed Tahiri referencia o Xarajibe ao período dos Primeiros Reinos de Taifas e ao governo dos Banu Muzayn em Silves, referindo que:

“No que se refere ao elementos urbanísticos da cidade de Silves, temos referência textual sobre a existência de um antigo palácio intramuros denominado nas fontes como al-Qasr. Foi o recinto palaciano onde residiram os Banu Muzayn antes da anexação do Algarve ao reino ‘abbadi de Sevilha. Seria o mesmo palácio taifa reputado entre os homens de letras de Al-Andalus pelo nome de Qasr al-Xarajib (“Palácio das Varandas”), submetido nessas datas a algumas obras de restauração ou de ampliação. A sua comparação com al-Zawra residência palaciana construída na cidade de al-Hira, no Iraque, é um recurso poético que demonstra a magnificência desta edificação. O palácio de al-Xarajib caracterizava-se pelas muitas dependências que tinha e dispunha também de um dihliz (vestíbulo) na sua entrada pela porta principal.” (TAHIRI, 2007, obra citada)

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Varandas Árabes ou muxarabyas na cidade do Cairo, numa foto antiga

Um esclarecimento sobre o termo Xarajibe e o seu significado, já que  tradução para “varandas” merece uma explicação à luz das características da arquitectura tradicional Árabe.

A varanda tal como a concebemos não faz parte dos elementos de composição da arquitectura Árabe, caracterizada por espaços fechados ao exterior, onde a privacidade tem um papel central. O prolongamento da casa para o exterior faz-se através de espaços descobertos como o pátio e a açoteia, integrados na orgânica da habitação e concebidos de forma a garantir a sua privacidade.

A varanda Árabe, se assim lhe podemos chamar, é um elemento da fachada, uma abertura de dimensões generosas, situada nos pisos superiores da habitação, por vezes balançada sobre a via pública, protegida por painéis de entrelaçado de madeira chamados “muxarabyas” termo derivado do verbo “shariba”, que significa “beber”, já que constituem o local onde se bebe o chá. São também chamados “rawshan”, termo que deu origem ao nome português “reixa”. A sua função é permitir que de dentro de casa se veja a rua, sem que da rua se veja o interior da casa.

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Muxarabya na Kasbah de Telouet em Marrocos. autor desconhecido

Às designações Muxarabia e Rawshan juntam-se outras como Takhrim, que significa “interdição”, no sentido de designar o local onde as mulheres olham, mas não são vistas, ou Xurjub, plural Xarajib, que significa “alto” ou “longo”, designando uma abertura generosa na fachada.

Vemos assim que o termo varanda em Árabe designa um vão, balançado ou não, protegido sempre por uma grelha, geralmente de madeira, mas também de ferro forjado, como é muito comum em Marrocos.

É à luz destes conceitos que a designação “Palácio das Varandas” deve ser entendida.

No Castelo de Silves

O Castelo de Silves

Referindo-se a “cenas históricas” passadas no Palácio do Xarajibe, Garcia Domingues descreve “a cena de terrores” descrita por Abdalhuaíde Almarracuchi no seu texto “História dos Almóadas”, relatando acontecimentos passados no tempo de Al-Mu’tamid e Ibn ‘Ammar:

“Uma noite, Ibne Ammar dorme no mesmo quarto que Almotamide. Altas horas, sonha que Almotamide se levanta contra ele e o quer matar. Ibne Ammar acorda e fica estupefacto com a nitidez do sonho. Torna a adormecer e tem o mesmo sonho, acordando, de novo, mais emocionado. Á terceira vez, deixa-se sugestionar pela força persuasiva do sonho e, aterrado, foge. De manhã, Almotamide dá pela falta dele. Procura-o e manda procurá-lo, por toda a parte, no palácio. Finalmente, Ibne Ammar é encontrado, escondido ao lado da porta de saída e tiritando de medo. Almotamide pergunta-lhe o que se passou.

Ibne Ammar explica-lho. Com todo o carinho, fraternal, Almotamide leva-o de novo para os seus aposentos, pretendendo convencê-lo de que fora tudo um sonho sem valor. Nessa altura, mal sabiam que o sonho se havia de cumprir e que Ibne Ammar seria morto por Almotamide, num acesso de ira deste.” (DOMINGUES, 2006, pág. 17)

Torres albarrãs Silves

Uma das torres albarrãs do Castelo de Silves

Ao Castelo de Silves e ao Palácio do Xarajibe encontram-se associadas duas lendas.

Uma delas, a das amendoeiras, sobejamente conhecida, relata a plantação de amendoeiras em redor do castelo por um rei mouro para agradar à sua rainha originária do Norte da Europa, que sem a neve a que estava acostumada vivia numa nostalgia intensa. As amendoeiras em flor deram à rainha a ilusão da paisagem nevada.

Outra é a lenda dos amuletos e talismãs, objectos que existiam no palácio, que garantiam a sua segurança e a glória de quem o habitasse. Foram de lá retirados, contribuindo para sua ruína, não se sabendo para onde foram e onde estarão. Seriam joias, estátuas, amuletos, “coisas de significação cabalística”? Poderão um dia voltar e trazer de novo a glória ao Xarajibe?

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Silves vista do lado Sul

De novo (e sempre) Garcia Domingues:

“Quem hoje, do Monte da Joia, em frente da cidade, contempla o castelo de Silves, com as suas torres altas e muralhas vermelhas, as suas ameias, adarves e seteiras, em recortes heráldicos, os seus terraços e varandins que descansam sobre torres ligadas aos panos dos muros por arcos gigantescos, não duvida que, nos seus interiores, possa ter havido elegantes residências principescas, capazes de entusiasmar e de dar vida colorida à existência juvenil dum príncipe poeta luso-árabe do século XI, com o refinamento de espírito dum humanista do renascimento e a elevação sentimental dum romântico de nobre quilate.

Como não duvidará que tenha sido no forte alcácer em que viveu o grande Mahdi dos Múridas que, depois de ter prometido a salvação universal pelo Islão, do Cabo do Algarve aos campos de Almeria e de Sevilha, aí pereceu num lago de púrpura, por haver firmado solene e firme pacto de aliança com o rei cristão, Ibne Errick, legando, no entanto, à posteridade, o maior tratado de filosofia e de teologia mística e ascética muçulmanas, concebido e redigido por homens do Garbe, tão notável que Ibne Arabi, o mais profundo e subtil pensador religioso do Islamismo o estudaria em Tunes, anos passados, como uma das suas fontes mais apreciadas.” (DOMINGUES, 2006, pág. 18-19)

Torre albarrã Silves

Silves

Xarajib é também o nome da revista do Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, publicação que divulga textos do maior interesse da autoria dos mais conceituados arabistas portugueses.

Bibliografia:

ALVES, Adalberto. “Al-Mu’tamid Poeta do Destino”. Assírio & Alvim, Lisboa, 1996

DOMINGUES, José Garcia. “O Gharb Al-Andalus”. Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, Faro, 2011

DOMINGUES, José Garcia. “O Xarajibe de Silves na Poesia, na Arte e na História”. Publicado originalmente na revista “Atlântico” nº 4, 1947. Revista Xarajib nº 5. Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves. Silves 2006

DOMINGUES, José Garcia. “Portugal e o Al-Andalus” . Hugin, Lisboa, 1997

TAHIRI, Ahmed. “Rif Al-Magrib e Al-Andalus”. Fundación El Legado Andalusi. Granada, 2007

Comments

  1. maravilhoso!!

  2. ahmed says:

    grande…

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