os amigos

mãos solidárias e recíprocas, símbolo de que dá e nada solicita

Amigo é um substantivo muito usado nas conversas do dia-a-dia. Apesar de estar definidos en todos os dicionários, acaba por ter uma séria de significados. O que me parece menos meigo, é quando a palavra é usada em detrimento de outras pessoas: oiça meu amigo, é melhor ir embora e deixar-nos em paz. Ou, se o substantivo é usado como apelativo: hei amigo, ande cá…. Ou, mais grave ainda, se referimos alguém de importância na vida social, na sua ausência: esse deputado é muito meu amigo, confie em mim… Ou o candidato a Presidente da República, o Primeiro-ministro, o nosso chefe, são incluídos na conversa como pessoas da nossa intimidade. Durante uma época da minha vida, fui enviado ao Chile pelo meu Catedrático da Universidade inglesa onde estudava e ensinava, houve um alçamento militar e o nosso Presidente foi assassinado, como tenho referido em outros ensaios de este sítio de debate; o meu Chefe, sabia o que era um campo de concentração, tinha passado quatro anos em Auschwitchz, (Auschwitz-Birkenau é o nome de um grupo de campos de concentração localizados no sul da Polónia, símbolos do Holocausto perpetrado pelo nazismo. A partir de 1940 o governo alemão comandado por Adolf Hitler construiu vários campos de concentração e um campo de extermínio nesta área, então na Polónia ocupada. Houve três campos principais e trinta e nove campos auxiliares). Bem sabia Sir Jack Goody o que eu

padecia e em dois meses, pela intervenção mobilizada por ele da Cruz Vermelha, de Amnistia Internacional e do Governo Britânico, em dois meses soube retirar-me do sofrimento, o pior de todos, a morte do Presidente e a implantação da ditadura que matou imensas pessoas e exilou outros tantos. História por mim já contada. Jack era uma pessoas admirável, mas não posso dizer ser o meu amigo: ele orientava-me, mandava em mim, as vezes com esse humor escocês, atirava livros sobre a minha cabeça quando precisávamos falar com ele. Não podia ser amigo de uma entidade que me salvara a vida, dera-me dois anos de liberdade para investigar e escrever livros e assim recuperar da minha tragédia, se um dia era A e no dia seguinte era Z. Confesso que não era assim com todos: tinha o seu grupo preferido e eu não era parte dele: o Jack era de extrema-esquerda, eu, um socialista materialista histórico. Como Allende e Marx. Eis a sua curiosidade de saber como era o socialismo livremente eleito num país sereno e calmo, até o aparecimento da ditadura que matava e justificava os seus crimes dizendo que no Chile éramos todos parentes, pelo que era necessário punir às ovelhas descarriladas. Nós. Fez o experimento comigo, arrependeu-se depois, mas nunca mais comi com ele, a pior ofensa para quem quer solicitar, sem palavras, uma de perdão. Nunca a proferi. Continuamos a trabalhar juntos, eu precisava e vice-versa.

Há também os amigos por conveniência, esses que, enquanto estamos bons, sãos e no poder, é-lhes conveniente andar perto de nós para obter graus, licenças, escrever livros, ausentar-se em época de trabalho e outras invenções que nem lembrar queria. A desculpa é sempre a mesma: estamos muito ocupados, estou só e preciso procurar companhia e outros galimatias nas que eu, felizmente, nunca caio. É assim que ficamos sós, por experimentar ser justos e iguais com todos. São, como se diz en Castelhano, os amigos de la onça ou peso da décima sexta parte do arrátel ou da duodécima parte da libra das farmácias. Em Castelhano, são os amigos de conveniência: moneda de oro de la mitad del peso y valor que la onza. Estamos cheios de esse tipo de pessoas, que se lembram de nós no minuto do nosso poder, o por temos a uma morte súbita, mas se esta não acontece, as novas obrigações assumidas são a desculpa para mudar de comportamento connosco. Farto estou desses comportamentos, tenho-me depreendido de uma inúmero grupo de seres humanos que, por pensar que já não somos úteis, fogem de nós. São, diria eu, os amigotes.

Os amigos são os que não nos conhecem e, no entanto se interessam por nós. Os que nos acompanham sem pedir nada em troca.  Eis porque prefiro esta definição: esse que vem do latim, latim amicus: adj. s. m.

 que ou quem sente amizade por ou está ligado por uma afeição recíproca a. = companheiro ≠ inimigo. Que ou quem está em boas relações com outrem. ≠ inimigo, que ou quem se interessa por algo ou é defensor de algo (ex.: amigo dos animais).

Como os de Aventar, os que, sem nunca me terem visto nem em fotos, são capazes de enviar mensagens de ânimo para arrebitar-nos.

Agradeço essas palavras e envio um abraço a todos de agradecimento, por serem pessoas que nada pedem e tudo dão.

Raúl Iturra

28 de Setembro de 2010.

Comments


  1. Bonita reflexão e tão verdadeira ….

  2. júlia says:

    Caro Amigo:
    O seu post enriqueceu-me, pois retratou com enorme sensibilidade e lúcidez, uma das palavras mais ricas, de conteúdo, mas muito mal tratada.
    Vou transcrever uma poesia de Camilo Castelo Branco, que será a cereja em cima do “BOLO”:

    AMIGOS
    Amigos,cento e dez, ou talvez mais
    Eu já contei.Vaidades que sentia:
    Supus que sobre a terra não havia
    Mais ditoso mortal entre os mortais!

    Amigos,cento e dez, tão serviçais
    Tão zelosos das leis da cortesia,
    Que já farto de os ver me escapulia
    ÀS suas curvaturas verterbrais.

    Um dia adoeci profundamente: Ceguei.
    Dos cento e dez houve um somente
    Que nã desfez os laços quase rotos.

    Até amanhã! Até sempre!
    Júlia Príncipe.

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