A ex-Baixa de Lisboa


Já foi “a Baixa”. Local de passeio, de compras para uns e de olhares sonhadores para outros, que debruçados sobre montras de tecidos, bolos, jóias ou bibelots, esperavam por melhores dias. Foi o motivo de orgulho português, de uma modernidade setecentista que adequou Lisboa à sua condição de capital imperial. Muitos aqui pacificamente flanaram, enquanto outros, do alto dos seus cavalos, por ela passearam como conquistadores e dela logo saíram à pressa, como derrotados e efémeros invasores. O próprio arquitecto Speer, à cata de ideias para as faraónicas construções destinadas a um muito provisório Reich, por ela vagueou, confessando a sua admiração pela pureza das linhas, pela luz, grandeza da perspectiva e seca modéstia nos ornatos. Aqui deparou com essa sublime pobreza do supérfluo, confirmando a grandeza. A Baixa, foi o centro da atenção daquele Poder que tinha a perfeita consciência do cenário oferecido aos lisboetas e que impressionava quem numa galeota dourada – Eduardo VII, o poderoso kaiser Guilherme ou o president Loubet – desembarcava em visita oficial.

Hoje está decrépita, suja, com as fachadas adulteradas por alumínios, vidros espelhados, janelas escancaradas a gritar de protesto pelo abandono. A Baixa da reconstrução, assemelha-se a uma réplica melhorada de uns três ou quatro quarteirões da Leninegrado/S. Petersburgo do pós-guerra.

Este pequeno prédio, consiste num ínfimo exemplo daquilo que se passa na área entre o Tejo/Marquês e o Cais Sodré/Sta. Apolónia. Águas furtadas a tombar para um lado, de tão podres que estão e varandas belíssimas a ameaçar ruína, devido à corrosão da ferrugem. Prédios e prédios destelhados, chaminés selvagens em betonada construção ás três pancadas, janelas a bater aos ventos, antenas de televisão desactivadas há mais de uma década e um sem número de malfeitorias às quais a CML tem fechado os olhos. Prefere aborrecer e afligir ao máximo, quem se interessa pela cuidadosa reabilitação.

Este belo e modesto exemplar, situa-se no Largo de Sto. António da Sé. Quem por lá passe, mal se apercebe do autêntico desastre que todo o local significa. Por detrás das ainda imponentes fachadas, esconde-se uma imprevista desordem de soalhos carcomidos, alvenarias caídas, escadas com os lances de azulejos vandalizados ou deles expoliados para vendas em feira bem próxima. Centos e centos de metros quadrados por edifício, onde o silêncio impera. Vazios, sem destino. Bastará um isqueiro.

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