Solidariedade

a interacção entre seres humanos, é dar a mão a quem precissa ajuda

Foi com surpresa e com mágoa que recebi hoje uma mensagem de um suposto camarada nas lides da escrita, a advertir-me que o texto escrito por mim na Sexta 22 de Outubro, ainda em rascunho, não seria publicado mais depressa pelo facto de eu perguntar para quando estava prevista a edição. Era só uma questão para me orientar. A resposta foi dura. Aliás, esta pessoa que considero da minha intimidade por me ter salvado três vezes de postes mal escritos, o que sempre agradeci e continuo a agradecer, comentava que, caso dependesse dela, não publicaria o artigo porque estava em inglês e a língua deste país é luso português. Senti tristeza: tinha-me sido solicitado pelo manda chuvas, um Senhor que sabe ser bem-educado, que usasse as minhas habilidades em línguas não lusas, como desafio para a leitura de um maior número de pessoas. Como colaborador que me estimo, escrevi em Castelhano, língua mal denominada de Espanhol, em Inglês e em Francês. As leituras foram incrementadas.

A minha mágoa causada pelo colega de escrita é ainda uma ferida. Não vou responder, não gosto de desencontros. Mas lembrei-me deste texto que simboliza a colaboração espontânea e silenciosa entre pessoas que raramente hostilizam outros, por sim ou por não. Lembrei-me do conceito de solidariedade, essa silenciosa colaboração com outro, essa interacção social simpática e amistosa, sobre a qual já escrevi neste sítio de debate.

Este conceito não foi criado por mim. Em 1883, Émile Durkheim definia a solidariedade como o apoio e a coordenação de pessoas entre si. Nenhuma sociedade seria capaz de funcionar se não houvesse apoio mútuo. Bem sabia Durkheim, como socialista que era, que essa solidariedade era uma ilusão. Ideologia Socialista Democrata aprendida das suas leituras da obra de Karl Marx e de trabalhar com outro

socialista, bem mais avançado do que ele, o seu sobrinho Marcel Mauss que desenvolveu o conceito de solidariedade para o de reciprocidade (dar, aceitar e, a seguir, devolver). Durkheim apoiava a igualdade e lutava pela abolição da propriedade privada, como refiro no meu livro, de 2008: O Presente, essa grande mentira social. A mais-valia na reciprocidade, Afrontamento, Porto. Porquê acabar com a propriedade privada? Porque dividia a sociedade em classes: os que tinham bens e os que nada tinham. Estes, trabalhavam para os primeiros por um salário que nem permitia alimentar a família.

O Grande Mestre que lutou a favor dos que nada tinham, escreveu o livro ( 1883) La division du travail social. Étude sur l’organization des sociétés supérieures, editado por Félix Alcan, Paris, utilizando, a título exemplificativo, como sociedade superior, a própria forma de organização da vida em França, a sua Nação. Não é pois, desprezar os já conhecidos povos com uma outra forma de organizar a vida, denominados Nativos, povos que ele estudou e analisou, comparando as suas formas de colaboração com a dos franceses e outros povos europeus. A sua conclusão foi simples: há dos tipos de solidariedade, a organizada pelo Direito e a espontânea, esta última foi designada pelo autor de forma mecânica ou de apoio mútuo espontâneo. A mais estudada por Durkeim, foi a solidariedade orgânica, por outras palavras, a organizada pelo Direito e pela Economia. O texto é um debate com Adam Smith, como sabemos, acerca do seu livro de 1776: Um inquérito sobre as causas e motivos da riqueza das nações.

O debate era importante. Adam Smith defendia formas liberais do comércio, Durkheim, de que o comércio devia ser regulamentado pelo Direito e não pela procura de mercadorias e a sua oferta. Sabido é que Smith definia o trabalho como uma proclividade do ser humano, enquanto Durkheim definia-o como o resultado da aplicação do proletariado que fabricava bens de propriedade dos industriais que possuíam meios de produção.

Durkheim incriminava Smith nessa sua ideia de investir onde e como o dono do capital queria, definindo, conforme os seus interesses, qual era a indústria, manufactura ou comércio que fosse lucrativamente melhor. O nosso socialista Durkheim, que leu Marx com avidez, pensou que o texto de Smith, advogava
pela fiscalização do que devia ser produzido e pela intervenção do Estado no comércio entre as pessoas. O socialismo de Durkheim levou-o a pensar se o que estudava era o socialismo ou as suas ideias, pelo que devia denominar a sua ciência de estudo do socialismo, mas reparou, atempadamente, na existência de um grupo político designado socialista e decidiu que as suas descobertas, com enfoque na sociedade e a sua interacção, devia ser denominada Sociologia ou o estudo científico das sociedades humanas e dos factos sociais.

Porquê científico e não apenas uma análise do que acontecia no mundo ou factos sociais? Porque não eram apenas factos. Na sua análise a hipótese abria o que ia estudar, recorrendo à lógica para provar os factos, comparando-os, simultaneamente, com outros diferentes. Dessa comparação nascia uma nova ideia que ele investigava de forma estatística (número de ocorrências), normalmente com resultados diferentes aos requeridos pelas pessoas dentro da vida em interacção.

A sua melhor prova era esse seu afã de usar o método comparativo dos afazeres de grupos de estratificação diferente numa mesma nação, tomando a vantagem de existir na sua sociedade pobres e ricos, com formas de agir diferentes. Mas, o Mestre fundador da Sociologia, estava insatisfeito com esse ponto de comparação (objecto de estudo). Partindo, assim, para a análise do comportamento de grupos sociais de outros lugares do mundo, os, nesse tempo, denominados nativos. Contido, nunca foi ao deserto da Austrália para estudar as formas de ser dos Arunta ou Aranda (etnia classificada primitiva pelos australianos e por outros). Porquê primitiva? Porque as suas formas de vida passavam pela caça sem recurso a instrumentos modernos (como a espingarda), apenas perseguiam as avestruzes que depois comiam, ou com lanças, caçavam javalis, o seu melhor alimento. Os Aranda não criavam os animais em manadas, pelo que não poupavam esse correr de um sítio para outro com vista à obtenção da sua alimentação

Entre os Aranda (Aruntas na sua língua), existia o conceito de solidariedade, que foi aprendido por um colaborador de Mauss através das palavras de um sábio maori, mencionado no texto referido. Conceito  que passou a ser, com a colaboração de Marcel Mauss, o de reciprocidade.
A minha dúvida sobre se era conceito ou sentimento, apareceu ao analisar as palavras de Rainita Raini Puri, quem nos explica que os presentes, uma vez oferecidos, não podem ser devolvidos. Toda a devolução é uma ofensa e uma deslealdade para o oferente. No entanto, nasce uma obrigação que é a de oferecer um outro bem. A minha dúvida, não exprimida no meu livro mencionado, nasce das análises de Malinowski sobre o Kula ou o anel de comércio permanente entre os Massim da Kiriwina da Melanésia, quando reparei quer no autor citado quer nos apontamentos de Jerry Leach, que de Antropólogo passou a ser Embaixador dos EUA na Grã-bretanha, ao não terminar a sua tese acabou por oferecê-los juntamente com Diários de Campo ao nosso Departamento, onde são guardados, podendo ser consultados com licença da Catedrática actual, uma antiga colega minha, Dame Caroline Humphreys. Foi aí que aprendi que a reciprocidade era a entrega de bens em troca de mulheres para casar. Se no nosso Departamento havia essa reciprocidade, ainda mais entre os Arunta e os Kiriwina. Nós trocávamos visitas e textos, entre os Aranda, comida e mulheres para a sua reprodução.

À laia de conclusão, queria acrescentar o que não me lembrara de analisar no meu livro: a reciprocidade parece não o entrar dentro dos factos analisados por Durkheim, mas sim entre os rituais estudados por Mauss, especialmente no livro editado por ele e escrito por um discípulo morto na primeira Grande Guerra do Século XX, Robert Hertz, intitulado: Le péché et l’expátion dans les societés primitives, Gradhiva, Paris, 1988. Se houvesse uma tradução para português seria: Pecado e Expiação.
Esta ideia bebida dos textos de Durkheim, desenvolvia-a na minha própria análise sobre o pecado e a reciprocidade.

Durkheim esboça uma ideia da solidariedade como sentimento no seu texto de 1912: Les formes élémentaires de la vie religieuse, Félix Alkan, Paris.
A solidariedade pode ser utilizada para estudar uma sociedade, um facto de apoio, mas também é uma emoção passível de ser analisada para entendermos os grupos que estudamos. Solidariedade e reciprocidade são parte do comércio, mas são, simultaneamente, essenciais para a reprodução social, donde, factos sociais que com prazer analisamos para entender esse eterno deambular dos Aranda, os Massim, os Kiriwina e nós próprios. Não há prazer maior entre nós, que sermos acolhidos pelos outros e recebermos presentes, como acabam por dizer Durkheim em 1912 e Mauss em 1922, analisados  noutro texto, neste debate permanente que dá prazer, intitulado Reciprocidade.

Não canso mais o leitor. Acrescento só uma dica do que nunca se diz ou sabe (do tio e sobrinho) da dupla Durkheim Mauss, que criou conceitos semelhantes quanto a factos e emotividade, um derivado do outro: reciprocidade de solidariedade.

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