Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. A independência de Angola


continuação daqui

Em meados do mês de Agosto de 1976, estava eu na Suécia a acompanhar Olof Palme e em colaboração com a campanha eleitoral do Partido Social-Democrata daquele país, quando recebi uma chamada urgente de Mário Soares com instruções para ir imediatamente para Luanda, onde me deveria juntar ao presidente do Partido António Macedo e a Manuel Tito de Morais, ainda formalmente responsável pelas relações internacionais do PS. Portugal reconhecera a República Popular de Angola a 22 de Fevereiro de 1976, mas as relações diplomáticas entre os governos dos dois países seriam suspensas dois meses depois, em Maio, pelo Governo Angolano. Este, depois de não respeitar os acordos que tinha assinado em Alvor, consideraria serem as atitudes do VI Governo Provisório inamistosas. Esta atitude derivava essencialmente da enorme e compreensível campanha na comunicação social contra Angola, naquele difícil momento das relações entre os dois países, quando centenas de milhares de portugueses regressados de Angola acusavam o MPLA de responsabilidades pelo seu dramático êxodo.
Entretanto, apenas dois meses após o corte de relações com Portugal, Agostinho Neto compreenderia que tal acto acabaria por atirar ainda mais o seu país para uma quase total dependência da União Soviética. Para pôr cobro a esta situação enviaria então o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Paulo Jorge, a Lisboa, em princípios do mês, a fim de sensibilizar os socialistas para alterarem a situação de impasse a que se tinha chegado. Portugal tinha que ter consciência dos seus interesses e o presidente Agostinho Neto não queria, ao que tudo levava a crer, ficar eternamente prisioneiro dos soviéticos.
Quando cheguei a Luanda, no dia 28, reinava grande confusão naquele país e tudo faltava. Eu chegara num voo indevidamente anunciado como proveniente de Estocolmo via Roma, sem qualquer «visto» de entrada em Angola. Como vestia blue jeans
não seria detectado pelo comité de recepção do MPLA e tive que explicar ao funcionário as razões por que estava ali sem «visto» de entrada. Pedi que avisassem a Presidência da República mas, entretanto, pensei que seria mais rápido apanhar um táxi.
Foi então que pude constatar que nem táxis havia em Luanda. Quando cheguei ao hotel Panorama lá encontraria o António Macedo e o Manuel Tito de Morais. Creio que todos os outros «hóspedes» naquele então magnífico hotel eram russos e de outros países
de Leste. António Macedo não tinha funções políticas específicas no PS e a sua presidência era meramente honorífica, mas tinha sido advogado de Agostinho Neto nos anos 60 e tinha ajudado a sua família em Portugal. E como pude constatar a sua escolha para chefiar esta primeira missão histórica a Angola não poderia ter sido mais acertada.
O Presidente da República Popular de Angola tinha por ele tanta consideração, que só isso bastaria para facilitar a minha tarefa de garantir que de Luanda sairia um comunicado conjunto honroso para o País e para o Partido Socialista. Manuel Tito de Morais era efectivamente o secretário Internacional do PS, mas desde que eu assumira funções no Departamento Internacional deixara de participar na maior parte dos eventos internacionais do partido. Mas, também significativamente, os angolanos tinham por ele um grande respeito e admiração até porque, no início dos anos 60, vivera em Angola e estivera ligado ao lançamento da luta do MPLA. Porém, o meu papel ali, que em condições normais seria desnecessário, visava garantir que os nossos interesses não seriam ultrapassados pela natural emotividade que a presença dos meus camaradas na Angola independente poderia significar.

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